04 novembro 2007

Quais salvar?

Porra! Da carrada de filmes que tenho em casa tenho de escolher cinco que salvaria em caso de incêndio ou inundação? Bem, assim de repente, lembro-me destes:

Il Gattopardo
Aurora
In a Lonely Place
Os Amantes Crucificados
Close-Up

E lembro-me de tantos mais. São quase todos importantes para mim, e toda a gente me diz que futuramente, terei de ter um escritório para os albergar a todos. Amanhã, decerto que a escolha seria algo diferente.

Como de costumes, deixo apenas o repto à magnífica Sandra e à Diana.

25 outubro 2007

Requiem


Nos últimos dias, dois blogues importantes fecharam as portas. O Nuno e o Francisco puseram fim, respectivamente, ao Chroniques de Lisbonne e ao Pasmos Filtrados.

A saída do Nuno não me choca. Tenho cada vez mais vontade de o deixar de ler e de passar antes a ver os filmes dele – coisa que ainda não tive oportunidade de fazer. E sei que, sempre que a Cinemateca exibir um clássico imperdível ou, sobretudo, um filme japonês, ele lá estará, no centro da terceira fila.

O Francisco nunca vi pessoalmente e nem sempre li os seus textos, que me pareciam amiúde demasiado extensos. Contudo, quando li (e foram muitas vezes), algo me saltou à vista: goste-se ou não, tinha o estilo dele e não pedia desculpa por o ter. Foi, durante muito tempo, uma voz própria na blogoesfera e tem que se lhe dar todo o mérito por isso.

O que motiva este post não é só o requiem por dois blogues. O ponto principal está no seguinte comentário da Cláudia ao post de despedida do Francisco:

“É notória a falta de energia que se observa nos blogs hoje em dia, poucas visitas, poucos ou nenhuns comentários, muitos (demasiados) fechar de portas...”

Têm entrado vozes interessantes (o Ursdens, o Luís Alves, o José Quintela Soares, etc.), é certo, mas pouco para o que uma blogoesfera cinéfila portuguesa poderia ser. E o pior é a forma como as coisas mudaram: eu e o Hugo temos menos tempo do que antigamente para escrever; o Daniel lá vai publicando, mas nem sempre textos cinéfilos, tendo muitos (embora nunca demasiados) interlúdios musicais e benfiquistas. O que tem, em larga medida, mantido o nível da blogoesfera cinéfila nacional é a centrifugação cinéfila da Cláudia, a bulimia fílmica da Helena e as diversas granadas do Tiago. De resto, andamos todos um pouco zombies.

Eu, por mim, já pouco me importo. Dificilmente a minha vida profissional passará pelo cinema e tentar ser jornalista já é trabalho de sobra. Talvez o principal problema seja que a Arte, a Cultura e o discurso crítico são mercados de trabalho muito complicados e a celulóide é um pouco indigesta. Mas custa-me perceber que o sonho da blogoesfera cinéfila ser um local vibrante de discussão, alternativa/porta de entrada (riscar o que não interessa) à crítica publicada e hobby principal de muito boa gente tenha durado seis meses (seis semanas?) em cada um de nós. Ou, pior, que esse sonho tenha existido apenas na minha cabeça.

Que se f*d* a taça.

PS - Coincidentemente, estes dois finais seguem-se a textos contra os respectivos autores na nova atracção da blogoesfera – atenção, atracção, da mesma maneira que as doninhas o são num jardim zoológico: achamos engraçado vê-las, mas o cheiro não deixa de ser pestilento. Espero que seja mera coincidência, pois gente desta não merece grande importância.

23 outubro 2007

Os Chapéus de Chuva de Paris


Confesso: passei razoavelmente incólume ao efeito que Dans Paris teve em muita gente. Filme muitíssimo bem feito, escorreito e livre, não me levou na viagem emocional que proporcionou a outros. Contudo, a fasquia para este Les Chansons d’Amour estava alta: afinal de contas, a melhor sequência do filme anterior era o telefonema cantado, cujas música e letra eram também da responsabilidade de Alex Beaupain, autor das canções que avançam o filme de 2007. Chegados à quarta obra de Christophe Honoré, o saldo é nada menos que exactamente igual ao de Dans Paris. E isso tem o seu quê de desilusão.

