18 março 2009

Constatar o óbvio


Dentro de meses ou, na pior das hipóteses, de um ano, quando se fizer o balanço da década, será óbvio constatar que, nesse espaço de tempo, Clint Eastwood realizou três obras-primas (Million Dollar Baby, Letters from Iwo Jima e Gran Torino), bem como uma quase obra-prima (Mystic River). Quem diria que o cineasta da década iria ser alguém que em 2000 já tinha 70 anos!

Sumaríssimos (2)


Mais do que um filme bom, The Watchmen é um filme útil. Zack Snyder, muito considerado por alguns mas cujo talento ainda me suscita dúvidas, deve ter tido uma tarefa muito fácil: os storyboards já estavam feitos. A eles acrescentou apenas a música, quase sempre muito boa (Dylan, Cohen, Hendrix). Toca a andar, temos blockbuster. E, no entanto, nada da prodigiosa novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons (que li no primeiro ano de faculdade e me marcou aquela época) sai beliscado. Pelo contrário, há muito respeito – até demais – pelo material original. Quem quiser uma versão condensada, comece por aqui. Destaque final para a prodigiosa composição de Jackie Earle Haley como Rorschack, de movimentos e voz exactamente como o imaginava.

04 março 2009

O último mergulho


Mickey Rourke sempre foi melhor que a maioria dos seus companheiros de geração - Patrick Swayze, Rob Lowe, Ralph Machio, C. Thomas Howell, até mesmo melhor que Tom Cruise e Matt Dillon. Com algo de hipnótico e vulnerável, este belo brutamontes conseguia, por exemplo, ir muito bem no film noir revisitado de Body Heat (1981) e ser a única coisa a valer a pena no inenarrável Wild Orchid (1989), um dos piores filmes que vi. Tornou-se, depois, uma espécie de Klaus Kinski do cinema americano: más escolhas, cabotinice, estupidez. Hoje é um “broken down piece of meat”, feio e desfigurado mas com uma cara que conta mil e uma histórias sórdidas em cada ruga e cicatriz.

É dele muito do magnífico The Wrestler, filme que se poderia definir como “Cassavettes meets Dardenne meets Frank Capra on steroids”. Rourke traz tanto de si, do que dele conhecemos nos últimos 20 anos, que há uma força ímpar, uma “memória afectiva” que, adicionada ao magnetismo que sempre o caracterizou, faz com que tudo pareça verdadeiro, real, exponencialmente mais doloroso. É hábil a forma como Darren Aronofsky, no seu melhor filme até à data, joga com esta memória, começando o filme com Rourke de costas para a câmara, adiando o momento em que vemos o monstro em que se tornou o belo. Há, então, um efeito de simbiose: Rourke potencia The Wrestler e o filme alimenta-se dele; juntos, completam-se.


Mas parte significativa do mérito deste filme reside também em Aronofsky. Pondo de lado o barroco de Requiem for a Dream (2000) e The Fountain (2006), menos estilizado e com um estilo mais directo e movimentado de câmara à mão, Aronofsky filma perfeitamente esta história de uma queda. Não é só Rourke: o cenário à volta é propositadamente white trash, degradado, locais a sonhar com melhores dias sabendo que eles nunca virão. Todo o The Wrestler é um espectáculo descarnado, desde as magnificas cenas de luta, espectáculos grunhos para suburbanos pobres desenvolvidos em reles associações de bairro, ou o supermercado onde Randy “the Ram” Robinson trabalha, local ideal para os sonhos irem morrer. Aronofsky consegue, em suma, traçar brilhantemente o retrato de um meio, numa prova derradeira da maturidade encontrada.

Finalmente, dois aspectos a sublinhar:

i) noutros tempos, este seria um filme passado no pugilismo, desporto igualmente físico e de grande sacrifício pessoal, inclusivamente com uma maior tradição cinematográfica que o wrestling. A escolha deste desporto é não apenas uma questão temporal mas também relacionada com o meio pobre em que o filme é passado. Mas não se deixe de notar quão bem são mostrados os códigos do wrestling: por exemplo, no discurso final de “Ram” e veja-se o quanto, se lhe retirarmos o “pathos”, este poderia fazer parte de uma qualquer programa dos que passam na SIC Radical. Por isto, pelas cenas de luta e pelo tratamento dado às personagens, este é um filme eminentemente realista.
ii) A capacidade do argumento de, em cenas simples e concisas, mostrar as personagens e as suas motivações: a esta grande cena, junte-se o elogio do jovem wrestler Tommy Rotten (como quem diz “não te metas por onde me meti”) ou o momento em que, já no combate final, percebe que Marisa Tomei (outro excelente desempenho) se foi embora. Obra económica, então, nos meios como nos métodos.





The Wrestler é um filme tocante, dos mais comoventes que veremos este ano. O seu núcleo reside numa pergunta pertinente de resposta simples. A pergunta: o que se faz quando se perde tudo? A resposta: o mesmo que sempre se fez, até que chegue o mergulho final.



Já agora: serei o único a achar que isto, a julgar pelo que já se sabe, vai ser brutal?

22 fevereiro 2009

10 fevereiro 2009

Guerra Cultural


Tenho acompanhado a discussão em torno do excremento polido por Danny Boyle com relativo interesse (consultem o Sound + Vision e o Die Spinnen, p.f.). Mas tenho algumas coisas a dizer, sabendo que no fundo, a discussão é inútil (tão inútil quanto discutir o mergulho deste ou o fora-de-jogo daquele jogador de futebol - mea culpa, claro).


A pergunta que punha aos intervenientes é se não acham que não há maior prova de que a cinéfilia estará em queda e em risco quando são os objectos mais medíocres os que provocam maiores polémicas. Sim, este é um texto preconceituoso - percebe o que quer dizer LMO quando diz que um Danny Boyle é um filme como qualquer Renoir ou Rosselini, mas ressente-se desse facto. A diferença entre um filme de um cineasta que cheira a merda e dois que têm no nariz um gigantesco pot pourri de flores exóticas não pode ser limitada à distância, curta neste caso, entre uma bola negra e cinco estrelas.


Antes de me apontarem defeitos, percebo que a diferença de opiniões é o cerne da questão, e que há quem inverta a metáfora atrás (mal) escrita. O problema é esse: quando são os filmes como The Dark Knight ou Slumdog Millionaire, dos piores feitos nos últimos anos, que dão mais polémica, perdemos a noção não tanto das discussões interessantes, mas das discussões realmente importantes. Com todos os excessos cometidos, de ambas as partes, a discussão sobre Spielberg não relevava questões mais estimulantes? Positif ou Cahiers, não dava relevo a duas formas diferentes, mas positivas e construtivas, de enquadrar o cinema? Keaton ou Chaplin, não obrigava a um olhar mais profundo e mais constante às obra de dois génios?


O declinio da cinéfilia vê-se nas questões que se colocam. Mas este é também sintoma de outra coisa. Se as questões que acima coloco são passadas, fruto de outras lutas e questões - e são - então estamos perante o desaparecimento de formas de dicussão e de conceitos que, com resultados muito positivos, estão na base do que foi o cinema nos últimos 50 anos. A mudança de paradigma parece-me, então, deveria estar na base de uma guerra cultural, acerca daquilo que será o cinema nos próximos 50 anos - mero entretenimento? arte? relíquia defendida pela "corporação dos críticos"? O cinema mudou sempre com os tempos e assim continuará a ser. Mas não neste sentido, pondo obras-primas ao mesmo nível que o esterco ou discutindo o esterco ad infinitum, espero. Se isto é conservador/reaccionário, seja. Há que escolher as alturas em que se é conservador/reaccionário.


Uma guerra, cultural ou não, não se ganha sem violência. Acho positivo o lado pedagógico que João Lopes coloca nestas discussões, mas não me sinto tocado por ele. Para mim, não vejo sangue suficiente nesta luta. Nem na guelra, nem derramado pelo chão. Gostaria que houvesse e que Slumdog Millionaire fosse a sua primeira vítima. Como? Sendo reduzido à merda que é ou, numa outra hipótese, olimpicamente ignorado por quem ainda se interessa por cinema.

27 janeiro 2009

Sonho de dois meses de Verão


Vicky Cristina Barcelona pouco faz para tirar o cinema de Woody Allen da queda que há muito se iniciou – e será interessante saber onde terá começado esta queda; eu aposto em Celebrity (1998). E, ao mesmo tempo, e um filme bastante satisfatório. Explicando:

Há aspectos verdadeiramente irritantes neste filme. O principal é a maneira como Barcelona e mostrada, turisticamente, estereotipada de modo a que o que sobra seja Gaudi e os guitarristas de cabelo comprido e barba. Não há paisagem que não pareça retirada de um guia e que ressoe como um espaço próprio, onde milhões de pessoas vivam, de uma maneira ou de outra, durante o dia. Nesse aspecto, e perante a necessidade de locais que sirvam de âncora, de algo reconhecível no universo alleniano, existem as habituais cenas nos restaurantes e estes não parecem muito diferentes dos encontrados noutros filmes do cineasta.

