31 agosto 2010

A Terceira Via



O sociólogo Anthony Giddens cunhou, com extremo sucesso, o termo “terceira via” para designar a organização económica e laboral, no seu entender desejável, das sociedades pós-industriais no século XXI. A ideia base, aqui necessariamente reduzida, é que num contexto em que o capitalismo puro e duro se revela indesejável e em que a social-democracia se revela ineficaz, a solução é criar condições para uma economia de mercado eficiente ao mesmo tempo que se salvaguardam os direitos e a solidariedade sociais.

Como tal é feito, pouco importa para aqui. Parece-me que esta é uma boa imagem para designar aquilo que, desde Memento (2000), Christopher Nolan tem tentado ser no cinema contemporâneo. Num contexto mediático tantas vezes dividido na dicotomia entre comercial e autoral, Nolan quer ser a “terceira via”, o cultor do blockbuster com conteúdo, do espectáculo com alma, do comércio de qualidade. Saber se o consegue, essa é a dúvida que, para os que vêem, foi respondida na qualidade de única “cause célèbre” do tépido Verão de 2010.

Inception é o seu filme mais ambicioso e o que, exceptuando Memento e, talvez, Insomnia (2002), menos me desagradou. Escrita ao longo de dez anos, a história de um grupo de ladrões que se imiscui nos sonhos de diversas pessoas para lhes roubar ideias, contratado para inverter o processo e plantar uma ideia na mente de um sujeito é, naquela que constitui a sua maior qualidade, uma benévola tentativa de renovação do "heist movie", tradição que só David Mamet tem mantido com regularidade e qualidade. No caso, enquanto que o interesse do dramaturgo americano é criar situações que promovam a sua virtuosa utilização do pentâmetro jâmbico, o cineasta britânico tem uma saudável vontade de mostrar o que nunca foi visto, bebendo em Spielberg, Lucas e Zemeckis.



Lendo apenas a sinopse, como imaginaria eu Inception? De uma de duas maneiras: a) como um filme trash, empenhado em dar entretenimento de linha de montagem "grindhouse" (a parte que me agrada mais é precisamente o início do filme, a escolha das personagens com nomes como O Arquitecto ou O Alquimista, possível de imaginar num filme desses); ou b) algo de mais tarkovskyano, uma meditação abstracta sobre a natureza dos sonhos onde a relação causal entre os acontecimentos e a acção propriamente dita fossem mantidos ao mínimo e fosse privilegiada a componente metafísica. Christopher Nolan acha que no meio está a virtude, ignorando que o mais das vezes a virtude é uma chatice. De um lado, conversa a dar com um pau, explicação a par e passo de todos os pressupostos que enformam o argumento e um passado torturado do protagonista, competentemente interpretado por Leonardo DiCaprio. De outro, e o que desbarata o filme, uma fatigante preferência pelo espalhafato (a sequência da perseguição na neve é dos momentos mais enfadonhos que vi este ano) e alguma inépcia visual, consubstanciada num barroco irritante e numa fotografia queimada que Michael Bay não desdenharia. Parece que, no limite, o que interessa a Nolan é o grande espectáculo, o vazio prazer sensorial, temperado aqui e ali com toques de narrativa, desde o enfoque inicial na “ciência dos sonhos” à cansativa viagem ao passado conjugal de DiCaprio, onde Marion Cottillard é completamente desbaratada. O melhor exemplo disso é a ideia do sonho dentro dosonho dentro do sonho, o melhor exemplo do gigantismo da empreitada.

É certo que há Joseph Gordon-Levitt, cada vez mais o melhor actor americano da sua geração (o que será feito de Michael Pitt?) e uma fantástica cena de porrada numa sala rotativa e que isto é muito melhor que os insuportáveis filmes da série Batman… mas isso também não é padrão para nada. E aqui voltamos à introdução: mais do que uma qualquer dialética, a “terceira via” é uma tentativa de súmula que elimina aquilo que podia haver de modernizador e de original numa síntese (síntese essa que só Spielberg e Zemeckis, a espaços, têm conseguido fazer), criando um meio-termo incaracterístico - o que neste caso até nem chateia muito, porque nenhuma das partes, isoladamente, conseguiria redimir o todo.

Perante esse desequilíbrio fulcral, a”terceira via” tende a não agradar a ninguém. Bem, neste caso, até agrada a muita gente.

De volta!

31 julho 2010

Aquele querido mês de Agosto

O blogue tem estado parado, muito por falta de tempo e, diga-se, de alguma vontade, para escrever. Num mês de Agosto que, como sempre, se adivinha parado, vou de férias. Volto, se tudo correr bem, no inicio de Setembro, com aquilo que espero serem algumas novidades. Até lá, não se esqueçam da iniciativa para fazer regressar o cinema à RTP2. Todos os interessados em assinar a petição e em receber eventual informação, por favor mandem um email com nome, localização geográfica, profissão e idade para peticaortp2@hotmail.com . Até Setembro e boas férias.


11 julho 2010

Do cinema na RTP2 (II)

Quem for a ler o meu texto anterior pensará que a minha vontade em ter cinema na RTP2 regularmente se prende com saudosismo. Afinal de contas, foi a minha juventude, uma época que, à distância, parece menos complexa do que a actual e uma em que o cinema parecia menos subalterno no panorama cultural do que parece hoje.

Não nego que haja alguma saudade desse tempo, mas tê-la como o motivo principal é confundir a parte pelo todo. Primeiro, porque a possibilidade de cativar novos cinéfilos via uma programação fílmica regular e cuidada mantém-se intacta: não só não há qualquer custo em ver um filme na televisão como um filme que seja anunciado com relativa antecedência poderá inserir no espectador o germe da curiosidade. Depois, para aqueles que dizem que hoje a relação do espectador com o cinema passa muito pela Internet, é um facto, mas começar a conhecer um cineasta na televisão poderá fazer alguém dar corda ao P2P (ou até, pasme-se! comprar dvds, ir mais ao cinema e até à Cinemateca), contribuindo para um maior conhecimento da arte. Por último, e partindo do principio de que o cinema, regressando à RTP2, teria provavelmente de ocupar o mesmo horário que anterior (final da noite/principio da madrugada), existem actualmente métodos tecnológicos, nomeadamente as boxes de gravação das diversas operadoras de cabo, que possibilitam a visão posterior e a eventual revisão dos filmes (e de todo e qualquer programa, na realidade). Assim, se não se deve tentar repetir estritamente o passado, a eventual desculpa de que os tempos mudaram também não cola.

Neste contexto actual, fragmentado, pós-moderno, ambivalente, em que os filmes, de qualidades, épocas, autores e proveniências muito diferentes ocupam o mesmo espaço mediático sem grande critério, a exibição regular de filmes na RTP2, conquanto obedecesse a critérios rígidos, não de qualidade (sempre discutível) mas de “tipologia” (cinema de autor, cinema europeu, tudo o que os espaços mainstream não consigam ou não queiram divulgar), não resolveria todos os problemas mas teria uma clara vantagem: daria alguma ordem ao caos, criando rituais de visionamento, de discernimento estético e de conhecimento e comparação de obras. E houve muito cinéfilo que começou a sê-lo precisamente devido ao fascínio com esses rituais…

Finalmente, haveria a questão da quantidade de público para um tipo de cinema que ultrapassasse aquilo que passa nos outros canais, normalmente na tarde de fim-de-semana. Mas quanto à sua existência já não há grandes dúvidas, pois não?
Relembro a ideia do Luis Mendonça, a que se juntaram o Carlos Natálio, o João Paulo Costa, o João Palhares e o Ricardo, pelo menos para já, de fazer uma petição que apele ao regresso do cinema regularmente à RTP2. Estamos no momento de contar espingardas, de ver quantos apoios temos e de organizar as coisas, para avançarmos em força na reentrée. Quem se quiser juntar a nós pode sempre comentar aqui ou no Cinedrio ou informar-nos através do endereço de email petiçãortp2@hotmail.com. Muito em breve os meus amigos e conhecidos receberão também informações relativas a esta iniciativa. Sugiro que façam o mesmo.

09 julho 2010

Do cinema na RTP2


A programação da RTP 2 sofre, em minha opinião, de um defeito fundamental: a ideia de que o trabalho que faz é positivo. Quem pensa aquela estação está convencido de ser alternativa, de defender elevados padrões de qualidade, de aquilo ser o melhor que se pode fazer, no contexto actual, em termos de programação alternativa. Parte do problema advém também do canal principal: quando a televisão pública quer jogar o mesmo jogo patético que as televisões privadas, instala-se o laxismo no segundo canal, que tem de trabalhar muito menos para conseguir fingir que é alternativa.

O pior acontece precisamente no cinema. Dos tempos da minha juventude em que a rubrica “5 noites 5 filmes” educou muito boa gente para o cinema (muitos dos Hitchcock, Kubrick, Truffaut ou Bergman que tenho em cassete saíram dessa época) e em que na noite de sábado ainda éramos brindados com mais dois filmes, persistem hoje apenas os dois filmes do fim-de-semana, muitas vezes em escolhas de qualidade mas que não disfarçam a escassez de alternativas, cada vez mais empurradas para o cabo ou a Internet.

