31 outubro 2009

Um pequeno aviso

De azulinho, tão bem que ele fica!

Tinha posto aqui um texto que entretanto eliminei. Fica apenas aqui uma pequena reflexão sobre o Corruptos-B - SL Benfica:
Alguém acha que que, à 9ª jornada, alguém nos deixaria ficar com cinco pontos de vantagem sobre os corruptos? Sinceramente, somos ingénuos, caros benfiquistas...
De qualquer modo, o aviso continua: com a nossa preparação empresarial, com os jogadores que temos para vender e com o que jogamos, mesmo perdendo...
AINDA TERÃO DE NOS ROUBAR MUITO MAIS!
Aguentem!

29 outubro 2009

Sumaríssimos (6)


The Informant! é o terceiro filme de Steven Soderbergh este ano. E sofre com isso: o formalismo sem desculpas que o cineasta utiliza para contar a história do maior denunciante intra-empresarial da história dos EUA é já parte de uma gramática regular e até algo previsível, incluindo filtros de imagem, ângulos pouco comuns e referências ao passado cinéfilo (aqui os eternos anos 70 americanos). O caso é interessante, há bons gags, Matt Damon está óptimo, Scott Bakula está muito bem e continua a ser a um tempo fácil e estimulante de ver, mas já vi este filme três vezes este ano.

25 outubro 2009

O "special one" original


Brian Clough era o homem que faria José Mourinho urinar-se pelas pernas abaixo. Grande jogador no seu tempo (254 golos em 271 presenças ao serviço de Middlesbrough e Sunderland) alcançou o seu espaço entre os grandes quando, ao serviço do Nottingham Forrest (ou melhor, o Forrest é que estava ao serviço dele) pegou na equipa em 1975 ainda na segunda divisão e, chegado a 1980, já havia conquistado duas Taças dos Campeões Europeus – algo que um conjunto de calimeros reptilíneos habituados a batatais nunca hão-de conseguir. Auxiliado pelo adjunto Peter Taylor (que o salvava de si próprio) foi também um dos primeiros treinadores europeus verdadeiramente mediáticos, procurando jogos psicológicos constantes, criando métodos de trabalho pouco ortodoxos e sendo verdadeiramente desbocado, irritante, volátil e arrogante como só os génios são.

The Damned United, filme de Tom Hooper, passa pelo feito de Clough ao tornar, em 1972, o Derby County campeão inglês, para se fixar nas tumultuosas seis semanas que o “mister” passou no Leeds United. Á época o mais forte conjunto britânico, ancorado num jogo violento e sem escrúpulos (tipo FCP circa 1992) e antes treinado pelo também famoso Don Revie, contava uma série de jogadores influentes que de imediato o rejeitaram, quer na sua vontade de tornar mais ético o estilo de jogo, quer na sobranceria que demonstra face às conquistas anteriores do plantel. O resultado é um filme cem por cento ancorado na sua personagem, valiosíssimo retrato de uma grande figura desportiva da sua época mas com bastos problemas estéticos.

Adaptado do livro homónimo de David Peace, contestado por intervenientes e pelos descendentes de Clough, The Damned United é, no seu melhor, um retrato da ambição que conduz as grandes figuras desportivas, aquelas que sem grandes provas dadas sentem que podem chegar longe, apenas e só com a força do seu trabalho e com uma ideia de predestinação que acabam por tornar auto-realizável. Quando resulta, é um filme que resulta o seu pathos ao focar-se não no sucesso, mas nas dificuldades que o antecederam, na travessia do deserto de alguém que percebe o seu talento mas é eternamente ultrapassado por gente muito mais medíocre e que usa isso como fonte de motivação. Não lhe falta também um lado de transcendência das limitações sociais – aspecto relevante no futebol britânico – mas trata, em suma, da frustração como factor essencial ao sucesso.

