22 fevereiro 2009

10 fevereiro 2009

Guerra Cultural


Tenho acompanhado a discussão em torno do excremento polido por Danny Boyle com relativo interesse (consultem o Sound + Vision e o Die Spinnen, p.f.). Mas tenho algumas coisas a dizer, sabendo que no fundo, a discussão é inútil (tão inútil quanto discutir o mergulho deste ou o fora-de-jogo daquele jogador de futebol - mea culpa, claro).


A pergunta que punha aos intervenientes é se não acham que não há maior prova de que a cinéfilia estará em queda e em risco quando são os objectos mais medíocres os que provocam maiores polémicas. Sim, este é um texto preconceituoso - percebe o que quer dizer LMO quando diz que um Danny Boyle é um filme como qualquer Renoir ou Rosselini, mas ressente-se desse facto. A diferença entre um filme de um cineasta que cheira a merda e dois que têm no nariz um gigantesco pot pourri de flores exóticas não pode ser limitada à distância, curta neste caso, entre uma bola negra e cinco estrelas.


Antes de me apontarem defeitos, percebo que a diferença de opiniões é o cerne da questão, e que há quem inverta a metáfora atrás (mal) escrita. O problema é esse: quando são os filmes como The Dark Knight ou Slumdog Millionaire, dos piores feitos nos últimos anos, que dão mais polémica, perdemos a noção não tanto das discussões interessantes, mas das discussões realmente importantes. Com todos os excessos cometidos, de ambas as partes, a discussão sobre Spielberg não relevava questões mais estimulantes? Positif ou Cahiers, não dava relevo a duas formas diferentes, mas positivas e construtivas, de enquadrar o cinema? Keaton ou Chaplin, não obrigava a um olhar mais profundo e mais constante às obra de dois génios?


O declinio da cinéfilia vê-se nas questões que se colocam. Mas este é também sintoma de outra coisa. Se as questões que acima coloco são passadas, fruto de outras lutas e questões - e são - então estamos perante o desaparecimento de formas de dicussão e de conceitos que, com resultados muito positivos, estão na base do que foi o cinema nos últimos 50 anos. A mudança de paradigma parece-me, então, deveria estar na base de uma guerra cultural, acerca daquilo que será o cinema nos próximos 50 anos - mero entretenimento? arte? relíquia defendida pela "corporação dos críticos"? O cinema mudou sempre com os tempos e assim continuará a ser. Mas não neste sentido, pondo obras-primas ao mesmo nível que o esterco ou discutindo o esterco ad infinitum, espero. Se isto é conservador/reaccionário, seja. Há que escolher as alturas em que se é conservador/reaccionário.


Uma guerra, cultural ou não, não se ganha sem violência. Acho positivo o lado pedagógico que João Lopes coloca nestas discussões, mas não me sinto tocado por ele. Para mim, não vejo sangue suficiente nesta luta. Nem na guelra, nem derramado pelo chão. Gostaria que houvesse e que Slumdog Millionaire fosse a sua primeira vítima. Como? Sendo reduzido à merda que é ou, numa outra hipótese, olimpicamente ignorado por quem ainda se interessa por cinema.

27 janeiro 2009

Sonho de dois meses de Verão


Vicky Cristina Barcelona pouco faz para tirar o cinema de Woody Allen da queda que há muito se iniciou – e será interessante saber onde terá começado esta queda; eu aposto em Celebrity (1998). E, ao mesmo tempo, e um filme bastante satisfatório. Explicando:

Há aspectos verdadeiramente irritantes neste filme. O principal é a maneira como Barcelona e mostrada, turisticamente, estereotipada de modo a que o que sobra seja Gaudi e os guitarristas de cabelo comprido e barba. Não há paisagem que não pareça retirada de um guia e que ressoe como um espaço próprio, onde milhões de pessoas vivam, de uma maneira ou de outra, durante o dia. Nesse aspecto, e perante a necessidade de locais que sirvam de âncora, de algo reconhecível no universo alleniano, existem as habituais cenas nos restaurantes e estes não parecem muito diferentes dos encontrados noutros filmes do cineasta.