Juntando alguns dos melhores e mais famosos actores franceses desta geração (a melhor prestação, até ao momento, de Louis Garrel; o “efeito Frankenstein” de Chiara Mastroianni, cujo belo rosto lembra sempre o espectador dos dois monstros sagrados que a conceberam; Clotilde Hesme, de Les Amants Regulières; e a excepção Ludivine Sagnier, que me continua parecer mais peito que jeito), Les Chansons d’Amour é mais um pedaço de um tecido contínuo que continua a fixar-se nos dilemas sentimentais da burguesia parisiense, utilizando a cidade e as circunstâncias atmosféricas como parte integrante da acção e das inquietações das personagens. Numa Paris que nada tem de romântico, assemelhando-se muito mais a uma metrópole caótica onde a diversão anda de mãos dadas com a cultura (será para escapar desse caos que a irmã de Julie lê tanto?) uma “ménage à trois” é brutalmente interrompida pela morte imprevisível e estúpida de um dos vértices do triângulo. A partir daí, e sempre com um maior predomínio da personagem de Garrel, a bastante virtuosa câmara de Honoré segue o processo de luto das personagens que lhe eram próximas.

Tematicamente, então, também não há grandes diferenças em relação a Dans Paris, que se focava no processo de luto por uma relação recentemente terminada. O que sobra são as canções de Beaupain, algumas brilhantes (a gigantesca Ma Mémoire Sale à cabeça; de muito longe, seguem-na o “yéyé” perverso de Je n’aime que toi, a dolorosa Il faut se taire e o rock de J’ai cru entendre), uma ou outra menos boa (talvez Delta Charlie Delta, importante no desenrolar narrativo do filme, seja o elo mais fraco destes 14 temas). E o efeito seria bem menor se estas não existissem. Com uma qualidade em crescendo, Honoré parece, à medida que Les Chansons d’Amour avança, ficar cada vez mais confortável com a encenação das canções. As melhores sequências do filme são as coreografias das já referidas Il faut se taire (entre Garrel e Hesme), e Ma mémoire sale (já referi que é uma canção descomunal?) e J’ai cru entendre (ambas entre Garrel e Grégoire Leprince-Ringuet), todas no último terço do filme.

Asssim, só perto do final Les Chansons d’Amour se aproxima do potencial que parecia ter. Talvez o problema seja precisamente a ligação, por esta altura mais do que identificada, da estética de Honoré à Nouvelle Vague. Por mais bem-intencionado que seja o francês, 2007 não é 1957. Há algo de cristalizado no cinema de Honoré, por muito que, no que é o seu aspecto mais belo, um homem já se possa confortar, sentimental e sexualmente, com outro homem. E, já que estamos nisto, se estilisticamente a comparação até é lógica (daí o título deste texto), em termos qualitativos falar de Jacques Demy para caracterizar esta obra tem o seu quê de sacrílego.

Resumindo, Les Chansons d’Amour deixa uma questão no ar: para quando o golpe de asa que o talento e a capacidade de retratar relações humanas de Christophe Honoré já pedem?


19 outubro 2007

Algo a ver com a morte

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História de dois amantes postos no mesmo caminho pela culpa interiorizada de um jovem aspirante a toureiro, Matador (1986 – e o seu duplo, A Lei do Desejo, 1897, de que espero falar aqui em breve) está para a obra de Pedro Almodóvar como Once Upon a Time in the West está para a de Sérgio Leone. Todas as personagens, mesmo a maioria sobrevivente, estão envolvidas até ás gónadas numa “valsa de morte”. Quinto filme do espanhol, inicia uma fase mais desencantada na obra do cineasta (apenas, no que havia feito anteriormente, Que fiz eu para merecer isto?, aflorava esta negritude) que culmina com o brutal Kika (1992) . Enorme sucesso internacional, permitiu a Almodóvar fundar a sua companhia de produção, El Deseo, responsável por todas as suas obras subsequentes e, entre outras, por La Niña Santa de Lucrécia Martel.



