06 abril 2010

Sumaríssimos (13)


Bem-sucedido renovador do teatro britânico, Sam Mendes tem tido no cinema um percurso pouco coerente, experimentando diferentes géneros, mantendo uma imagem, talvez exagerada, de competência enquanto procura um estilo próprio. De crónicas suburbanas (American Beauty e Revolutionary Road) ao filme de gangsters (Road to Perdition, talvez o seu melhor filme) e ao filme de guerra (Jarhead, o seu pior), o que se pode dizer é o seguinte: Sam Mendes cumpre em quase todos e não atinge a excelência em nenhum. O que é expansível ao seu simpatiquíssimo Away We Go, experiência do inglês no road movie acerca de um casal de freaks white trash que procura uma nova cidade onde criar a criança que vão ter. Com um belíssimo argumento de Dave Eggars e Vendela Vida, é um filme terno, que contrabalança habilmente momentos de alegria e beleza com cenas tristes e emotivas, num equilíbrio bem conseguido. John Krasinski (do Office americano) e Maya Rudolph (do Saturday Night Live) são o cimento que junta as partes e não me parece possível alguém dizer que se perde tempo a ver este filme. Porém, voltamos a uma questão que já abordei anteriormente: hoje em dia, parece fácil fazer um filme independente americano. Junta-se actores conhecidos mas não famosos a uma galeria de secundários competentíssimos (brilhantes Allison Janney, Jim Gaffigan e Maggie Gyllenhaal), filma-se cores abundantes mas esbatidas, coloca-se a acção na América profunda e adicionam-se planos de pontuação ao som de temas indie e temos filme para Sundance. Sam Mendes, hélas, segue a receita com demasiada fidelidade.

27 março 2010

Carta Aberta a Inês Oliveira


Cara Inês Oliveira,

Em bom rigor, não sou a melhor pessoa para falar de Cinerama. Quando me dirigi ao cinema King para o ver, acompanhado que estava na sala por meia dúzia de indefectíveis do decadente espaço lisboeta, tive de recorrer ao mais profundo do meu ser para aguentar uma mísera meia hora do seu filme de estreia. O meu tempo, apesar do desemprego e da atitude fácil que tenho para com ele, é demasiado precioso para ser perdido com bailarinos esvoaçantes e actores de telenovela com pastas em cima da cabeça, num pós-modernismo de pacotilha equivalente a eu comparar os meus textos aos de Marcel Proust. Lá saí, remoendo internamente que tinha usado 30 minutos da minha vida que não mais voltariam, num caminho de auto-recriminação e desencanto. A estação de Entrecampos parecia mais longe da Avenida de Roma do que alguma vez estivera. Assim, considero legítimo pedir-lhe uma indemnização pelo agravamento da minha miopia. E pela gargantuesca quantidade de água de rosas que tive de usar para lavar os olhos depois daquilo.

Serve, então, esta carta aberta para lhe fazer apenas uma pergunta: está contente por ter dado porta aberta e carta-branca a António-Pedro Vasconcellos e ao simiesco Alberto Gonçalves para continuar a dizer o que dizem do cinema português contemporâneo? É que cada vez que encontrar algo a demonizar a nossa cinematografia, lembrar-me-ei do seu filme.

Grato pela atenção,

Miguel Domingues

23 março 2010

Parabéns, Mestre!



Das muitas grandes cenas que Kurosawa nos deu (quem não viu Ikiru e Mad Dog dê corda ao emule), talvez nenhuma seja tão bela quanto o final simbólico de Ran. E em perfeita rima mental com o momento do Rei Lear em que se fala dos nús a guiarem os cegos. A este, já ninguém o guia, tal foi o Apocalipse.

Muito obrigado, Mestre, pela melhor nota que tive num trabalho da Faculdade.

18 março 2010

Sumaríssimos (12)


O problema de Alice in Wonderland não é, como casos há muitos, de dificuldade na conjugação de universos; é o problema diametralmente oposto. O universo de Lewis Carroll, ainda que glosado pela argumentista Linda Woolverton, não fornece qualquer obstáculo a Tim Burton, que nele se movimenta com (demasiada) destreza e à-vontade. Acontece que, no meio disso e apesar do tom apocalíptico de que o País das Maravilhas aqui se reveste e do excelente desempenho de Helena Bonham Carter como Rainha Vermelha, tudo é monótono e previsível. Tal sentimento é uma novidade num cineasta que, com poucas excepções, costuma fazer sempre filmes estimulantes.

Foi também o primeiro filme que vi em 3D e pensei aquilo que já suspeitava: o interesse daquilo, para mim, é muito reduzido.

08 março 2010

Linkous RIP

Mark Linkous, dos Sparklehorse, suicidou-se ontem.

04 março 2010

E porque no Domingo há palhaçada...

... se eu quisesse saber, eram estes os vencedores que desejaria.

Melhor Filme: Inglorious Basterds
Melhor Realizador: Quentin Tarantino
Melhor Actor: Colin Firth (Ainda não vi Crazy Heart, onde dizem que Jeff Bridges está magnífico)
Melhor Actriz: Gabourey Sidibe
Melhor Actor Secundário: Christopher Waltz
Melhor Actriz Secundária: Anna Kendrick
Melhor Animação: Up
Melhor Filme Estrangeiro: Un Prophete
Melhor Argumento Adaptado: District 9
Melhor Argumento Original: Inglorious Basterds

No que concerne às escolhas possíveis, prefiro que ganhe a senhora Bigelow ao senhor Cameron.

24 fevereiro 2010

Fucking & Punching (Californication em versão Gonzo)





Na altura, deixei aqui grandes reticências relativamente ao modo como o argumentista Tom Kapinos iria conseguir dar uma segunda temporada a Californication. No final da primeira, apesar do "cliffhanger" do romance roubado, tudo parecia resolvido, pelo menos o mais importante. Hank tinha recuperado a família, tudo parecia encaminhado. Por isso, o meu obrigado à equipa que produziu e realizou a segunda temporada de Californication, continuando a dar-nos uma das mais estimulantes e hilariantes séries de televisão contemporâneas. Daquelas que nos fazem ter vontade de ter uma garrafa na mão e guiar um Porsche todo fodido por Mulholland.

Se dúvidas havia acerca de como perpetuar esta história, Kapinos resolveu-as criando diversas narrativas paralelas: as aventuras “baixo coturno” de Charlie Runkle, vicio e pornografia à mistura; a possível nova paternidade de Hank, o vicio da cocky smurf, como lhe chama Moody; ou, sobretudo, the life and times of Lew Ashby, produtor musical que não desdenharíamos, pela vida que leva e pelo mundo interior que, apesar de tudo, ainda vai tendo, ver almoçar com Frank Zappa ou gravar Vol. 4 com os Black Sabbath. Ao redor de tudo, Hank e Karen como uma das mais belas histórias de amor do nosso tempo, dois seres que se amam até à morte mas que, por isto, aquilo ou aqueloutro, acabam sempre separados.

Mas a segunda série marca também o aprofundamento da personagem Hank Moody . A lover, not a hater, diz Mia (que é precisamente o contrário…). Alguém que perdoa sempre tudo e a quem nada é perdoado. Com uma conduta moral perfeitamente delimitada, a quem tudo acontece e que sonha com uma redenção que, a vir, estará sempre longe demais. E que nunca deixou de se apaixonar por cada mulher que conheceu, por dez minutos ou dez anos. Fox Mulder, enfia os homenzinhos verdes pelo cú acima que é o que fazes melhor. David Duchovny, no trabalho da sua vida, volta a mostrar como a decadência assenta melhor aos belos.

E, por último, há aquela cidade. Devorando quem por ela passa, semeando seres sós. Como um Coronel Kurtz que escreve livros em vez de os habitar, é dela que Moddy tira os seus estímulos. E é dela que Moody recebe as suas ordens. E é por causa dela que está perdido.

23 fevereiro 2010

Sumaríssimos (11)


Depois de O Maldito United, o novo filme de Ken Loach, Looking for Eric, é a segunda fita britânica em pouco tempo com o futebol como pano de fundo. Filme sobre as fantasias que criamos para nos proteger, sobre segundas oportunidades e sobre a solidariedade da classe operária britãncia, é uma obra de ritmo fácil, que junta um ou outro grande momento (o raid da polícia à casa de Eric; a vingança dos carteiros Cantona) ao cânone de Loach. Não é tão bom quanto o cortante Chuva de Pedras (1994), mas ninguém pode dizer que não resulta. Sobretudo, tem uma excelente sequência: a da conversa sobre a transformação do Man United de clube popular em símbolo do sucesso globalizante e desigual. É quem ficou de fora desta mutação que Loach continua a acompanhar, num percurso que, quando muito, só pode pecar por excessiva coerência. E ainda bem.