O outro aspecto irritante e o tratamento estereotipado dado aos espanhóis neste filme, desde o velho poeta amante de mulheres ao filho pintor amante da vida e de mulheres (há duvidas de que Javier Bradem e um grandessíssimo actor?), passando pela tresloucada ex-esposa do pintor, amante de algazarra e também, ocasionalmente, de mulheres (enorme Penélope Cruz, a prova de que trabalhar regularmente com Almodóvar faz bem). Não há esforço para compreender a latinidade, há apenas uma faca afiada e um alguidar largo que sobrevive a custa de dois dos melhores actores da Europa actual – e do momento em que Cruz, finda a relação a três, desata a chorar.

E no fundo, por irritante que seja, faz sentido que não haja esforço de compreensão do circundante nesta história de duas amigas, temperamentalmente diferentes, que embarcam em toda uma serie de aventuras num verão na Catalunha. Afinal de contas, o paradigma do turismo não é o de conhecimento de um local, mas o de reconhecimento. A dada altura, Vicky Cristina Barcelona é muito menos um filme sobre umas férias e muito mais um filme sobre como as limitações pessoais (a incapacidade de expressão artística e de realização sentimental de Cristina) ou as escolhas passadas (a sede de compromisso de Vicky, que acaba por a conduzir a um casamento condenado) seguem as personagens para onde estas vão, podem ser combatidas pela mudança de circunstâncias mas, no limite, acabam sempre por vencer.

Vicky Cristina Barcelona é um filme triste mas doce, infeliz mas engraçado, derrotado mas vivo. Fala-se de Chekov (e não podia deixar de ser),mas poder-se-ia falar doutro brilhante filme fútil de Allen, o belíssimo Everyone Says I Love You (1996). Na nostalgia do dourado Verão ibérico, o que vemos é um velhote fascinado com a eterna marivaudage dos jovens, com ternura, sem julgamentos de valor. E por isso, Vicky Cristina Barcelona, que poderia ser um dos contos morais de Rohmer se não fosse deliciosamente amoral.
Reitero: amplamente satisfatório.

25 janeiro 2009

Líbano, 1982



Se a arte é o local da ambiguidade (e muito boa gente diz que sim), Waltz with Bashir é um dos mais interessantes objectos dos últimos tempos.

Neste pesadelo soberbamente animado, documentário pessoal mas distanciado e até onírico, acerca das mazelas que perduram dos massacres de Sabra e Chatila, no Líbano em 1982 que vitimaram 3 mil palestinianos, mostram-se duas visões distintas e pouco vistas das tropas de David. A primeira, já de si basto interessante por quase nunca ser mostrada, é a de um conjunto de ex-soldados longe dos super-homens que as Forças Armadas de Israel querem mostrar ao público. No seu périplo para saber o que terá visto e feito no Líbano, o cineasta Ari Folmam encontra alguns dos seus colegas de exército, forçados a perder a inocência numa invasão de um país soberano que foi o serviço militar obrigatório que lhes calhou. O que vemos é a ideia de uma geração forçada a perder parte importante da sua juventude não por motivos de patriotismo mas por decisão estatal, o que redundou num sonambulismo omnipresente, que a animação sublinha por intermédio da perda de realismo e numa diáspora de alguns desses soldados, que preferiram fazer a sua vida fora das convulsões (ou invasões, como lhe quiserem chamar) do Médio Oriente. Há uma ideia de “geração perdida” a perpassar por Waltz with Bashir que não é nada habitual de se ver quando se fala de Israel.

A ambiguidade explode, contudo, na segunda metade do filme, aquela que recria e revela a participação do realizador nos referidos massacres, e onde, pela primeira vez num objecto visto por mim, existe um claro e inusitado exemplo de má consciência israelita. Pela enésima vez, como em todos os massacres, são repetidos os célebres argumentos de desconhecimento perante a barbárie, colocando dolorosamente o caso israelita numa longa linhagem de genocídios. É um facto que o exército sabia e que os soldados estavam inclusivamente a iluminar a noite libanesa para dar aos falangistas a segurança necessária na condução das mortes – mesmo se cada unidade só soubesse parte, sendo a cúpula militar (e o então ministro da Defesa, Ariel Sharon) quem tivesse a totalidade dos factos. O massacre poderia ter sido evitado e não são desculpa a falta de conhecimento, a amnésia, o sonambulismo ou os pesadelos, por muito que deles sofram aqueles que outrora mais não eram que putos assustados a lutar no estrangeiro. É como diz a personagem de Mathieu Kassovitz no Munique de Spielberg: dois mil anos de perseguição não tornam um país decente. Waltz with Bashir sabe-o e afirma-o por diversas vezes.

