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21 setembro 2009

No Messanger às 2 da manhã

Miguel diz:
ah, já vi o arena
rende

jose diz:
tá bom

Miguel diz:
com o rapace, é a coisa mais entusiasmante que vi do cinema portugues dos putos

jose diz:
sim, eu geralmente tb fico muito lixado com as curtas metragens

Miguel diz:
sabes que para mim é um filme muito especial: a minha escola preparatória é por trás dos prédios que ele fica a olhar no fim do filme
aquele cenário é o da minha infância

jose diz:
grande cena
aconteceu-me o mesmo com a ultima curta do joão nicolau, "cançao de amor e saude"
o centro comercial onde ela se passa marcou a minha infancia

Miguel diz:
é uma sensação estranha
estamos tão habituados a ver sitios exóticos como Paris ou Nova Iorque no cinema que é esquisito ver sitios que conhecemos
digo eu

jose diz:
pois é..

06 julho 2009

Portugal 2009


1) Maria João Pires quer deixar de ser portuguesa. Motivo: queria fazer um projecto de interesse cultural e público na sua terra e apoios nem vê-los. Um dos membros de um famoso grupo de meninos reguilas (de direita, claro está) já disse que a pianista se podia ter prostituído para ganhar os fundos necessários. Logicamente, o argumento nem merece resposta. Mas o meu amigo Tiago Tejo, lusitano convicto e alguém cuja pátria é a lingua e a cultura portuguesa, num conjunto de emails culturais que manda de vez em quando, criticou assim:


Há quem ache isto lindo, quase poético. Eu não. É certo que pode não ser tão bem tratada quanto o merece, mas é dum país que se está a falar. Não é do espelho que não reflecte aquilo que queremos ver nele. Um país é um misto de pais e filhos e de nenhum, por pior que possa ser, se deixa, verdadeiramente, de ser filho ou pai algum dia.

Eu discordo. Um país, mais do que um conjunto de país e filhos (que também é indiscutivelmente) é toda uma série de factores que vemos e vivemos dia a dia. É o preço da gasolina e as empresas que o combinam entre si; é as escolas com más condições e os canais de televisão boçalizantes; é as empresas que fecham e os centros de emprego cheios; é o salário mínimo de 450 euros e a percentagem do pagamento que se deixa no banco e no supermercado; é uma pessoa querer-se entreter e viver em desertos; é corruptos nortenhos como exemplo de bom dirigismo desportivo e off-shores de conselheiros de Estados; é o mar de cunhas com que vemos antigos conhecidos subirem na vida; é uma bela bandeira e alguns excelentes escritores que pouco alteram o sufoco geral. Por mim, Maria João Pires fez bem, como o fazem os óptimos cientistas que desbandam regularmente por só se depararem com governantes preocupados com o défice. Agora numa coisa tem o Tejo tem razão: podemos largar o país, mas estou convencido que quem for levará sempre o país atrás. Este tem uma maneira insidiosa de perdurar, como o fedor das sardinhas assadas nas pontas dos dedos.


2) Miguel Sousa Tavares também quer ir viver para o Brasil. E o caso não poderia ser mais diferente: goste-se ou não de Maria João Pires, é internacionalmente reconhecida e, ao que me dizem, talentosa no que faz. Já Sousa Tavares é um daqueles livres pensadores de barriga cheia e casa na Lapa, suposto farol de intelligentsia e seriedade (menos no desporto, claro está) conhecedor do paraíso que isto podia ser se apenas todos o seguíssemos em direcção ao pôr-do-sol. Uma espécie de Pacheco Pereira portista, por assim dizer, igual a muitas luminárias que andam por aí. Não sei se serei o único, mas se o venerando comentador precisar de ajuda financeira para o bilhete estou disposto a contribuir com cem euros.

21 março 2008

A gripe (com Woody Allen pelo meio)



Quinta-feira de ramos, 20 de Março de 2008. Acordo com a garganta inflamada e com quantidades copiosas de expectoração a quererem sair. Confirma-se o cenário que antevi na noite de quarta-feira, devido a uma secura na garganta maior do que a que habitualmente fustiga qualquer fumador ao fim da noite.