Posto isto, é pena que Tom Hooper falhe na sua tentativa de estilizar o realismo britânico, optando por um estilo barroco, com filtros de imagem e grandes angulares e outras opções que tornam The Damned United espalhafatoso, falsamente moderno e, no limite, esteticamente pouco recompensador. Ao que se junta o facto de as poucas vezes que as partidas são reconstituídas o serem de forma pouco convincente (a melhor reconstituição é a do jogo “visto” no balneário) e a falta de atenção dada a Peter Taylor, no que poderia ser outro filme: como se sente o homem que vive na sombra do génio?

Apesar de tudo, The Damned United tem duas grandes interpretações, (Michael Sheen e Timothy Spall) e é o melhor filme que vi passado no mundo do futebol, dado que o desporto-rei tem sofrido, cinematograficamente, com a sua falta de implantação nos EUA. E até pode dar uma ideia interessante a um produtor português: um filme sobre o mês e meio passado por Mourinho no Glorioso antes de ganhar uma Taça Uefa e uma Champions ao serviço de um clube cujo nome agora me escapa.

22 outubro 2009

Mais uma voltinha, mais uma viagem


Quando Saramago abre a boca, pode ser que diga uma asneira. Que, curiosamente, se desmultiplica imediatamente num chorrilho de outras asneiras, num todo confortante e recorrente. Como um casal que, apesar das discussões constantes, não consegue viver separado.


Se fui educado de acordo com os preceitos católicos, hoje estou calmamente afastado deles. Fartei-me de ver na igreja gente que era do pior durante a semana e achava que quarenta e cinco minutos ao domingo serviam de expiação. Concomitantemente, não suporto ver padres presentes em cerimónias públicas num estado laico e ainda me lembro de calinadas difíceis de engolir mesmo passados anos - lembram-se do padre que, em pleno funeral da menina imersa pela família em água a ferver, afirmou que apesar de tudo teria sido pior se a criança tivesse sido abortada? Nada disto faz com que subscreva as infelizes palavras do Nobel português da literatura. Quanto mais não seja porque a validade cultural daquele livro é indesmentível: para o bem e para o mal, aquele livro, como a Ilíada, a Odisseia, o Dom Quixote e a poesia de Dante está dentro de todos nós, como artefacto civilizacional, mesmo naqueles que não o leram. Simultaneamente, acho estranho que Saramago tenha ignorado quanto há de evolução ontológica na transformação da ideia de Deus do Antigo para o Novo Testamento.


Quanto aos senhores que, muito escandalizados, vêm agora pedir a cabeça de Saramago como Salomé a de João Baptista, muito menos dou para o peditório deles. O problema deles com Saramago começou em 1998, quando um escritor vermelho de ideologia venceu um prémio Nobel, numa rebelião cujo expoente actual é o Cardeal Cerej... perdão, Pedro Mexia. Não por acaso, nenhum desses senhores, tão lestos a denunciar o políticamente correcto e a forma como são supostamente cerceados na sua opinião esquecem-se agora de dar o direito de opinião a outra pessoa, deixando esse papel a Manuel Alegre. Já dominam os jornais, as televisões, as mentalidades de grande parte do país, mas ainda lhes dói que haja um espírito livre. Aguentem.


E, de caminho, aguentem também a ideia, o tão simples mas tão complexo conceito de liberdade de expressão. Também não gosto de ouvir atrasados mentais dizer que o Benfica era o clube do regime (factualmente mentira), o Presidente da Confederação de Industriais Portugueses falar da necessidade de salários baixos ou que o Slumdog Millionaire é um grande filme, mas tenho de lidar com isso. Caso tenham de marrar contra alguma coisa, marrem contra a protecção dada à extrema-direita ou a este pobre prisioneiro político.