Nas suas fantasmagóricas imagens, do pesadelos dos 26 cães que o abre à recriação do que se passou nos campos de refugiados, passando pelo genial momento da viagem de um dos soldados no corpo de uma mulher gigante, Waltz with Bashir é um filme assustador. Pela capacidade de matar de quem parece inocente, por aquilo que se faz por uma pátria, por cicatrizes que não desaparecerão nunca. Poderia ser doutra maneira?

11 janeiro 2009

Sumaríssimos (1)


Austrália é o primeiro filme medíocre de Baz Luhrman. A meio termo entre a irrisão (no início) e uma seriedade forçada na parte final, é um filme que padece de credibilidade quer no seu classicismo, quer nos momentos em que tenta trabalhar sobre os códigos, como quem não sabe muito bem o que está a fazer. As soluções encontradas são sempre o sentido de insuflar, insuflar, misturar a martelo western com filme de guerra e conto sobre uma viagem iniciática de um jovem mestiço aborígene, criando um caldo indigesto, onde os pedaços parecem não ter sido devidamente triturados num todo coerente. Não chateia muito, mas também é completamente desnecessário.

08 janeiro 2009

E agora?

Um pequeno aviso à navegação Estou pouco interessado em polémicas. Tenho o jantar para fazer e a loiça para lavar e não tenho tempo. Comentários serão sempre bem-vindos, mas poupem-me a chatices.
Não poderia, contudo, esquecer a saída de Benard da Costa da Cinemateca Portuguesa. Recordar polemicas antigas é-me indiferente. Queria apenas fazer dois pequenos reparos:

1) A programação da Cinemateca de Benard da Costa não baixou jamais de um patamar de qualidade inegável. As pessoas que se queixam de filmes e cineastas com lugar cativo provavelmente viram tudo. Eu, que não vi todos os Rays, Langs, Cukors, Vidors ou Sirks e que nunca vi nenhum De Toth, Dmytryk ou Borzage (estou a trabalhar para isso), agradeci sempre. Como agradeci as repetições, dado que nunca lá pude ir sempre que desejava. Perante isto, que a Cinemateca nao exiba o último documentarista lituano da moda, ou, como queria APV, não se renda ao mainstream (toda a gente sabe que os sitios com filmes mainstream são poucos e era preciso a Cinemateca fazer esse trabalho…) pouco me importa. Havia sempre muito que ver em cada programação mensal.

2) Nos últimos dois anos, Benard fez duas coisas que, a mim, me desagradaram brutalmente: a primeira, a nomeação do filho para um cargo importante – nomeação essa que nem trouxe muita polémica, se calhar porque muitos que o criticaram por causa da idade também precisam dos pais para subirem na vida, e calaram-se por uma questão de coerência. A segunda, a nomeação de Pedro Mexia, manifestamente pouco preparado para o cargo – acham normal que o sub-director da Cinemateca assuma no seu blogue que só recentemente viu filmes como The Killers, Deserto Rosso ou The Bad and The Beautiful? Contudo, muito boa gente falou de “lufada de ar fresco"...

Agora, não sei o que vai acontecer. O mais provável é que fique lá Pedro Mexia e a qualidade do que é mostrado e do que é escrito decresça e muito – a não ser que este saiba delegar nas pessoas sábias e experientes que ainda lá vão trabalhando. Bottom line: não estou muito esperançoso acerca disto. E ainda estaria pior se tivesse tempo para ir a Cinemateca mais do que uma vez de dois em dois meses.

04 janeiro 2009

30 dezembro 2008

Bom 2009

Melhores de 2008

1. Hunger de Steve McQueen
2. La Frontière de l`aube de Philippe Garrel
3. La Graine et le Mulet de Abdel Kechiche
4. Darjeeling Limited de Wes Anderson
5. There Will Be Blood de P.T. Anderson
6. Before the Devil Knows You`re Dead de Sidney Lumet
7. Coeurs de Alain Resnais
8. We Own the Night de James Gray
9. Les Amours d`Astrée et de Céladon de Eric Rohmer
10. Aquele Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes

28 dezembro 2008

Discos (ordem alfabética)

Cut Copy - In Ghost Colours
Death Cab for Cutie - Narrow Stairs
Last Shadow Puppets - Age of the Understatement
MGMT - Oracular Spectacular
Portishead - Third
Robert Forster - The Evangelist
Santogold - Santogold
The Hold Steady - Stay Positive
The Kills - Midnight Boom
Tindersticks - The Hungry Saw
TV on the Radio - Dear Science

É capaz de ter havido mais (fora o que está por ouvir, Fleet Foxes e Bon Iver, por exemplo). Assim de repente, lembro-me destes. Post sujeito a actualização.