Serve isto para dizer que o Luís Mendonça do Cinedrio propôs no seu espaço a ideia de uma petição que quebre o torpor generalizado no que concerne à exibição cinematográfica e force a uma mudança de paradigma na televisão estatal portuguesa. Desde logo me juntei à causa, talvez a mais válida que alguma vez surgiu na blogoesfera portuguesa. Deixo aqui o repto para que toda a blogoesfera, cinéfila e não só, se junte a nós, bem como todo e qualquer amante da arte cinematográfica. Se não estiver aqui uma oportunidade histórica, que a façamos andar lá perto. Mesmo que não consigamos, pelo menos que mostremos que ainda há quem não ande a dormir. Pública, sim; em nosso nome não!

19 junho 2010

Sumaríssimos (14)

Quando, no inicio do ano, soube que O Segredo dos Seus Olhos derrotara o magnífico Un Prophète de Jacques Audiard na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, atribui a decisão ao carácter farisaico da Academia. Tendo visto o filme de Juan José Campanella, realizador do esquecivel O Filho da Noiva, continuo a preferir o filme francês. Mas fiquei fã desta história de um jubilado funcionário do Ministério Público argentino que resolve, anos depois, escrever acerca de um caso particularmente violento enquanto negoceia os seus sentimentos relativamente à sua superiora hierárquica. Filme confiante e inteligente na maneira como mescla thriller e retrato político de uma época sobre um alicerce melodramático, possui um argumento clássico filmado com ocasionais de modernidade e com assinalável destreza, um belíssimo conjunto de actores (Ricardo Darìn cabeça) e uma intriga amorosa francamente enternecedora. Sobretudo, lembre-se a maravilhosa perseguição em plano sequência no estádio do Huracan, um dos momentos cimeiros do ano cinéfilo de 2010. Em tempo de Mundial, apetece dizer desta pequena maravilha que não é nenhum Messi mas é um Mascherano de excepção.

18 junho 2010

Saramago RIP


No meio de uma crise que lhe dava razão em muitas coisas, partiu um dos maiores. Com Pasolini, Gramsci ou Garcia Marquez, um homem dos que não vergam as costas.

07 junho 2010

Carlos Lima (1962-2010)

Não me lembro se era 1996 ou 1997. Ao seu sobrinho Miguel, melómano antes de ser cinéfilo, o meu tio Carlos ouviu um dia dizer que queria uma guitarra acústica pelo Natal. Queria aprender a fazer música, quem sabe um dia ter uma banda. Os pais do Miguel não acreditaram, se calhar com razão. Mas num Natal, lá estava a caixa triangular suspeita. Chegada a meia-noite, foi aberta perante o espanto do Miguel. Não a aprendi a tocar e não sei se ele alguma vez reparou nisso.

Mais ou menos na mesma altura. Um Benfica miserável joga contra um Porto que iria eventualmente sacar 5 campeonatos seguidos. Saio de casa, ainda no Catujal e dirijo-me à sua, literalmente no outro lado da rua, para ver o jogo, que já tinha começado. Toco à porta e esta abre-se. Do cimo das escadas, oiço “Corre que ainda vês o golo!” Quando chego, afogueado, ao apartamento, vejo Valdo marcar o penálti e fazer o 1-0 (o jogo acabaria 2-1, para o Benfica marcou também João Pinto, o Porto reduziu por Emerson). Quando soube da sua morte, foi o som da sua voz a chamar-me o que primeiro me veio à cabeça.

2002. Anos depois de um divórcio turbulento da minha tia, vejo-o na sala de espera da clínica de Sto António, em Sacavém. A minha avó, que me acompanhava numa visita à médica de família, chama-o e tem um discurso que agora não interessa. Quando, ao fim de algum tempo, lhe aponta o Miguel e lhe pergunta se não o reconhece (e eu no meu canto, sempre muito envergonhado nestas situações), a frase do meu tio Carlos é lapidar: “Imaginava-o mais alto.”

06 junho 2010

Take 24 - Junho


Da minha parte, críticas a Humpday de Lynn Shelton, Líbano de Samuel Maoz e Fantasia Lusitana de João Canijo; a cobertura da edição de 2010 do IndieLisboa; e a crítica à edição em dvd de The Fantastic Mr Fox de Wes Anderson.

01 junho 2010

Do eternamente adiado pólo da Cinemateca no Porto


Em lead, para não haver dúvidas: sou a favor de um pólo da Cinemateca no Porto ou, mais importante ainda, de algo que desempenhe função idêntica. A segunda cidade do país, mesmo de um país minúsculo, pode e deve ter instituições culturais que criem riqueza, material e humana. No caso do Porto como muito bem frisou Maria João Seixas, é também uma justiça histórica, por a cidade ter sido o berço do cinema em Portugal. Apesar disto, acho importante ressalvar as seguintes questões:

i) É asquerosa a retórica bairrista que tomou conta da zona de comentários da entrevista. Já não há paciência para a ideia, mentirosa e bafienta, de que Lisboa vive à conta dos impostos pagos pelos portuenses, aproveitando as verbas para pavimentar as ruas de ouro e e comprar veículos topo de gama. Cá em baixo também trabalhamos e também pagamos impostos, que o belo governo nacional não olha à proveniência dos fundos. E, tal como vós, não temos qualquer poder de decisão na utilização do dinheiro. Aí, mouros e tripeiros são exactamente iguais.

ii) Quando se fala do centralismo, papão lisboeta cujo único objectivo é denegrir a qualidade de vida do Porto, não seria positivo lembrar as responsabilidades da edilidade no presente estado de coisas cultural? Afinal de contas, estamos a falar do município que inaugurou duas obras estruturais fundamentais para a Capital Europeia da Cultura 2001 (Metro e Casa da Música) anos depois do fim da iniciativa ; da cidade que ofereceu o seu maior teatro a Filipe La Féria; que votou ao abandono o (segundo as imagens que vi) lindíssimo Cinema Batalha e que se prepara fazer o mesmo com o histórico Teatro Sá da Bandeira; e que tem um autarca que fingiu que ia resolver o défice financeiro da cidade através do corte da meia dúzia de tostões que supostamente esbanjava nos apoios culturais – incluindo à maior bandeira cinematográfica do município, o Fantasporto. Tudo isto numa região em que a vizinha Vila Nova de Gaia, que poderia albergar as estruturas que Rui Rio não quisesse, erigiu e ofereceu um centro de estágio ao um clube de futebol riquíssimo, cobrando de renda o equivalente à de um apartamento, num valor que nem sequer paga o consumo mensal de àgua no Olival. Antes de culpar Lisboa, não seria melhor fazer uma auto-análise que permitisse mudar as condições futuras da cidade?

iii) A história contada por Maria João Seixas, acerca da sessão em Serralves com a presença de Pedro Costa, lança-me uma dúvida: até que ponto esta questão não é mais uma cause célèbre interessada em ter algo com o nome igual a um nome de Lisboa ou se é mesmo um desejo saudável de mais e melhor cinema – lembremos também o insucesso do ciclo da Cinemateca realizado na Invicta durante a Capital Europeia da Cultura 2001, que justificou a posição de JBC até à sua morte. Espero que seja a segunda. O meu conselho é que os portuenses prezem as oportunidades que, mal por mal, ainda lhes são dadas. Se não o fizerem, a margem de manobra para exigências decresce substancialmente.

iv) Há algo de muito contraditório em dizer-se que se quer uma rede de cinemas com projecção digital “até ao Pico” e depois dizer-se que começar pela segunda cidade do país “não é prioritário”. Afinal de contas, os meios para fazer algo na área do cinema serão decerto maiores no Porto do que na Guarda, em Coimbra, em Évora ou em Portimão.

Por último, uma nota. É legítima a preocupação de Maria João Seixas de que uma Cinemateca do Porto retire fundos à de Lisboa. Do mesmo modo que não quero retirar a tripeiros para meter na boca de alfacinhas, não espero que aconteça o contrário. Se a ideia do Ministério for não a de aumentar recursos mas sim a de dividi-los entre duas cidades a 300 km de distância, estive aqui este tempo todo a escrever para o boneco. Afinal de contas, metade de pouco é quase nada.

29 maio 2010

Born to be Wild (Hopper RIP)

Entrevista de Maria João Seixas ao Público

(...)não tenho os conhecimentos do João Bénard. Terei um pequeno grão da mesma paixão.

Então porque aceitou o cargo, cara Maria João Seixas?

De resto, deleguei a programação no dr. Pedro Mexia. Perguntei-lhe quais as áreas que ele gostaria que lhe fossem delegadas e ele escolheu as duas que eu mais gostaria para mim [risos]: programação e ANIM. Embora me tivesse ficado uma outra de que nunca abro mão, que é a do pessoal.

Traduzindo: não sou bem directora, sou mais uma técnica de recursos humanos…

Tenho pena que se sintam guerreados pela casa, acho que essa não era intenção do dr. Bénard da Costa. (…) Mas não é por uma questão diplomática que o faço. Acho mesmo que por alguma razão se afastaram alguns cineastas desta casa e eu gostaria de conseguir reaproximá-los para eles perceberem que de facto esta casa é deles. Só que o ser deles implica uma parceira, não é propriamente à maneira que eles querem, tem de ser da maneira que melhor encontrarmos para servir as duas partes.

Cara Maria João Seixas, pago-lhe um café no Starbucks se conseguir ser ainda mais vaga do que isto.

Gostaria de reforçar o orçamento para os trabalhos de restauro do ANIM.

Até que enfim, um projecto para o futuro. E esta deve ser uma área prioritária para a Cinemateca. Afinal de contas, da RTP Memória estamos todos fartos.