14 outubro 2009

Take 19 - Outubro


Já está disponível o novo número da Take. Neste, contribuí com o artigo de capa, sobre Pedro Almodòvar, com antecipações a The Informant de Steven Soderbergh, Un Prophète de Jacques Audiard e The White Ribbon de Michael Haneke, fiz a cobertura do Motelx a meias com António Pascoalinho, entrevistei Stuart Gordon, critiquei Séraphine de Martin Provost, A esperança está onde menos se espera de Joaquim Leitão, Taking Woodstock de Ang Lee e Arena de João Salaviza (em despique com o Pedro Soares), Abraços Desfeitos de Pedro Almodovar e Para a Minha Irmã de Nick Cassavettes e escrevi sobre o mini-ciclo da Cinemateca dedicado a Elia Kazan. Foi um mês atarefado.


Fora o meu trabalho, há muito mais conteúdos interessantes na edição deste mês. Passem por lá.

05 outubro 2009

Pedaços de vida



Ao ver L’Heure d’Été, tarde e a más horas, pergunto-me se não estará na altura de reavaliar Olivier Assayas enquanto realizador. Certo que não tenho qualquer vontade de rever Clean (2004), insuportável! mas Irma Vep (1996) será dos próximos filmes a entrar no meu já cansado leitor de VHS. E nada disto aconteceria se não tivesse visto o belíssimo filme supracitado, conto tchekoviano acerca de como um conjunto de três irmãos gere o processo de luto matriarcal.

O mérito inicial de Assayas é o de saber rodear-se das influências certas. Algum Renoir, muito Hou Hsiao Hsien e até algum Téchiné, com quem Assayas escreveu o magnífico Le Lieu du Crime (1986). Um filme burguês (e é curioso pensar que se Marx tivesse o que queria não havia cinema francês...), famílias “bem” e a fantástica capacidade de nos fazer ter por aquela gente a simpatia que se calhar não teriamos noutras situações. Adicionalmente, todo o filme se passa no binómio campo-Paris, na forma como as duas realidades se concatenam, no modo como ambas espelham a definição daquela classe social ao longo dos tempos. Por último, nos filmes vêem-se a(s) estética(s) realista(s) -atente-se, nem por isso menos estilizadas - das influências que Assayas emprega. Com a sua câmara à mão, com os seus toques impressionistas (os planos nos automóveis em que os rostos se confundem com os reflexos) e com o naturalismo dos desempenhos dos actores, é como se o filme se desenvolvesse à nossa frente, acontecendo simplesmente apesar da sua cuidada preparação.
Para o fazer, há uma progressão romanesca gerida com classe, que pode ser aferida através das temáticas dos três actos que, de forma óbvia o compõe. No primeiro, quando a matriarca ainda está viva, é um filme sobre a confraternização (o “bonding”, no sucinto termo inglês), clinicamente interrompido pela sombra da morte – fantástico plano da grande Édith Scob, em outonais tons azuis, antecipando o seu fim. No segundo, é mais vincadamente acerca do luto, do seu lado burocrático e progressivamente mercantilizado e da passagem de um tempo, tentando transformá-lo em algo de positivo para o futuro. Finalmente, no terceiro, é acerca da eventual reconciliação, onde esse futuro é apresentado e onde tudo entra no seu lugar como que naturalmente, sem qualquer julgamento maniqueísta face ao que foi e ao que vem.

Sobretudo, pode ver-se aqui, talvez de forma algo rebuscada, não um comentário mas um testemunho daquilo que é a globalização em 2008/2009. Os irmãos que acompanhamos encontram-se distribuídos entre Paris, Nova Iorque e Shanghai, numa forma de dispersão que, para o bem e para o mal, fragiliza os laços familiares e mimetiza os actuais percursos da riqueza e das trocas culturais. Sobretudo, o que vemos é a dispersão do património que não poderá, de maneira nenhuma, por motivos práticos, manter-se na velha casa. Entre o dinheiro gerado pelas vendas, que se dividirá pelas três metrópoles, o espólio físico – que irá para o Musée d’Orsay – os cadernos do tio pintor – a serem leiloados pela Christie’s –, dá a ideia de uma Europa já nem culturalmente centro de nada, perdendo lentamente a sua capacidade de concentração de bens para um mundo em mutação. O Musée d’Orsay (que encomendou este filme juntamente com Le Voyage du Balon Rouge (2007) de Hsien mas que, como no caso anterior, pouco aparece), surge como o modo de Paris manter a sua relevância, já não viva ou dinâmica, mas numa luxuosa prisão para ser admirada. Parecendo que não, é até um filme de algum substrato “político”, mesmo que, repita-se, nunca condenando qualquer forma de mudança.