11 dezembro 2008

Largas bestas têm cem anos

11.12.2008 - 11h16 - Anónimo, Algés
Não faço ideia, mas creio não existirem cinco cineastas vivos que tenham dado tanta despesa aos contribuintes quanto Manoel de Oliveira. O próprio nome Manoel, em vez de Manuel, é uma piroseira, que se aceita no caso de ser nome de família. Ainda por cima fizeram-lhe uma casa-museu que este artista deixou ao abandono.

11.12.2008 - 13h06 - SVC, Maia
O sr. Oliveira só seria bom se tivesse nascido aí no estuário do Tejo? Como não foi o caso, e ainda teve o atrevimento de vir nascer á província (entenda-se o Porto segundo a perspectiva do estuário do Tejo) nem a Ingmar Bergman pode ser comparado. Quanto a subsídios a outros cineastas - seria bom saber quantos foram contemplados e que fossem do Porto. Aiai o centralismo deste país...

11.12.2008 - 13h14 - Anónimo
Se ele é tão bom, por que é que nunca ganhou nenhum prémio, com excepção daqueles especiais de carreira, do juri... do raio que o parta! A verdade é que a maioria dos filmes são aborrecidos, e por isso são louvados pelos supostos intelectuais...


Estes três comentários estão disponíveis na notícia do Público dedicada ao centenário de Manoel de Oliveira. E explicam perfeitamente por que não lhe vou fazer homenagem nenhuma hoje. Exceptuando o comentário do meio, mera baboseira bairrista mais interessante pela estupidez, os outros dois resumem muito daquilo que a opinião pública pensa de Oliveira. Pessoalmente, acho que quem quer homenagear um cineasta destes deve faze-lo sempre que possível. Quanto aos outros, deviam perceber que não é o pais que não merece Oliveira e os seus “encargos”: Oliveira é que, depois de cem anos, merece mais do que aturar bardamerdas.

08 dezembro 2008

A Fronteira do Amanhecer


Se Paulo Branco se esqueceu (ocupado com a perspectiva de mudar o cinema para o casino?) de programar nas suas salas Ne Touchez Pas la Hache, um dos grandes filmes da década, preferindo lançá-lo directamente em dvd, ao menos ainda nos vai fazendo uns favores de vez em quando. Presentemente, nos cinemas Medeia, estão em exibição a introdução de muito boa gente – eu incluído - ao cinema de Jerzy Skolimowski e o magnífico Hunger de Steve McQueen. Contudo, o mais importante de tudo é que se encontra também em exibição La Frontiere de L’Aube, o novo filme de Philippe Garrel. E temos de agradecer por isso.

Também teremos de agradecer a Louis Garrel. Podemos nem todos o achar um grande actor (e eu até o acho, juntamente com Benoit Magimel e Romain Duris, do melhor que aconteceu nos últimos anos ao cinema francês), mas o facto de se ter tornado um actor de renome, com Os Sonhadores e com os filmes de Christophe Honoré possibilitou ao pai, pela sua constante participação, o financiamento para dois belíssimos filmes (este e o anterior Les Amants Reguliers). Enquanto os produtores pensam nas meninas que vão ao cinema pelo Garrel Jr, não estragam o filme que vemos no ecrã. Duvido que Garrel Sr estivesse a filmar com esta liberdade e com esta regularidade se não tivesse um filho famoso.
Como também duvido que Garrel tivesse assunto para filmar em tão pouco tempo não tivesse havido uma projecção de si mesmo, um corpo e um rosto onde se sentisse suficientemente confortável para expor não apenas o recontar da sua juventude (Les Amants Reguliers), mas também uma poesia amorosa única nos tempos que correm, ridícula se não feita com a maior seriedade e com a maior crença em si mesma. Garrel filho libertou Garrel pai de todas as maneiras e merece ser recompensado com um agradecimento.