Não é, contudo, na referencialidade leoniana que Almodóvar se baseia para dar forma a Matador. O apoteótico final de Duel in the Sun, visto por Nacho Rodriguez (o toureiro Diego Lopez) e por Assumpta Serna (a advogada Maria), é esclarecedor: estamos em pleno terreno da fusão do melodrama, não com o western (como no filme de Vidor) mas com o policial, o thriller e a tragédia. Com um estilo já perfeitamente delineado, onde se junta o kitsch espanhol (as decorações berrantes da casa de Lopez, uma sexualidade mediterrânea à flor da pele e um cosmopolitismo artístico de que a os bastidores do desfile de moda, dominado pelo estilista interpretado pelo próprio cineasta, são exemplo caricatural), aproveita elementos destes géneros (o voyeurismo à chuva das personagens de António Banderas, misto de Rear Window e Psycho; o muito vidoriano vermelho do eclipse final, o policia incerto quanto á culpabilidade do suspeito) para compor uma atmosfera malsã, digna de um pesadelo em technicolor. Aqui, o mais popular e conceituado cineasta ibérico aproveita toda uma economia estética norte-americana (planos rápidos, ausência de tempos mortos, um assinalável número de campos-contracampos e uma habilíssima utilização do plano picado e da montagem paralela) para fundar uma estética pessoal baseada na funcionalidade dos meios e nas idiossincrasias pessoais.

E, apesar de tudo, Almodóvar não deixa aqui de acrescentar um solidíssimo tijolo ao seu edifício completamente espanhol. Retrato de uma sociedade que nunca deixou de estar em guerra consigo mesma, mostra gente contaminada por todos os tipos de violência, desde as sufocantes mães-galinha de Eva e de Angél (novíssimo António Banderas), que usam a palavra e a religião, respectivamente, como meio de violência sobre os outros, à ocasional velhacaria autoritária do inspector interpretado por Eusébio Poncela, culminado nos dois amantes que só com a morte e na morte conseguem o tão almejado clímax. Está nesta morbidez erótica toda a chave de Matador, filme sobre a eterna ligação entre o sangue e o sémen – como o provam os planos das “partes baixas” dos toureiros enquanto estes treinam os seus golpes. Afinal, trata-se de um país que tem como desporto nacional a tortura ritualizada de um ser vivo.

Parte essencial do universo almodovariano, Matador é um objecto burilado até á exaustão, sem grande esforço aparente e, como já é habitual no cineasta espanhol, orquestrado como uma boneca russa em termos de argumentos e sensações. O universo de Almodôvar é sempre construído por camadas. Aqui, corresponde nesse universo a Espanha autofágica e contente por o ser. Apenas mais tarde viria a Espanha que perdeu o medo (Em Carne Viva, 1997), e a Espanha que procura a paz consigo mesma (Tudo sobre a minha mãe, 1999 e Volver, 2006)

18 outubro 2007

Kerr R.I.P.

The Life and Death of Colonel Blimp (1943)

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Black Narcissus (1947)

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From Here to Eternity (1953)

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Julius Caeser (1953)

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An Affair to Remeber (1957)

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Bonjour Tristesse (1958)

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The Night of the Iguana (1964)

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16 outubro 2007

Impressionante


O massacre contínuo de uma personagem. A vida como terreno de batalha. Amor e salvação como conceitos impossíveis. Matadouros onde o sangue corre abundantemente. Monólogos dilacerantes. Planos organizadíssimos e espelhos que pouco mostram. Um filme a rever muitas vezes.

10 outubro 2007

Notas da 'teca (3)

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A pior parte de se ter dois empregos é precisamente a mais óbvia: o cansaço. Acumulado, mais do que doloroso, é paralisante. E os dias sucedem-se, monótonos e taciturnos, com o corpo pesado e tolhido de movimentos.

Na passada segunda-feira, desloquei-me à Cinemateca para ver Eve (1962) de Joseph Losey. À entrada, encontrei o Daniel, que me disse não ir ver A Segunda Geração de R. W. Fassbinder, precisamente com medo de adormecer devido ao cansaço.

Eve pareceu-me ser, cinematograficamente, um desastre. Rodado em Itália, já Losey se havia exilado após ter recusado comparecer perante a corja do senador McCarthy, foi amputado de 155 para 105 minutos. Barroco e excessivo, é uma variação da eterna história de perdição de um homem às mãos de uma mulher leviana e interesseira (Jeanne Moreau), de interesse reduzido nesta versão, pelo carácter confuso e fragmentado da narrativa.