(…) montar uma rede fiável de equipamento de projecção digital e contribuir com o acervo da Cinemateca para a circulação de filmes e para dar a ver com regularidade cinema de qualidade a quem se está a formar neste momento na Net. (…) Gostaria que esse trabalho pudesse ser feito até à ilha do Pico.

Primeiro ponto, não há nada de mal em um cinéfilo usar a net como meio de formação. Segundo ponto, eu também gosto muito de ficção científica, sobretudo numa altura em que, tarde ou cedo, seremos governados pelo ultra-neo-liberal dr. Passos Coelho e pelas sempre culturalmente atentas pessoas do PSD – lembram-se do grande secretário de Estado da Cultura que foi Santana Lopes?

Do meu ponto de vista, isso reforça a obrigação estatutária de qualquer cinemateca de insistir na história do cinema, nos clássicos, aqueles que já ninguém vai ver, ou que podem ver em DVD os mais interessados, aqueles aonde ainda existe uma cinefilia que a minha geração reconhece como tal.

Aqui, fico contente.

Em Portugal, ao contrário de muitos países europeus, não temos uma lei que era essencial para enriquecermos o nosso acervo, que é uma lei de depósito legal que obrigasse os distribuidores comerciais a depositarem. Os outros países têm acervos fantásticos, podem variar. Nós temos de comprar, e comprar é muito caro. Há distribuidoras que, quando lhes apetece e se lhes apetece, depositam uma cópia, mas isso não é feito sistematicamente.

Uma falha gritante. Se a sra. Ministra é assim tão apaixonada pela causa do cinema e se temos uma deputada-actriz na Assembleia da República, era uma boa altura para acabar com este problema.

O Partido Socialista é a família política com que me identifico. Não sou militante, mas se me perguntarem o que é que eu sou ideologicamente, direi que faço parte do Partido Socialista. Sinto-me bem com essa pertença mas nunca fui próxima do Partido Socialista. E a nomeação que eu tive, que também me surpreendeu na altura, foi quando o eng.º António Guterres me convidou para a assessoria cultural do seu gabinete. Os únicos lugares que eu tinha tido decorriam das minhas relações com um dos capitães de Abril - o meu capitão de Abril -, o major Vítor Alves. Com a eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo, trabalhei na Comissão da Condição Feminina e depois, quando ela foi primeira-ministra, não trabalhei com ela. Depois, tive intervenções nas campanhas presidenciais do dr. Jorge Sampaio, do dr. Mário Soares e do prof. Manuel Maria Carrilho quando se candidatou à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Tudo isso fiz sem ter nenhuma relação directa com o partido. A minha participação nas campanhas não trazia nenhum isco na ponta, isto é, eu não estava à espera de ser compensada com nada.

Este segmento da conversa deixa-me sentimentos mistos. Por um lado, o que há mais é gente diz não estar envolvida com ninguém mas que aparece em todo o lado e o facto de não ter cartão de militante não muda em nada uma ligação política que a própria Maria João Seixas assume. Por outro, as pessoas têm direito à sua filiação e a ser julgadas pelo seu trabalho e não pelas suas ideias políticas. Porém, permanece a pergunta: o cargo de director da Cinemateca passou a ser um cargo político? Se assim for, estamos mal.

BALANÇO: Há boas ideias de futuro para a Cinemateca, mas são poucas. Outras são francamente negativas (quem criticou as escolhas de ciclos de João Bénard da Costa não poderá ficar contente com o ciclo Os Filmes dos Presidentes) e outras ainda francamente indiferentes (perante a necessidade de mostrar obras completas de cineastas como António Reis, António Macedo ou António Campos, o ciclo de grandes sucessos do cinema português acompanhado por debates é igual ao litro). Sobretudo, parece-me que será um momento de navegação à vista, não apenas devido à crise mas também porque falta uma ideia clara, discernível, do que a directora quer para o espaço. Assim, este primeiro mandato de Maria João Seixas no cargo parece ser um espaço intermédio, onde se lançam pedras para o futuro mas onde ainda se vive uma certa indecisão pós-Bénard. Uma coisa parece certa: com Maria João Seixas a Cinemateca não será um espaço de militância total e quererá agradar a gregos e a troianos. E aqui voltamos ao problema central da entrevista: como isto será feito não se percebe muito bem. Teremos de esperar para ver.

(Sobre a questão da Cinemateca do Porto escreverei um post isolado, se tudo correr bem)

27 maio 2010

30 de Agosto de 1992



Ao fim de uma porrada de tempo lá consegui ver a emissão do programa Palcos, da RTP-2, dedicada ao mítico concerto dos Nirvana no festival de Reading. E aquilo que a gravação mostra coincide, em parte, à visão entretanto construída: um momento charneira, uma banda no topo da sua forma, o zeitgeist do último grande sub-género que o rock produziu (assim entendido, que não há nome para o que na última década fizeram Strokes, Interpol, Queens of the Stone Age ou White Stripes). Por outro, é inegável que a realização, competente mas algo indiferente, e o esbater do papel do público, com o ruído diminuído e os planos de conjunto escassos, tornam o documento menos marcante do que poderia ser. Por outras palavras, se jamais os Nirvana foram melhores do que naquele momento, pelo concerto é por vezes difícil apreende-lo como cúmulo do grunge.

Porém, enquanto via, não pude deixar de pensar nas seguintes coisas:

i) Há algo de estranho em ver os Nirvana num festival inglês, como há em pensar neles numa cidade/subúrbio norte-americano. Aquela música tresanda a pinhais, rios, frio ou, na pior das hipóteses, a um bairro white trash com condições meteorológicas dignas da cidade de Twin Peaks. Quem o terá percebido melhor foi mesmo Gus van Sant – outro distinto habitante do noroeste dos EUA - no seu brilhante Last Days (2005).

ii) Há muito quem pense que Kurt Cobain se suicidou por ter sido vítima da ideia que criou de si mesmo, a estrela de rock torturada e intransigente para com os seus valores. Melhor dizendo, também Cobain se poderá ter convencido de que era o que os outros viam nele. Puro erro. Aquela música já soava a morte muito antes de 4 de Abril de 1994. Se calhar, a morte é isso mesmo: uma guitarra em perpétuo fuzz.

iii) Comecei a ver, adorei “Aneurysm”, “Drain You” comoveu-me com memórias de outros tempos, “Come As You Are” lembrou-me porque foi esta a primeira banda rock de que verdadeiramente gostei e “Smell’s Like Teen Spirit”, constatei, não perdeu pingo de actualidade. Mas, a meio de um alinhamento arriscadíssimo, que deixa para o fim não os hits mas diversas canções de Bleach (1989) e Incesticide (1992) e antecipa In Utero (1993), algo na minha atenção se perdeu, regressando apenas para a destruição final dos instrumentos, surpreendentemente mais lúdica do que revoltada. Parece que já não consigo levar uma banda tão a sério quanto os Nirvana queriam ser levados, nem os épicos Arcade Fire, nem os sacrossantos The National, nem os actualíssimos LCD Soundsystem. Hoje, até Kurt Cobain é vitima do meu cinismo.

10 maio 2010

32


Foi um dia inesquecível. Fui um dos 64 mil na Luz, fui um dos 100 mil no Marquês, um dos orgulhosos por o Benfica ter sobrevivido ao ambiente digno de regimes da África sub-sariana vivido no Porto há uma semana, um dos felizes por ter visto um campeonato ganho a um Porto que fez praticamente os mesmos pontos que quando é campeão (não havendo espaço para o alegado abaixamento de forma com que justificaram o título encarnado em 2005) e um dos divertidos com o discurso aprendido com o Padrinho de Domingos Paciência (o clube que ganha jogos com bolas fora contra o Marítimo, arbitragens inacreditáveis contra o Guimarães e um guarda-redes amigo contra o Paços de Ferreira queixa-se dos arbitros que lhe deram o 2º lugar). Digam o que disserem, foi sem espinhas. Embora ainda estejamos uns furos abaixo, desde os títulos que José Mourinho ganhou pelo Porto que não havia um campeão tão justo.


Ah! Tentei tirar uma foto dentro do túnel do Marquês, para dedicar àquele senhor, mas a PSP selou o túnel. Tive de me contentar com uma foto um pouco à frente.E que aliás está o prodígio técnico que aqui se vê.




Vamos lá ver como é para o ano.

03 maio 2010

11º dia de IndieLisboa

Como uma estância balnear na primeira semana de Setembro, no domingo o IndieLisboa dava a entender o seu próprio fim. Pouca gente nas sessões, pelos menos as primeiras, a Culturgest francamente às moscas e uma certa exaustão no ar, a ideia de que o mais importante havia passado (apesar da exibição vespertina de Visage de Tsai Ming-Liang e de Life during wartime de Todd Solondz, a que não pude comparecer). Neste contexto, o fecho com Symbol de Matsumoro Hitoshi, indegesto pós-modernismo dividido entre a luta livre mexicana e uma qualquer câmara dos horrores saída da Twilight Zone até fez sentido. Não foi o pior filme que vi no festival, mas foi de certeza o mais irrelevante.