E temos igualmente que agradecer a Philippe Garrel por filmar tão bem. O seu filme, história de um casal que a loucura vem separar primeiro e reunir depois, é um portento de luz e sombra, de brancos muito brilhantes e de negros escuríssimos, de texturas imensas que apenas múltiplas visões conseguirão deslindar. O francês controla na perfeição todos os seus recursos e os seus filmes parecem sempre simples, quase académicos, tal a simplicidade de métodos por ele utilizados – é de saudar não apenas os múltiplos fechos de íris que aproximam o filme da época do mudo, como também a sequência do pesadelo de François, em que a floresta inicial parece a de Hansel e Gretel filmada por Murnau. O que vemos, no fundo, é a velha coexistência entre uma razão e uma acção, um pensamento e um método, uma ética e uma estética. Perante uma confiança tamanha no seu projecto, a prática só pode dar essa ideia de facilidade.
Mais difícil é faze-lo quando se trabalha num filme tão imaterial quanto La Frontiere de l’Aube. Toda esta genial obra se foca na cabeça e no coração destas personagens, na perigosa linha onde sentimentos e ideias se encontram. O que acontece a cada imagem de Garrel (com especial destaque para os momentos de Laura Smet no chão, a mais bela depressão cinematográfica desde a de Liv Ullman no Face a Face de Bergman), capaz de mostrar o visível e o invisível. Chamaram-lhe poético. Se isso é o nome dado a quem transcende o limite do que é mostrado, a quem capta para lá do enquadramento, Garrel é-o definitivamente. Um sincero obrigado por isso é do mais elementar rigor.

E, no fundo, para que serve o parágrafo anterior? Para nada, se tivermos em conta em conta que o grande mérito de La Frontière de L’Aube é o de dar sempre a sensação de ter mais e mais mundos a descobrir e, simultaneamente, sabermos que nunca se abrirá em toda a sua profundidade para nós. A exegese é inútil. Filmes como este não se explicam; agradecem-se.

07 dezembro 2008

Notas da 'teca (5)


The Tarnished Angels (1958) partilha alguns pontos com o grosso da obra norte-americana de Douglas Sirk. Num aspecto, no trio central, que repete o de Written in the Wind– os inefaveis Robert Stack, Dorothy Malone e Rock Hudson, este ultimo, como de costume, o elemento estranho a uma situação que tenta trazer com ele um novo padrão moral, falhando quase sempre na tarefa. Noutro, é um filme que se joga, mais uma vez, no âmbito do “melodrama social” (a designação é muito discutível, daí as aspas), procurando uma marcada tendência económica e um óbvio contexto temporal onde situar os sentimentos.

Inversamente, as mudanças são suficientes para tornar este um dos mais esdrúxulos filmes de Sirk nos EUA. O presente da acção não é os anos de Eisenhower, mas a época da Grande Depressão. Semelhante mudança provoca desde já uma alteração e termos dos caracteres tratados, que longe de serem os ricos são o proletariado quase “lumpen” que arrisca a vida em espectáculos aéreos pelo rendimento essencial à sobrevivência. Este é, então, um filme tão emocional quanto Imitation of Life (1959) ou All that Heaven Allows (1956), mas que aposta num erotismo e numa violência (ver, respectivamente, a queda de pára-quedas onde o vento levanta as saias de Dorothy Malone a níveis muito inesperados e a brutal cena em que, através de dados desenhados em cubos de açúcar, Stack disputa com o ajudante o casamento com Malone) dando um aspecto mais cru e cortante que o habitual. Finalmente, duas mudanças técnicas acompanham as mudanças tematico-sociais: o preto-e-branco, que em muito contribui para que se creia no horizonte temporal do filme (onde a reconstituição de época é feita com muita simplicidade e com poucos meios), e um prodigioso uso do scope, de uma racionalidade perfeita e de uma profundidade de campo notável, sobretudo nas prodigiosas cenas de corrida aérea.

Filme de morte como poucos na carreira do alemão e que Sirk terá feito como complemento ao vício e decadência retratados em Written in the Wind, é mostra de algo extraordinário: um cineasta que consegue interromper o seu tecido contínuo, não perdendo por um momento o domínio da sua arte. Se por mais nada (e há aqui muito mais), The Tarnished Angels é uma obra-prima que demonstra cabalmente a versatilidade do seu autor.