21 fevereiro 2010

Um dia na vida


I read the news today oh boy

About a lucky man who made the grade

And though the news was rather sad

Well I just had to laugh

I saw the photograph


He blew his mind out in a car

He didn't notice that the lights had changed

A crowd of people stood and stared

They'd seen his face before

Nobody was really sure

If he was from the House of Par.


I saw a film today oh boy

The English Army had just won the war

A crowd of people turned awaybut I just had to look

Having read the book


I'd love to turn you on


Woke up, fell out of bed,

Dragged a comb across my head

Found my way downstairs and drank a cup,

And looking up I noticed I was late.

Found my coat and grabbed my hat

Made the bus in seconds flat

Found my way upstairs and had a smoke,and

Somebody spoke and I went into a dream


I read the news today oh boy

Four thousand holes in Blackburn, Lancashire

And though the holes were rather small

They had to count them all

Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.


I'd love to turn you on..................................................................


A Day in the Life, The Beatles

17 fevereiro 2010

Como se já não bastasse tê-lo visto, também perdi tempo a escrever sobre ele...

Já não é de agora: de quando em vez, os Coen perdem-se por entre uma vontade arty que só prejudica os objectos em causa. O melhor exemplo é Barton Fink: visualmente apelativo, com meia dúzia de ideias, neste caso sobre a época áurea de Hollywood, mas estéril quando reduzido à sua essência. Outro exemplo é o absolutamente bacoco O Brother, Where Art Thou, desenxabida transposição da Odisseia para um contexto norte-americano sulista. É pena, pois quando se preocupam apenas em filmar de frente, sem peneiras ou tiques, tendem a fazer belos filmes – o ponto onde atingem o equilíbrio é o ultra-maneirista mas consequente Blood Simple.

A Serious Man é o mais recente falhanço de uma carreira que nelas tem sido pródiga, e entre esses falhanços ocupa um dos locais cimeiros. Filme sobre as coisas más que acontecem a pessoas boas, passado nos anos 60 num subúrbio do Minnesotta e que segue um homem a quem tudo parece correr mal, pessoal e profissionalmente, descamba muito cedo. Explicitamente, no prólogo que tenta situar a narrativa num âmbito ancestral, com uma maldição judaica decorrente de um hipotético encontro de um casal com um fantasma. O problema é que esse prólogo, de tons tarkovskianos, é de utilidade e interesse muito duvidosos. O que se segue é do mesmo nível, desde os momentos mais derivativos dos filmes de Woody Allen até ao plano final absolutamente vazio, num filme que se compraz com a destruição sucessiva da sua personagem principal e que, por entre um pretenso simbolismo irritante, não tem um único momento memorável. O que parece evidente é o seguinte: perante a ausência de conteúdo, os Coen tudo fizeram para insuflar a forma. Não conseguiram e esteticamente este filme, quando não apenas enfadonho, é simplesmente grotesco. A Serious Man é para esquecer.

10 fevereiro 2010

Cagandamerda!


Se quiserem ver como se desbarata o crédito amealhado com dois filmes que vieram subir o nível da carreira dos irmãos Coen nos últimos dez anos, vejam A serious man. Isto é, se quiserem perder duas horas da vossa vida.


(A explicitar em breve)

01 fevereiro 2010

Cinema de época


Era simpático, Juno (2007). Filme pequenino, orgulhoso de si mesmo, que sofria apenas com um certo “fazer independente”, um conjunto de tiques que, no limite, por vezes formatam o cinema independente norte-americano de uma forma tão opressiva quanto o mais banal cinema comercial. O orgulho mantém-se em Nas Nuvens, mas este é um filme crescido, para adultos e que será decerto recompensado, pelo menos em nomeações, pela Academia. Filme sobre estratégias de sobrevivência e a forma de as ultrapassar em direcção a algo mais, conta com um extraordinário desempenho de George Clooney, versão crápula irresistível, no papel de Ryan Bingham, profissional do despedimento que estruturou toda a sua vida em redor da eficiência nas constantes viagens de avião e que anseia por angariar dez milhões de milhas de passageiro frequente. Até que o contacto com um equivalente feminino (regular Vera Farmiga) e com uma recém-licenciada da Ivy League (a revelação Anna Kendrick) o lembrarão do que anda a perder.


Vamos por partes: metade de Nas Nuvens é absolutamente fascinante e eminentemente recompensadora. Nela, explora-se Bingham, os mecanismos que povoam o seu mundo, o seu isolamento e a sua perturbante amoralidade, pessoal e profissional, que o tornam um delicioso exemplo máximo do capitalismo que, a um tempo, conduziu à presente crise e dela colhe os lucros – Billy Wilder teria gostado da personagem. Sobretudo, é nesta parte que há exemplos, do mais humano e comovente que vimos, dos efeitos reais da crise, na pessoa daqueles que são despedidos. Com The Girlfriend Experience de Steven Soderbergh é, até agora, o mais pertinente olhar sobre as alegrias que Wall Street nos trouxe nos últimos anos. No entanto, o realizador Jason Reitman (filho do tarefeiro Ivan), que filma com competência e alguma personalidade, não resiste a puxar Bingham para o reino da moral familiar e comezinha, que tem todo o seu encanto mas, esteticamente, é uma opção desinteressante, que acaba por amputar o efeito do filme.


Se o final o redime parcialmente, devolvendo Bingham à solidão que o caracteriza, deve-se prezar menos a coragem de um final infeliz moralista (a oportunidade de Bingham ser como os demais perdeu-se, devia ter pensado nisso antes) do que a tal componente “política” do filme: Bingham, enquanto emissário da crise, estará condenado ao purgatório das viagens constantes enquanto esta continuar. Afinal de contas, Nas Nuvens é um filme de época. A nossa.

31 janeiro 2010

Sumaríssimos (10)


Quando vi Invictus pela primeira vez, num visionamento de imprensa, gostei bastante. Contudo, na manhã desse mesmo dia, havia visto Antichrist, o equivalente cinematográfico de uma arbitragem do Carlos Xistra num jogo do Porto. Há a hipótese de, perante o asco que o filme de Von Trier me provocou, o de Eastwood ter saído beneficiado. Já revisto, percebo pouco o clamor de mediocridade: não sendo nem de longe o melhor Eastwood, mantém a classe a que nos habituámos, expandindo-a na direcção da História e da enorme figura de Nelson Mandela, bem como o requinte classicista, linear e popular do costume. Tirasse o cineasta aquelas duas horríveis canções e seria tão seco quanto qualquer outro. É normal: de quando em vez, Eastwood faz filmes de grande qualidade que são “engolidos” pelas suas obras-primas (basta ver os casos de Absolute Power e True Crime, entre outros). Invictus é só mais um. Mas, já agora, permitam-me realçar dois momentos superlativos do filme: a sequência do avião, a lembrar o 11 de Setembro; e, acima de tudo, Mandela ao espelho com espuma de barbear a cobrir-lhe meia face, reflexo perfeito de um país metade negro e metade branco.
Ainda assim, e dado que estamos a falar da crítica de cinema nacional, importa perguntar se não estamos perante um caso de diminuição por motivos políticos. Exemplos: na crítica da Time Out, lida na diagonal numa banca de jornais, João Miguel Tavares compara o filme a um discurso de Hugo Chávez. Ousadia de Eastwood, a de não nos revelar o bandido que é Mandela!

29 janeiro 2010

Salinger RIP


Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behaviour. You're by no means alone on that score, you'll be excited and stimulated to know. Many, many men have been just as troubled morally and spiritually as you are right now. Hapilly, some kept records of their troubles. You'll learn from them - if you want to. Just as someday, if you have something to offer, someone will learn something from you. It's a beautiful reciprocal arrangement. And it isn't education. It's history. It's poetry.


A Catcher in the Rye, Penguin Books, ed. 1994, pag.170

26 janeiro 2010

Sumaríssimos (9)


Zombieland levará na cabeça da maioria da crítica até ao dia em que Quentin Tarantino disser bem dele numa qualquer entrevista. História de uma família afectiva criada em pleno apocalipse de mortos-vivos nos EUA, a estreia de Ruben Fleischer na realização esconde por trás da sua alegoria de união entre seres solitários o desejo de ser o mais divertido arraial de porrada que alguma vez vimos num filme. E consegue: vísceras espalhadas, sangue vomitado, bastonadas nas trombas, um uso em elipse de um tesoura de podar sequóias, balázios nos cornos, atropelamentos, marteladas na cachimónia de um palhaço ou quedas de máquinas em parques de diversões, não há virtualmente nada que aqui esteja ausente. Retirando ao filme de zombies a carga política que George Romero lhe deu no seminal A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e que foi seguida por Joe Dante no magnífico Homecoming (2005) da série Masters of Horror ou na metade Planet Terror de Grindhouse (2007), diferente da genial comédia Shaun of the Dead (2005) de Edgar Wright, Zombieland é o filme grunho por excelência, onde a chalaça convive com a violência e o cuidado artístico “cibernético”com o uso não muito requintado do bastão de baseball. Para o fim, no entanto, guarda-se o melhor: o extraordinário cameo de certo e determinado mito de Hollywood, também ele apostado em entrar na parvoíce e fazendo-o a custas de certa imagem “indie” cultivada nesta década. Não convém criar habituação, mas de vez em quando sabe bem ver um filme sem pensar na Política dos Autores ou no formalismo russo e ser grunho. Só um bocadinho, para não criar habituação.