Foi uma semana e meia com muito trabalho, com alguns grandes momentos e com outros que decerto não recordarei. No geral, cobrir um festival é estranho: a certa altura começa a custar ver tantos filmes de seguida, mas temos a certeza que dentro de uma semana vamos ter saudades. É como ir a um festival de música no Verão, em que nos chateamos pelas filas para a cerveja e pelo tempo que demora até vermos a banda que queremos, mas depois nos invade a nostalgia de termos de esperar um ano para ver outro. Por mim, só me resta dizer: até para o ano e obrigado pelos filmes que vi neste.

10º dia de IndieLisboa

Às vezes, Werner Herzog espalha-se. É o caso de My son my son what have ye done, desenxabida variação edipiana a partir da Oresteia, sem consistência, sem interesse e sem sequer conseguir aproveitar um Michael Shannon em grande forma. Percebe-se porque David Lynch o produziu mas não o realizou. Destaque apenas para a estranha fotografia, por um lado aproveitando o sol omnipresente de San Diego, por outro escurecendo frequentemente o primeiro plano e os rostos dos protagonistas.

30 abril 2010

9º dia de IndieLisboa

Num festival incomparavelmente maior, como Cannes, alguém que seja enviado pela imprensa vê até cinco filmes por dia e, depois das sessões, ainda tem de enviar os textos para os jornais. O Indie funciona de forma diferente; três sessões diárias é o normal e pode haver até perto de duas horas entre o final de uma sessão e o começo da outra. Como tal há muito tempo para pensar. Para pensar em como é difícil ver tantos filmes e manter deles uma ideia coerente e profunda, na fome mundial, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, na Standard & Poor's, na quantidade de tempo que passou desde que dissemos uma palavra a quem quer que fosse, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, nos amigos que não ligam ou criticam as nossas escolhas, no subsídio de desemprego que expira dentro de 3 meses sem fazermos puto de ideia do que vamos fazer para pagar as contas, em como nunca moraremos no centro de Lisboa quanto mais em Nova Iorque ou Paris ou até no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato.
Tudo isto para dizer que algum cansaço anímico remeteu-me para casa, tendo ido ao festival apenas para comprar um bilhete para a minha mulher para a sessão de amanhã e para tentar encontrar a boina preta que perdi ontem no CinemaCity e que por lá deve ter ficado. Já perdi dez ou 15 boinas e esta é a última que perco.
O raio de sol foi ter recebido a noticia de que já tenho bilhete para o Benfica-Rio Ave.

8º dia de IndieLisboa

The Robber de Benjamin Heisenberg é um filme competente acerca de um maratonista austríaco acabado de sair da prisão que usa o seu talento para assaltar bancos, belíssimo enquanto explora a sua situação base mas menos quando se foca na perseguição ao ladrão do título. 10 to 11 da turca Pelin Esmer é uma bela surpresa, uma metáfora da renovação de gerações através da relação entre um engenheiro electrónico idoso que colecciona tudo e mais alguma coisa e o porteiro que o ajuda a livrar-se dos milhares de jornais, livros e outros itens que colecionou ao longo de décadas, tudo numa Istanbul estranhamente parecida com Lisboa. Delicado e contemplativo, poderia perfeitamente estrear.

29 abril 2010

7º dia de IndieLisboa

Grande dia para o cinema português. Fantasia Lusitana brilhante filme sobre como o Estado Novo usou a neutralidade na Segunda Guerra para se fortalecer, com excelente trabalho de pesquisa e montagem de imagens de arquivo. Guerra Civil de Pedro Caldas a revelação do festival, fantástico filme sobre mãe e filho a negociarem a sua distância dos outros num fim de Verão em 1982. Ainda não está comprado para exibição, mas se não estrear, é uma vergonha.

27 abril 2010

6º dia de IndieLisboa

Não há. A greve dos transportes sitiou-me em Rio de Mouro. É dia de escrever e de arrumar a casa e a cabeça. Amanhã há um dia importante, com a Fantasia Lusitana de João Canijo e o muito antecipado Guerra Civil de Pedro Caldas.

5º dia de IndieLisboa

Mind Shadows de Heddy Honningman fraco, tratamento da doença demasiado derivativo de Ingmar Bergman - espero que os documentários sejam melhores; os MusicBox Club Docs inaugurados com belo filme sobre o "ficcionista"JP Simões, num Cais do Sodré multicultural ao pôr-do-sol; e Napoli Napoli Napoli de Abel Ferrara retrato assustador de uma cidade num documentário de qualidade mas que faz desejar o regresso do realizador a Nova Iorque. Curioso é como também Ferrara se parece sentir fora de casa; só isso explica os constantes planos a mostrá-lo em filmagem, como que a dizer "estou aqui!". É um facto que, apesar da sua omnipresente atracção pelos bas fonds, se não soubéssemos que era dele não o advinhariamos...

25 abril 2010

Sacrifícios feitos em prol do cinema (1)

Estar numa sala ao mesmo tempo que o meu clube se sagra Campeão Europeu de Futsal.

4º dia do IndieLisboa

Um fim de semana difícil, o olho esquerdo inflamado pelo sol de um passeio dominical e parte da atenção no Naval - Braga fez a visão de Mother do coreano Joon-ho Bong passar-me ao lado. Não tendo a concentração necessária para o seguir a 100%, pareceu-me, no entanto, confirmar o virtuosismo que The Host anunciava, mas mais não posso dizer. A rever em sala e a criticar na próxima Take.

P.S. - Limpem os lavabos do Londres, s.f.f.

24 abril 2010

3º dia de IndieLisboa

Vi apenas um filme, por problemas de horário. Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans pergunta: ao transformar a tragédia (filme de Ferrara) numa farsa (filme de Herzog), perde-se alguma coisa? Sim, e logo se confirma o adágio aristotélico de que a tragédia é superior à comédia. Ainda assim, bom filme. Fora isso, excelente sessão, sala 1 do S. Jorge cheia (cerca de 600 pessoas), apenas prejudicada por um projeccionista que não soube enquadrar o filme, deixando por várias vezes os microfones à vista.
Agora, bom bom foi chegar ao S.Jorge no preciso momento em que acabava uma sessão do IndieJúnior e ver toda a criançada saindo a correr pelo corredor do cinema. De pequenino se torce o pepino!

2º dia de IndieLisboa

A subir. O documentário italiano La boca del lupo fraco, o cantonês Accident bom mas desbaratado por um final inverosímil, o israelita Lebannon dos filmes mais poderosos e aterradores deste ano. De resto, foi um dia morno, ou não fosse passado no Cinemacity de Alvalade, excelente espaço, é certo, mas pela distância dos outros espaços ou pela manutenção de três salas em exibição comercial, com pouco cheiro a festival.

1º dia de IndieLisboa

Uma confusão de horário de um visionamento, que perdi e cuja ausência me obrigaria a passar várias horas em Lisboa sem nada para fazer fazem-me perder a revisão planeada do magnífico Greenberg, inauguração do Indie 2010. Até porque a direcção do festival garante a presença nos salamaleques institucionais mas reserva-se o direito de "expulsar" os jornalistas da cerimónia de abertura se a sala estiver esgotada assim que o filme começar. Fantasia Lusitana de João Canijo fica para a segunda passagem e o primeiro dia do festival, para mim, não o foi.

20 abril 2010

Do financiamento


Do debate do passado domingo no programa Câmara Clara, acerca do financiamento do cinema português, entre João Salaviza e a deputada Inês de Medeiros, ressaltam várias conclusões:

1) A necessidade de um rápido restabelecimento do FICA, bem como a necessidade de rever as suas regras de financiamento (trazendo os novos operadores de cabo para o grupo dos contribuidores) e de escolha dos projectos (muito bem Jorge Leitão Ramos a lembrar que foi essa gente que deu dinheiro para Second Life).

2) A ideia de cobrar uma taxa aos exibidores em filmes estrangeiros, sobretudo americanos, como contrapartida pela excessiva cota de mercado, que seria depois aplicada na feitura de filmes nacionais e até (digo eu) no estabelecimento de uma rede de cinema onde filmes europeus e nacionais possam ser vistos.

3) Como bem afirmou Leonel Vieira, a absoluta necessidade de uma boa lei do mecenato para o cinema, se possível análoga à brasileira, que tanto tem feito pelo cinema nesse país – tenhamos a título de exemplo, o papel fundamental que o Millenium BCP tem no funcionamento do Teatro Nacional S. Carlos e que o presente vazio legal impossibilita para o cinema.

4) A ideia, finalmente reiterada publicamente sem pedidos de desculpas, de que se quisermos apostar na exportação, será com objectos diferentes e idiossincráticos que penetraremos noutros mercados, dado que ninguém no estrangeiro quer saber de affaires entre Soraia Chaves e Nicolau Breyner.

Por tudo isto, esperemos agora que Inês de Medeiros aproveite o tempo que passa nos aviões entre Lisboa e Paris ou o frete que, vendo-a, parece fazer na Comissão de Ética para redigir um projecto-lei neste sentido. Já agora, chame-lhe PEC Cinematográfico, pode ser que o engenheiro aprecie a ironia.

11 abril 2010

Alegria! Alegria!

Hoje, devido a ter chegado ao cinema King dez minutos antes do início da sessão das 22h de As Ervas Daninhas, fui obrigado a ficar na segunda fila. Exultei em ver a sala 1 cheia como há muito não a via!

Até porque creio que este facto me dá alguma razão: por diversas vezes escrevi que se aquele espaço tivesse filmes interessantes em exclusivo teria a sua viabilidade assegurada. A exibição do novo (e magnífico) filme de Alain Resnais em exclusivo na Avenida de Roma, quase esgotada num sábado à noite, prova que tenho alguma razão.