17 novembro 2008

Bater no ceguinho


Ensaio sobre a Cegueira (1995) é, para o bem e para o mal, um dos mais, senão o mais importante livro de José Saramago. Para o bem, pela força de uma distopia, apocalíptica pela ausência de civilização que se gera, abruptamente, da perda de uma das mais elementares funções biológicas. E, não esquecer, pela capacidade do seu autor em fomentar de forma ampla e loquaz o medo no leitor, seja da animalidade humana, seja da máquina de repressão estatal, que nunca perde oportunidade de impressionar os seus cidadãos quando surge algo que a ponha em causa. Para o mal porque, com ele, Saramago parece ter atingido algo como uma fórmula (o acontecimento inverosímil que põe em causa as estruturas civilizacionais), longe da liberdade patente, por exemplo, no sublime Levantado do Chão (1980). Por exemplo, o Ensaio sobre a Lucidez (2004) segue o mesmo método – até no título – mas de forma muito menos interessante. Vamos ver se o recém-editado livro do paquiderme é diferente….

Ancorado no merecido sucesso internacional que até aqui teve, Fernando Meirelles adapta então, 13 anos, um Nobel e uma pneumonia quase mortal depois, a obra charneira de Saramago. E fá-lo mal.

Em primeiro lugar, porque confunde, do ponto de vista da adaptação literária, a truculência virtuosa da prosa do Nobel (desculpem a repetição, é para chatear críticos literários de direita…) com uma deriva maneirista em que o cinema de Meirelles, correndo sempre esse risco, ainda não havia entrado em Cidade de Deus (2002) ou The Constant Gardner (2005). Desde a “metalização” cromática da imagem, tornando-a asséptica, o que “desrealiza” o que estamos a ver e torna menos eficaz a alegoria, até ao imensamente irritante “fade to white” (sem qualquer comparação com o efeito conseguido com os vermelhos de Bergman em Cries and Whispers, 1972), tudo parece ser uma obrigação cinematográfica de Meirelles face ao livro, uma tentativa de mostrar que, se o material de origem é bom, também o cineasta o é. E, pelo menos aqui, não é esse o caso.

E, segundo factor, não parece haver nada neste filme que não deva algo a Saramago, que tenha sido ideia do realizador (por exemplo, o fabuloso momento de Danny Glover a pensar se o regresso da visão lhe vai acabar com o amor é claramente romanesco), que o cineasta tenha juntado à obra do Nobel (embrulhem!). A estrutura do filme é demasiado fiel, contentando-se em resumir a contento o livro, numa espécie de “Caderno Europa-América” visual do que é o romance. E este é muito mais do que isto.

Ainda não foi desta que se viu um bom Saramago no ecrã – e nem me perguntem pela adaptação de A Jangada de Pedra (1986) por um qualquer holandês voador, que nem quero saber. Que no futuro haja um cineasta português, mais conhecedor do contexto em que surgem estas ideias, que adapte dignamente um romance do Nobel português (dói, não dói?). Candidatos a adaptação? O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984).

30 outubro 2008

Demasiada areia


A comédia foi, para mim, o ponto onde a obra dos Coen perdeu o interesse. Arizona Junior (1987) é uma boa comédia, é certo, mercê muito da fabulosa sequência da perseguição a Nicholas Cage; Hudsucker Proxy (1994) já é mais fraco enquanto comédia (e melhor enquanto emulação do sonho cinematográfico capriano); O Brother, Were Art Thou (2000) só não envergonha Homero pelas dúvidas que alguns têm de que o mais famoso invisual grego tenha existido; e quer Intolerable Cruelty (2003) quer The Ladykillers (2004) não me mereceram uma ida ao cinema. Porém, o que este muito razoável Burn After Reading , depois do excelente No Country for Old Men (2007) vem provar é que os Coen podem ter entrado numa fase em que, mesmo não fazendo grandes filmes, não desmerecem o tempo com eles gasto.