Se o anterior cinema de Olivier Assayas me havia parecido frio e desinteressante (ao ponto de não ir ver, por manifesto desinteresse, o anterior Boarding Gate), durante 90 e poucos minutos preocupei-me realmente com os sentimentos e a evolução daquela gente. O que é ainda mais notável tendo em conta que, apesar de tudo, L’Heure d’Été é um filme enxuto, pouco dado a sentimentalismos e a grandes momentos, mantendo um tom largamente uniforme. Mas dá a melhor das ilusões cinematográficas, a de estarmos perante um pedaço de vida. E isso continua, hoje e sempre, a ser impagável.

04 outubro 2009

The Bourne Seca


Não posso dizer que perceba os dois primeiros filmes da saga Bourne, que vi no final da semana que passou. É certo que são muito competentes nas perseguições automóveis, sobretudo a que existe a meio do primeiro filme. De resto? Personagens com a mesma espessura intelectual do José Eduardo Bettencourt, actores que recebem o mesmo que o presidente do Sporting mas parecem estar noutro sítio (e se são óptimos actores, Matt Damon, Brian Cox, Joan Allen, Chris Cooper...). Alguns dos locais mais belos do planeta (a sempre fantástica Paris, por exemplo, bem como o estonteante litoral italiano) tratados como se fossem o mesmo sítio - deve ser a globalização. Uma temática relevante (lidando com o xadrez mundial, através das relações americanas com governantes africanos e oligarcas russos) nem por um momento tratada com profundidade. Um estilo visual “cibernético”, aparentemente modernaço, mas que é igual a tantos outros filmes que por aí andam. E, por último, a tentação de encenar toda a acção aos tremores, abanando a câmara, dando uma falsa sensação de ritmo mas que, pelo menos para mim, tornam complicado perceber o que está a acontecer. Podem ser sucessos, se puder vejo o terceiro "à desobriga" apenas para completar a saga, mas não vejo o interesse.

01 outubro 2009

Preston Sturges (2)


Christmas in July é o segundo filme de Preston Sturges, estreado, como o anterior The Great McInty, em 1940. Filme de curta duração – pouco passa de uma hora – dá uma importante lição em termos de comédia: este é um género que se quer o mais rápido possível. É verdade que o exemplo tinha sido dado anteriormente pelos mestres Hawks e Cukor (pensemos nas saraivadas verbais de His Girl Friday ou The Women, respectivamente) ou por discípulos futuros (lembremos a cena da perseguição a Nicholas Cage em Raising Arizona), mas tudo em Christmas in July, os seus trocadilhos, jogos verbais e duplos significados bem como a entrega acelerada das falas relembra este facto basilar.

História de um sonhador empregado de escritório que pretende alcançar a riqueza vencendo um concurso radiofónico para a atribuição de um slogan a uma marca de café e que pensa tê-lo vencido quando os colegas lhe pregam uma partida, é também uma história de como os sonhos desmesurados podem ser facilmente destruídos. Mas é, mais importante do que isso, uma demonstração de como o sucesso mais facilmente surge derivado de factores exógenos do que intrínsecos. Assim, o protagonista acaba por demonstrar boas ideias (o slogan que oferece quando, derivado da alegada vitória no concurso, o patrão o promove ao departamento de marketing é francamente superior ao submetido a concurso), mas toda a aprovação deriva de uma nova concepção feita do protagonista a partir daquele momento.