E mais não sei dizer. Adormeci a meio da sessão. Não estava a gostar do filme, mas no final do filme estava incrivelmente frustrado. Afinal, paguei dois euros para fazer algo que todas as noites faço de borla em casa.

07 outubro 2007

06 outubro 2007

Novo Cinema Novo?

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Jorge Cramez podia estar, em 2007, na mesma posição em que estão Pedro Costa e Teresa Villaverde: nome cimeiro de uma cinematografia moderna e pertinente. As oportunidades, a falta de subsídios ou a escolha pessoal (não sei qual dos três) terão conspirado para o fazer chegar ao limiar dos 50 anos com uma longa carreira de assistente de realização (no Adão e Eva de Joaquim Leitão, por exemplo) e com apenas uma mão-cheia de curtas-metragens. Contudo, em boa hora chegou à longa, pois O Capacete Dourado é, juntamente com Rapace de João Nicolau e com Alice de Marco Martins, um sinal de ares frescos a percorrer o cinema português.

Vincadamente inspirado num imaginário americano de rebeldia adolescente (onde o Rebel Without a Cause de Nicholas Ray é influência óbvia), O Capacete Dourado impressiona pelo fulgurante talento visual do seu autor. Com uma intriga rudimentar, diálogos mínimos e, o mais das vezes, pouco importantes, o lado efervescente deste belo filme passa pelo seu sentido impressionista (a sequência de Jota e Margarida na barragem) e pelo cuidadíssimo sublinhar musical do que se vê (a extraordinária cena da festa de aniversário de Jota, ao som do Ocean Rain dos Echo & the Bunnymen). Filme sobre a vontade indomável de ar fresco e que, como todos os melhores desse tipo de filmes, que se passa principalmente nos momentos em que nada acontece, não pede qualquer empréstimo social. Por outras palavras, é irremediavelmente actual, sem querer documentar ou analisar costumes ou estratos. Abstracto e rarefeito, tem também nos corpos de Eduardo Frazão, Ana Moreira (o primeiro plano em que aparece é avassalador) e Rogério Samora a perfeita personificação das suas ideias.

Que Cramez queira filmar muitas e muitas vezes. E que Cramez, Nicolau e Martins possam ser um novo Cinema Novo.
Bem precisamos.

05 outubro 2007

As vespas

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Quando soube que João Botelho se preparava para adaptar o livro daquela senhora, pensei: “Está a abanar um ninho de vespas”.

Vespa 1. Não estamos habituados a ficcionar eventos ocorridos há pouco tempo. Aliás, a própria ficção que procura nos “eventos reais” a sua inspiração ou caução é prática rara entre nós. Vendo bem, precisámos de 11 anos para produzir um filme sobre a guerra colonial (Um Adeus Português, Botelho, 1985) e cerca de 20 para produzir um sobre Camarate, talvez o maior trauma dos nossos 33 anos de democracia (Camarate, Luís Filipe Rocha, 2001).

Vespa 2. A segunda vespa é irmã da primeira. Num país onde é difícil ter uma conversa sobre bola que não seja marcada pela estupidez, pelo álcool ou pelo preconceito puro, pensaria Botelho conseguir que o seu filme fosse avaliado pelo seu carácter estético? Corrupção podia ser sobre casos envolvendo o FC Porto há 80 anos, o Sporting há 60 ou o SL Benfica há 40 que os respectivos adeptos não o veriam pela sua qualidade intrínseca. Mesmo o ocasional cinema político adaptado do neo-realismo literário português (quase todo filiado no ou caucionado pelo PCP) não causou metade da celeuma deste filme, que ainda por cima só estreia dentro de um mês.

Vespa 3. O abandono de João Botelho do filme que realizou e co-escreveu por alegadamente ter visto a montagem adulterada pela produtora é prova de uma ingenuidade atroz. Adaptou um livro que vendeu milhares de cópias e fez correr rios de tinta; foi, como ele próprio afirma na peça da Lusa e do Sol, “contratado" pela mesma empresa que transformou um dos maiores clássicos da literatura portuguesa numa orgia num subúrbio parecido com o Seixal; e deixou que o Correio da Manhã acompanhasse a rodagem a par e passo. Num contexto destes, como poderia o cineasta pensar que o deixariam fazer uma obra assente numa “arte cinematográfica pessoal (…) incompatível com qualquer generalização”? Terá Botelho querido entrar no cinema comercial sem se submeter às suas regras?