Burn After Reading pega, de forma hábil, numa das qualidades maiores dos Coen: a capacidade de sobrepor o riso às situações aparentemente mais negras. Tratando, como habitualmente, a perseguição de sonhos de riqueza e de felicidade por parte de personagens inábeis, os irmãos urdem uma teia de crises de meia-idade às vezes caricatural, às vezes hilariante, ainda outras vezes triste, que sustenta o filme e prende o interesse. A evolução de Burn After Reading, numa progressiva explosão de violência, adensa a narrativa com uma progressiva seriedade em tudo diferente da parvoíce do filme helénico-sulista. Por outras palavras, o que todas estas personagens fazem é, de uma maneira dura e sangrenta, perceber qual a quantidade de areia que excede a capacidade da sua camioneta. A comédia é aqui tratada como uma coisa séria, com o seu muito respeitável quê de Billy Wilder.

O ano de 2008 não está a ser bom para os Coen apenas por Óscares e quejandos. As regalias são sintoma de algo maior: o regresso da credibilidade a este cinema. Que Burn After Reading não seja o fim desse processo.

29 outubro 2008

Revisão da Matéria Dada - IV

1. A Solidão Um injustiçado filme, pelas vezes que tem sido referido somente enquanto contraponto a Almodóvar. Triste, sonâmbulo e propositadamente hermético, pega na história de várias personagens e das suas vidas desesperadas, cruzando-as num tecido sólido e coerente. Nos seus ecrãs divididos e no seu abrangente scope, é um gigantesco filme acerca das merdas que nos vão acontecendo. Pouco há a dizer sobre ele, mas há e haverá, em futuras visões, muito que ver.

2. Gomorra O realismo devia ser sempre isto, vibrante, fervente, emocionante, sempre em constante movimento. Mais retrato que narrativa, este mosaico à volta da máfia napolitana mostra com pujança, com estilo e com uma “neutralidade” bem conseguida acontecimentos que, no limite, dão a sensação de estarem a acontecer à nossa frente. Destaque especial para tudo aquilo que nele há de mediterrânico: a capacidade de desenrascanço (os miúdos trazidos para conduzir os camiões do lixo), os putos vivazes (os dois que, inspirados pela iconografia cinematográfica da máfia, sonham em dominar a Camorra) e a maneira como a música, mais do que evocar os sentimentos, fabrica por si só a alegria e o escapismo. Belíssimo.

3. Tropic Thunder Quando vi o trailer, pensei ingenuamente: “Será que ao fim de três-quinze anos, Hollywood voltou a fazer uma boa comédia?” A realidade, contudo, derrotou a boa vontade nestas duas horas onde, por falta de moderação na gestão temporal (gags muito longos) e narrativa (é um filme que, sendo sempre bastante canhestro, se desconjunta à medida que avança), se transforma em algo francamente mau. O problema de Stiller não é ter más ideias – já Cable Guy estava cheio de momentos francamente interessantes. O problema de Stiller é achar que basta por uma câmara á frente de meia dúzia de palermices para se fazer um filme.

16 outubro 2008

O vento levá-los-à


Logo no início em "flash forward" onde o ébrio Robert Stack se suicida debaixo dos ouvidos de uma mulher doente (óptima Lauren Bacall) e de um amigo alheado (Rock Hudson, sempre um poço de dignidade) se pressente a diferença face a filmes anteriores (o idílio suburbano de All That Heaven Allows, 1955) ou posteriores (a pobreza beatífica de Imitation of Life, 1959). Se, naqueles filmes, a ilusão só posteriormente era dinamitada, aqui é destruída logo no genérico, impossibilitando que tempos vistos em "flashback" – o único presente da narrativa é a meia hora final – seja cem por cento credível. Dois outros aspectos o confirmam: o cenário industrial quase pós-apocalíptico por onde as personagens passam variadas vezes e a propensão para o vício e a doença, num tom quase naturalista. As próprias cores dispensam o rosa-choque e ficam-se por um sóbrio tom sépia.

Este conto de destruição de uma família podre de rica à conta do ouro negro, gente que tem tudo para ser feliz mas nunca o consegue, faz-se até de forma relativamente mais simples do que muito do que a rodeia. Longe da maior profundidade de outros filmes, a progressão narrativa é aqui linear e veloz e a estrutura simples, como o trajecto do carro que Stack conduz no início. Tudo gira à volta dos dois elementos exteriores que, em duas alturas diferentes, entram na família. Hudson, irmão de Stack e objecto de desejo da irmã deste, Dorothy Malone, e Lauren Bacall, esposa de Stack e enfatuação de Hudson, não são, como começa por parecer, a trave-mestra que segura este mundo. Tudo já começou a ruir há muito (fala-se no estroina tio de Stack) e ambos acabam por ser mais catalisador do que impedimento. Não por acaso, como num assumir do falhanço, há uma ambiguidade final quando Hudson e Bacall entram no carro para partir sabe-se lá para onde, como se salvarem-se um ou outro seja o substituto possível da salvação da família ou, pior ainda! até uma vitória.