25 janeiro 2010

TAKE 21 - Dezembro / Janeiro


Aqui está mais um numero da Take. De entre as diversas coisas que fiz, aqui aproveito para destacar os artigos sobre os anos de 2005 e 2009 no especial da década. Disfrutem do número na íntegra, que vale bem a pena.

21 janeiro 2010

Oportunidade única!

Numa das maiores iniciativas culturais dos últimos dias, o Youtube resolveu disponibilizar alguma da melhor poesia da década passada. Vejam e vejam depressa, antes que sejam retiradas por infracção dos direitos de autor (ou algo parecido). Vão ver que vale a pena. Aqui.

20 janeiro 2010

Já vi muita coisa depravada no meu tempo...


...mas como isto ainda não tinha visto nada.


(A elaborar num futuro número da Take)

Rendido!


14 janeiro 2010

O melhor do mundo são as crianças?


Thomas Mann escreveu um dia que a génese do nazismo podia ser encontrada no romantismo e no consequente insuflar do sentimento nacional. Conhecendo um pouco a época, parece óbvio que tinha razão. Mas agora Michael Haneke vem dar outra hipótese, concomitante com a primeira: e se na sua génese estivesse também o puritanismo, com os seus mecanismos sociais e ideológicos? O resultado é O Laço Branco, mais um excelente filme de um dos maiores cineastas europeus da actualidade.

E como em tudo nos filmes de Haneke, nada é simples: uma vila alemã no início do século começa a ser palco de ocorrências estranhas, desde um atentado à vida do médico local ao incêndio do celeiro dos latifundiários da vila. Narrado pelo professor, em processo de corte de uma jovem dificultado pelos acontecimentos, coloca-se uma hipótese: e se as crianças da vila, aparentemente inocentes e constantemente lembradas dos ideais de pureza a que supostamente respondem (o uso de um simbólico laço branco na roupa ou no cabelo é um castigo por travessuras pouco condizentes com a prática social da época), estivessem por trás dos acontecimentos? Como habitual, não é dada uma resposta taxativa – ser taxativo com acontecimentos históricos a um século de distância é complicado - mas o papel dos petizes nos filmes do austríaco foi sempre de disrupção, agindo para perturbar o mundo padronizado e confortável dos adultos. O que parece pouco inocente é o término temporal do filme no início da Primeira Guerra Mundial: se a um contexto de repressão e de medo (vejamos a fantástica cena em que o pai castiga a masturbação do filho com o amarrar das suas mãos à cama) juntamos uma juventude à vontade com a prática do mal e as agruras trazidas pelo Tratado de Versailles, podemos ter, década e meia depois, com os mesmos jovens a caminho dos 30, a semente do nazismo. As declarações de Haneke na promoção ao filme vão nesse mesmo sentido.

Ascético, duro e sem momentos explosivos, num olhar clínico e distante, ajudado pelo imenso contraste do seu preto e branco, O Laço Branco é um filme cerebral e quase “de tese”. A reconstituição é óptima mas o melhor é como o rigor da mise-en-scène se conjuga com o tom uniforme, formando um objecto sem qualquer cedência relativamente ao modo de pensar e de enquadrar a História como hipótese de arte e a estética como demonstração de ética. O espectáculo histórico, na figura de super-produções que simplificam processos históricos e substituem a qualidade estética pela imponência das super-produções, não passa por aqui. Ainda bem.


Apenas uma nota final para os distribuidores: se o filme for num preto e branco constrastado, por favor coloquem as legendas a amarelo, azul, vermelho ou lilás, mas nunca a branco. Vão ver que os espectadores que não falam a lingua das personagens agradecem.

11 janeiro 2010

E ainda dizem que não há insubstituíveis (III)









Rohmer RIP


É certo que Truffaut morreu há mais de 25 anos, mas foi um caso isolado. Sinto que com a triste notícia de hoje, se marca o início do desaparecimento da geração que dos Cahiers se transformou em Nouvelle Vague.

Sumaríssimos (8)


Há muito a gostar em Where the Wild Things Are. Dos monstros criados pela companhia de Jim Henson à música de Karen O, passando por todo o imaginário fantástico criado por Maurice Sendak e adaptado por Spike Jonze ao cinema, pela primeira vez sem a companhia de Charlie Kauffman – aquele cão gigante é magnífico. Sobretudo, pelo lado psicológico dado à infância, mostrando já conceitos éticos e morais e plena noção de afectos e rivalidades embora a traço largo. Porém, o lado que mais me atrai é o contrário: as sequências de movimento, com saltos enormes e criaturas que se atiram umas às outras e se digladiam com bocados de terra. Porque é nesta que vejo a liberdade de se ser criança e o modo como esta se manifesta na irrequietude, no bicho-carpinteiro que as crianças têm nos momentos de felicidade. Sobretudo na sequência dos festejos da coroação do miúdo, em que a música parece carregar e sublinhar a acção. Parece que Jonze viu com atenção o Marie Antoinette (2006) da ex-esposa… Being John Malkovich (1999) e Adaptation (2002) eram melhores, mas este é encantador.

05 janeiro 2010

TOP 2009

Com algum atraso, aqui vai o meu top de filmes 2009. 12 filmes, idealmente um por mês. E com a devida penitência por ter perdido, entre eventuais outros, o Ne Change Rien de Pedro Costa.

1 - Gran Torino
2 - Singularidades de Uma Rapariga Loura
3 - Andando
4 - Un Prophète
5 - Inglorious Basterds
6 - Up
7 - L'Heure d'Été
8 - The Curious Case of Benjamin Button
9 - Shotgun Stories
10 - Ponyo à beira-mar
11 - Two Lovers
12 - Milk

04 janeiro 2010

Do sexy no masculino

Na antevéspera de Natal, tomo café com duas primas, uma de 33 anos e outra de quase 29, no bar da FNAC do Vasco da Gama. No intervalo da troca de prendas e das conversas, elas folheiam esfomeadamente um livro de fotografias de Robert Pattinson, por entre mil e um comentários embevecidos.
No dia de Ano Novo, vejo alguns minutos de Astérix e os Jogos Olímpicos, enquanto como e bebo qualquer coisa. Alain Delon, no papel de César, velho mas ainda magnético, envenena acidentalmente o seu leopardo de estimação e diz ter feito bem, pois “havia um leopardo a mais na sala”…

No que concerne ao padrão de beleza masculino e ao seu decréscimo nas últimas décadas, só me apetece perguntar:

Como é possível passarmos disto




para isto




?

29 dezembro 2009

22 dezembro 2009

Notas da ´teca (7)


No final dos anos 30, mercê de diversos problemas com os estúdios ao longo da década e que injustamente apagaram, na cabeça dos produtores, os muitos sucessos anteriores, King Vidor não tinha a vida facilitada. Felizmente, The Citadel (1938) inverteu a situação e permitiu a existência do belíssimo mas complexo The Northwest Passage (1940), adaptação da primeira parte do à época famoso romance homónimo de Kenneth Roberts. Superprodução em technicolor onde a grandiosidade do cinema de Vidor podia brilhar em toda a amplitude, acabou por sofrer limitações por parte da MGM, preocupada com o custo galopante da obra, e não só não repetiu o sucesso da obra anterior como voltou a lançar Vidor numa travessia do deserto, não filmando entre 1941 e 1944.

Idealmente, esta história da conquista do território americano a índios e franceses estava pensada para servir de incitação patriótica ao público norte-americano em vésperas do início da participação na Segunda Guerra Mundial. Contudo, é um filme ideologicamente complexo, a que muitos apelidaram de fascista, sobretudo pela personagem carismaticamente desempenhada por Spencer Tracy. É certo que o Major Robert Rogers tem, na sua devoção total ao brio e ao método militar bem como, e sobretudo, na maneira como vê e mata índios, muitos aspectos totalitários e até fascistas. Contudo, o filme equilibra essa componente através das demonstrações de respeito e interesse que Rogers tem pelos seus homens, bem como pela tónica nas dificuldades por que passavam aqueles homens (sempre vistos como heróis), que forçavam a existência de atitudes menos correctas mesmo vindas de pessoas de moral acima de qualquer suspeita. Essencialmente, concordo com a opinião de João Bénard da Costa na respectiva folha da Cinemateca (de onde são, aliás, retirados os dados históricos citados no início): mais do que ideologia, que pode ser vista aqui, deve-se ver realismo, sobretudo na violenta sequência da destruição da aldeia índia. Ninguém disse que durante a construção de um país não se sujam as mãos.