Vespa 4. Por tudo isto e embora tenha dúvidas, Corrupção até pode vir a ser tão bom quanto o filme de Fritz Lang com que partilha o seu título português, que a poeira causada por estas guerras de alecrim e manjerona impedirá que a maioria o perceba. E, caso seja verdade que a produtora adulterou a montagem elabora por Botelho, é sinal de que temos o pior da indústria (a falta de liberdade criativa) sem termos o que esta tem de melhor (a capacidade técnica estável).

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01 outubro 2007

Filmes de Setembro

Cinema

Torrebela de Thomas Harlan. (8/10)
Hairspray de Adam Shanckman (6/10)
China, China de João Pedro Rodrigues (7.5/10)
O Sabor da Melancia de Tsai Ming Liang (3/10)

Casa

Le lieu du crime de André Techiné (8/10)
Matador de Pedro Almodôvar (8.5/10)
The end of the affair (revisão) de Neil Jordan (6.75/10)
Fury de Fritz Lang (9/10)
O Sabor da Cereja (revisão) de Abbas Kiarostami (10/10)

Cinemateca

A tree grows in Brooklyn de Elia Kazan (7/10)

25 setembro 2007

Rali das Capelas (3)

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Por último e por uma questão de elementar justiça, falta trazer à conversa a Lusomundo, o Mundial e o Nimas.

A Lusomundo, não tenho vergonha de o dizer, foi uma escola para mim. Lá, vi Bringing out the dead, The 25th Hour, Space Cowboys, Moulin Rouge, American Psycho e Kill Bill Vol I, todos filmes relevantes e o hábito de ir regularmente ao cinema foi aí ganho, em saudosas sextas-feiras após jantar de fast-food, acompanhado pela minha prima Patrícia. Não os frequento hoje em dia, porque sei que tenho outras alternativas (incluídas no Medeia Card), porque a esmagadora maioria dos filmes que quero ver não lá passam e porque teria de levar com um público caótico e imaturo, mastigando alarvemente comestíveis doces. Se critico o modo de ver cinema que estes espaços preconizam, não deixaram de ser, contraditoriamente, importantes para mim.

No Mundial, outro galo cantou. Nunca o frequentei em período nocturno, aquele que, previsivelmente, mais gente lá levava. De tarde, deu-me sempre a impressão de ser um espaço decadente, que agradava apenas a meia dúzia de indefectíveis. Fica na minha história por ter sido onde vi Y tu mama tambien e In the mood for love e por ser um cinema onde havia sempre lugar para ler ou apenas descansar antes de cada sessão. A sua transformação em sala de teatro comercial não me surpreendeu, mas até gostava daquela enorme sala 1, ocupada por quatro ou cinco “fanáticos” e uns quantos reformados na sessão das 16:00.

Finalmente, o Nimas agrada-me pelas reposições e pela sua frescura. No Verão, mais do que no anódino Monumental, é na 5 de Outubro que a temperatura lisboeta baixa. Lá, lembro-me de não ter visto o Triple Agent (história guardada a sete chaves…), de ter tido azar com o lugar na reposição de O Leopardo e de ter descoberto Playtime e o genial Jacques Tati. E, reitero, lembro-me de aí ter encontrado um refúgio climatizado em muitos verões tórridos.

Rali das Capelas (2)

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O texto anterior, bem como todos os desta série, foi inspirado pela exibição recente de Colorado Territory de Raoul Walsh na Cinemateca. É que foi numa passagem deste western, antecedida de The Great Train Robbery de Edwin S. Potter, que fui pela primeira vez à Barata Salgueiro. Pouco me lembro do filme (ficou-me na retina uma muito bem construída sequência ilustrativa da convivência com a morte, onde um agente da autoridade acende um fósforo na sola da bota de um enforcado recente), mas voltei uma e outra vez e outra e outra. E espero voltar muitas mais.

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No entanto, antes de lá ter ido ver ainda ontem A tree grows in Brooklyn, (estreia de Elia Kazan e, como assistente de realização, de Nicholas Ray), há muito que lá não ia. Numa altura em que tenho de conciliar dois empregos para pagar as despesas mais elementares, dificilmente lá voltarei, nos próximos tempos, com a regularidade com que gostaria. E, de certo modo, ainda bem.