Ousando uma visão mais ampla sobre a célebre e onanista cena final, com Dorothy Malone a acariciar a miniatura da torre petrolífera (de uma maneira que ou deixa muitas dúvidas ou não deixa dúvidas nenhumas…), e se esta fosse o explanar da posição de Sirk ao longo da sua carreira americana? Como Dorothy Malone, que tudo fez para destruir a sua família, também Sirk tudo fez para destruir esta ideia de felicidade social, pura má consciência. Como Malone, também Douglas Sirk parece chorar quando o consegue. A tristeza dos vencedores é algo de tramado.

06 outubro 2008

LEGEND ... wait for it... DARY!


A minha semana tem, ultimamente, um ponto alto: o domingo à noite. Paradoxal? Talvez, tendo em conta a profunda depressão que se instala em mim como nos outros pelo facto de ter de ir trabalhar no dia a seguir. Acontece que, pelas 22h15m, tudo me é indiferente: as quedas da bolsa e será que o Benfica vai manter a boa forma dos dois últimos jogos e porque é que o tabaco não custa 25 cêntimos o maço e mais uma semana que passou e não escrevi nada de jeito aqui no blogue e quando ligo a televisão só vejo o Sócrates e o Cavaco e gajas de mamas postiças no horário nobre da TVI que agora até tem o Vasco Pulido Valente que vai dar ao mesmo enquanto me lembro do gajo que disse em pleno autocarro que “o novo filme do Sidney Lumête [sic] se chama Enquanto o Diabo esfrega o olho”.

A razão é uma prodigiosa série chamada How I met your mother, que começa à referida hora e ao dia marcado na Fox Life. Juntando o melhor de Cheers (o conceito de Happy Hour, as terapêuticas cervejas emborcadas para esquecer num sítio sempre igual, portador de conforto e estrutura – duas coisas que não podiam estar mais longe da rotina) e Seinfeld (a exploração e teorização maníaca, quase psicótica, tanto sobre os aspectos mais insignificantes do quotidiano quanto das relações humana, no seu lado mais ritualizado e “cultural” – postura que poderá ser atribuída a também esta série se passar em Nova Iorque) é, excelente ideia!, a história de um pai que resolve contar aos seus filhos, em 2030, como conheceu a sua mãe. Felizmente, o foco não é, pelo menos por enquanto, a relação entre mãe e pai, mas tudo o que se passa antes, no presente do espectador: casais ocasionais, paranóias colectivas, apostas resolvidas à chapada, e o Barney, porra, o Barney.





E que achados são estas personagens! Ted, tão normal e sempre metido em sarilhos; Robin, fechada, frígida e com um medo brutal do compromisso; Lily e Marshal (respectivamente Allyson Hannigan, de Buffy the Vampire Slayer e Jason Segel de outra série cá do panteão, a memorável mas esquecida Freaks and Geeks), os mais inocentes, mais puros do grupo, casal desde que se conhecem, pêndulo para os demais. E depois há Barney. "White trash", convencido de que é "bon-vivant", a um tempo completamente lúcido e absurdo, dava uma série sozinho.

Nada disto, por si só, faz uma boa série e, inclusivamente, já o vimos em muitas outras sitcoms. O que faz desta série notável a todos os títulos é que o seu dispositivo em constante flashback (e as piadas que daí advêm, como o facto de os charros consumidos na faculdade serem substituídos, na moral da história contada aos filhos, por sanduíches) possibilita uma doce e diáfana nostalgia por um tempo em que tudo era possivel, em que cada dia era passível de aventuras que acabavam connosco estatelados no chão mas com a capacidade de nos levantarmos e de seguirmos em frente, a começar por um passeio até ao bar da esquina para irmos ter com os nossos amigos e saborear uma fresquinha. Nunca acreditei que a vida fosse este mar de possibilidades – nem quando tinha dezasseis anos, muito menos hoje, oito horas por dia fechado numa companhia de seguros. A única altura em que acredito é aos domingos, na Fox Life, às 22h15m.