Curioso é que no meio das acusações de fascismo, um pormenor tenha sido esquecido: com a acção situada antes da Revolução Americana, apenas no início, e à laia de McGuffin, há a contestação ao Império Britânico. De resto, até há planos em que a Union Jack voa ao vento de forma muito conspícua. Se Vidor põe de lado o ímpeto anti-imperialista no retrato da vida colonial da América, então está definitivamente provado que o interesse era retratar e não politizar.

O que, por sua vez, se estende à componente estética. Do mesmo modo que a personagem de Robert Young pretende ser um pintor na senda de Rubens ou Velasquez (e é difícil não ver a influência deste último na construção geométrica do encontro de Young com a família da sua amada), interessa a Vidor pintar uma paisagem e povoá-la com um povo. Como em Man Without a Star (1955) e, obviamente, Duel in The Sun (1946), o que aqui vemos é uma visão ideal, pictoricamente estilizada através do technicolor, da paisagem norte-americana e da interacção das personagens com ela (note-se a magnífica sequencia em que é a corrente humana que permite combater a corrente de um rio), não se coibindo mesmo, no final do filme, de exaltar em monólogo as virtudes do território americano. Mais perto de Ford do que de Hawks, Vidor mantém aqui a sua componente de cineasta telúrico, talvez mesmo o maior de todos.

21 dezembro 2009

A década

01 - Lost in Translation
02 - A Última Hora
03 - 2046
04 - Million Dollar Baby
05 - Kill Bill vol. 2
06 - Gran Torino
07 - Munique
08 - Saraband
09 - Juventude em Marcha
10 - O Caimão

09 dezembro 2009

A banda da década?

You don´t need to find answers/ to questions never asked of you
in “Two More Years”
We promised the world we’d tame it/ What were we hopping for?
in “Pioneers”


Musicalmente, a década que agora finda foi extremamente proveitosa. O rock rejuvenesceu, através dos Strokes, White Stripes, Queens of the Stone Age, Interpol, Yeah Yeah Yeahs e muitos outros. A electrónica deu-nos muitos e bons nomes, mas basta citar LCD Soundsystem para a década estar ganha. Arcade Fire, The National e Antony and the Johnsons foram profunda fonte de catarse. Na pop, o lado arty dos Franz Ferdinand conjugou-se na perfeição com o caleidoscópio dos MGMT e com a desbocada Lily Allen. Em Portugal, discos de Old Jerusalem, Humanos, Linda Martini, os fantásticos Golpes e os sobrevalorizados Pontos Negros dão esperança no futuro. Mas qual foi a banda que melhor capturou o aspecto humano contra e dentro do zeitgeist? A resposta, para mim, só pode ser uma: Bloc Party.



É certo que todos os nomes internacionais atrás referidos são, esteticamente, muito melhores que os Bloc Party. É igualmente certo que são musicalmente limitados. E é indiscutível que o seu percurso tem sido a pique, descendendo da estreia Silent Alarm (2005) para o seguinte A Weekend in the City (2006) e ainda mais com o terceiro Intimacy (2008). Mas os Bloc Party juntam, da forma mais coerente e mais recompensadora, os diversos matizes da vida contemporânea. Banda de canções mais do que de álbuns, neles se pode ver: a energia dos começos ("Little Thoughts"), a espera pelos momentos em que os problemas serão debelados ("Two More Years"), pequenos momentos de declaração amorosa ("So here we are" ou "Sunday"), retratos da vida (sub)urbana ("A Song for Clay" ou "Waiting for the 7 18"), a impotência de quem olha para o mundo virado do avesso e nada consegue fazer ("Pioneers") ou a tristeza pelo fim dos relacionamentos ("Signs"). Por detrás de uma banda aparentemente limitada, esconde-se uma obra bem mais preenchida e sentimentalmente ampla do que parece.



A compor este ramalhete, aparece a construção (a ilusão, se quiserem). Mimetizando o mundo actual, a música dos Bloc Party parece cheia de néons e edifícios de vidros espelhados, de telemóveis topo de gama com acesso ao Facebook e ao Twitter, do crescimento económico normalizador do mundo capitalismo, do bulício nocturno à volta de bares e discotecas onde as pessoas tentam expurgar as suas neuroses e limitações, das madrugadas em que se volta a casa embriagado, com frio e cansado mas com a sensação da catarse feita. Não é que se pareçam connosco (afinal de contas, quantos de nós tocaram em Glastonbury?) mas disfarçam muito bem.



Se os Bloc Party estão a caminho do fim (a falta de qualidade de Intimacy assim o parece indicar), pouco importa. Não terão o futuro que parecem ainda ter os Arcade Fire ou os MGMT, mas isso só parece reforçar o ponto que tento fazer: o de uma música que vive desta década e para esta década como poucas e que, por isso a ela pertence e nela se parece esgotar.

08 dezembro 2009

Maria João Seixas


Já há directora: Maria João Seixas substituirá João Bénard da Costa como directora da Cinemateca. E é uma nomeação que me deixa dividido.

Comecemos pelo fim: Pedro Mexia, de quem temia muito pior, optou pelo low profile e só lhe podemos agradecer. O escritor/poeta/cronista/crítico/blogger/encenador ocasional optou por, pelo menos para fora, pouco ou nada mudar. Fez bem.

Quanto à nova directora, reconheço-lhe longa carreira no jornalismo e algumas excelentes entrevistas que li, sendo provavelmente alguém que, sendo eu próprio um ex-jornalista, gostaria de ter tido como editora ou professora. Espero que a própria se prepare porque, apesar da sua longa carreira, várias "bocas" se seguirão apontando a sua anterior conjugalidade como motivo de escolha.

De resto... o Ministério optou por não escolher ninguém que tenha experiência de facto, prática e teórica, para melhor desempenhar o cargo, incorrendo no mesmo erro em que incorreu quando nomeou Mexia, por acção directa de Bénard da Costa. Com José Manuel Costa ou João Mário Grilo por aí (para não falar num mais velho Alberto Seixas Santos ou, porque não, até num João Lopes ou num Fernando Lopes), resta saber porque persiste esta relutância em trazer os melhores exemplos práticos de uma arte para os campos de decisão e gestão. Será pela ideia de que um artista não consegue cumprir um orçamento? Ou porque, em Portugal, um cineasta é criatura de poucos amigos, sobretudo na política?

Posto isto, pelo carinho que tenho por aquela casa e pelos filmes que ainda lá espero ver, desejo a melhor sorte a Maria João Seixas. Sobretudo, que dê um choque na Cinemateca que a liberta do relativo tédio do "ciclo entra ciclo" sai em que parece estar um pouco presa. e que finalmente instaure outros pólos da instituição não apenas no Porto, mas também noutras partes do país, por exemplo junto às universidades de Coimbra, Algarve e Beira Interior.

04 dezembro 2009

Romance Perigoso


O dia 13 de Setembro de 2008 provocou terramotos nunca vistos depois de 1929. Aconteceu mesmo, depois de muitos avisos ignorados. Hoje, parece já estar tudo normal (exceptuando Bernie Madoff, nenhum dos prevaricadores foi preso, os astronómicos bónus bancários já estão a ser pagos, as bolsas já geram outra vez dinheiro e sobrou apenas uma crise económica que não belisca quem recebeu pára-quedas dourados para arruinar a economia mundial) mas Michael Moore já andava de olho na situação antes do rebentamento. E com o resultante Capitalism: A Love Story assina o seu melhor filme desde a estreia com Roger and Me (1989).

Iniciando o filme com uma óptima montagem comparando a situação dos EUA à queda do Império Romano, o filme avança por uma visão do que era o ideal do capitalismo americano no pós-guerra imediato, até à ofensiva que as empresas norte-americanas fizeram aos direitos laborais e à ocupação de cargos governamentais que redundaram no aumento da desigualdade através do corte de impostos para a minoria abastada. A parte do filme de pendor informativo culmina com o fulminar do sistema em 2008 e é, diga-se de passagem, a parte mais útil do filme. Num contexto mediático dominado pela direita (embora eles digam que não) é com clareza, com números, gráficos de fácil compreensão e numerosos exemplos práticos que Moore explana a evolução da economia mundial e as condições que deram origem à débacle. Este é, então, um filme de rigoroso e relevante pendor informativo e contextualizador, fazendo o trabalho necessário mas que os média mainstream se recusaram, por motivos ideológicos e empresariais, a fazer ao longo dos últimos 30 anos.