O outro aspecto irritante e o tratamento estereotipado dado aos espanhóis neste filme, desde o velho poeta amante de mulheres ao filho pintor amante da vida e de mulheres (há duvidas de que Javier Bradem e um grandessíssimo actor?), passando pela tresloucada ex-esposa do pintor, amante de algazarra e também, ocasionalmente, de mulheres (enorme Penélope Cruz, a prova de que trabalhar regularmente com Almodóvar faz bem). Não há esforço para compreender a latinidade, há apenas uma faca afiada e um alguidar largo que sobrevive a custa de dois dos melhores actores da Europa actual – e do momento em que Cruz, finda a relação a três, desata a chorar.

E no fundo, por irritante que seja, faz sentido que não haja esforço de compreensão do circundante nesta história de duas amigas, temperamentalmente diferentes, que embarcam em toda uma serie de aventuras num verão na Catalunha. Afinal de contas, o paradigma do turismo não é o de conhecimento de um local, mas o de reconhecimento. A dada altura, Vicky Cristina Barcelona é muito menos um filme sobre umas férias e muito mais um filme sobre como as limitações pessoais (a incapacidade de expressão artística e de realização sentimental de Cristina) ou as escolhas passadas (a sede de compromisso de Vicky, que acaba por a conduzir a um casamento condenado) seguem as personagens para onde estas vão, podem ser combatidas pela mudança de circunstâncias mas, no limite, acabam sempre por vencer.

Vicky Cristina Barcelona é um filme triste mas doce, infeliz mas engraçado, derrotado mas vivo. Fala-se de Chekov (e não podia deixar de ser),mas poder-se-ia falar doutro brilhante filme fútil de Allen, o belíssimo Everyone Says I Love You (1996). Na nostalgia do dourado Verão ibérico, o que vemos é um velhote fascinado com a eterna marivaudage dos jovens, com ternura, sem julgamentos de valor. E por isso, Vicky Cristina Barcelona, que poderia ser um dos contos morais de Rohmer se não fosse deliciosamente amoral.
Reitero: amplamente satisfatório.

25 janeiro 2009

Líbano, 1982



Se a arte é o local da ambiguidade (e muito boa gente diz que sim), Waltz with Bashir é um dos mais interessantes objectos dos últimos tempos.

Neste pesadelo soberbamente animado, documentário pessoal mas distanciado e até onírico, acerca das mazelas que perduram dos massacres de Sabra e Chatila, no Líbano em 1982 que vitimaram 3 mil palestinianos, mostram-se duas visões distintas e pouco vistas das tropas de David. A primeira, já de si basto interessante por quase nunca ser mostrada, é a de um conjunto de ex-soldados longe dos super-homens que as Forças Armadas de Israel querem mostrar ao público. No seu périplo para saber o que terá visto e feito no Líbano, o cineasta Ari Folmam encontra alguns dos seus colegas de exército, forçados a perder a inocência numa invasão de um país soberano que foi o serviço militar obrigatório que lhes calhou. O que vemos é a ideia de uma geração forçada a perder parte importante da sua juventude não por motivos de patriotismo mas por decisão estatal, o que redundou num sonambulismo omnipresente, que a animação sublinha por intermédio da perda de realismo e numa diáspora de alguns desses soldados, que preferiram fazer a sua vida fora das convulsões (ou invasões, como lhe quiserem chamar) do Médio Oriente. Há uma ideia de “geração perdida” a perpassar por Waltz with Bashir que não é nada habitual de se ver quando se fala de Israel.

A ambiguidade explode, contudo, na segunda metade do filme, aquela que recria e revela a participação do realizador nos referidos massacres, e onde, pela primeira vez num objecto visto por mim, existe um claro e inusitado exemplo de má consciência israelita. Pela enésima vez, como em todos os massacres, são repetidos os célebres argumentos de desconhecimento perante a barbárie, colocando dolorosamente o caso israelita numa longa linhagem de genocídios. É um facto que o exército sabia e que os soldados estavam inclusivamente a iluminar a noite libanesa para dar aos falangistas a segurança necessária na condução das mortes – mesmo se cada unidade só soubesse parte, sendo a cúpula militar (e o então ministro da Defesa, Ariel Sharon) quem tivesse a totalidade dos factos. O massacre poderia ter sido evitado e não são desculpa a falta de conhecimento, a amnésia, o sonambulismo ou os pesadelos, por muito que deles sofram aqueles que outrora mais não eram que putos assustados a lutar no estrangeiro. É como diz a personagem de Mathieu Kassovitz no Munique de Spielberg: dois mil anos de perseguição não tornam um país decente. Waltz with Bashir sabe-o e afirma-o por diversas vezes.

Nas suas fantasmagóricas imagens, do pesadelos dos 26 cães que o abre à recriação do que se passou nos campos de refugiados, passando pelo genial momento da viagem de um dos soldados no corpo de uma mulher gigante, Waltz with Bashir é um filme assustador. Pela capacidade de matar de quem parece inocente, por aquilo que se faz por uma pátria, por cicatrizes que não desaparecerão nunca. Poderia ser doutra maneira?

11 janeiro 2009

Sumaríssimos (1)


Austrália é o primeiro filme medíocre de Baz Luhrman. A meio termo entre a irrisão (no início) e uma seriedade forçada na parte final, é um filme que padece de credibilidade quer no seu classicismo, quer nos momentos em que tenta trabalhar sobre os códigos, como quem não sabe muito bem o que está a fazer. As soluções encontradas são sempre o sentido de insuflar, insuflar, misturar a martelo western com filme de guerra e conto sobre uma viagem iniciática de um jovem mestiço aborígene, criando um caldo indigesto, onde os pedaços parecem não ter sido devidamente triturados num todo coerente. Não chateia muito, mas também é completamente desnecessário.

08 janeiro 2009

E agora?

Um pequeno aviso à navegação Estou pouco interessado em polémicas. Tenho o jantar para fazer e a loiça para lavar e não tenho tempo. Comentários serão sempre bem-vindos, mas poupem-me a chatices.
Não poderia, contudo, esquecer a saída de Benard da Costa da Cinemateca Portuguesa. Recordar polemicas antigas é-me indiferente. Queria apenas fazer dois pequenos reparos:

1) A programação da Cinemateca de Benard da Costa não baixou jamais de um patamar de qualidade inegável. As pessoas que se queixam de filmes e cineastas com lugar cativo provavelmente viram tudo. Eu, que não vi todos os Rays, Langs, Cukors, Vidors ou Sirks e que nunca vi nenhum De Toth, Dmytryk ou Borzage (estou a trabalhar para isso), agradeci sempre. Como agradeci as repetições, dado que nunca lá pude ir sempre que desejava. Perante isto, que a Cinemateca nao exiba o último documentarista lituano da moda, ou, como queria APV, não se renda ao mainstream (toda a gente sabe que os sitios com filmes mainstream são poucos e era preciso a Cinemateca fazer esse trabalho…) pouco me importa. Havia sempre muito que ver em cada programação mensal.

2) Nos últimos dois anos, Benard fez duas coisas que, a mim, me desagradaram brutalmente: a primeira, a nomeação do filho para um cargo importante – nomeação essa que nem trouxe muita polémica, se calhar porque muitos que o criticaram por causa da idade também precisam dos pais para subirem na vida, e calaram-se por uma questão de coerência. A segunda, a nomeação de Pedro Mexia, manifestamente pouco preparado para o cargo – acham normal que o sub-director da Cinemateca assuma no seu blogue que só recentemente viu filmes como The Killers, Deserto Rosso ou The Bad and The Beautiful? Contudo, muito boa gente falou de “lufada de ar fresco"...

Agora, não sei o que vai acontecer. O mais provável é que fique lá Pedro Mexia e a qualidade do que é mostrado e do que é escrito decresça e muito – a não ser que este saiba delegar nas pessoas sábias e experientes que ainda lá vão trabalhando. Bottom line: não estou muito esperançoso acerca disto. E ainda estaria pior se tivesse tempo para ir a Cinemateca mais do que uma vez de dois em dois meses.

04 janeiro 2009

30 dezembro 2008

Bom 2009

Melhores de 2008

1. Hunger de Steve McQueen
2. La Frontière de l`aube de Philippe Garrel
3. La Graine et le Mulet de Abdel Kechiche
4. Darjeeling Limited de Wes Anderson
5. There Will Be Blood de P.T. Anderson
6. Before the Devil Knows You`re Dead de Sidney Lumet
7. Coeurs de Alain Resnais
8. We Own the Night de James Gray
9. Les Amours d`Astrée et de Céladon de Eric Rohmer
10. Aquele Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes

28 dezembro 2008

Discos (ordem alfabética)

Cut Copy - In Ghost Colours
Death Cab for Cutie - Narrow Stairs
Last Shadow Puppets - Age of the Understatement
MGMT - Oracular Spectacular
Portishead - Third
Robert Forster - The Evangelist
Santogold - Santogold
The Hold Steady - Stay Positive
The Kills - Midnight Boom
Tindersticks - The Hungry Saw
TV on the Radio - Dear Science

É capaz de ter havido mais (fora o que está por ouvir, Fleet Foxes e Bon Iver, por exemplo). Assim de repente, lembro-me destes. Post sujeito a actualização.

11 dezembro 2008

Largas bestas têm cem anos

11.12.2008 - 11h16 - Anónimo, Algés
Não faço ideia, mas creio não existirem cinco cineastas vivos que tenham dado tanta despesa aos contribuintes quanto Manoel de Oliveira. O próprio nome Manoel, em vez de Manuel, é uma piroseira, que se aceita no caso de ser nome de família. Ainda por cima fizeram-lhe uma casa-museu que este artista deixou ao abandono.