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A Cinemateca deu-me a ver grandes filmes de cineastas como Pasolini (O Evangelho Segundo S. Mateus), Preminger (Where the sidewalk ends), Ozu (Floating Weeds) Rosselini (Europa 51), Ford (Stagecoach, The grapes of wrath, The quiet american), Malle (Les Amants) e Ray (Bitter Victory e Bigger than life). E foi lá que tentei dar um impulso mais académico à minha cinéfilia, com a pesquisa bibliotecária sobre O Couraçado Potemkin (para Análise de Imagem, a re-publicar aqui em breve), The bend of the river (para História do Cinema) e sobre Once upon a time in America de Sérgio Leone (para Análise Fílmica).


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Quando vou à Cinemateca, saio de lá com vontade de ver as sessões seguintes ou de voltar no dia a seguir. De escolher os filmes, escrever sobre eles, vê-los e revê-los, ler e organizar os documentos da biblioteca, escolher os títulos a vender na livraria, como se tudo me pertencesse. Como se eu aí pertencesse. Ainda assim, apesar de todas as vantagens, quando de lá saio sinto-me também como o narrador do texto de Almada Negreiros que, ao ver as obras expostas numa livraria, afirma ser a salvação impossível se esta depender de ler todos os livros. Por outras palavras, ao percorrer aquele longo corredor em direcção às salas, penso: “Conseguirei ver todos os Ford? Todos os Hawks? Todos os Fassbinder?" E com essas perguntas vejo a salvação afastar-se.

Rali das Capelas (1)

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A minha cinefilia começou nos cinemas King. Já gravava filmes, já ia ao cinema – algum S. Jorge e muito Lusomundo, o primeiro por ser no centro da magnífica Lisboa, os segundos por serem os mais publicitados e pelo facto de o Olivais Shopping e o Vasco da Gama serem perto onde apanhava transportes para casa – mas foi aí que que tive o primeiro vislumbre do que o cinema pode dar e de como se passa a ver a vida através de margens rectangulares.

Da primeira vez que fui ao King, para ver O Grande Lebowski (no tempo em que ainda me interessava o que faziam os irmãos Coen) não tive o espaço em grande conta. Comparado com a sofisticação “pipoqueira” dos Lusomundo ou com a imponência do edifício do S. Jorge, pareceu-me encolhido, antiquado, refém de não ser um cinema para as massas. A segunda experiência foi determinante, para a minha cinéfilia e para o meu desenvolvimento pessoal.

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Sábado à noite. Estava em casa, desesperado – como quase sempre acontece quando temos 15 anos – com a sensaboria dos sábados à noite. E resolvi chagar os meus pais para me levarem ao King, para ver o “Tudo sobre a minha mãe” de Pedro Almodôvar. A minha capacidade inata para chatear quem quer que seja conseguiu vergá-los, e lá me foram levar e, passadas duas horas, buscar.

Fui a última pessoa a comprar bilhete para aquela esgotadíssima sessão. Fiquei com uma coxia bafienta, daquelas antigas do King em que se o ocupante se inclinasse demasiado toda a fila corria o risco de ceder. A sala estava expectante e o filme instalou nela um silencio reverente. Não falarei aqui do “Tudo sobre a minha mãe”, um dos meus preferidos de sempre, mas filme e circunstância fundiram-se num momento único, ao ponto de hoje não me saber tão bem vê-lo em casa.

A partir daqui o King foi, no meu glossário, sinónimo de descoberta contemporânea. Lá, vi Rosetta dos irmãos Dardenne, Breaking the waves de Lars von Trier, O Quarto do Filho de Nanni Moretti, entre muitos outros. E foi lá, creio que numa sessão de A Pianista de Michael Haneke, que descobri o tremendo prazer invernil de entrar num filme à luz fria da tarde e sair dela na limpidez luminosa da noite gelada. Mais recentemente, vi lá diversas sessões do IndieLisboa, com um ambiente frenético. E ultrapassei o trauma de uma época menos bem conseguida na história daquele cinema, documentada aqui.

Finalmente, foi no King que, durante um momento, até pensei em ser crítico de cinema. A junção da palavra posterior com o cinema anterior é o mais belo coito existente. Foi naquele hall, entre as páginas dos jornais e as suas fotocópias, que o percebi. Para o bem e para o mal, foi lá que me nasceu o sonho.