Na segunda parte, são dados exemplos de como a crise afectou pessoas concretas e de como esta pode ser debelada. Parte mais interessante do ponto de vista documental, dando uma visão humana dos efeitos e das saídas da crise, é aquele em que os casos são do mais caricatural, desde o economista formado na Ivy League que não consegue explicar o que são derivativos, demonstrando na prática o desnorte do sistema económico ao aviltante momento em que são denunciados os seguros de vida que as empresas fazem aos empregados, ficando com a compensação quando estes morrem. É talvez o momento mais explorador do filme (são visíveis as lágrimas nas faces de alguns dos entrevistados), mas também aquele que retira com mais precisão a economia dos manuais e dos escritórios corporativos. Também é aqui que exemplos de empresas em cooperativa, com partilha simultânea de sacríficio e de lucro, são apontados como possível solução.

Na última, talvez a mais panfletária, Moore apela à desobediência civil, dando exemplos de casos em que, na sua óptica, esta se encontra já a começar. Seria a parte que eventualmente poderia ser acusada de marxista para cima, mas que ganha uma curiosa dimensão quando comparada com o momento inicial: afinal de contas, em nenhum momento se pede um paradigma “esquerdista”, mas sim um regresso ao momento em que o capitalismo se sedimentou e que, na versão do realizador, construiu a América. Este é, então, o filme em que fica claro que a mudança dirige-se, então, no sentido da ética e da partilha entretanto perdidas e não dos amanhãs que cantam.

O que causará decerto muita confusão a muita gente. Mas é o que dá profundidade e conteúdo ao filme. Enquanto muitos se divertiam, ao longo dos anos, a questionar o patriotismo de Moore e a apelidá-lo de leninista de mil maneiras veladas, o que ele aqui mostra é o seu amor pela América, bem como a noção de que, afinal, nem o país se esgota nas corporações nem a magnífica cidade de Nova Iorque acaba em Wall Street. No limite, Michael Moore está mais próximo da Star Spangled Banner que de uma foice e de um martelo e isso causará muita surpresa. A quem andou distraído, claro.

01 dezembro 2009

Um marco da cultura nacional


Aqui, saudei o regresso do cinema à RTP2. Passadas duas semanas, regressa esse bastião do pensamento e do engenho nacionais que é o talk-show 5 para a meia-noite. E o cinema? Mas isso interessa a alguém?

26 novembro 2009

Uma segunda morte


Muitas vezes, ao longo da história do cinema, é o projecto da vida de um cineasta aquele que o acaba por colocar numa posição subalterna. Orson Welles nunca mais teve um segundo de sossego depois de Citizen Kane; Martin Scorsese passou as passas do Allgarve depois de Raging Bull; e Brian DePalma falhou genialmente no seu Bonfire of Vanities, sendo hoje injustamente considerado um realizador secundário. Em Francis Ford Coppola nem é preciso ser muito original para se referir os problemas que surgiram após One From the Heart, simultaneamente a nível de credibilidade artística (apesar de Rumble Fish, Peggy Sue Got Married e Bram Stoker’s Dracula) e de capacidade financeira.

Neste contexto, mais do que uma segunda vida, a carreira de Coppola quis recomeçar com Youth Without Youth é, mais do que uma segunda vida, uma segunda morte. Tetro, novo filme do cineasta, história de um família desavinda que pensa avançar em direcção à reconciliação mas que acaba por se afogar no derradeiro abismo, em nada impede a queda, mesmo que não a acentue tanto quanto a obra anterior. Num preto e branco expressionista, a lembrar Rumble Fish (como o lembra a frase "He´s like a genius without enough accomplishment", que rima com a frase "He´s like royalty in exile" desse mesmo filme), em tons propositadamente arty, nomeadamente nos interlúdios a cores, com um Vincent Gallo inconsequente e uma história que se arrasta sem grande necessidade, é um filme sem alma mas que quer parecer relevante, demonstrando até um certo desespero no modo como tenta chamar a atenção através dos ângulos de câmara ou do argumento demasiado rebuscado, sobretudo na segunda metade do filme. Como quem veste o casaco de peles para ir jantar ao McDonald's.

O que levanta uma questão: se estes são os filmes que Coppola queria fazer desde sempre, supostamente arriscados e experimentais, até que ponto as obras-primas que fez não o foram também muito por culpa dos constrangimentos de que alegadamente se terá entretanto libertado? Por outras palavras, até que ponto o sistema que Coppola agora critica não ajudou a limar e a controlar a megalomania que sempre teve, melhorando assim a qualidade dos filmes? A resposta, para aqueles como eu que sempre defenderam o autor contra o estúdio, pode ser assustadora.

23 novembro 2009

TAKE 20 - Novembro


A Take é como as derrotas do Benfica - tarda mas não falha. E cá está a edição de Novembro, capa dedicada a Francis Ford Coppola. Da minha parte contem com críticas a Welcome, Pride and Glory, ao magnífico Andando, Morrer como um Homem, Il Divo e Desgraça, entrevistas a Fernando Lopes, Agnès Jaoui e Nuno Galopim, coberturas da Festa do Cinema Francês e do Queer Lisboa e com a antevisão ao ciclo Monte Hellman.


Passem por lá, que a gerência agradece.

20 novembro 2009

O regresso

Não deve ser novidade para muitos, mas só esta semana reparei que a rubrica "Cinco Noites, Cinco Filmes" está de regresso à RTP 2. Apesar da hora tardia (filmes a começar pela meia-noite) há que dar o mérito a quem tomou a medida e esperar que a programação seja equilibrada e relevante. Ao fim de anos a negligenciar o cinema na estação pública, alguém deve ter acordado.

17 novembro 2009

Conto de Fadas do Estoril à Avenida de Roma


O Estoril Film Festival acabou este sábado. E teve tudo para ter sido um sucesso, desde a habitual presença de grandes nomes do cinema internacional às ante-estreias de filmes dos mais esperados dos próximos 12 meses, desde o óptimo Os Sorrisos do Destino de Fernando Lopes até aos muito aguardados Tetro, The White Ribbon e Un Prophète. Contudo, não lá estive, nem este ano nem nos anos anteriores, numa decisão a meio caminho entre o prático e o ideológico.

No ambito prático, vivendo na linha de Sintra, teria de ou comprar bilhete(s) para outra linha de comboio ou ir de carro, gastando dinheiro que não tenho. Adicionalmente, teria de jantar e ou lanchar quando estivesse no festival, o que faria a despesa crescer. Dado que grande parte dos filmes serão lançados em sala, pareceu-me pouco recompensador, mesmo que me doa não ter visto Francis Coppola, David Cronenberg ou Juliette Binoche.

Mas o âmbito ideológico falou ainda mais forte. Peguemos no festival na sua essência: um produtor com problemas económicos conhecidos (uma falência aberta há poucos anos) resolve juntar meia-dúzia dos filmes que vai lançar, alguns amigos, reunir tudo num casino, que ajuda a dar charme, e cria uma secção competitiva, sem grande interesse na medida em que se o tivesse, o mesmo produtor, na sua faceta de distribuidor, estreá-los-ia em sala. E pronto, nasce um festival que vale essencialmente por esses amigos que o produtor traz.

E, de caminho lembramo-nos de um pequeno cinema, apesar de tudo com três salas, sito na Avenida de Roma, chamado King mas cujo estatuto real parece o de monarca deposto. As cadeiras mais desconfortáveis que alguma vez experimentei, um interior cavernoso, coberto de carpetes que provavelmente não são limpas há muitos meses e que, mesmo ao fim-de-semana, tem apenas meia-dúzia de resistentes que ainda não foram ver esses filmes ao Monumental ou ao um pouco menos decrépito Fonte Nova ou por um ou outro morador da zona. Ao longe, lembro-me de outros tempos em que aquelas salas estavam preenchidas, em que se viam lá excelentes filmes, em que, em suma, a sensação de abandono era apenas um pesadelo distante, tendo os empregados realmente trabalho a desempenhar e não que suportar o tédio enquanto o patrão serve champagne aos comparsas no casino.

Alguém perguntou ao sr. Branco quanto do dinheiro que investe no Estoril Film Festival poderia ser usado para re-tornar o King num cinema atractivo, com filmes interessantes que lá passassem em exclusivo (deixem-me sonhar: com uma sala permanentemente dedicada ao cinema asiático contemporâneo) ou para dar vida ao Nimas (porque não como cinema de reposição?) em vez de o transformar num espaço multi-funções com rentabilidade ainda por demonstrar? Não, e o próprio decerto deve estar-se borrifando. No fundo, ele está apenas a fazer aquilo que o país faz. O trabalho é precário ou inexistente? Não há problema, temos a maior àrvore de Natal do Mundo. O ensino é cada vez pior? Temos aqui uns computadores azulinhos para ofertar, pelo que está resolvido. A cultura está de rastos e o cinema ainda mais pelo chão se encontra? Não; se assim fosse, teríamos o Coppola, o Cronenberg e a Binoche no Casino?