06 abril 2010

Sumaríssimos (13)


Bem-sucedido renovador do teatro britânico, Sam Mendes tem tido no cinema um percurso pouco coerente, experimentando diferentes géneros, mantendo uma imagem, talvez exagerada, de competência enquanto procura um estilo próprio. De crónicas suburbanas (American Beauty e Revolutionary Road) ao filme de gangsters (Road to Perdition, talvez o seu melhor filme) e ao filme de guerra (Jarhead, o seu pior), o que se pode dizer é o seguinte: Sam Mendes cumpre em quase todos e não atinge a excelência em nenhum. O que é expansível ao seu simpatiquíssimo Away We Go, experiência do inglês no road movie acerca de um casal de freaks white trash que procura uma nova cidade onde criar a criança que vão ter. Com um belíssimo argumento de Dave Eggars e Vendela Vida, é um filme terno, que contrabalança habilmente momentos de alegria e beleza com cenas tristes e emotivas, num equilíbrio bem conseguido. John Krasinski (do Office americano) e Maya Rudolph (do Saturday Night Live) são o cimento que junta as partes e não me parece possível alguém dizer que se perde tempo a ver este filme. Porém, voltamos a uma questão que já abordei anteriormente: hoje em dia, parece fácil fazer um filme independente americano. Junta-se actores conhecidos mas não famosos a uma galeria de secundários competentíssimos (brilhantes Allison Janney, Jim Gaffigan e Maggie Gyllenhaal), filma-se cores abundantes mas esbatidas, coloca-se a acção na América profunda e adicionam-se planos de pontuação ao som de temas indie e temos filme para Sundance. Sam Mendes, hélas, segue a receita com demasiada fidelidade.

27 março 2010

Carta Aberta a Inês Oliveira


Cara Inês Oliveira,

Em bom rigor, não sou a melhor pessoa para falar de Cinerama. Quando me dirigi ao cinema King para o ver, acompanhado que estava na sala por meia dúzia de indefectíveis do decadente espaço lisboeta, tive de recorrer ao mais profundo do meu ser para aguentar uma mísera meia hora do seu filme de estreia. O meu tempo, apesar do desemprego e da atitude fácil que tenho para com ele, é demasiado precioso para ser perdido com bailarinos esvoaçantes e actores de telenovela com pastas em cima da cabeça, num pós-modernismo de pacotilha equivalente a eu comparar os meus textos aos de Marcel Proust. Lá saí, remoendo internamente que tinha usado 30 minutos da minha vida que não mais voltariam, num caminho de auto-recriminação e desencanto. A estação de Entrecampos parecia mais longe da Avenida de Roma do que alguma vez estivera. Assim, considero legítimo pedir-lhe uma indemnização pelo agravamento da minha miopia. E pela gargantuesca quantidade de água de rosas que tive de usar para lavar os olhos depois daquilo.

Serve, então, esta carta aberta para lhe fazer apenas uma pergunta: está contente por ter dado porta aberta e carta-branca a António-Pedro Vasconcellos e ao simiesco Alberto Gonçalves para continuar a dizer o que dizem do cinema português contemporâneo? É que cada vez que encontrar algo a demonizar a nossa cinematografia, lembrar-me-ei do seu filme.

Grato pela atenção,

Miguel Domingues

23 março 2010

Parabéns, Mestre!



Das muitas grandes cenas que Kurosawa nos deu (quem não viu Ikiru e Mad Dog dê corda ao emule), talvez nenhuma seja tão bela quanto o final simbólico de Ran. E em perfeita rima mental com o momento do Rei Lear em que se fala dos nús a guiarem os cegos. A este, já ninguém o guia, tal foi o Apocalipse.

Muito obrigado, Mestre, pela melhor nota que tive num trabalho da Faculdade.

18 março 2010

Sumaríssimos (12)


O problema de Alice in Wonderland não é, como casos há muitos, de dificuldade na conjugação de universos; é o problema diametralmente oposto. O universo de Lewis Carroll, ainda que glosado pela argumentista Linda Woolverton, não fornece qualquer obstáculo a Tim Burton, que nele se movimenta com (demasiada) destreza e à-vontade. Acontece que, no meio disso e apesar do tom apocalíptico de que o País das Maravilhas aqui se reveste e do excelente desempenho de Helena Bonham Carter como Rainha Vermelha, tudo é monótono e previsível. Tal sentimento é uma novidade num cineasta que, com poucas excepções, costuma fazer sempre filmes estimulantes.

Foi também o primeiro filme que vi em 3D e pensei aquilo que já suspeitava: o interesse daquilo, para mim, é muito reduzido.

08 março 2010

Linkous RIP

Mark Linkous, dos Sparklehorse, suicidou-se ontem.

04 março 2010

E porque no Domingo há palhaçada...

... se eu quisesse saber, eram estes os vencedores que desejaria.

Melhor Filme: Inglorious Basterds
Melhor Realizador: Quentin Tarantino
Melhor Actor: Colin Firth (Ainda não vi Crazy Heart, onde dizem que Jeff Bridges está magnífico)
Melhor Actriz: Gabourey Sidibe
Melhor Actor Secundário: Christopher Waltz
Melhor Actriz Secundária: Anna Kendrick
Melhor Animação: Up
Melhor Filme Estrangeiro: Un Prophete
Melhor Argumento Adaptado: District 9
Melhor Argumento Original: Inglorious Basterds

No que concerne às escolhas possíveis, prefiro que ganhe a senhora Bigelow ao senhor Cameron.

24 fevereiro 2010

Fucking & Punching (Californication em versão Gonzo)





Na altura, deixei aqui grandes reticências relativamente ao modo como o argumentista Tom Kapinos iria conseguir dar uma segunda temporada a Californication. No final da primeira, apesar do "cliffhanger" do romance roubado, tudo parecia resolvido, pelo menos o mais importante. Hank tinha recuperado a família, tudo parecia encaminhado. Por isso, o meu obrigado à equipa que produziu e realizou a segunda temporada de Californication, continuando a dar-nos uma das mais estimulantes e hilariantes séries de televisão contemporâneas. Daquelas que nos fazem ter vontade de ter uma garrafa na mão e guiar um Porsche todo fodido por Mulholland.

Se dúvidas havia acerca de como perpetuar esta história, Kapinos resolveu-as criando diversas narrativas paralelas: as aventuras “baixo coturno” de Charlie Runkle, vicio e pornografia à mistura; a possível nova paternidade de Hank, o vicio da cocky smurf, como lhe chama Moody; ou, sobretudo, the life and times of Lew Ashby, produtor musical que não desdenharíamos, pela vida que leva e pelo mundo interior que, apesar de tudo, ainda vai tendo, ver almoçar com Frank Zappa ou gravar Vol. 4 com os Black Sabbath. Ao redor de tudo, Hank e Karen como uma das mais belas histórias de amor do nosso tempo, dois seres que se amam até à morte mas que, por isto, aquilo ou aqueloutro, acabam sempre separados.

Mas a segunda série marca também o aprofundamento da personagem Hank Moody . A lover, not a hater, diz Mia (que é precisamente o contrário…). Alguém que perdoa sempre tudo e a quem nada é perdoado. Com uma conduta moral perfeitamente delimitada, a quem tudo acontece e que sonha com uma redenção que, a vir, estará sempre longe demais. E que nunca deixou de se apaixonar por cada mulher que conheceu, por dez minutos ou dez anos. Fox Mulder, enfia os homenzinhos verdes pelo cú acima que é o que fazes melhor. David Duchovny, no trabalho da sua vida, volta a mostrar como a decadência assenta melhor aos belos.

E, por último, há aquela cidade. Devorando quem por ela passa, semeando seres sós. Como um Coronel Kurtz que escreve livros em vez de os habitar, é dela que Moddy tira os seus estímulos. E é dela que Moody recebe as suas ordens. E é por causa dela que está perdido.

23 fevereiro 2010

Sumaríssimos (11)


Depois de O Maldito United, o novo filme de Ken Loach, Looking for Eric, é a segunda fita britânica em pouco tempo com o futebol como pano de fundo. Filme sobre as fantasias que criamos para nos proteger, sobre segundas oportunidades e sobre a solidariedade da classe operária britãncia, é uma obra de ritmo fácil, que junta um ou outro grande momento (o raid da polícia à casa de Eric; a vingança dos carteiros Cantona) ao cânone de Loach. Não é tão bom quanto o cortante Chuva de Pedras (1994), mas ninguém pode dizer que não resulta. Sobretudo, tem uma excelente sequência: a da conversa sobre a transformação do Man United de clube popular em símbolo do sucesso globalizante e desigual. É quem ficou de fora desta mutação que Loach continua a acompanhar, num percurso que, quando muito, só pode pecar por excessiva coerência. E ainda bem.

21 fevereiro 2010

Um dia na vida


I read the news today oh boy

About a lucky man who made the grade

And though the news was rather sad

Well I just had to laugh

I saw the photograph


He blew his mind out in a car

He didn't notice that the lights had changed

A crowd of people stood and stared

They'd seen his face before

Nobody was really sure

If he was from the House of Par.


I saw a film today oh boy

The English Army had just won the war

A crowd of people turned awaybut I just had to look

Having read the book


I'd love to turn you on


Woke up, fell out of bed,

Dragged a comb across my head

Found my way downstairs and drank a cup,

And looking up I noticed I was late.