É uma obra vincadamente operária, acerca do sonho de uma vida melhor, sem preocupações. Interpretado por Dick Powell (de The Bad and the Beautiful de Minnelli e de The Tall Target de Anthony Mann, entre outros) e Ellen Drew (com longa carreira de secundário e participante em Stars in My Crown de Jacques Tourneur), é um filme menor, mas cuja sedimentação de processos se afigura fundamental para o que viria depois.

29 setembro 2009

Polanski


Declaração de interesses: não tenho especial admiração por Roman Polanski. Gosto muito de Rosemary's Baby (1968)... e é basicamente isso, embora confesse que ainda não vi filmes como Repulsion (1965), Cul-de-sac (1966), Chinatown (1974) ou Tess (1979) com a atenção devida. The Ninth Gate (1999), por exemplo, pareceu-me, à época, francamente medíocre. Mas a sua prisão em Zurique - onde ia a convite do festival de cinema local - não me parece muito bem.


Vamos aos factos: Polanski confessou o crime, perante a promessa do juíz de que não cumpriria mais do que uma pena de internamento numa instituição psiquiátrica, promessa que estaria na eminência de ser quebrada. O procedimento do mesmo juíz é contestadíssimo e, em Los Angeles, são frequentes os casos de ciladas montadas às estrelas. A vítima diz ter perdoado o autor do crime e afirma que a frequente menção do caso a prejudica. Polanski tem uma casa na Suíça, país que acolhe sem grandes problemas os dividendos de criminosos, desde dinheiro mafioso a ouro roubado pelos nazis e que o poderia ter prendido antes. Finalmente, falamos de um homem de 78 anos que cometeu este crime há 32.


Não digo que o crime e o modus operandi não sejam particularmente repugnantes. Mas a pergunta que me ocorre é: não há outros criminosos cuja captura se afigure mais urgente?

23 setembro 2009

Os escaravelhos somos nós


Arrisco dizer desde já: District 9 é o mais surpreendente filme de ficção científica desde que os irmãos Wachowski nos enganaram relativamente ao seu talento com o primeiro Matrix (1999) e um dos mais inesperados filmes da década. Desde logo, pela sua proveniência: nada diria que seria da África do Sul que surgiria a revitalização de um género venerável mas actualmente pouco relevante. O filme de Neil Blomkamp, embora apadrinhado por Peter Jackson e feito com um parco orçamento (considerando os efeitos especiais usados e comparativamente aos orçamentos de muitos filmes de Hollywood) de 30 milhões de dólares, utiliza as desigualdades, a guetização, o recente crescimento e a história ainda não esquecida da sua pátria (nomeadamente o apartheid) , fazendo um objecto estimulantemente sediado e, ao mesmo tempo, completamente global. É, em suma, um filme que injecta no blockbuster uma saudável dose de inteligência e inventividade.

A surpresa começa, precisamente, na fascinante inversão posicional que District 9 opera. Uma nave extra-terrestre escolhe, na década de 1980, a cidade de Joanesburgo para aportar. Após três meses, as autoridades resolvem enviar uma equipa que, no interior da nave, descobre mais de um milhão de extra-terrestres - todos da “classe operária” do planeta, visto que as chefias morreram misteriosamente - subnutridos e incapazes de se defender. Estes são colocados no titular nono distrito, um misto de favela com Faixa de Gaza com Guantanamo, até que, no presente, a criminalidade força as autoridades a mudá-los, sob o comando de um tolo genro de uma empresa a quem foi feito o outsourcing da mudança, num procedimento mudará radicalmente o estado das coisas. A inversão é então clara: mais do que perguntar o que eles nos fariam, Blomkamp escolhe perguntar o que lhes faríamos nós. E o perturbante é que a resposta não difere muito do que temos feito uns aos outros nos últimos milhares de anos.