E então, como por magia, parece estar tudo bem. Mesmo que filmes como Takeshis' e Ne Touchez Pas la Hache tenham sido remetidos para dvd ou que a estreia de filmes como A Turma ou Ne Change Rien e a reposição de O Sangue tenham ocorrido num centro comercial. De luxo, claro está, que é o que importa acima de tudo.

15 novembro 2009

Sumaríssimos (7)


The Brothers Bloom tem, antes de tudo, um mérito: demonstra que Wes Anderson criou descendência. O segundo filme de tem um mesmo leque de personagens neuróticas, a um tempo cómicas e comoventes, o mesmo sentido romanesco na escrita do argumento, a mesma neurose omnipresente e um idêntica cuidado visual. Contudo, o realizador Rian Johnson mascara essas componentes de filme de golpe, onde as sucessivas fraudes acabam por servir de esqueleto à narrativa que o espectador acompanha. É neste aspecto que The Brothers Bloom acaba por me perder, tornando-se algo repetitivo, cansativo e previsível, apesar das diferentes cidades em que se passa e da tentativa de encenar cada golpe como uma micro-narrativa. Apesar disso, é uma boa surpresa, com personagens bem construídas, uma história interessante, actores que defendem muito bem as suas personagens e momentos francamente bons – destaque para o malabarismo de motoserras por parte de Rachel Weisz, das mais originais cenas de cinema que vi este ano. Consiga Rian Johnson afastar-se da influência de Wes Anderson, multifacetar os argumentos e dosear a sua criatividade (a páginas tantas, parece um filme demasiado cheio) e temos cineasta.

10 novembro 2009

O melhor depois de Preud'homme


Flint, Michigan


Antes do som e da fúria que Capitalism: A Love Story causará, importa caracterizar desde logo o método Michael Moore. A estrutura documental de filmes como Bowling for Columbine (2002) é directamente herdada da televisão, combinando entrevistas, visitas a locais e pessoas, entrevistas e acompanhamento situacional. A estas componentes juntam-se os dois que mais diferem da maior parte dos documentários: a componente humorística, que impede que Moore alguma vez seja considerado artista por quem quer que seja; e a utilização de uma "personagem" Michael Moore, espécie de americano típico que utiliza a câmara como arma mas que, em vez de vinculado aos ideais do GOP, é assumidamente liberal, na conotação americana do termo. Assim, o cinema de Moore utiliza uma camada de humor para impor os factos investigados, ultrapassando a habitual monotonia apontada aos democratas e auto-promovendo-se no sentido de tornar os seus filmes cada vez mais vistos. É isto que ninguém lhe perdoa.

E é por isto que Roger & Me (1989), primeiro documentário de Moore aparece hoje como tão desconcertante e, no limite, como a sua melhor obra. Todo o seu cinema estava ainda numa fase embrionária, em que os motivos gerais já lá estavam mas que ainda não tinham nem o carácter óbvio nem o lado determinante que hoje lhes é atribuído. Moore na primeira pessoa, sim, mas ainda não era a estrela do filme; pose de americano típico, sim, mas uma barriga menos luxuosa e um lado menos caricatural, mais credível e natural; entrevistas, sim, mas muito menos manipuladas, ainda centradas única e exclusivamente no assunto em causa; lado eminentemente político e esquerdista, mas apontando ainda ao senso comum e aos valores básicos e não a qualquer radicalismo que eventualmente se lhe possa apontar.



Filme sobre a terra queimada em que se tornou a cidade natal de Moore, Flint, no estado do Michigan, quando a General Motors decidiu eliminar 30 mil postos de trabalho, entretanto exportados para o México, intercala cenas do quotidiano da população, acompanha um delegado do Xerife local cuja função é despejar inquilinos incumpridores e mostra o percurso de Moore enquanto tenta chegar à palavra com Roger Smith, o obscenamente remunerado presidente da General Motors. Longe de espalhafatoso, mantendo os momentos bombásticos ao mínimo (a piada anti-semita do apresentador de televisão), é um filme que opera uma curiosa inversão face aos filmes posteriores que conhecemos: em vez de partir do nacional para o local (do governo para as pessoas) começa antes por ser um filme sobre aquela cidade, beneficiando com o conhecimento de causa do cineasta. São abundantes os planos a mostrar a degradação, a comparar o espaço com o passado (e, atente-se, a um passado que pode ser mera construção nostálgica), cartografando a perda de horizontes e o fim do sonho americano à medida que a economia se ia globalizando. O que o torna algo de mais emotivo, de mais sério e menos generalizador, como se houvesse uma espécie de deriva "neo-realista", saindo para a rua e vendo, e não uma deriva tão circence – não há nenhum momento tão grotesco e explorador como o da mãe do soldado morto no Iraque como em Farenheit 911 (2004). Para o bem e para o mal, é um filme claramente beneficiado pelo escopo mais pequeno, mesmo que o inimigo (a cultura empresarial os EUA), seja o mesmo.

Depois disto, o caminho foi diferente, com momentos muito bons e outros menos positivos. Mas é pena que a este Roger & Me, sóbrio, inteligente, comovente e completamente sério, não tenha sido dada a atenção merecida. A rever quando, daqui a umas semanas nos quiserem de novo convencer que Moore é apenas o palhaço rico da esquerda americana. Roger & Me é muito engraçado, utilizando toda a panóplia de métodos de comédia, dos mais contidos aos mais satíricos e insultuosos. Mas quem pensa que este filme é para rir está bem enganado. É do mais sério que vi nos últimos tempos.

07 novembro 2009

Bellum sine bello

Dos filmes de John McTiernan, prefiro Predator (1987), Die Hard (1988, que filme do catano!) e, sobretudo, The Last Action Hero (1993), dos melhores exercícios de mise-en-abime da década de 1990. Mas nunca tinha prestado a devida atenção a este magnífico Hunt for Red October (1990), talvez porque tantas vezes passou na televisão que pensei haver sempre outra oportunidade de o ver. Houve e em boa hora, pois dos filmes feitos aquando do final da Guerra Fria, o de McTiernan não apenas é o que tem o substracto mais subtil como o que lhe adiciona um maior cuidado e interesse estéticos.

Comecemos pelo lado político. Ao contrário de outros filmes que têm na propaganda o seu fulcro (veja-se o horroroso The House of Russia de Fred Schepsi, 1991), o de McTiernan consegue desenhar a ideia da superioridade ocidental em apenas duas sequências, cada uma com mais tacto do que a outra: a conversa entre Sean Connery e Sam Neill nos aposentos do comandante, onde o sonho da liberdade é enumerado com tacto e descrição; e a conversa final entre Connery e Alec Baldwin, onde são frisadas as semelhanças mais do que as diferenças. E, parecendo que não, este ponto é importante. Porque é o que o localiza em pleno estertor final da referida guerra, quando já não era necessário o fulgor propagandístico mas antes a aproximação. De certo modo, apesar dos seus inequívocos bons e maus, ao longo deste filme quase conseguimos ver Reagan passear com Gorbatchev na Praça Vermelha. Num filme onde o espectro da guerra nuclear paira sempre, é obra.


John McTiernan, ao contrário de um James Cameron, que sabe escolher quando ser clássico (Titanic, etc) e quando ser moderno ou pós-moderno (o novo Avatar, espera-se), é uma perfeita mescla de ambas as hipóteses. Por um lado, no rigor dos planos, na linearidade no bullshit do filme, no seu classicismo apenas entrecortado pelos cibernéticos indicadores de hora e local, quase que é um filme que se poderia imaginar noutras eras. Tudo isto em claro ambiente pipoqueiro, de blockbuster típico dos pós-76, com um orçamento confortabilíssimo e com elenco cheio de nomes reconhecíveis (Connery, Baldwin, Neill, James Earl Jones, Scott Glenn ou Stellan Skarsgaard), onde é óbvio que o espectáculo é a principal motivação. Mas o espectáculo... pouco tem de explosivo. Com a excepção da fabulosa acoplagem do helicóptero ao submarino e apesar do tom grandioso que empresta à sua progressão e filmagem, ... Red October mais não é do que um jogo do gato e do rato estendido para duas horas e um quarto, onde o interesse reside mais na gestão dos encontros e desencontros, dificuldades técnicas e relação entre a ordem política e o desempenho militar que um filme de confrontação, na constante expectativa de um encontro que parece inevitável. Como resume brilhantemente a personagem de Sean Connery, é “uma guerra sem guerra” e o filme sabe mostrá-lo.

E quando o encontro chega, é magnífico. As melhores cenas do filme, aliás, dão-se na última meia-hora. Primeiro, quando os militares americanos e o analista da CIA entram no submarino russo. Apesar de absolutamente equivalente, esse encontro é dado como se fosse um encontro entre humanos e alienígenas, em posições inter-mutáveis. Há uma brilhante tensão, em constante crescimento nos seus passos titubeantes apesar do respeito pelo protocolo militar, gerida magníficamente por McTiernan, que contamina o momento. E, finalmente, o belíssimo combate entre o submarino russo extraviado e o “oficial”, que coloca uma hipótese estimulante: e se Hunt for Red October fosse, afinal, um swashbuckler entre submarinos? Fazia todo o sentido e só contibuía para o fascínio que exerce.