Found my coat and grabbed my hat

Made the bus in seconds flat

Found my way upstairs and had a smoke,and

Somebody spoke and I went into a dream


I read the news today oh boy

Four thousand holes in Blackburn, Lancashire

And though the holes were rather small

They had to count them all

Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.


I'd love to turn you on..................................................................


A Day in the Life, The Beatles

17 fevereiro 2010

Como se já não bastasse tê-lo visto, também perdi tempo a escrever sobre ele...

Já não é de agora: de quando em vez, os Coen perdem-se por entre uma vontade arty que só prejudica os objectos em causa. O melhor exemplo é Barton Fink: visualmente apelativo, com meia dúzia de ideias, neste caso sobre a época áurea de Hollywood, mas estéril quando reduzido à sua essência. Outro exemplo é o absolutamente bacoco O Brother, Where Art Thou, desenxabida transposição da Odisseia para um contexto norte-americano sulista. É pena, pois quando se preocupam apenas em filmar de frente, sem peneiras ou tiques, tendem a fazer belos filmes – o ponto onde atingem o equilíbrio é o ultra-maneirista mas consequente Blood Simple.

A Serious Man é o mais recente falhanço de uma carreira que nelas tem sido pródiga, e entre esses falhanços ocupa um dos locais cimeiros. Filme sobre as coisas más que acontecem a pessoas boas, passado nos anos 60 num subúrbio do Minnesotta e que segue um homem a quem tudo parece correr mal, pessoal e profissionalmente, descamba muito cedo. Explicitamente, no prólogo que tenta situar a narrativa num âmbito ancestral, com uma maldição judaica decorrente de um hipotético encontro de um casal com um fantasma. O problema é que esse prólogo, de tons tarkovskianos, é de utilidade e interesse muito duvidosos. O que se segue é do mesmo nível, desde os momentos mais derivativos dos filmes de Woody Allen até ao plano final absolutamente vazio, num filme que se compraz com a destruição sucessiva da sua personagem principal e que, por entre um pretenso simbolismo irritante, não tem um único momento memorável. O que parece evidente é o seguinte: perante a ausência de conteúdo, os Coen tudo fizeram para insuflar a forma. Não conseguiram e esteticamente este filme, quando não apenas enfadonho, é simplesmente grotesco. A Serious Man é para esquecer.

10 fevereiro 2010

Cagandamerda!


Se quiserem ver como se desbarata o crédito amealhado com dois filmes que vieram subir o nível da carreira dos irmãos Coen nos últimos dez anos, vejam A serious man. Isto é, se quiserem perder duas horas da vossa vida.


(A explicitar em breve)

01 fevereiro 2010

Cinema de época


Era simpático, Juno (2007). Filme pequenino, orgulhoso de si mesmo, que sofria apenas com um certo “fazer independente”, um conjunto de tiques que, no limite, por vezes formatam o cinema independente norte-americano de uma forma tão opressiva quanto o mais banal cinema comercial. O orgulho mantém-se em Nas Nuvens, mas este é um filme crescido, para adultos e que será decerto recompensado, pelo menos em nomeações, pela Academia. Filme sobre estratégias de sobrevivência e a forma de as ultrapassar em direcção a algo mais, conta com um extraordinário desempenho de George Clooney, versão crápula irresistível, no papel de Ryan Bingham, profissional do despedimento que estruturou toda a sua vida em redor da eficiência nas constantes viagens de avião e que anseia por angariar dez milhões de milhas de passageiro frequente. Até que o contacto com um equivalente feminino (regular Vera Farmiga) e com uma recém-licenciada da Ivy League (a revelação Anna Kendrick) o lembrarão do que anda a perder.


Vamos por partes: metade de Nas Nuvens é absolutamente fascinante e eminentemente recompensadora. Nela, explora-se Bingham, os mecanismos que povoam o seu mundo, o seu isolamento e a sua perturbante amoralidade, pessoal e profissional, que o tornam um delicioso exemplo máximo do capitalismo que, a um tempo, conduziu à presente crise e dela colhe os lucros – Billy Wilder teria gostado da personagem. Sobretudo, é nesta parte que há exemplos, do mais humano e comovente que vimos, dos efeitos reais da crise, na pessoa daqueles que são despedidos. Com The Girlfriend Experience de Steven Soderbergh é, até agora, o mais pertinente olhar sobre as alegrias que Wall Street nos trouxe nos últimos anos. No entanto, o realizador Jason Reitman (filho do tarefeiro Ivan), que filma com competência e alguma personalidade, não resiste a puxar Bingham para o reino da moral familiar e comezinha, que tem todo o seu encanto mas, esteticamente, é uma opção desinteressante, que acaba por amputar o efeito do filme.


Se o final o redime parcialmente, devolvendo Bingham à solidão que o caracteriza, deve-se prezar menos a coragem de um final infeliz moralista (a oportunidade de Bingham ser como os demais perdeu-se, devia ter pensado nisso antes) do que a tal componente “política” do filme: Bingham, enquanto emissário da crise, estará condenado ao purgatório das viagens constantes enquanto esta continuar. Afinal de contas, Nas Nuvens é um filme de época. A nossa.

31 janeiro 2010

Sumaríssimos (10)


Quando vi Invictus pela primeira vez, num visionamento de imprensa, gostei bastante. Contudo, na manhã desse mesmo dia, havia visto Antichrist, o equivalente cinematográfico de uma arbitragem do Carlos Xistra num jogo do Porto. Há a hipótese de, perante o asco que o filme de Von Trier me provocou, o de Eastwood ter saído beneficiado. Já revisto, percebo pouco o clamor de mediocridade: não sendo nem de longe o melhor Eastwood, mantém a classe a que nos habituámos, expandindo-a na direcção da História e da enorme figura de Nelson Mandela, bem como o requinte classicista, linear e popular do costume. Tirasse o cineasta aquelas duas horríveis canções e seria tão seco quanto qualquer outro. É normal: de quando em vez, Eastwood faz filmes de grande qualidade que são “engolidos” pelas suas obras-primas (basta ver os casos de Absolute Power e True Crime, entre outros). Invictus é só mais um. Mas, já agora, permitam-me realçar dois momentos superlativos do filme: a sequência do avião, a lembrar o 11 de Setembro; e, acima de tudo, Mandela ao espelho com espuma de barbear a cobrir-lhe meia face, reflexo perfeito de um país metade negro e metade branco.
Ainda assim, e dado que estamos a falar da crítica de cinema nacional, importa perguntar se não estamos perante um caso de diminuição por motivos políticos. Exemplos: na crítica da Time Out, lida na diagonal numa banca de jornais, João Miguel Tavares compara o filme a um discurso de Hugo Chávez. Ousadia de Eastwood, a de não nos revelar o bandido que é Mandela!

29 janeiro 2010

Salinger RIP


Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behaviour. You're by no means alone on that score, you'll be excited and stimulated to know. Many, many men have been just as troubled morally and spiritually as you are right now. Hapilly, some kept records of their troubles. You'll learn from them - if you want to. Just as someday, if you have something to offer, someone will learn something from you. It's a beautiful reciprocal arrangement. And it isn't education. It's history. It's poetry.


A Catcher in the Rye, Penguin Books, ed. 1994, pag.170

26 janeiro 2010

Sumaríssimos (9)


Zombieland levará na cabeça da maioria da crítica até ao dia em que Quentin Tarantino disser bem dele numa qualquer entrevista. História de uma família afectiva criada em pleno apocalipse de mortos-vivos nos EUA, a estreia de Ruben Fleischer na realização esconde por trás da sua alegoria de união entre seres solitários o desejo de ser o mais divertido arraial de porrada que alguma vez vimos num filme. E consegue: vísceras espalhadas, sangue vomitado, bastonadas nas trombas, um uso em elipse de um tesoura de podar sequóias, balázios nos cornos, atropelamentos, marteladas na cachimónia de um palhaço ou quedas de máquinas em parques de diversões, não há virtualmente nada que aqui esteja ausente. Retirando ao filme de zombies a carga política que George Romero lhe deu no seminal A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e que foi seguida por Joe Dante no magnífico Homecoming (2005) da série Masters of Horror ou na metade Planet Terror de Grindhouse (2007), diferente da genial comédia Shaun of the Dead (2005) de Edgar Wright, Zombieland é o filme grunho por excelência, onde a chalaça convive com a violência e o cuidado artístico “cibernético”com o uso não muito requintado do bastão de baseball. Para o fim, no entanto, guarda-se o melhor: o extraordinário cameo de certo e determinado mito de Hollywood, também ele apostado em entrar na parvoíce e fazendo-o a custas de certa imagem “indie” cultivada nesta década. Não convém criar habituação, mas de vez em quando sabe bem ver um filme sem pensar na Política dos Autores ou no formalismo russo e ser grunho. Só um bocadinho, para não criar habituação.

25 janeiro 2010

TAKE 21 - Dezembro / Janeiro


Aqui está mais um numero da Take. De entre as diversas coisas que fiz, aqui aproveito para destacar os artigos sobre os anos de 2005 e 2009 no especial da década. Disfrutem do número na íntegra, que vale bem a pena.

21 janeiro 2010

Oportunidade única!