Ao transformar os humanos nos opressores e os invasores nos oprimidos, District 9 espelha brilhantemente aspectos das sociedades actuais como a exclusão dos diferentes (a chegada dos alienígenas mimetiza a chegada dos imigrantes à Europa ou aos Estados Unidos), a cumplicidade entre a governação e as empresas (há muito de Halliburton no conglomerado Multi-National United), o poder violento do Estado, a sua burocracia controladora e o sensacionalismo da informação. Pode-se dizer que nenhum dos problemas é mais do que enumerado, sendo somente um filme de diagnóstico, mas cumpre optimamente a função de espelho do real que a ficção científica sempre teve. E funde-a com a tradicional história, de claros fins sociais, de um membro da classe dominante que acorda para as injustiças do seu tempo: o protagonista Wikus torna-se um “deles”, literal como figurativamente, operando uma pequena grande revolução no modo como passa de inapto capacho que lucra com o nepotismo a alguém que conhece por dentro as vicissitudes e as dificuldades dos depreciativamente nomeados “escaravelhos”.


Não nos iludamos, no entanto: há problemas em District 9. O maior deles a forma como a segunda parte do filme é mais blockbuster que exposição, privilegiando a explosão em detrimento do pensamento. Outro, o facto de a humanização da mais importante personagem extra-terrestre ser discutível, mero método meta-cinematográfico, custando a acreditar (como no ET de Spielberg, já agora) que um ser espacial tivesse os mesmos valores que os humanos. Finalmente, se o final em aberto é assustador e característico da melhor ficção científica e do melhor terror, não garantindo qualquer regresso a uma normalidade anterior, deixa uma porta demasiado aberta para sequelas inferiores e descaracterizadoras.

Ainda assim, há muito que não via um filme destes, inteligentíssimo, credível e lógico, com diversas ideias de cinema (o horripilante laboratório onde são feitas as experiencias cientificas com os alienígenas, por exemplo, ou a poética cena final) e, sobretudo, com a coragem de fazer perguntas incómodas. District 9 é um filme virado para dentro mais do que para o espaço sideral. Que quem o for ver o perceba para lá do grande espectáculo que, liminarmente, também é.





21 setembro 2009

No Messanger às 2 da manhã

Miguel diz:
ah, já vi o arena
rende

jose diz:
tá bom

Miguel diz:
com o rapace, é a coisa mais entusiasmante que vi do cinema portugues dos putos

jose diz:
sim, eu geralmente tb fico muito lixado com as curtas metragens

Miguel diz:
sabes que para mim é um filme muito especial: a minha escola preparatória é por trás dos prédios que ele fica a olhar no fim do filme
aquele cenário é o da minha infância

jose diz:
grande cena
aconteceu-me o mesmo com a ultima curta do joão nicolau, "cançao de amor e saude"
o centro comercial onde ela se passa marcou a minha infancia

Miguel diz:
é uma sensação estranha
estamos tão habituados a ver sitios exóticos como Paris ou Nova Iorque no cinema que é esquisito ver sitios que conhecemos
digo eu

jose diz:
pois é..

17 setembro 2009

11 setembro 2009

Preston Sturges (1)


The Great McGinty (1940) permite antever as características dos melhores filmes futuros do argumentista e realizador Preston Sturges. História de um vagabundo transformado em gangster e, posteriormente, testa de ferro de um mafioso enquanto mayor de uma cidade e governador de um Estado que conta, anos depois, numa espelunca na América do Sul, o seu trajecto a dois clientes, é um filme sóbrio, sem grandes rasgos visuais. Com um elenco de segunda linha (Brian Donlevy, secundário em filmes de Fritz Lang, Henry King, King Vidor, Cecil B. DeMille e Joseph H. Lewis, entre outros; Muriel Angelus, que encerrou aqui a sua carreira no cinema; e Akim Tamiroff, actor de filmes de Welles, Godard e Sirk, entre outros) é um filme onde tudo é posto ao serviço de um argumento muitíssimo bem escrito, numa progressão linear e classicista ao nível de um romance. Curioso também é o pessimismo da visão da vida política americana, e não apenas o compadrio entre políticos e criminosos, mas também a impossibilidade de sobreviver no meio quando os valores morais se levantam, numa visão anti-capriana onde a ascensão ao poder cria a comédia e o despertar para a moral e a solidariedade traz a tragédia. É, no limite, um filme extremamente corajoso, ao pôr, em plena Segunda Guerra Mundial e face à visão idólatra da política que Franklin Delano Roosevelt criara um cenário de falsificação de eleições, construção de obras públicas com vista ao lucro pessoal e aceitação corrente de subornos, em tudo aplicável ao contexto português de 2009. Mesmo que não seja brilhante, é um filme actual e muito competente.