Como os outros filmes que McTiernan fez entre 1985 e 1995 e aos quais se pode juntar o muito razoável Basic (2003), Hunt for Red October só faz lamentar que a carreira de McTiernan tenha sofrido os empecilhos que sofreu por parte dos estúdios, com especial enfase para os problemas que resultaram nos cortes e no descrédito de The 13th Warrior (1999) e Rollerball (2002) – falamos de um cineasta com apenas 11 filmes em 22 anos e que não filma desde 2003. Afinal de contas, era disto que se devia falar quando se fala de thriller político, filme de acção ou blockbuster. A ser visto pelos produtores da saga Bourne.

01 novembro 2009

Sérgio RIP


A morte é por definição imprevisível, é certo, mas soubesse eu que o dia de hoje traria a noticia da morte de António Sérgio e não teria poluído este blogue com mais um texto sobre bola.


Comecei a ouvir o Lobo há sensivelmente dez anos, companhia noctívaga de insónias ou trabalhos atrasados. A ele agradeço ter descoberto, por exemplo, os Pavement e os Red House Painters, que hoje muito admiro. E nunca deixei de me sentir intrigado, fascinado até, por aquela rouquíssima voz, e pelas dificuldades que me dava em fazer perceber os nomes das bandas que passava.

Um obrigado, António Sérgio. Se houver mesmo um Great Gig in the Sky, que o esteja já a ver.

E como esta homenagem não pode ser silenciosa, aqui vai um nome da sua preferência



31 outubro 2009

Um pequeno aviso

De azulinho, tão bem que ele fica!

Tinha posto aqui um texto que entretanto eliminei. Fica apenas aqui uma pequena reflexão sobre o Corruptos-B - SL Benfica:
Alguém acha que que, à 9ª jornada, alguém nos deixaria ficar com cinco pontos de vantagem sobre os corruptos? Sinceramente, somos ingénuos, caros benfiquistas...
De qualquer modo, o aviso continua: com a nossa preparação empresarial, com os jogadores que temos para vender e com o que jogamos, mesmo perdendo...
AINDA TERÃO DE NOS ROUBAR MUITO MAIS!
Aguentem!

29 outubro 2009

Sumaríssimos (6)


The Informant! é o terceiro filme de Steven Soderbergh este ano. E sofre com isso: o formalismo sem desculpas que o cineasta utiliza para contar a história do maior denunciante intra-empresarial da história dos EUA é já parte de uma gramática regular e até algo previsível, incluindo filtros de imagem, ângulos pouco comuns e referências ao passado cinéfilo (aqui os eternos anos 70 americanos). O caso é interessante, há bons gags, Matt Damon está óptimo, Scott Bakula está muito bem e continua a ser a um tempo fácil e estimulante de ver, mas já vi este filme três vezes este ano.

25 outubro 2009

O "special one" original


Brian Clough era o homem que faria José Mourinho urinar-se pelas pernas abaixo. Grande jogador no seu tempo (254 golos em 271 presenças ao serviço de Middlesbrough e Sunderland) alcançou o seu espaço entre os grandes quando, ao serviço do Nottingham Forrest (ou melhor, o Forrest é que estava ao serviço dele) pegou na equipa em 1975 ainda na segunda divisão e, chegado a 1980, já havia conquistado duas Taças dos Campeões Europeus – algo que um conjunto de calimeros reptilíneos habituados a batatais nunca hão-de conseguir. Auxiliado pelo adjunto Peter Taylor (que o salvava de si próprio) foi também um dos primeiros treinadores europeus verdadeiramente mediáticos, procurando jogos psicológicos constantes, criando métodos de trabalho pouco ortodoxos e sendo verdadeiramente desbocado, irritante, volátil e arrogante como só os génios são.

The Damned United, filme de Tom Hooper, passa pelo feito de Clough ao tornar, em 1972, o Derby County campeão inglês, para se fixar nas tumultuosas seis semanas que o “mister” passou no Leeds United. Á época o mais forte conjunto britânico, ancorado num jogo violento e sem escrúpulos (tipo FCP circa 1992) e antes treinado pelo também famoso Don Revie, contava uma série de jogadores influentes que de imediato o rejeitaram, quer na sua vontade de tornar mais ético o estilo de jogo, quer na sobranceria que demonstra face às conquistas anteriores do plantel. O resultado é um filme cem por cento ancorado na sua personagem, valiosíssimo retrato de uma grande figura desportiva da sua época mas com bastos problemas estéticos.

Adaptado do livro homónimo de David Peace, contestado por intervenientes e pelos descendentes de Clough, The Damned United é, no seu melhor, um retrato da ambição que conduz as grandes figuras desportivas, aquelas que sem grandes provas dadas sentem que podem chegar longe, apenas e só com a força do seu trabalho e com uma ideia de predestinação que acabam por tornar auto-realizável. Quando resulta, é um filme que resulta o seu pathos ao focar-se não no sucesso, mas nas dificuldades que o antecederam, na travessia do deserto de alguém que percebe o seu talento mas é eternamente ultrapassado por gente muito mais medíocre e que usa isso como fonte de motivação. Não lhe falta também um lado de transcendência das limitações sociais – aspecto relevante no futebol britânico – mas trata, em suma, da frustração como factor essencial ao sucesso.

Posto isto, é pena que Tom Hooper falhe na sua tentativa de estilizar o realismo britânico, optando por um estilo barroco, com filtros de imagem e grandes angulares e outras opções que tornam The Damned United espalhafatoso, falsamente moderno e, no limite, esteticamente pouco recompensador. Ao que se junta o facto de as poucas vezes que as partidas são reconstituídas o serem de forma pouco convincente (a melhor reconstituição é a do jogo “visto” no balneário) e a falta de atenção dada a Peter Taylor, no que poderia ser outro filme: como se sente o homem que vive na sombra do génio?

Apesar de tudo, The Damned United tem duas grandes interpretações, (Michael Sheen e Timothy Spall) e é o melhor filme que vi passado no mundo do futebol, dado que o desporto-rei tem sofrido, cinematograficamente, com a sua falta de implantação nos EUA. E até pode dar uma ideia interessante a um produtor português: um filme sobre o mês e meio passado por Mourinho no Glorioso antes de ganhar uma Taça Uefa e uma Champions ao serviço de um clube cujo nome agora me escapa.

22 outubro 2009

Mais uma voltinha, mais uma viagem


Quando Saramago abre a boca, pode ser que diga uma asneira. Que, curiosamente, se desmultiplica imediatamente num chorrilho de outras asneiras, num todo confortante e recorrente. Como um casal que, apesar das discussões constantes, não consegue viver separado.


Se fui educado de acordo com os preceitos católicos, hoje estou calmamente afastado deles. Fartei-me de ver na igreja gente que era do pior durante a semana e achava que quarenta e cinco minutos ao domingo serviam de expiação. Concomitantemente, não suporto ver padres presentes em cerimónias públicas num estado laico e ainda me lembro de calinadas difíceis de engolir mesmo passados anos - lembram-se do padre que, em pleno funeral da menina imersa pela família em água a ferver, afirmou que apesar de tudo teria sido pior se a criança tivesse sido abortada? Nada disto faz com que subscreva as infelizes palavras do Nobel português da literatura. Quanto mais não seja porque a validade cultural daquele livro é indesmentível: para o bem e para o mal, aquele livro, como a Ilíada, a Odisseia, o Dom Quixote e a poesia de Dante está dentro de todos nós, como artefacto civilizacional, mesmo naqueles que não o leram. Simultaneamente, acho estranho que Saramago tenha ignorado quanto há de evolução ontológica na transformação da ideia de Deus do Antigo para o Novo Testamento.


Quanto aos senhores que, muito escandalizados, vêm agora pedir a cabeça de Saramago como Salomé a de João Baptista, muito menos dou para o peditório deles. O problema deles com Saramago começou em 1998, quando um escritor vermelho de ideologia venceu um prémio Nobel, numa rebelião cujo expoente actual é o Cardeal Cerej... perdão, Pedro Mexia. Não por acaso, nenhum desses senhores, tão lestos a denunciar o políticamente correcto e a forma como são supostamente cerceados na sua opinião esquecem-se agora de dar o direito de opinião a outra pessoa, deixando esse papel a Manuel Alegre. Já dominam os jornais, as televisões, as mentalidades de grande parte do país, mas ainda lhes dói que haja um espírito livre. Aguentem.