11.12.2008 - 13h06 - SVC, Maia
O sr. Oliveira só seria bom se tivesse nascido aí no estuário do Tejo? Como não foi o caso, e ainda teve o atrevimento de vir nascer á província (entenda-se o Porto segundo a perspectiva do estuário do Tejo) nem a Ingmar Bergman pode ser comparado. Quanto a subsídios a outros cineastas - seria bom saber quantos foram contemplados e que fossem do Porto. Aiai o centralismo deste país...

11.12.2008 - 13h14 - Anónimo
Se ele é tão bom, por que é que nunca ganhou nenhum prémio, com excepção daqueles especiais de carreira, do juri... do raio que o parta! A verdade é que a maioria dos filmes são aborrecidos, e por isso são louvados pelos supostos intelectuais...


Estes três comentários estão disponíveis na notícia do Público dedicada ao centenário de Manoel de Oliveira. E explicam perfeitamente por que não lhe vou fazer homenagem nenhuma hoje. Exceptuando o comentário do meio, mera baboseira bairrista mais interessante pela estupidez, os outros dois resumem muito daquilo que a opinião pública pensa de Oliveira. Pessoalmente, acho que quem quer homenagear um cineasta destes deve faze-lo sempre que possível. Quanto aos outros, deviam perceber que não é o pais que não merece Oliveira e os seus “encargos”: Oliveira é que, depois de cem anos, merece mais do que aturar bardamerdas.

08 dezembro 2008

A Fronteira do Amanhecer


Se Paulo Branco se esqueceu (ocupado com a perspectiva de mudar o cinema para o casino?) de programar nas suas salas Ne Touchez Pas la Hache, um dos grandes filmes da década, preferindo lançá-lo directamente em dvd, ao menos ainda nos vai fazendo uns favores de vez em quando. Presentemente, nos cinemas Medeia, estão em exibição a introdução de muito boa gente – eu incluído - ao cinema de Jerzy Skolimowski e o magnífico Hunger de Steve McQueen. Contudo, o mais importante de tudo é que se encontra também em exibição La Frontiere de L’Aube, o novo filme de Philippe Garrel. E temos de agradecer por isso.

Também teremos de agradecer a Louis Garrel. Podemos nem todos o achar um grande actor (e eu até o acho, juntamente com Benoit Magimel e Romain Duris, do melhor que aconteceu nos últimos anos ao cinema francês), mas o facto de se ter tornado um actor de renome, com Os Sonhadores e com os filmes de Christophe Honoré possibilitou ao pai, pela sua constante participação, o financiamento para dois belíssimos filmes (este e o anterior Les Amants Reguliers). Enquanto os produtores pensam nas meninas que vão ao cinema pelo Garrel Jr, não estragam o filme que vemos no ecrã. Duvido que Garrel Sr estivesse a filmar com esta liberdade e com esta regularidade se não tivesse um filho famoso.
Como também duvido que Garrel tivesse assunto para filmar em tão pouco tempo não tivesse havido uma projecção de si mesmo, um corpo e um rosto onde se sentisse suficientemente confortável para expor não apenas o recontar da sua juventude (Les Amants Reguliers), mas também uma poesia amorosa única nos tempos que correm, ridícula se não feita com a maior seriedade e com a maior crença em si mesma. Garrel filho libertou Garrel pai de todas as maneiras e merece ser recompensado com um agradecimento.

E temos igualmente que agradecer a Philippe Garrel por filmar tão bem. O seu filme, história de um casal que a loucura vem separar primeiro e reunir depois, é um portento de luz e sombra, de brancos muito brilhantes e de negros escuríssimos, de texturas imensas que apenas múltiplas visões conseguirão deslindar. O francês controla na perfeição todos os seus recursos e os seus filmes parecem sempre simples, quase académicos, tal a simplicidade de métodos por ele utilizados – é de saudar não apenas os múltiplos fechos de íris que aproximam o filme da época do mudo, como também a sequência do pesadelo de François, em que a floresta inicial parece a de Hansel e Gretel filmada por Murnau. O que vemos, no fundo, é a velha coexistência entre uma razão e uma acção, um pensamento e um método, uma ética e uma estética. Perante uma confiança tamanha no seu projecto, a prática só pode dar essa ideia de facilidade.
Mais difícil é faze-lo quando se trabalha num filme tão imaterial quanto La Frontiere de l’Aube. Toda esta genial obra se foca na cabeça e no coração destas personagens, na perigosa linha onde sentimentos e ideias se encontram. O que acontece a cada imagem de Garrel (com especial destaque para os momentos de Laura Smet no chão, a mais bela depressão cinematográfica desde a de Liv Ullman no Face a Face de Bergman), capaz de mostrar o visível e o invisível. Chamaram-lhe poético. Se isso é o nome dado a quem transcende o limite do que é mostrado, a quem capta para lá do enquadramento, Garrel é-o definitivamente. Um sincero obrigado por isso é do mais elementar rigor.

E, no fundo, para que serve o parágrafo anterior? Para nada, se tivermos em conta em conta que o grande mérito de La Frontière de L’Aube é o de dar sempre a sensação de ter mais e mais mundos a descobrir e, simultaneamente, sabermos que nunca se abrirá em toda a sua profundidade para nós. A exegese é inútil. Filmes como este não se explicam; agradecem-se.

07 dezembro 2008

Notas da 'teca (5)


The Tarnished Angels (1958) partilha alguns pontos com o grosso da obra norte-americana de Douglas Sirk. Num aspecto, no trio central, que repete o de Written in the Wind– os inefaveis Robert Stack, Dorothy Malone e Rock Hudson, este ultimo, como de costume, o elemento estranho a uma situação que tenta trazer com ele um novo padrão moral, falhando quase sempre na tarefa. Noutro, é um filme que se joga, mais uma vez, no âmbito do “melodrama social” (a designação é muito discutível, daí as aspas), procurando uma marcada tendência económica e um óbvio contexto temporal onde situar os sentimentos.

Inversamente, as mudanças são suficientes para tornar este um dos mais esdrúxulos filmes de Sirk nos EUA. O presente da acção não é os anos de Eisenhower, mas a época da Grande Depressão. Semelhante mudança provoca desde já uma alteração e termos dos caracteres tratados, que longe de serem os ricos são o proletariado quase “lumpen” que arrisca a vida em espectáculos aéreos pelo rendimento essencial à sobrevivência. Este é, então, um filme tão emocional quanto Imitation of Life (1959) ou All that Heaven Allows (1956), mas que aposta num erotismo e numa violência (ver, respectivamente, a queda de pára-quedas onde o vento levanta as saias de Dorothy Malone a níveis muito inesperados e a brutal cena em que, através de dados desenhados em cubos de açúcar, Stack disputa com o ajudante o casamento com Malone) dando um aspecto mais cru e cortante que o habitual. Finalmente, duas mudanças técnicas acompanham as mudanças tematico-sociais: o preto-e-branco, que em muito contribui para que se creia no horizonte temporal do filme (onde a reconstituição de época é feita com muita simplicidade e com poucos meios), e um prodigioso uso do scope, de uma racionalidade perfeita e de uma profundidade de campo notável, sobretudo nas prodigiosas cenas de corrida aérea.

Filme de morte como poucos na carreira do alemão e que Sirk terá feito como complemento ao vício e decadência retratados em Written in the Wind, é mostra de algo extraordinário: um cineasta que consegue interromper o seu tecido contínuo, não perdendo por um momento o domínio da sua arte. Se por mais nada (e há aqui muito mais), The Tarnished Angels é uma obra-prima que demonstra cabalmente a versatilidade do seu autor.

17 novembro 2008

Bater no ceguinho


Ensaio sobre a Cegueira (1995) é, para o bem e para o mal, um dos mais, senão o mais importante livro de José Saramago. Para o bem, pela força de uma distopia, apocalíptica pela ausência de civilização que se gera, abruptamente, da perda de uma das mais elementares funções biológicas. E, não esquecer, pela capacidade do seu autor em fomentar de forma ampla e loquaz o medo no leitor, seja da animalidade humana, seja da máquina de repressão estatal, que nunca perde oportunidade de impressionar os seus cidadãos quando surge algo que a ponha em causa. Para o mal porque, com ele, Saramago parece ter atingido algo como uma fórmula (o acontecimento inverosímil que põe em causa as estruturas civilizacionais), longe da liberdade patente, por exemplo, no sublime Levantado do Chão (1980). Por exemplo, o Ensaio sobre a Lucidez (2004) segue o mesmo método – até no título – mas de forma muito menos interessante. Vamos ver se o recém-editado livro do paquiderme é diferente….

Ancorado no merecido sucesso internacional que até aqui teve, Fernando Meirelles adapta então, 13 anos, um Nobel e uma pneumonia quase mortal depois, a obra charneira de Saramago. E fá-lo mal.

Em primeiro lugar, porque confunde, do ponto de vista da adaptação literária, a truculência virtuosa da prosa do Nobel (desculpem a repetição, é para chatear críticos literários de direita…) com uma deriva maneirista em que o cinema de Meirelles, correndo sempre esse risco, ainda não havia entrado em Cidade de Deus (2002) ou The Constant Gardner (2005). Desde a “metalização” cromática da imagem, tornando-a asséptica, o que “desrealiza” o que estamos a ver e torna menos eficaz a alegoria, até ao imensamente irritante “fade to white” (sem qualquer comparação com o efeito conseguido com os vermelhos de Bergman em Cries and Whispers, 1972), tudo parece ser uma obrigação cinematográfica de Meirelles face ao livro, uma tentativa de mostrar que, se o material de origem é bom, também o cineasta o é. E, pelo menos aqui, não é esse o caso.