07 setembro 2009

Carpenter, o contrabandista


Durante a cobertura que fiz do festival Motelx (e que sairá numa das próximas Take), tive o prazer e o privilégio de entrevistar Stuart Gordon, autor do clássico Re-Animator (1985). Quando lhe peço para falar para o leitor de mp3 da minha mulher, um Sony preto de 2 gigabytes que utilizo como gravador de voz, Gordon pergunta-me, curioso acerca do formato do aparelho e no seu estilo amigável, se aquilo era um isqueiro. Também amigavelmente, disse-lhe que não e que, como fumador, se fosse já o teria experimentado. Palavra puxa palavra e digo-lhe "O John Carpenter tem fama de ser um grande fumador..." Gordon responde-me: "Sim. Quando fui com ele a Vancouver filmar um dos meus episódios da série Masters of Horror, ele escondeu maços de tabaco nas nossas caixas de efeitos especiais. A alfândega descobriu, apreendeu as caixas e por causa disso o meu episódio começou a ser filmado com atraso".


Um curioso caso de tabagismo passivo.


(Já agora, o festival é óptimo. Não tanto pelos fimes, irregulares na qualidade, mas pela energia, pelas salas cheias e pelo público jovem. Foi a primeira vez que lá fui, mas fiquei fã.)

04 setembro 2009

La movida

Na pesquisa que fiz para um texto sobre Pedro Almodóvar que sairá, tudo corra bem, no próximo número da revista Take, soube que o cineasta havia feito parte, nos tempos da Movida, do duo musical Almodóvar & McNamara. Viagem imediata ao Youtube onde me deparei com estes fantásticos exemplos de camp musical. Vejam, que vale a pena!





31 agosto 2009

Take - Agosto/Setembro 2009


Está já disponível o número 18 da revista Take. Da minha parte, críticas a meia-dúzia de filmes (Elegy, Transsiberian, Up, The Life Before My Eyes, Home e Sinédoque, Nova Iorque), antecipações de Antichrist de Lars von Trier e The Girlfriend Experience de Steven Soderberg e um olhar transversal sobre a carreira de Agnès Varda (a meias com a Helena). O tema de capa é a carreira de Johnny Depp e há curiosas entrevistas com ex-membros do elenco da mítica série Allo, Allo! Passem por lá, se faz favor.

Nazi Spaghetti


A primeira e mais óbvia constatação a fazer acerca de Inglorious Basterds é o facto de já nada do que é feito por Quentin Tarantino constituir surpresa. A saber,

i) a capacidade estranhamente atractiva de transformar qualquer temática num western spaghetti – tanto mais atractiva, neste caso, quanto o referido sub-género surge, culturalmente, 20 anos após os acontecimentos narrados, num delicioso anacronismo;
ii) o enquadramento maníaco, a um tempo clássico no rigor geométrico e cromaticamente expressivo, quase ao nível da pop-art (herança clara do cinema exploitation);
iii) a qualidade dos diálogos, profundamente literários mas sempre com dose de coloquialidade suficiente para parecerem verosímeis (no que a historicamente comprovada "politesse" dos nazis é ferramenta preciosa);
iv) e as citações cinéfilas (cartazes de Pabst e Clouzot; citação óbvia de The Searchers na fuga de Shosanna, plano de chegada dos nazis à maneira de Leone na primeira sequência, "foreground" estático do lençol com movimento dos nazis no "background");

já tudo foi feito por diversas ocasiões pelo próprio Tarantino.