Visto-me e, sem querer quebrar compromissos previamente assumidos devido à doença, dirijo-me ao Campo Grande. Dizem-me que o almoço foi mudado para o Colombo depois de quarenta minutos à espera, tentando apertar as golas do casaco para que o vento forte e frio não piore a gripe. Tento começar a ler A Balada da Praia dos Cães numa daquelas edições do Público, baratuchas e descartáveis, mas um nariz progressivamente mais entupido e algumas dores no corpo impedem-me de me concentrar. Finalmente, apanho o 50 em frente à churrasqueira e vou até ao Colombo. Aí aproveito para tirar uma fotografia, em plano de conjunto minado pela minha falta de prática com a câmara do telemóvel, ao Estádio da Luz, futuramente disponível no meu hi5, antes de ir almoçar um Chao-Min de legumes no restaurante de comida rápida chinesa que há no referido centro comercial.

Ao dirigir-me para a mesa, vejo alguns dos responsáveis do meu anterior trabalho, editores de uma secção jornalística. Por muito que nada tenha contra eles especificamente, com quem pouco trabalhei, acabo por lhes atribuir algum do rancor que sinto por um meio que faz não do talento ou da vontade mas da capacidade anímica e financeira para aguentar a exploração inicial o principal factor de continuidade na profissão. Passo o resto do almoço a matutar nisto e, à medida que as dores no corpo aumentam, decido-me a passar pela farmácia do centro para ir buscar medicamentos.

Quando saio do centro, fumo um cigarro – quando estou doente, reduzo o numero de cigarros consumidos, mas nunca paro completamente - e meto no bucho gotas Nasex (as únicas que me desentopem o nariz), um comprimido Mucosolvan (o pior nome de medicamento que conheço) e uma drageia Mebocaína (não fazem grande coisa mas têm um sabor agradável). A minha namorada, antes de embarcar numas merecidas férias de Páscoa na fronteira entre o Alentejo e o Algarve, deixa-me na paragem do autocarro, onde apanho o 767 para o Campo Grande. Ligo ao meu chefe a perguntar se, por motivos de doença, poderia não ir trabalhar hoje e compensar as horas por fazer noutro dia. O meu chefe aceita e, de volta ao Campo Grande, apanho a camioneta 331 de volta a Loures onde, na principal avenida, apanho a 301 que me deixa mesmo à porta de casa.

Em casa, jogo este jogo, coisa que tenho feito uma vez por dia desde que o descobri, janto e saco, ao calhas como costumo fazer, uma cassete do monte. Sai-me a numero 48 onde, entremeadas por Edward Scissorhands (1992), estão duas películas de Woody Allen: Crimes and Misdemeanours (1989) e Husbands and Wives (1992).

Vejo o primeiro e, como das outras duas ou três vezes que o vi, assombro-me com a obra-prima. Escuro, em constantes tons de sépia ou em chiaroscuro (magnifica direcção de fotografia não me lembro de quem, se alguém souber diga), é um pujante filme sobre a vida na ausência de Deus e sobre uma das questões que mais assombram a humanidade desde os seus primórdios: porque acontecem coisas boas a gente má e vice-versa. De seguida, vejo o segundo que, igualmente como das outras visões que lhe dei, me parece ser um dos mais irritantes filmes de Allen. Tão neurótico em termos formais quanto as suas personagens, segue um esquema de falso documentário, e a câmara à mão, depois de uma segunda dose de medicamentos, parece-me enjoativa e equívoca do ponto de vista estético. Há o suposto lado biográfico, apregoado devido à turbulenta separação de Allen e Mia Farrow que ocorreria pouco tempo depois da sua feitura, mas nem isso me faz pensar que não seja um dos Allens mais fracos que vi.

Paro a meio, e mudo o canal da televisão para a Fox Life, cujas séries, com honrosas excepções (a demência de Desperate Housewives e a intriga medico-policial de Crossing Jordan) oferece dramalhões capazes de fazer as telenovelas da TVI parecerem sóbrias. Vejo o final de um episódio da segunda série referida e preparo-me para me deitar. Quando o faço, começa Everwood, um desses dramalhões, cujas vozes e a música têm, nos últimos tempos, tido o condão de me fazer adormecer tranquilamente. Antes, penso no fim-de-semana e em como, quando sair do trabalho, a única coisa de medianamente interessante para fazer será assistir à final da Taça da Liga, onde me parece que o Lumiarense Futebol Clube ganhará, apesar do Setúbal ter sido a melhor equipa da prova. E penso em como, no dia seguinte, já depois de terminada a visão de Husbands and Wives, tenho de escrever um texto sobre este dia no blogue, quanto mais não seja para lhe tentar dar um sentido.

O texto é este. O sentido ainda não apareceu.