E, segundo factor, não parece haver nada neste filme que não deva algo a Saramago, que tenha sido ideia do realizador (por exemplo, o fabuloso momento de Danny Glover a pensar se o regresso da visão lhe vai acabar com o amor é claramente romanesco), que o cineasta tenha juntado à obra do Nobel (embrulhem!). A estrutura do filme é demasiado fiel, contentando-se em resumir a contento o livro, numa espécie de “Caderno Europa-América” visual do que é o romance. E este é muito mais do que isto.

Ainda não foi desta que se viu um bom Saramago no ecrã – e nem me perguntem pela adaptação de A Jangada de Pedra (1986) por um qualquer holandês voador, que nem quero saber. Que no futuro haja um cineasta português, mais conhecedor do contexto em que surgem estas ideias, que adapte dignamente um romance do Nobel português (dói, não dói?). Candidatos a adaptação? O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984).

30 outubro 2008

Demasiada areia


A comédia foi, para mim, o ponto onde a obra dos Coen perdeu o interesse. Arizona Junior (1987) é uma boa comédia, é certo, mercê muito da fabulosa sequência da perseguição a Nicholas Cage; Hudsucker Proxy (1994) já é mais fraco enquanto comédia (e melhor enquanto emulação do sonho cinematográfico capriano); O Brother, Were Art Thou (2000) só não envergonha Homero pelas dúvidas que alguns têm de que o mais famoso invisual grego tenha existido; e quer Intolerable Cruelty (2003) quer The Ladykillers (2004) não me mereceram uma ida ao cinema. Porém, o que este muito razoável Burn After Reading , depois do excelente No Country for Old Men (2007) vem provar é que os Coen podem ter entrado numa fase em que, mesmo não fazendo grandes filmes, não desmerecem o tempo com eles gasto.

Burn After Reading pega, de forma hábil, numa das qualidades maiores dos Coen: a capacidade de sobrepor o riso às situações aparentemente mais negras. Tratando, como habitualmente, a perseguição de sonhos de riqueza e de felicidade por parte de personagens inábeis, os irmãos urdem uma teia de crises de meia-idade às vezes caricatural, às vezes hilariante, ainda outras vezes triste, que sustenta o filme e prende o interesse. A evolução de Burn After Reading, numa progressiva explosão de violência, adensa a narrativa com uma progressiva seriedade em tudo diferente da parvoíce do filme helénico-sulista. Por outras palavras, o que todas estas personagens fazem é, de uma maneira dura e sangrenta, perceber qual a quantidade de areia que excede a capacidade da sua camioneta. A comédia é aqui tratada como uma coisa séria, com o seu muito respeitável quê de Billy Wilder.

O ano de 2008 não está a ser bom para os Coen apenas por Óscares e quejandos. As regalias são sintoma de algo maior: o regresso da credibilidade a este cinema. Que Burn After Reading não seja o fim desse processo.

29 outubro 2008

Revisão da Matéria Dada - IV

1. A Solidão Um injustiçado filme, pelas vezes que tem sido referido somente enquanto contraponto a Almodóvar. Triste, sonâmbulo e propositadamente hermético, pega na história de várias personagens e das suas vidas desesperadas, cruzando-as num tecido sólido e coerente. Nos seus ecrãs divididos e no seu abrangente scope, é um gigantesco filme acerca das merdas que nos vão acontecendo. Pouco há a dizer sobre ele, mas há e haverá, em futuras visões, muito que ver.

2. Gomorra O realismo devia ser sempre isto, vibrante, fervente, emocionante, sempre em constante movimento. Mais retrato que narrativa, este mosaico à volta da máfia napolitana mostra com pujança, com estilo e com uma “neutralidade” bem conseguida acontecimentos que, no limite, dão a sensação de estarem a acontecer à nossa frente. Destaque especial para tudo aquilo que nele há de mediterrânico: a capacidade de desenrascanço (os miúdos trazidos para conduzir os camiões do lixo), os putos vivazes (os dois que, inspirados pela iconografia cinematográfica da máfia, sonham em dominar a Camorra) e a maneira como a música, mais do que evocar os sentimentos, fabrica por si só a alegria e o escapismo. Belíssimo.

3. Tropic Thunder Quando vi o trailer, pensei ingenuamente: “Será que ao fim de três-quinze anos, Hollywood voltou a fazer uma boa comédia?” A realidade, contudo, derrotou a boa vontade nestas duas horas onde, por falta de moderação na gestão temporal (gags muito longos) e narrativa (é um filme que, sendo sempre bastante canhestro, se desconjunta à medida que avança), se transforma em algo francamente mau. O problema de Stiller não é ter más ideias – já Cable Guy estava cheio de momentos francamente interessantes. O problema de Stiller é achar que basta por uma câmara á frente de meia dúzia de palermices para se fazer um filme.

16 outubro 2008

O vento levá-los-à


Logo no início em "flash forward" onde o ébrio Robert Stack se suicida debaixo dos ouvidos de uma mulher doente (óptima Lauren Bacall) e de um amigo alheado (Rock Hudson, sempre um poço de dignidade) se pressente a diferença face a filmes anteriores (o idílio suburbano de All That Heaven Allows, 1955) ou posteriores (a pobreza beatífica de Imitation of Life, 1959). Se, naqueles filmes, a ilusão só posteriormente era dinamitada, aqui é destruída logo no genérico, impossibilitando que tempos vistos em "flashback" – o único presente da narrativa é a meia hora final – seja cem por cento credível. Dois outros aspectos o confirmam: o cenário industrial quase pós-apocalíptico por onde as personagens passam variadas vezes e a propensão para o vício e a doença, num tom quase naturalista. As próprias cores dispensam o rosa-choque e ficam-se por um sóbrio tom sépia.

Este conto de destruição de uma família podre de rica à conta do ouro negro, gente que tem tudo para ser feliz mas nunca o consegue, faz-se até de forma relativamente mais simples do que muito do que a rodeia. Longe da maior profundidade de outros filmes, a progressão narrativa é aqui linear e veloz e a estrutura simples, como o trajecto do carro que Stack conduz no início. Tudo gira à volta dos dois elementos exteriores que, em duas alturas diferentes, entram na família. Hudson, irmão de Stack e objecto de desejo da irmã deste, Dorothy Malone, e Lauren Bacall, esposa de Stack e enfatuação de Hudson, não são, como começa por parecer, a trave-mestra que segura este mundo. Tudo já começou a ruir há muito (fala-se no estroina tio de Stack) e ambos acabam por ser mais catalisador do que impedimento. Não por acaso, como num assumir do falhanço, há uma ambiguidade final quando Hudson e Bacall entram no carro para partir sabe-se lá para onde, como se salvarem-se um ou outro seja o substituto possível da salvação da família ou, pior ainda! até uma vitória.

Ousando uma visão mais ampla sobre a célebre e onanista cena final, com Dorothy Malone a acariciar a miniatura da torre petrolífera (de uma maneira que ou deixa muitas dúvidas ou não deixa dúvidas nenhumas…), e se esta fosse o explanar da posição de Sirk ao longo da sua carreira americana? Como Dorothy Malone, que tudo fez para destruir a sua família, também Sirk tudo fez para destruir esta ideia de felicidade social, pura má consciência. Como Malone, também Douglas Sirk parece chorar quando o consegue. A tristeza dos vencedores é algo de tramado.

06 outubro 2008

LEGEND ... wait for it... DARY!


A minha semana tem, ultimamente, um ponto alto: o domingo à noite. Paradoxal? Talvez, tendo em conta a profunda depressão que se instala em mim como nos outros pelo facto de ter de ir trabalhar no dia a seguir. Acontece que, pelas 22h15m, tudo me é indiferente: as quedas da bolsa e será que o Benfica vai manter a boa forma dos dois últimos jogos e porque é que o tabaco não custa 25 cêntimos o maço e mais uma semana que passou e não escrevi nada de jeito aqui no blogue e quando ligo a televisão só vejo o Sócrates e o Cavaco e gajas de mamas postiças no horário nobre da TVI que agora até tem o Vasco Pulido Valente que vai dar ao mesmo enquanto me lembro do gajo que disse em pleno autocarro que “o novo filme do Sidney Lumête [sic] se chama Enquanto o Diabo esfrega o olho”.

A razão é uma prodigiosa série chamada How I met your mother, que começa à referida hora e ao dia marcado na Fox Life. Juntando o melhor de Cheers (o conceito de Happy Hour, as terapêuticas cervejas emborcadas para esquecer num sítio sempre igual, portador de conforto e estrutura – duas coisas que não podiam estar mais longe da rotina) e Seinfeld (a exploração e teorização maníaca, quase psicótica, tanto sobre os aspectos mais insignificantes do quotidiano quanto das relações humana, no seu lado mais ritualizado e “cultural” – postura que poderá ser atribuída a também esta série se passar em Nova Iorque) é, excelente ideia!, a história de um pai que resolve contar aos seus filhos, em 2030, como conheceu a sua mãe. Felizmente, o foco não é, pelo menos por enquanto, a relação entre mãe e pai, mas tudo o que se passa antes, no presente do espectador: casais ocasionais, paranóias colectivas, apostas resolvidas à chapada, e o Barney, porra, o Barney.