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12 setembro 2007

Desafio

Desafiado pelo Luís Alves, respondo:

1) Pegar no livro mais próximo: A Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís
2)Abri-lo na página 161
3) Procurar a quinta frase completa
4) Colocá-la blogue: "Desapareceram, foram roubados?"
5) Usar o mais próximo: Estava em cima da secretária quando li o post.
6) Passar o desafio a cinco pessoas:

- passo apenas às duas que, por norma, respondem aos meu desafios: a Sandra e a Diana.


A referência a Agustina não é pedantismo. Tentei lê-lo e, pelo menos neste momento, de convulsão pessoal e profissional, não consegui. Quando tudo estiver melhor, tentarei de novo.

11 setembro 2007

O que o Céu lhe permitiu (Wyman RIP)

Jane Wyman (1914-2007)


The Lost Weekend (1945) de Billy Wilder



Stage Fright (1950) de Alfred Hitchcock




Magnificent Obsession (1954) de Douglas Sirk



All That Heaven Allows (1955) de Douglas Sirk

06 setembro 2007

Da pertinência do subsídio


(inspirado por este texto, embora não dirigido ao seu autor)


A questão dos subsídios na produção cultural portuguesa parece não ter fim. Os anos passam e parece não haver solução à vista, os argumentos são amiúde demagógicos e já não há, naqueles que recebem, nos que não recebem e nos que dão, quaisquer inocentes.

No meu humilde contributo para a questão, começo por dizer que não gosto do método dos subsídios. Pelos seguintes motivos:

i)cria uma competição nociva entre artistas;

ii)coloca a opinião pública contra os meios culturais, tidos como esbanjadores;

iii)presta-se, pelo motivo supracitado, à demagogia política à la Rui Rio;

iv)não força os artistas a procurarem meios criativos de promover e financiar as suas obras;

v)haverá sempre a apontar a escolha deste cineasta/encenador/exibidor em detrimento de outros tantos.

De todos, creio que o mais difícil de resolver é o iv. Uma estratégia de marketing eficaz poderia multiplicar exponencialmente o número de espectadores, do mesmo modo que um “product placement” inteligente e q.b., à maneira dos filmes de Almodôvar, poderia ajudar a suportar (e muito) os custos existentes.

O problema prende-se, em igual medida, com a mentalidade e com a lei. Algumas empresas, como o Millenium BCP, começam já a perceber que o mecenato é uma forma extremamente eficaz de promover a sua imagem e que, utilizada em eventos à partida mais “marginais”, poderão fazê-los chegar a segmentos de mercado onde tinham pouca penetração. Pena é que algumas outras grandes empresas (como a Sonae) não dêem um tostão para nada que não o multiplique em pouquíssimo tempo. Por exemplo, uma lei de mecenato que, no final do ano fiscal, descontasse em 125 por cento nos impostos as verbas gastas na cultura seria um bom incentivo. Com o papão do défice, haverá vontade e coragem para o fazer?...

Agora, é importante lembrar um aspecto: alguém como eu, menor de 30 anose, como tal, provavelmente em trabalho precário, paga, por normas, 6,50 euros para ir ver uma peça na Conucópia. Com uma perda do subsídio, já de si bastante parco, em quanto ficaria o bilhete? E será que as pessoas como eu o poderiam pagar? Parece que, na cultura como em tudo o resto, um cenário puramente neoliberal acarretaria uma perda de democracia. O Estado não pode fazer tudo por todos, dirão algumas trupes blogoesféricas. Até concordo. Mas deverá sempre fazer alguma coisa. Senão, mais vale não existir.

Os subsídios são, neste momento, a melhor hipótese. Não me importava de ver uns cartazes da Optimus ou da Somague no meio do Juventude em Marcha se ajudassem a fazer um filme, do mesmo modo que não me importo de ouvir António Pedro Vasconcelos vociferar contra o sistema que me permite ver Transe e Noite Escura. Se a situação mudar um pouco (creio que um certo grau de subsidio à arte será sempre necessário), melhor. Se não, pedia que os demagogos do costume se calassem, que eu também pago impostos para muitas coisas com que não concordo.