Numa das maiores iniciativas culturais dos últimos dias, o Youtube resolveu disponibilizar alguma da melhor poesia da década passada. Vejam e vejam depressa, antes que sejam retiradas por infracção dos direitos de autor (ou algo parecido). Vão ver que vale a pena. Aqui.

20 janeiro 2010

Já vi muita coisa depravada no meu tempo...


...mas como isto ainda não tinha visto nada.


(A elaborar num futuro número da Take)

Rendido!


14 janeiro 2010

O melhor do mundo são as crianças?


Thomas Mann escreveu um dia que a génese do nazismo podia ser encontrada no romantismo e no consequente insuflar do sentimento nacional. Conhecendo um pouco a época, parece óbvio que tinha razão. Mas agora Michael Haneke vem dar outra hipótese, concomitante com a primeira: e se na sua génese estivesse também o puritanismo, com os seus mecanismos sociais e ideológicos? O resultado é O Laço Branco, mais um excelente filme de um dos maiores cineastas europeus da actualidade.

E como em tudo nos filmes de Haneke, nada é simples: uma vila alemã no início do século começa a ser palco de ocorrências estranhas, desde um atentado à vida do médico local ao incêndio do celeiro dos latifundiários da vila. Narrado pelo professor, em processo de corte de uma jovem dificultado pelos acontecimentos, coloca-se uma hipótese: e se as crianças da vila, aparentemente inocentes e constantemente lembradas dos ideais de pureza a que supostamente respondem (o uso de um simbólico laço branco na roupa ou no cabelo é um castigo por travessuras pouco condizentes com a prática social da época), estivessem por trás dos acontecimentos? Como habitual, não é dada uma resposta taxativa – ser taxativo com acontecimentos históricos a um século de distância é complicado - mas o papel dos petizes nos filmes do austríaco foi sempre de disrupção, agindo para perturbar o mundo padronizado e confortável dos adultos. O que parece pouco inocente é o término temporal do filme no início da Primeira Guerra Mundial: se a um contexto de repressão e de medo (vejamos a fantástica cena em que o pai castiga a masturbação do filho com o amarrar das suas mãos à cama) juntamos uma juventude à vontade com a prática do mal e as agruras trazidas pelo Tratado de Versailles, podemos ter, década e meia depois, com os mesmos jovens a caminho dos 30, a semente do nazismo. As declarações de Haneke na promoção ao filme vão nesse mesmo sentido.

Ascético, duro e sem momentos explosivos, num olhar clínico e distante, ajudado pelo imenso contraste do seu preto e branco, O Laço Branco é um filme cerebral e quase “de tese”. A reconstituição é óptima mas o melhor é como o rigor da mise-en-scène se conjuga com o tom uniforme, formando um objecto sem qualquer cedência relativamente ao modo de pensar e de enquadrar a História como hipótese de arte e a estética como demonstração de ética. O espectáculo histórico, na figura de super-produções que simplificam processos históricos e substituem a qualidade estética pela imponência das super-produções, não passa por aqui. Ainda bem.


Apenas uma nota final para os distribuidores: se o filme for num preto e branco constrastado, por favor coloquem as legendas a amarelo, azul, vermelho ou lilás, mas nunca a branco. Vão ver que os espectadores que não falam a lingua das personagens agradecem.

11 janeiro 2010

E ainda dizem que não há insubstituíveis (III)









Rohmer RIP


É certo que Truffaut morreu há mais de 25 anos, mas foi um caso isolado. Sinto que com a triste notícia de hoje, se marca o início do desaparecimento da geração que dos Cahiers se transformou em Nouvelle Vague.

Sumaríssimos (8)


Há muito a gostar em Where the Wild Things Are. Dos monstros criados pela companhia de Jim Henson à música de Karen O, passando por todo o imaginário fantástico criado por Maurice Sendak e adaptado por Spike Jonze ao cinema, pela primeira vez sem a companhia de Charlie Kauffman – aquele cão gigante é magnífico. Sobretudo, pelo lado psicológico dado à infância, mostrando já conceitos éticos e morais e plena noção de afectos e rivalidades embora a traço largo. Porém, o lado que mais me atrai é o contrário: as sequências de movimento, com saltos enormes e criaturas que se atiram umas às outras e se digladiam com bocados de terra. Porque é nesta que vejo a liberdade de se ser criança e o modo como esta se manifesta na irrequietude, no bicho-carpinteiro que as crianças têm nos momentos de felicidade. Sobretudo na sequência dos festejos da coroação do miúdo, em que a música parece carregar e sublinhar a acção. Parece que Jonze viu com atenção o Marie Antoinette (2006) da ex-esposa… Being John Malkovich (1999) e Adaptation (2002) eram melhores, mas este é encantador.

05 janeiro 2010

TOP 2009

Com algum atraso, aqui vai o meu top de filmes 2009. 12 filmes, idealmente um por mês. E com a devida penitência por ter perdido, entre eventuais outros, o Ne Change Rien de Pedro Costa.

1 - Gran Torino
2 - Singularidades de Uma Rapariga Loura
3 - Andando
4 - Un Prophète
5 - Inglorious Basterds
6 - Up
7 - L'Heure d'Été
8 - The Curious Case of Benjamin Button
9 - Shotgun Stories
10 - Ponyo à beira-mar
11 - Two Lovers
12 - Milk

04 janeiro 2010

Do sexy no masculino

Na antevéspera de Natal, tomo café com duas primas, uma de 33 anos e outra de quase 29, no bar da FNAC do Vasco da Gama. No intervalo da troca de prendas e das conversas, elas folheiam esfomeadamente um livro de fotografias de Robert Pattinson, por entre mil e um comentários embevecidos.
No dia de Ano Novo, vejo alguns minutos de Astérix e os Jogos Olímpicos, enquanto como e bebo qualquer coisa. Alain Delon, no papel de César, velho mas ainda magnético, envenena acidentalmente o seu leopardo de estimação e diz ter feito bem, pois “havia um leopardo a mais na sala”…

No que concerne ao padrão de beleza masculino e ao seu decréscimo nas últimas décadas, só me apetece perguntar:

Como é possível passarmos disto




para isto




?

29 dezembro 2009

22 dezembro 2009

Notas da ´teca (7)


No final dos anos 30, mercê de diversos problemas com os estúdios ao longo da década e que injustamente apagaram, na cabeça dos produtores, os muitos sucessos anteriores, King Vidor não tinha a vida facilitada. Felizmente, The Citadel (1938) inverteu a situação e permitiu a existência do belíssimo mas complexo The Northwest Passage (1940), adaptação da primeira parte do à época famoso romance homónimo de Kenneth Roberts. Superprodução em technicolor onde a grandiosidade do cinema de Vidor podia brilhar em toda a amplitude, acabou por sofrer limitações por parte da MGM, preocupada com o custo galopante da obra, e não só não repetiu o sucesso da obra anterior como voltou a lançar Vidor numa travessia do deserto, não filmando entre 1941 e 1944.

Idealmente, esta história da conquista do território americano a índios e franceses estava pensada para servir de incitação patriótica ao público norte-americano em vésperas do início da participação na Segunda Guerra Mundial. Contudo, é um filme ideologicamente complexo, a que muitos apelidaram de fascista, sobretudo pela personagem carismaticamente desempenhada por Spencer Tracy. É certo que o Major Robert Rogers tem, na sua devoção total ao brio e ao método militar bem como, e sobretudo, na maneira como vê e mata índios, muitos aspectos totalitários e até fascistas. Contudo, o filme equilibra essa componente através das demonstrações de respeito e interesse que Rogers tem pelos seus homens, bem como pela tónica nas dificuldades por que passavam aqueles homens (sempre vistos como heróis), que forçavam a existência de atitudes menos correctas mesmo vindas de pessoas de moral acima de qualquer suspeita. Essencialmente, concordo com a opinião de João Bénard da Costa na respectiva folha da Cinemateca (de onde são, aliás, retirados os dados históricos citados no início): mais do que ideologia, que pode ser vista aqui, deve-se ver realismo, sobretudo na violenta sequência da destruição da aldeia índia. Ninguém disse que durante a construção de um país não se sujam as mãos.

Curioso é que no meio das acusações de fascismo, um pormenor tenha sido esquecido: com a acção situada antes da Revolução Americana, apenas no início, e à laia de McGuffin, há a contestação ao Império Britânico. De resto, até há planos em que a Union Jack voa ao vento de forma muito conspícua. Se Vidor põe de lado o ímpeto anti-imperialista no retrato da vida colonial da América, então está definitivamente provado que o interesse era retratar e não politizar.

O que, por sua vez, se estende à componente estética. Do mesmo modo que a personagem de Robert Young pretende ser um pintor na senda de Rubens ou Velasquez (e é difícil não ver a influência deste último na construção geométrica do encontro de Young com a família da sua amada), interessa a Vidor pintar uma paisagem e povoá-la com um povo. Como em Man Without a Star (1955) e, obviamente, Duel in The Sun (1946), o que aqui vemos é uma visão ideal, pictoricamente estilizada através do technicolor, da paisagem norte-americana e da interacção das personagens com ela (note-se a magnífica sequencia em que é a corrente humana que permite combater a corrente de um rio), não se coibindo mesmo, no final do filme, de exaltar em monólogo as virtudes do território americano. Mais perto de Ford do que de Hawks, Vidor mantém aqui a sua componente de cineasta telúrico, talvez mesmo o maior de todos.