E que achados são estas personagens! Ted, tão normal e sempre metido em sarilhos; Robin, fechada, frígida e com um medo brutal do compromisso; Lily e Marshal (respectivamente Allyson Hannigan, de Buffy the Vampire Slayer e Jason Segel de outra série cá do panteão, a memorável mas esquecida Freaks and Geeks), os mais inocentes, mais puros do grupo, casal desde que se conhecem, pêndulo para os demais. E depois há Barney. "White trash", convencido de que é "bon-vivant", a um tempo completamente lúcido e absurdo, dava uma série sozinho.

Nada disto, por si só, faz uma boa série e, inclusivamente, já o vimos em muitas outras sitcoms. O que faz desta série notável a todos os títulos é que o seu dispositivo em constante flashback (e as piadas que daí advêm, como o facto de os charros consumidos na faculdade serem substituídos, na moral da história contada aos filhos, por sanduíches) possibilita uma doce e diáfana nostalgia por um tempo em que tudo era possivel, em que cada dia era passível de aventuras que acabavam connosco estatelados no chão mas com a capacidade de nos levantarmos e de seguirmos em frente, a começar por um passeio até ao bar da esquina para irmos ter com os nossos amigos e saborear uma fresquinha. Nunca acreditei que a vida fosse este mar de possibilidades – nem quando tinha dezasseis anos, muito menos hoje, oito horas por dia fechado numa companhia de seguros. A única altura em que acredito é aos domingos, na Fox Life, às 22h15m.




07 setembro 2008

Suicide is painless


M.A.S.H. (1970) parece, a uma vista desarmada, não ser feito com outro intuito que não o de provocar. Numa época em que Scorsese queria mostrar de onde vinha, Friedkin e Bogdanovich estavam convencidos de que eram os melhores (nunca foram), Coppola era o maior e Lucas e Spielberg sonhavam com o primeiro de muitos milhões, Altman passava para o ecrã a sua persona de forma tão (mais?) eficaz que os outros. Mulherengo e alcoólico, filmava fascinantes mulherengos e alcoólicos; sem respeito por grande coisa, mostrava gente que não respeitava muito; com vontade de implementar o caos formalmente libertário, filmava com sobreposição de diálogos, desfocagens, mostrando um hospital militar como um terreno líquido, onde o sangue, o sexo, o martini e a lama são as mais constantes realidades. M.A.S.H. é uma enorme confusão, estilhaçado em hilariantes episódios (destaque para a última ceia do dentista impotente ou para o dopping invertido no jogo de futebol americano), onde parece que tudo se sucede velozmente sempre em vista do mesmo fim: a liberdade.

No meio disto tudo, Altman nunca nos deixa esquecer onde Hawkeye, Trapper, Duke, Hot Lips, Frank Burns e Radar (Gary Burghoff, o único actor que viria a transitar com a mesma personagem para a não menos excelente série de televisão) estão. Se há perdão (quer no sentido divino quer no de César, na pessoa do Coronel Burke) para as tropelias que estes cirurgiões fazem a tudo e todas que lhes aparecem à frente, tal deve-se não apenas ao facto de bons cirurgiões serem difíceis de encontrar, mas também à noção de que pouco depois de as fazerem terão as mãos nas tripas de um qualquer jovem do Utah ou do Illinois. Tanto quanto de escapismo, há um desejo de paz a perpassar este enorme filme. É isso que o torna grande.

Revisão da Matéria Dada - III

1. Les Amours d’Astrée et de Celadon. O que impressiona mais neste novo e magnífico filme de Eric Rohmer é o quanto a sua forma materializa a clareza de pensamento do seu autor. Onde esse pensamento é lógico, cartesiano, racional e perfeito, também o filme é perfeito, evidente, equilibrado, sem grande imaginação visual mas tremendamente coerente nos seus moldes. Com grandes filmes de Rohmer, Resnais, Rivette e do jovem Kechiche (para não falar de filmes já terminados de Garrel e Carax), podemos agradecer aos franceses muito do bom cinema de 2008.

2. Wall-E. Não há estúdio como a Pixar; quem já lhes tiver visto um filme mau que atire a primeira pedra. Wall-E é soberbo na sua primeira parte, razoavelmente “muda”, em que o patusco robot limpador de lixo desempenha, num tom mimoso, as suas tarefas e se enamora de uma semelhante. Na nave espacial, o tom é menos interessante, e a mensagem (de necessário pendor ecologista), sobrepõe-se um pouco à estética. Não nos enganemos, porém: o que aqui está é cinema de grande calibre, de técnica perfeita e de óptima respiração temporal. Não chega ao nível de Cars, mas isso pouco importa; enquanto dura é envolvente, belo e exemplar.

3. The Hottest State. Saco de porrada para muito boa gente, o filme de Ethan Hawke tem poucas qualidades que suplantam os seus largos defeitos. Hawke não tem grande olhar de cineasta, o seu filme é de ritmo flutuante e até a própria montagem é questionável. No entanto, este filme tem gente lá dentro, tem actores soberbos e disponíveis (Mark Webber e Catalina Sandino Moreno, para além da soberba Laura Linney) e tem um conjunto de frases notáveis que fazem pensar seriamente em ler o livro. Se há algo de notoriamente artificial em tudo isto, há também algo de sério, de humano, de nervo á flor da pele. Visto por esse prisma, merece tudo.

24 agosto 2008

Fora isso, nada com que te preocupares (2)

Your whole life, people are gonna ask you to be weak. They're gonna practically beg you. But all anyone really wants is for you to be strong.

idem

Fora isso, nada com que te preocupares

A lot of bad shit is gonna happen to you. People are not gonna love you back, and if you're serious about becoming an artist, that's the first thing you should learn. And, listen, you're gonna die, okay? Relatively soon, okay? So, that being said, you have nothing to worry about.
uma tocante Laura Linney em The Hottest State (2006)

TVI, Sexta-Feira, 22:00


Nos meus tempos de escola preparatória, quando o Benfica jogava pessimamente (é incrível ver o quanto isto mudou – ou não…), a minha vida era simples. Como não podia esperar pelo fim-de-semana para ver Clóvis, Paulão, Nelo ou Akwa, sob risco de enlouquecer com as más exibições, o ponto alto da minha semana eram as aventuras de Mulder e Scully. Não me interessavam notas escolares (a minha principal motivação para as manter boas era não ouvir da minha mãe), aquecimento global (anos 90 bem medidos, ninguém queria saber) ou a recessão. Queria apenas saber se a irmã de Mulder ia ser encontrada, perceber até que ponto se podia confiar em Walter Skinner ou tremer de medo com o Cigarette-Smoking Man. Até ao momento, foi a mais importante relação televisiva que mantive, e das poucas coisas que, já na altura, me faziam suportar o asco da TVI.

Ao ver The X-Files: I want to believe, o que me surpreende mais é o quanto o mundo mudou. The X-Files foi, juntamente com Seinfeld, a série dos anos 90 que melhor capturou o zeitgeist. Seinfeld era a série que melhor exemplificava o fim da História de que falava Francis Fukuyama: num mundo sem grandes quezílias político-ideológicas, de prosperidade económica e onde, facto assustador, a moral desapareceu porque Deus morreu, tudo são hilariantes trivialidades. The X-Files era o seu duplo: sem a paranóia anti-vermelha, e com a aparência de que, geo-estratégicamente, tudo estava resolvido, olhava-se, a um tempo, totalmente para fora e totalmente para dentro. Fox Mulder, no fundo, é isso: alguém que se enterra no estratosférico e, de caminho, olha para si mesmo e nunca gosta do que vê. Simultaneamente, a América que já não tinha ameaças exteriores tratava de as encontrar no seu próprio território.

Entrando no cliché, esta visão serviu também para perceber o que mudei: aquilo que me fascinava há 15 anos, hoje não me convence. O problema reside em saber se isso é apenas do filme, banal e esquemático, ou se conseguirei rever a série com o mesmo fascínio da minha meninice. Palpita-me que não.

27 julho 2008

Why so serious?


Resumo de The Dark Knight: um filme de merda, o desempenho de uma vida.

Expliquem-me...

...por favor, o que é um filme ser bom dentro do género.

Oiço isto desde criança e, infelizmente, com cada vez mais frequência. Percebo a ideia de ser um filme ser um bom swashbuckler, um bom noir, um bom gidai geki ou um bom western. Já a ideia de que um filme é na generalidade fraco mas, dentro do género, até é bom, escapa-me.

Numa altura em que se critica tanto (e com alguma razão) o relativismo moral, gostava que se criticasse este relativismo cinematográfico, a um tempo fruto e gerador de falta de exigência crítica.

13 julho 2008

Digo eu...

«Tropa de Elite» rebentou com a mitificação romântica dos bandidos (...)

Não está em causa o que penso de Tropa de Elite. Mas como seria a história do Cinema sem o Scarface de Hawks, o Snake Plissken de Carpenter, o ambiguíssimo Hank Quinlan de Welles ou o bando de De Niro no Heat de Michael Mann?

Cá para mim, muito menos interessante.