O que torna Inglorious Basterds tão aliciante é a forma como encontra soluções para as armadilhas que se poderiam erguer. A primeira, a histórica: o final do filme coloca-o, genialmente, o mais longe possível das produções de luxo dos anos 60 e 70 com actores na pré-reforma, e próximo, ao invés, do cinema "trash" que, com maior talento e com mais meios, Tarantino mais reivindica. A segunda, a moral: longe do sentimentalismo, do aviso ao futuro, de mais uma demonstração da shoah em forma fílmica ou do politicamente correcto que a senilidade de Jonathan Rosembaum parece querer ver, Inglorious Basterds é mais um filme de vingança, usando a irrisão e décadas de cinema para contra-atacar uma ideologia asquerosa, com a certeza de que quem nos atira uma pedra ou nos acerta ou a leva de volta. A terceira, a estética: um filme estritamente sobre uma missão dos Basterds perderia cor e riqueza, do mesmo modo que um filme em fragmentos isolados seria, talvez, menos eficaz. A solução foi, então, criar uma narrativa confluente e linear, com cinco capítulos em diversos locais e momentos da mesma história. Dá-se, então, um equilíbrio perfeito entre cor e facilidade na narrativa, ideal para o filme de aventuras apresentado.

Qual, então, o factor que coloca Inglorious Basterds um pouco, um quase nada, abaixo de alguns outros filmes de Quentin Tarantino? Essencialmente, um pequeno problema de gestão temporal: as sequências do jantar de Zoller e Shosanna com Goebbels e a da taberna (ainda assim brilhante) são um pouco longas demais. É certo que é necessário tempo para a tensão se acumular, que cada uma dessas sequências é notoriamente dividida em duas partes e que a da taberna tem uma construcção, de novo, à Sérgio Leone, onde a violência é preparada com calma, eclodindo de maneira ejaculatória e acabando em segundos. Mas cinco ou dez minutos a menos em cada sequência teria tornado o filme um pouco mais escorreito e arredondado a sua duração, o que o teria melhorado ainda mais.

Preciosismos, no fundo, que desaparecerão à quinta ou à sexta visão – ainda só vou na segunda. Inglorious Basterds é um dos melhores filmes do ano, corolário de um Agosto fortíssimo e pedaço de cinema puro, cerebral e virulento. É, até ao momento, o filme mais maduro de Tarantino (mesmo que provavelmente não seja o filme por que será lembrado), mercê dos diálogos literários e da qualidade da construção narrativa. Fruto da carreira que Tarantino já criou, confirma as expectativas mas não as excede. Mas tomara muitos que contra os seus filmes só se pudesse apontar pseudo-defeitos destes.

Triste Verão


Princípios dos anos 90. O programa em reposição chamava-se Lá em casa tudo bem e é uma das poucas, senão mesmo a única boa sitcom alguma vez feita em Portugal. A filha da personagem interpretada por Raúl Solnado traz pela primeira vez o namorado, interpretado por António Feio, a casa. Quando a conversa está a correr bem, o namorado vira-se para a jovem e diz "Oh **** (não recordo o nome), o teu pai é muita louco". Solnado desata numa diatribe do estilo "Eu a tratá-lo bem e você a insultar-me!", até que lhe asseguram que é um elogio. O episódio decorre com normalidade até que no final, Solnado se vira para a actriz que desempenhava o papel de sua mulher e interroga, com o seu hilariante ar garboso: "Oh Maria, sabias que eu sou... muita louco?" Acho que foi a primeira vez que, conscientemente, me desatei a rir em frente à televisão. Por isso, muito obrigado, caro Raúl.

De regresso


... um dia mais cedo que o previsto.