21 dezembro 2009

A década

01 - Lost in Translation
02 - A Última Hora
03 - 2046
04 - Million Dollar Baby
05 - Kill Bill vol. 2
06 - Gran Torino
07 - Munique
08 - Saraband
09 - Juventude em Marcha
10 - O Caimão

09 dezembro 2009

A banda da década?

You don´t need to find answers/ to questions never asked of you
in “Two More Years”
We promised the world we’d tame it/ What were we hopping for?
in “Pioneers”


Musicalmente, a década que agora finda foi extremamente proveitosa. O rock rejuvenesceu, através dos Strokes, White Stripes, Queens of the Stone Age, Interpol, Yeah Yeah Yeahs e muitos outros. A electrónica deu-nos muitos e bons nomes, mas basta citar LCD Soundsystem para a década estar ganha. Arcade Fire, The National e Antony and the Johnsons foram profunda fonte de catarse. Na pop, o lado arty dos Franz Ferdinand conjugou-se na perfeição com o caleidoscópio dos MGMT e com a desbocada Lily Allen. Em Portugal, discos de Old Jerusalem, Humanos, Linda Martini, os fantásticos Golpes e os sobrevalorizados Pontos Negros dão esperança no futuro. Mas qual foi a banda que melhor capturou o aspecto humano contra e dentro do zeitgeist? A resposta, para mim, só pode ser uma: Bloc Party.



É certo que todos os nomes internacionais atrás referidos são, esteticamente, muito melhores que os Bloc Party. É igualmente certo que são musicalmente limitados. E é indiscutível que o seu percurso tem sido a pique, descendendo da estreia Silent Alarm (2005) para o seguinte A Weekend in the City (2006) e ainda mais com o terceiro Intimacy (2008). Mas os Bloc Party juntam, da forma mais coerente e mais recompensadora, os diversos matizes da vida contemporânea. Banda de canções mais do que de álbuns, neles se pode ver: a energia dos começos ("Little Thoughts"), a espera pelos momentos em que os problemas serão debelados ("Two More Years"), pequenos momentos de declaração amorosa ("So here we are" ou "Sunday"), retratos da vida (sub)urbana ("A Song for Clay" ou "Waiting for the 7 18"), a impotência de quem olha para o mundo virado do avesso e nada consegue fazer ("Pioneers") ou a tristeza pelo fim dos relacionamentos ("Signs"). Por detrás de uma banda aparentemente limitada, esconde-se uma obra bem mais preenchida e sentimentalmente ampla do que parece.



A compor este ramalhete, aparece a construção (a ilusão, se quiserem). Mimetizando o mundo actual, a música dos Bloc Party parece cheia de néons e edifícios de vidros espelhados, de telemóveis topo de gama com acesso ao Facebook e ao Twitter, do crescimento económico normalizador do mundo capitalismo, do bulício nocturno à volta de bares e discotecas onde as pessoas tentam expurgar as suas neuroses e limitações, das madrugadas em que se volta a casa embriagado, com frio e cansado mas com a sensação da catarse feita. Não é que se pareçam connosco (afinal de contas, quantos de nós tocaram em Glastonbury?) mas disfarçam muito bem.



Se os Bloc Party estão a caminho do fim (a falta de qualidade de Intimacy assim o parece indicar), pouco importa. Não terão o futuro que parecem ainda ter os Arcade Fire ou os MGMT, mas isso só parece reforçar o ponto que tento fazer: o de uma música que vive desta década e para esta década como poucas e que, por isso a ela pertence e nela se parece esgotar.

08 dezembro 2009

Maria João Seixas


Já há directora: Maria João Seixas substituirá João Bénard da Costa como directora da Cinemateca. E é uma nomeação que me deixa dividido.

Comecemos pelo fim: Pedro Mexia, de quem temia muito pior, optou pelo low profile e só lhe podemos agradecer. O escritor/poeta/cronista/crítico/blogger/encenador ocasional optou por, pelo menos para fora, pouco ou nada mudar. Fez bem.

Quanto à nova directora, reconheço-lhe longa carreira no jornalismo e algumas excelentes entrevistas que li, sendo provavelmente alguém que, sendo eu próprio um ex-jornalista, gostaria de ter tido como editora ou professora. Espero que a própria se prepare porque, apesar da sua longa carreira, várias "bocas" se seguirão apontando a sua anterior conjugalidade como motivo de escolha.

De resto... o Ministério optou por não escolher ninguém que tenha experiência de facto, prática e teórica, para melhor desempenhar o cargo, incorrendo no mesmo erro em que incorreu quando nomeou Mexia, por acção directa de Bénard da Costa. Com José Manuel Costa ou João Mário Grilo por aí (para não falar num mais velho Alberto Seixas Santos ou, porque não, até num João Lopes ou num Fernando Lopes), resta saber porque persiste esta relutância em trazer os melhores exemplos práticos de uma arte para os campos de decisão e gestão. Será pela ideia de que um artista não consegue cumprir um orçamento? Ou porque, em Portugal, um cineasta é criatura de poucos amigos, sobretudo na política?

Posto isto, pelo carinho que tenho por aquela casa e pelos filmes que ainda lá espero ver, desejo a melhor sorte a Maria João Seixas. Sobretudo, que dê um choque na Cinemateca que a liberta do relativo tédio do "ciclo entra ciclo" sai em que parece estar um pouco presa. e que finalmente instaure outros pólos da instituição não apenas no Porto, mas também noutras partes do país, por exemplo junto às universidades de Coimbra, Algarve e Beira Interior.

04 dezembro 2009

Romance Perigoso


O dia 13 de Setembro de 2008 provocou terramotos nunca vistos depois de 1929. Aconteceu mesmo, depois de muitos avisos ignorados. Hoje, parece já estar tudo normal (exceptuando Bernie Madoff, nenhum dos prevaricadores foi preso, os astronómicos bónus bancários já estão a ser pagos, as bolsas já geram outra vez dinheiro e sobrou apenas uma crise económica que não belisca quem recebeu pára-quedas dourados para arruinar a economia mundial) mas Michael Moore já andava de olho na situação antes do rebentamento. E com o resultante Capitalism: A Love Story assina o seu melhor filme desde a estreia com Roger and Me (1989).

Iniciando o filme com uma óptima montagem comparando a situação dos EUA à queda do Império Romano, o filme avança por uma visão do que era o ideal do capitalismo americano no pós-guerra imediato, até à ofensiva que as empresas norte-americanas fizeram aos direitos laborais e à ocupação de cargos governamentais que redundaram no aumento da desigualdade através do corte de impostos para a minoria abastada. A parte do filme de pendor informativo culmina com o fulminar do sistema em 2008 e é, diga-se de passagem, a parte mais útil do filme. Num contexto mediático dominado pela direita (embora eles digam que não) é com clareza, com números, gráficos de fácil compreensão e numerosos exemplos práticos que Moore explana a evolução da economia mundial e as condições que deram origem à débacle. Este é, então, um filme de rigoroso e relevante pendor informativo e contextualizador, fazendo o trabalho necessário mas que os média mainstream se recusaram, por motivos ideológicos e empresariais, a fazer ao longo dos últimos 30 anos.

Na segunda parte, são dados exemplos de como a crise afectou pessoas concretas e de como esta pode ser debelada. Parte mais interessante do ponto de vista documental, dando uma visão humana dos efeitos e das saídas da crise, é aquele em que os casos são do mais caricatural, desde o economista formado na Ivy League que não consegue explicar o que são derivativos, demonstrando na prática o desnorte do sistema económico ao aviltante momento em que são denunciados os seguros de vida que as empresas fazem aos empregados, ficando com a compensação quando estes morrem. É talvez o momento mais explorador do filme (são visíveis as lágrimas nas faces de alguns dos entrevistados), mas também aquele que retira com mais precisão a economia dos manuais e dos escritórios corporativos. Também é aqui que exemplos de empresas em cooperativa, com partilha simultânea de sacríficio e de lucro, são apontados como possível solução.

Na última, talvez a mais panfletária, Moore apela à desobediência civil, dando exemplos de casos em que, na sua óptica, esta se encontra já a começar. Seria a parte que eventualmente poderia ser acusada de marxista para cima, mas que ganha uma curiosa dimensão quando comparada com o momento inicial: afinal de contas, em nenhum momento se pede um paradigma “esquerdista”, mas sim um regresso ao momento em que o capitalismo se sedimentou e que, na versão do realizador, construiu a América. Este é, então, o filme em que fica claro que a mudança dirige-se, então, no sentido da ética e da partilha entretanto perdidas e não dos amanhãs que cantam.

O que causará decerto muita confusão a muita gente. Mas é o que dá profundidade e conteúdo ao filme. Enquanto muitos se divertiam, ao longo dos anos, a questionar o patriotismo de Moore e a apelidá-lo de leninista de mil maneiras veladas, o que ele aqui mostra é o seu amor pela América, bem como a noção de que, afinal, nem o país se esgota nas corporações nem a magnífica cidade de Nova Iorque acaba em Wall Street. No limite, Michael Moore está mais próximo da Star Spangled Banner que de uma foice e de um martelo e isso causará muita surpresa. A quem andou distraído, claro.

01 dezembro 2009

Um marco da cultura nacional


Aqui, saudei o regresso do cinema à RTP2. Passadas duas semanas, regressa esse bastião do pensamento e do engenho nacionais que é o talk-show 5 para a meia-noite. E o cinema? Mas isso interessa a alguém?