12 julho 2008

Optimus Alive 2008 - texto impressionista

As fotos neste post são cortesia do meu telemóvel.

Primeiras impressões

Entrada. Estacionar é muito dificil, e, quando finalmente se deu um euro a um arrumador e se arranjou um buraco para a viatura, dirigimo-nos para o festival. Um calor abrasador e uma colocação de barricadas em 3 ou 4 espaços antes da entrada derradeira. Processo de quase uma hora no total. Quando dentro do recinto, a primeira coisa que se faz é ir buscar uma jola e arranjar lugar decente para ver os Vampire Weekend.

Não gosto assim tanto do disco de estreia destes nova-iorquinos. Sobre-produzido e algo frouxo, deixa, ainda assim, antever um talento maior que o demonstrado, em temas como Cape Cod ou Oxford Coma. Ao vivo, no entanto, é outra coisa… Enérgicos, competentes e com imensos fãs à frente (vi uma pessoa ser assistida devido à pressão do muito público para a capacidade das filas da frente da tenda Metro), as suas belas canções têm enorme força, sendo um estimulo simultaneo para o salto e para o pensamento. Em crescendo, foi um momento de fruição muito boa, aperitivo perfeito para o que viria. Com o tempo, estes americanos com ar de bifes têm tudo para melhorar.

My mind’s not right ou Como me tornei um adolescente de 14 anos a tentar tocar no Matt Berninger

Momentos finais do concerto dos National, algo por que tinha esperado desde que descobri Aligator. Mr November explode nos amplificadores. Metade da canção e Matt Berninger desce do palco, pendurando-se na grade. O pessoal começa-se a esmagar e eu digo à minha namorada “Sai da frente!”. Vou a correr para a frente do palco e… ele regressa ao palco antes de lhe conseguir tocar. Falhei o objectivo, mas a corrida valeu a pena. E, depois disto, não preciso dizer quanto gostei, pois não?

E, nisto, até me esqueci de dizer que o espectaculo dos National, infelizmente, coincidiu com os MGMT no palco Metro, banda que queria imenso ver. Fica para a próxima.

Drum machines have no soul ou Esta banda mata fascistas

Conheço 319 bandas melhores que os Gogol Bordello. Não conheço nenhuma que dê um espectaculo destes, rock, raiva, entrega, transpiração e uma confusão do catano. Ao meu lado, mosh e ganza a rodos. E eu e a Sandra, encharcados em suor e cervejas alheias, que nos caíram em cima com os saltos dos outros. No palco, a apoteose. E isto, não sendo um grande momento musical, é aquilo que o palco devia instigar em todos os que fazem música. Meio bilhete foi para aqui.




Depois disto, os meus pés estavam em papa, as minhas costas doíam e entrava no emprego ás nove do dia seguinte. Ao ir-me embora, pensei que tinham sido os 45 euros mais justificados dos últimos tempos.

03 julho 2008

!Que post tan raro!

Inspirado pela visão sucessiva de vários filmes de Pedro Almodóvar (talvez o meu cineasta de cabeceira), deixo aqui, por ordem cronológica, a minha classificação dos filmes dele que vi. Sintam-se livres de participar, de 0 a 10 ou de 0 a 5.

Que fiz eu para merecer isto (7)
Matador (8)
A Lei do desejo (10)
Mulheres à beira de um ataque de nervos (10)
Ata-me! (8.5)
Kika (8.5)
A Flor do meu segredo (6.5)
Em carne viva (5.75)
Tudo sobre a minha mãe (10)
Fala com ela (8.5)
La Mala Education (7.5)
Volver (8)


[Gostava especialmente - mas não exclusivamente - de ver as notas do Daniel, do Hugo, do , do Paulo e do Tiago]

29 junho 2008

Fazedores de Auschwitz


Na caixa de comentários do post do Arrastão sobre o aumento da possibilidade de carga horária na UE para 65 horas, um energúmeno expõe-se assim:




O contexto em que está inserido não dá azo a que se pense em ironia. Sobretudo quando, logo a seguir, afirma:




É este o estado em que estamos. Habituem-se!

19 junho 2008

14 junho 2008

Desailly R.I.P.


Morreu o actor que deu corpo ao homem mais ridículo do cinema francês.

Revisão da Matéria Dada - II

1.The Happening. Shyamalan está cansado. The Happening começa bem, com algumas boas ideias visuais (a pistola que percorre um caminho de suicídio entre várias pessoas; o contra-picado dos trabalhadores da construção civil a caírem), mas cedo se transforma num objecto rotineiro, despachado o mais depressa possível. Pior, não possui qualquer densidade dramática, nem humana nem pós-11 de Setembro. Depois da religiosidade foleira de Lady in the Water (o realizador parece nunca ter visto Dreyer ou Breson), outro espalhanço.

2.Sex & the City. Duas horas e quinze minutos depois, chega-se à conclusão de que este filme não existe. É um buraco negro cinematográfico, que cospe o interesse da série num lixo inane e óbvio para consumo rápido.

3.La Graine et le Mullet. Um fantástico épico proletário sobre a vontade de ser alguém e de deixar legado, mesmo que à beira da morte. Kechciche possui um estilo maleável e fortemente realista, procurando, com os seus planos muito fechados, quase imiscuir-se na realidade daquilo que filma. Habib Boufares e Hafsia Herzi são fantásticos, a gestão do tempo é admirável (duas horas e meia que passam num ápice) e, no final, ficamos com a sensação de termos estado in loco com aquelas pessoas, produtos da descolonização e vítimas da globalização. Fantástico.

11 junho 2008

O melhor filme americano dos últimos 40 anos (III)

I've seen horrors... horrors that you've seen. But you have no right to call me a murderer. You have a right to kill me. You have a right to do that... but you have no right to judge me. It's impossible for words to describe what is necessary to those who do not know what horror means. Horror. Horror has a face... and you must make a friend of horror. Horror and moral terror are your friends. If they are not then they are enemies to be feared. They are truly enemies. I remember when I was with Special Forces. Seems a thousand centuries ago. We went into a camp to inoculate the children. We left the camp after we had inoculated the children for Polio, and this old man came running after us and he was crying. He couldn't see. We went back there and they had come and hacked off every inoculated arm. There they were in a pile. A pile of little arms. And I remember... I... I... I cried. I wept like some grandmother. I wanted to tear my teeth out. I didn't know what I wanted to do. And I want to remember it. I never want to forget it. I never want to forget. And then I realized... like I was shot... like I was shot with a diamond... a diamond bullet right through my forehead. And I thought: My God... the genius of that. The genius. The will to do that. Perfect, genuine, complete, crystalline, pure. And then I realized they were stronger than we. Because they could stand that these were not monsters. These were men... trained cadres. These men who fought with their hearts, who had families, who had children, who were filled with love... but they had the strength... the strength... to do that. If I had ten divisions of those men our troubles here would be over very quickly. You have to have men who are moral... and at the same time who are able to utilize their primordial instincts to kill without feeling... without passion... without judgment... without judgment. Because it's judgment that defeats us.

O melhor filme americano dos últimos 40 anos (II)

We train young men to drop fire on people. But their commanders won't allow them to write "fuck" on their airplanes because it's obscene!

O melhor filme americano dos últimos 40 anos (I)

I love the smell of napalm in the morning. You know, one time we had a hill bombed, for 12 hours. When it was all over, I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory. Someday this war's gonna end...

06 junho 2008

Revisão da Matéria Dada - I

1.Shine a Light. É o filme que queria ver? Não; esse seria o filme acerca da planificação da filmagem do concerto, intercalado com algumas dos melhores temas interpretadas no Beacon Theater em Nova Iorque. Mas um Scosese é sempre um Scorsese. Há aqui grandes canções (Tumbling Dice, Connection, As Tears Go By) e há Keith Richards, a quem devia ser rezada uma pequena oração, de manhã, nas escolas deste mundo. Filmado com a voracidade do costume, acaba por cumprir, mesmo que à risca, os mínimos indispensáveis.

2.My Blueberry Nights. É o fim de uma era: Wong Kar-Wai é falível. Não se percebe muito bem qual o propósito deste filme, o que ele traz de novo ou de diferente para melhor. Para pior é claro: aqueles actores (muito bons, sobretudo David Straitharn, é um facto) não se calam e não nos deixam ver o filme. Espero que o ar saturado de Hong Kong lhe volte a fazer bem no futuro (e que estreie a versão redux do Ashes of Time nas salas portuguesas).


3.La Fille Coupée en Deux. Enquanto filme sobre a moral sexual dos mais ricos, é interessante. Mas uma realização académica, como quem vai para o emprego, tira-lhe muita da sua eficácia e do seu potencial satírico. E aquele final circense… por favor…


4.Indiana Jone$ and the Kingdom of the Cri$tal $kull. Tivessem parado nos anos 80, tinham feito melhor.

Filmes do Mês - Maio de 2008

Cinema

My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai
Indiana Jones and The Kingdom of the Crystal Skull de Steven Spielberg (4)
Shine a Light de Martin Scorsese (6,5)

Casa

La Mariée Était en Noir de François Truffaut (8)
L'Enfant Sauvage de François Truffaut (7)
Anatomy of a Murder de Otto Preminger (8)

29 maio 2008

Indiegências 2008

IndieLisboa e Johnnie To confundem-se. To tem sido um cineasta representado em (creio) todas as edições do festival, fruto da sua proficuidade – média de 2/3 filmes por ano. No meu caso específico, estreei-me no IndieLisboa na primeira edição, em 2004, com um filme do chinês, o belíssimo Breaking News. Depois da exibição de outros filmes como Yesterday Once More, Exiled e Election, o certame homenageou, nesta sua quinta edição, Johnnie To com a exibição de dois dos seus filmes na secção Herói Independente.