E, de caminho, aguentem também a ideia, o tão simples mas tão complexo conceito de liberdade de expressão. Também não gosto de ouvir atrasados mentais dizer que o Benfica era o clube do regime (factualmente mentira), o Presidente da Confederação de Industriais Portugueses falar da necessidade de salários baixos ou que o Slumdog Millionaire é um grande filme, mas tenho de lidar com isso. Caso tenham de marrar contra alguma coisa, marrem contra a protecção dada à extrema-direita ou a este pobre prisioneiro político.

14 outubro 2009

Take 19 - Outubro


Já está disponível o novo número da Take. Neste, contribuí com o artigo de capa, sobre Pedro Almodòvar, com antecipações a The Informant de Steven Soderbergh, Un Prophète de Jacques Audiard e The White Ribbon de Michael Haneke, fiz a cobertura do Motelx a meias com António Pascoalinho, entrevistei Stuart Gordon, critiquei Séraphine de Martin Provost, A esperança está onde menos se espera de Joaquim Leitão, Taking Woodstock de Ang Lee e Arena de João Salaviza (em despique com o Pedro Soares), Abraços Desfeitos de Pedro Almodovar e Para a Minha Irmã de Nick Cassavettes e escrevi sobre o mini-ciclo da Cinemateca dedicado a Elia Kazan. Foi um mês atarefado.


Fora o meu trabalho, há muito mais conteúdos interessantes na edição deste mês. Passem por lá.

05 outubro 2009

Pedaços de vida



Ao ver L’Heure d’Été, tarde e a más horas, pergunto-me se não estará na altura de reavaliar Olivier Assayas enquanto realizador. Certo que não tenho qualquer vontade de rever Clean (2004), insuportável! mas Irma Vep (1996) será dos próximos filmes a entrar no meu já cansado leitor de VHS. E nada disto aconteceria se não tivesse visto o belíssimo filme supracitado, conto tchekoviano acerca de como um conjunto de três irmãos gere o processo de luto matriarcal.

O mérito inicial de Assayas é o de saber rodear-se das influências certas. Algum Renoir, muito Hou Hsiao Hsien e até algum Téchiné, com quem Assayas escreveu o magnífico Le Lieu du Crime (1986). Um filme burguês (e é curioso pensar que se Marx tivesse o que queria não havia cinema francês...), famílias “bem” e a fantástica capacidade de nos fazer ter por aquela gente a simpatia que se calhar não teriamos noutras situações. Adicionalmente, todo o filme se passa no binómio campo-Paris, na forma como as duas realidades se concatenam, no modo como ambas espelham a definição daquela classe social ao longo dos tempos. Por último, nos filmes vêem-se a(s) estética(s) realista(s) -atente-se, nem por isso menos estilizadas - das influências que Assayas emprega. Com a sua câmara à mão, com os seus toques impressionistas (os planos nos automóveis em que os rostos se confundem com os reflexos) e com o naturalismo dos desempenhos dos actores, é como se o filme se desenvolvesse à nossa frente, acontecendo simplesmente apesar da sua cuidada preparação.
Para o fazer, há uma progressão romanesca gerida com classe, que pode ser aferida através das temáticas dos três actos que, de forma óbvia o compõe. No primeiro, quando a matriarca ainda está viva, é um filme sobre a confraternização (o “bonding”, no sucinto termo inglês), clinicamente interrompido pela sombra da morte – fantástico plano da grande Édith Scob, em outonais tons azuis, antecipando o seu fim. No segundo, é mais vincadamente acerca do luto, do seu lado burocrático e progressivamente mercantilizado e da passagem de um tempo, tentando transformá-lo em algo de positivo para o futuro. Finalmente, no terceiro, é acerca da eventual reconciliação, onde esse futuro é apresentado e onde tudo entra no seu lugar como que naturalmente, sem qualquer julgamento maniqueísta face ao que foi e ao que vem.

Sobretudo, pode ver-se aqui, talvez de forma algo rebuscada, não um comentário mas um testemunho daquilo que é a globalização em 2008/2009. Os irmãos que acompanhamos encontram-se distribuídos entre Paris, Nova Iorque e Shanghai, numa forma de dispersão que, para o bem e para o mal, fragiliza os laços familiares e mimetiza os actuais percursos da riqueza e das trocas culturais. Sobretudo, o que vemos é a dispersão do património que não poderá, de maneira nenhuma, por motivos práticos, manter-se na velha casa. Entre o dinheiro gerado pelas vendas, que se dividirá pelas três metrópoles, o espólio físico – que irá para o Musée d’Orsay – os cadernos do tio pintor – a serem leiloados pela Christie’s –, dá a ideia de uma Europa já nem culturalmente centro de nada, perdendo lentamente a sua capacidade de concentração de bens para um mundo em mutação. O Musée d’Orsay (que encomendou este filme juntamente com Le Voyage du Balon Rouge (2007) de Hsien mas que, como no caso anterior, pouco aparece), surge como o modo de Paris manter a sua relevância, já não viva ou dinâmica, mas numa luxuosa prisão para ser admirada. Parecendo que não, é até um filme de algum substrato “político”, mesmo que, repita-se, nunca condenando qualquer forma de mudança.

Se o anterior cinema de Olivier Assayas me havia parecido frio e desinteressante (ao ponto de não ir ver, por manifesto desinteresse, o anterior Boarding Gate), durante 90 e poucos minutos preocupei-me realmente com os sentimentos e a evolução daquela gente. O que é ainda mais notável tendo em conta que, apesar de tudo, L’Heure d’Été é um filme enxuto, pouco dado a sentimentalismos e a grandes momentos, mantendo um tom largamente uniforme. Mas dá a melhor das ilusões cinematográficas, a de estarmos perante um pedaço de vida. E isso continua, hoje e sempre, a ser impagável.

04 outubro 2009

The Bourne Seca


Não posso dizer que perceba os dois primeiros filmes da saga Bourne, que vi no final da semana que passou. É certo que são muito competentes nas perseguições automóveis, sobretudo a que existe a meio do primeiro filme. De resto? Personagens com a mesma espessura intelectual do José Eduardo Bettencourt, actores que recebem o mesmo que o presidente do Sporting mas parecem estar noutro sítio (e se são óptimos actores, Matt Damon, Brian Cox, Joan Allen, Chris Cooper...). Alguns dos locais mais belos do planeta (a sempre fantástica Paris, por exemplo, bem como o estonteante litoral italiano) tratados como se fossem o mesmo sítio - deve ser a globalização. Uma temática relevante (lidando com o xadrez mundial, através das relações americanas com governantes africanos e oligarcas russos) nem por um momento tratada com profundidade. Um estilo visual “cibernético”, aparentemente modernaço, mas que é igual a tantos outros filmes que por aí andam. E, por último, a tentação de encenar toda a acção aos tremores, abanando a câmara, dando uma falsa sensação de ritmo mas que, pelo menos para mim, tornam complicado perceber o que está a acontecer. Podem ser sucessos, se puder vejo o terceiro "à desobriga" apenas para completar a saga, mas não vejo o interesse.

01 outubro 2009

Preston Sturges (2)


Christmas in July é o segundo filme de Preston Sturges, estreado, como o anterior The Great McInty, em 1940. Filme de curta duração – pouco passa de uma hora – dá uma importante lição em termos de comédia: este é um género que se quer o mais rápido possível. É verdade que o exemplo tinha sido dado anteriormente pelos mestres Hawks e Cukor (pensemos nas saraivadas verbais de His Girl Friday ou The Women, respectivamente) ou por discípulos futuros (lembremos a cena da perseguição a Nicholas Cage em Raising Arizona), mas tudo em Christmas in July, os seus trocadilhos, jogos verbais e duplos significados bem como a entrega acelerada das falas relembra este facto basilar.

História de um sonhador empregado de escritório que pretende alcançar a riqueza vencendo um concurso radiofónico para a atribuição de um slogan a uma marca de café e que pensa tê-lo vencido quando os colegas lhe pregam uma partida, é também uma história de como os sonhos desmesurados podem ser facilmente destruídos. Mas é, mais importante do que isso, uma demonstração de como o sucesso mais facilmente surge derivado de factores exógenos do que intrínsecos. Assim, o protagonista acaba por demonstrar boas ideias (o slogan que oferece quando, derivado da alegada vitória no concurso, o patrão o promove ao departamento de marketing é francamente superior ao submetido a concurso), mas toda a aprovação deriva de uma nova concepção feita do protagonista a partir daquele momento.

É uma obra vincadamente operária, acerca do sonho de uma vida melhor, sem preocupações. Interpretado por Dick Powell (de The Bad and the Beautiful de Minnelli e de The Tall Target de Anthony Mann, entre outros) e Ellen Drew (com longa carreira de secundário e participante em Stars in My Crown de Jacques Tourneur), é um filme menor, mas cuja sedimentação de processos se afigura fundamental para o que viria depois.