O primeiro desses filmes, logo na noite de abertura e perante casa cheia, foi o brilhante The Mission (1986), 'western' urbano a um tempo cinético e flutuante, sobre um grupo de homens contratados para proteger um chefe do crime ameaçado por um rival. Filmado com lentes potenciadoras da profundidade de campo e com momentos de 'empate técnico' nas sequências de acção geradoras de enorme tensão dramática (e muito diferentes das de John Woo, onde dois “pistoleiros,” a poucos centímetros de distância um do outro, apontam reciprocamente armas à cabeça), é um belo exemplo de como fazer grandes e pessoalíssimos filmes de acção sem inventar o que quer que seja, reorganizando apenas os elementos de acordo com a sua voz pessoal. Aqui, To vira-se para a amizade lacónica que surge entre o grupo de homens e que os leva, em última instância, a arriscar reputação e vida em prol do mais irresponsável dos membros do grupo. O IndieLisboa começou em grande…


… mas decaiu um pouco logo de seguida. Mad Detective (2007) está uns quantos furos abaixo do filme anterior. Esta história de um ex-detective que julga poder ver a verdadeira personalidade das pessoas começa devagar, com diversos por menores que nunca são bem explicados ou assimilados pela narrativa, ancorada numa encenação pouco mais do que eficaz. Apenas no seu explosivo final, roubo/homenagem a The Lady From Shanghai (1947) de Orson Welles, assume o seu potencial. A forma de definir as personagens através da personificação da sua personalidade é especialmente bem conseguida nos casos da ex-mulher do detective e do polícia investigado, mas parece que, até ao término, o filme pouco mais tem que esse truque. Felizmente, no fim tudo se transforma numa tragédia, o que acaba por salvar Mad Detective da irrelevância a que, durante uma hora, parece estar condenado.


O grande brinde desta retrospectiva foi, no entanto, Sparrow (2008), última obra de Johnnie To e que, pelo menos à data do festival, não estava comprado para exibição em Portugal. Homenagem assumida a Les Parapluies de Cherbourg (1964), encena, numa cadência vincadamente musical, a ajuda que quatro carteiristas dão a uma 'femme fatale' que se quer livrar do senhor do crime (velho e experiente carteirista) que sempre a sustentou. Bailado fílmico mais do que filme de acção, será lembrado pela sequência na passadeira, momento de confronto entre duas gerações e dois estilos de crime, longos minutos de seguríssima coreografia de qualquer coisa como “a arte de roubar”. Leve como um divertimento mas sério como a maior obra de arte, é talvez, de entre os já vistos, o melhor filme de Johnnie To, aquele onde um estilo pessoal e as componentes lúdica e, sem quaisquer receios, comercial da sua obra melhor coexistem. A estrear, o mais depressa possível.

*****


Fora do ciclo central do certame, destaque também para um Ferrara de muito bom nível. Go Go Tales (2007) pega no tema central e no contexto (decadente clube nocturno nova-iorquino) de The Killing of a Chinese Bookie (John Cassavetes, 1976) e volta a encenar a história da persecução de um sonho visto apenas por uma pessoa e por meia-dúzia de comparsas indefectíveis. Juntando um grupo de actores de grande nível (Willem Dafoe, Asia Argento, Matthew Modine, Bob Hoskins), acentua o lado capriano da revolta e da vontade de sucesso num homem comum e resulta num divertimento sensual, ritmado e perfeitamente integrado na estética nocturna e virtuosa do ítalo-americano.


No meio da qualidade cinematográfica que, a julgar por estes quatro filmes, terá pontuado esta edição do IndieLisboa 2008, pena que o último filme que tive a oportunidade de visionar nesta edição tenha sido o insuportável Charly (Isild LeBesco, 2007) lentíssima e desnecessária história de um jovem fugitivo que encontra numa prostituta azeitola…o quê? Não se percebe muito bem, mesmo depois de uma hora e meia onde uma das personagens onde uma das personagens não diz mais do que “je sais pas” e a personagem-título anda a cirandar pela roulotte onde vive a berrar por tudo e por nada. É um monte de merda, um daqueles filmes que mais não tem que a pose alternativa e “intelectual” ajudada pela câmara digital com que é feito. Se é bom ver filmes feitos com meia dúzia de tostões, outros há que não conseguiriam ser salvos por milhões de dólares. Este é um deles. Paciência.

19 maio 2008

Estatuto...

...é um crítico poder contar um filme inteiro no primeiro parágrafo de um texto.

18 maio 2008

Genealogias


ROCK N´ROLL

Um momento chave: em cima do palco, cospe um dos muitos cigarros que lhe alimentam as prestações. A rodeá-lo, fica uma nuvem de saliva e cinza que só exacerba a sua aura mítica e o seu lado de ser indestrutível.

15 maio 2008

06 maio 2008

"Meu caro Domingues, mais simples não consigo. Espero tê-lo ajudado!"

Fruto da sua vida decerto muito ocupada, João Eira decidiu responder com toda a concisão e com o tradicional desprezo mascarado de tolerância e de vontade de discutir ideias do Claquete a este meu texto. No essencial, não vou responder - nem a isto nem nunca mais a nada que vier no dito blogue, porque pouco tempo tenho para dar conversa a meninos reguilas, sobretudo com "conceitos tão inacessíveis a Domingues".

No acessório, espero que se este senhor me vir na rua, me tente explicar pessoalmente algo sobre as tabernas. Decerto que conhece bem mais acerca do tema do que eu. Por mim, está o caso encerrado.

PS - Afinal não está: leiam este pedaço de poesia bem "claquético".

01 maio 2008

40 anos


Filmes do Mês - Abril

Cinema

Coeurs de Alain Resnais (9)
I'm not there de Todd Haynes (4,5)
Youth Without Youth de Francis Coppola (Monte de Merda)

Casa

Tropa de Elite de José Padilha (3)
Caro Diario de Nanni Moretti (revisão - 7,5)

IndieLisboa

The Mission de Johnnie To (8)
Mad Detective de Johnnie To (7)
Sparrow de Johnnie To (8)
Go Go Tales de Abel Ferrara (7,5)
Charly de Isild Le Besco (Tão Bom Quanto o Coppola)

22 abril 2008

31 da Armada

Na vida de alguém que vê filmes, chega sempre a altura do dilema: se um filme deve ser compreendido e apreciado ou rejeitado mediante a reacção à conjugação entre forma e conteúdo, o que acontece quando um filme se dedica a destruir qualquer hipótese de conciliação entre ambos? Quando, no fundo, um filme é tão panfletário que cedo nos esquecemos do encadeamento e da construção das suas formas fílmicas?

Tropa de Elite, vencedor da última edição do Festival de Cinema de Berlim, ainda consegue fazer o espectador focar-se no cinema durante a sua primeira obra. Para que não haja dúvidas: José Padilha é bom cineasta. O seu filme é voraz, e são largos os momentos em que, perante a torrente de imagens poderosas que o assola, o espectador mal tem tempo para respirar. Sobretudo, é uma obra muito inventiva do ponto de vista estrutural, dividindo-se em dois segmentos que se intersectam por diversas vezes e que, por sua vez, se dividem em capítulos mais pequenos. O primeiro segmento mostra os preparativos para uma operação de segurança dos BOPE (a polícia paramilitar que “trata” da segurança das favelas cariocas) aquando de uma visita de João Paulo II em que o Papa resolve ficar hospedado em casa do arcebispo do Rio de Janeiro, junto às favelas. O segundo, o processo de formação de um líder de uma das brigadas da mesma força, quando o narrador do filme começa a ter problemas emocionais com o seu trabalho, até por estar à beira de ser pai e que desemboca numa vingança por um assassinato de um dos membros da Brigada.

Ninguém dúvida da podridão, da violência e da criminalidade (aliás, do banditismo) que grassa nas favelas do Rio de Janeiro. Mas Tropa de Elite não vai no sentido da denúncia (inútil pelo motivo supracitado) nem tão pouco tenta mostrar como é a vida numa favela ou as dificuldades daqueles que de lá tentam sair. Pelo contrário, avança pela glorificação dos supostos super-homens que compõem os BOPE, para quem a violência extrema, a tortura e o sadismo são males menores se comparados com a criminalidade e com o tráfico de droga. O problema é que entre um traficante que prende uma pessoa com pneus, a irriga com gasolina e a ateia e um polícia que ameaça enfiar vassouras em orifícios, que sufoca pessoas com sacos de plástico e assassina traficantes pelas costas depois de dar a um subalterno a ordem de o “botar na conta do Papa”, não parece haver grande diferença. A não ser que se esteja tão podre por dentro quanto parece estar a cabeça de José Padilha.

Eu, por mim, não vou estar atento aos blogues de esquerda. Vou, pelo contrário, ignorar os blogues de direita e os seus orgasmos com a cena em que, numa aula de faculdade, se vê uma discussão onde alguns dos melhores pensadores do século XX (Foucault e Deleuze, por exemplo) são mostrados como tontos. E não vou pensar no Pacheco Pereira a tentar arranjar paralelismos entre isto e um certo “prisioneiro político” que supostamente cá temos. Vou apenas lamentar que um cineasta com talento se perca numa tentativa impossível de distinção entre um criminoso com farda e outro sem vestimenta adequada.



Vai ser o fim da picada: num ano, o quadragésimo aniversário do Maio de 68 – uma espinha na garganta da direita – e a estreia deste Tropa de Elite, futuro filme preferido de muito má gente e por todos os motivos errados. A direita vai cantar vitória e nem a crise em que os mais queques dos partidos dos meninos do Restelo e do eixo Lisboa/Cascais se encontram os vai impedir de cantar vitória. E, no fim de contas, vai tudo estar na mesma. O objectivo, aliás, nunca foi outro.

14 abril 2008

Duas pequenas notas sobre duas grandes desilusões - três se contarmos com o Luisão



I’m not there – o filme cujo título se adaptava melhor à exibição do Luisão contra a Académica é mais uma tentativa, votada ao fracasso como todas as outras, de conceber uma ideia de Dylan aproximada a uma qualquer realidade do artista. Ouvimos os discos, vimos o documentário de Scorsese, lemos as crónicas, e aquela personagem, o bardo do século XX, continua tão inacessível como sempre. Já sabíamos que não iria ser Todd Haynes a fazê-la descer à terra, mas há um comprazimento em experimentar fórmulas, em experimentar referências cinematográficas de uma maneira quase lúdica (jogar com a swinging London de Antonioni ou com o western de Peckinpah) que resulta numa obra desconexa e completamente irrelevante, quer enquanto filme quer face à obra de Dylan – até porque nunca se afasta da visão canónica dos acontecimentos em torno dp autor do magnífico Blood on the tracks (1975). Resta o 'tour de force' de Cate Blanchett, a quem foi roubado um Óscar.


Youth Without Youth – Este filme está para a obra de Coppola como o atraso do Luisão para o Miguel Pedro está para os grandes centrais que passaram pelo Benfica: não coloca nada do passado em causa, mas custa a acreditar que seja possível. Filme de um cineasta desesperado por lutar contra a sua irrelevância presente, é exibicionista, mal amanhado e completamente escusado. Longe da viagem aos Infernos de Apocalypse Now – o melhor filme americano dos últimos 40 anos? – a confusão narrativa, os momentos penosos como as línguas faladas pelo interesse amoroso de Roth e aqueles horrosos planos invertidos, é um inferno para quem o vê. Aplauda-se o risco – Coppola bem podia viver da carreira passada – mas lamente-se que a entrega de Tim Rothe a classe de Bruno Ganz sejam assim desbaratadas.

10 abril 2008

Decerto mais um pedaço de "double-thinking"

A blogoesfera tem estas coisas, e o Claquete ainda mais. Depois de uma polémica postiça e frívola a favor de Ridley Scott, esse portento da liberdade cinematográfica contra tiranos como Straubs e Pedros Costas, decidem agora investir a favor de Charlton Heston.

Como sabe quem lê o meu blogue, homenageei Heston. Não era particularmente competente enquanto actor, mas teve a sorte de estar no momento certo na hora certa - os filmes com Welles e DeMille e também, em menor medida, Soylent Green e Planet of the Apes - Ben Hur, para mim, é mais um feito comercial que cinematográfico. Está na história do Cinema por esses filmes mas não era um dos melhores do seu tempo, nem de longe.

A questão é que, para o Claquete, não achar Weston um actor excepcional é um acto de ignorância e desfaçatez política e de "double-thinkink". Para João Eira, autor do texto, Heston "foi, acima de tudo, um lutador pela mais moderna e radical das liberdades – a necessidade de permitir a cada ser humano viver e pensar de forma independente, para além de esquematismos ou conveniências políticas e sociais do momento". E estou completamente de acordo: há maior liberdade do que poder mandar um balázio no bucho de alguém a seu bel-prazer? Penso que não.

Contudo, fazer política de forma rasteira é uma tentação de alguma blogoesfera nacional, e João Eira não lhe escapa. Ficamos a saber que, se alguém percebe que Heston não era um actor excepcional é porque tem a tendência de ver a denúncia orwelliana como um manual de crítica cinematográfica. Comentando, escandalizado, este obituário, Eira pergunta: "Será que o double-thinking de Orwell já anda por aí? De que outra forma justificar que a inteligência e o argumento passem por imbecilidade e o insulto por heroísmo, como parece acontecer na caixa de comentários do referido post? Ou que o imberbe berrante insulte o activista esforçado? Como explicar que mentiras factuais primárias (a NRA e Heston não deram a vitória a ninguém em 2000 e Heston não mudou de partido “da noite para o dia”) sejam postuladas como verdades intocáveis? Que, cravando um último prego no caixão da decência, um homem – com “h”´s e sabe-se lá mais o quê pequeno – chame fingido ao honesto?"

Como se a comédia involuntária não bastasse, Eira cita Pacheco Pereira, a quem apelida de "lúcido" (!!!!!). O texto do venerando comentador não será citado aqui, por motivos de higiene, mas é curioso de ver como Eira e Pereira não deixam de manter os seus espaços mesmo rodeados de lodo (como diz o colega de Eira). Porque, como aponta o texto de Pacheco Pereira, também eles acham que os problemas começam no blogue do lado.
Se Orwell soubesse em que viriam a ser utilizadas as suas brilhantes ideias, ter-se-ia mudado para a URSS.

08 abril 2008

Notas da 'teca (4)


Último filme realizado por Nicholas Ray em Hollywood (posteriormente viriam vários filmes “independentes” como The Savage Innocents ou 55 Days in Pecking), Party Girl foi, à sua época e sobretudo pela Cahiers du Cinéma, louvado como o melhor filme do cineasta. Há, efectivamente, aspectos muito salutares nesta história de um casal, ela esperta dançarina de clube nocturno que não se quer perder na espiral de desespero que vitimou a sua colega e ele, advogado de crápulas que usa todos os truques sujos para os safar, que utilizam os conhecimentos adquiridos para mudarem de vida. Entre eles contam-se os grandes desempenhos de Robert Taylor (viperino), de Cyd Charisse (grandiosa e magnética) e de Lee J. Cobb (um dos mais esquecidos grandes actores da década de 1950, aqui como em On The Waterfront ou em Twelve Angry Men sempre à beira da explosão). Adicionalmente, pode-se também lembrar o excelente trabalho ao nível cromático, onde os tons de vermelho e de verde abundam, respectivamente, em momentos de paixão e em momentos de violência, dando ao filme o tom de sonho em ‘technicolour’ característico de algum do melhor cinema da época e prolongando o experimentalismo gráfico já patente em Rebel Without a Cause ou em Bigger than Life.

Contudo, no final de uma visão de Party Girl, a pergunta que apetece fazer é: estará este filme ao nível de obras como They Live By Night, In a Lonely Place, The Lusty Men, Bitter Victory, Johnny Guitar, etc? No fundo, estará Party Girl no mesmo campeonato dos filmes que compõem o cânone de Nicholas Ray? E aí, sinceramente, a resposta parece ser negativa. Partindo de uma história que mistura vários géneros – o filme de gangsters, o melodrama, o filme de tribunal e o musical, género que, de acordo com a folha da Cinemateca, Ray terá sempre querido experimentar – é irregular nalguma da sua concretização e do seu encadeamento. Se o filme de gangsters – aproveitando a óptima estilização do ambiente da época – e o melodrama são muito bem feitos, não se percebe muito bem a finalidade dos números musicais envolvendo Charisse – se bem que ter Cyd Charisse num filme e não a fazer dançar é como ter Mitchum num filme senão o fazer calmo e estóico -, do mesmo modo que é algo confrangedora a sua representação da Europa aquando da viagem dos dois protagonistas. Mas a sua maior pecha será, no limite, a de não ser uma história de condenação de uma ou duas personagens, sós contra o mundo e a quem este já derrotou ou acabará por derrotar, como é apanágio de grande parte do melhor cinema de Ray.

Muito bem filmado, com uma excelente utilização do Cinemascope, nomeadamente na cena da conversa na ponte entre Charisse e Taylor, Party Girl tem alguns momentos dignos de nota, como o rápido ‘travelling’ para baixo aquando da descoberta do suicídio da colega de quarto de Charisse ou o espancamento de John Ireland com uma escova de cabelo, mas falta algo de tão apelativo, de tão forte, de tão humano e de tão convulsivo quanto nos filmes supracitados. Não é mau; mas é menor.

Filmes do Mês - Março de 2008

Cinema

No Country for Old Men de Joel e Ethan Coen (8)
Three Times de Hou Hsiao Hsien (8.5)
Le Voyage du Balon Rouge de Hou Hsiao Hsien (6)
There Will Be Blood de P.T. Anderson (9)

Cinemateca

Today we live de Howard Hawks (8)
Party Girl de Nicholas Ray (7)

Casa

Homecoming de Joe Dante (8)
Crimes and Misdemeanours de Woody Allen (10) - revisão
Husbands and Wives de Woody Allen (6) - revisão
An Affair to Remember de Leo McCarey (10) - revisão
Manhunt de Fritz Lang (10)
Vivre sa Vie de Jean-Luc Godard (10) - revisão