11 novembro 2010

Da criação e outros demónios


O Facebook é um lugar estranho, na mesma medida em que é um excelente negócio. Porque consegue vender um produto que é exactamente o contrário do que é apregoado: propõe uma forma de aproximação enquanto produz distanciamento e alienação, escondendo exemplarmente as suas limitações. Senão, vejamos: com quantas pessoas comunicam no Facebook que não significam nada para vós? Muitas, decerto. E com quantas pessoas de que gostem e são vossas amigas no Facebook estiveram pessoalmente nos últimos seis meses? Infelizmente, decerto que poucas.

Com a notoriedade e importância que o Facebook gerou nos últimos anos, era inevitável a feitura de um filme sobre o assunto. Felizmente, The Social Network é um filme realizado por David Fincher, um dos grandes estetas do nossos, escrito por Aaron Sorkin (da magnífica série The West Wing) e com gente competentíssima a protagonizar (Jesse Eisenberg, no seu melhor papel até agora, junta-se ao irresistível cretino Justin Timberlake) e musicar (a banda sonora é o melhor trabalho de Trent Reznor desde o início da década de 90) e transforma um material digno de telefilme numa obra cinematográfica vibrante e urgente sobre as dinâmicas do poder e as suas influências nos percursos individuais.

Todos os mitos de criação precisam de um demónio, diz o argumento, e o deste filme é Mark Zuckerberg, o mais jovem bilionário de sempre e que, como decerto muitos inventores, gerou a sua criação para impressionar uma mulher. The Social Network é, no limite, a história de como o pequeno-burguês, confrontado com a cabidela dos fortes (a orgia dos privilegiados em Harvard), encontra na técnica a sua vingança, pensando e executando mais e melhor do que foi pensado e executado pelos mais ricos. No seu modo psicoticamente agressivo de relacionamento e na sua brutal frustração sexual, encontra o combustível para a sua criatividade. O problema é que este é um modo difícil, quando não impossível, de desligar e o caminho de Zuckerberg é um de progressivo isolamento e solidão. A personagem principal é, então, um precoce conhecedor de quão inóspitos são os topos das cadeias alimentares. E, de caminho, um curioso precursor do resultado final daquilo que inventou.
The Social Network é, também, magnificamente filmado por David Fincher, que cada vez mais põe de lado a sua estética publicitária, para a sintetizar com o classicismo. Assim, sobrevive a montagem rápida, a que se juntam os velozes e musicais diálogos de Aaaron Sorkin, inseridos numa curiosa acepção de filme de tribunal, que usa as audiências preliminres com modo de estruturar os flashbacks. Depois de Zodiac e do maravilhoso The Curious Case of Benjamin Button, Fincher revela-se, embora de forma discreta, como um nome fundamental do cinema do nosso tempo.

O que ganha The Social Network é, assim, a sua brilhante ironia. Afinal de contas, o que o início da maior rede social do mundo produziu, no meio da sua propalada amizade e vontade de democratização, foi meramente uma versão ancestral da luta pelo poder e do brutal ressentimento a que essa luta conduz. Na modernidade vemos, afinal, o carácter mais básico do ser humano. E não há nada de mais paradoxal do que uma invenção que não muda nada. Digo eu, que escrevo isto enquanto vou dando uma olhada ao meu Facebook.

07 novembro 2010

Hong Kong Fora de Horas


Filme muito pouco convencional, PTU (2003) é uma das grandes obras de Johnnie To e, dos filmes que dele vi, apenas The Mission (1999) e Sparrow (2008) lhe estão próximos. Retrato de uma noite infernal em Hong Kong, em que um sargento da brigada anti-crime perde infantilmente a sua arma, se vê envolvido na morte de um filho de um líder das tríades e recebe a ajuda pouco ética de um pelotão da Police Tactical Unit na busca da pistola, é mais um exemplo de uma enorme mestria de To nos terrenos do thriller e um filme que corta de maneira muito interessante com o maniqueísmo habitualmente associado ao cinema asiático.


Mais do que um filme de acção – que só explode verdadeiramente na última cena – PTU é uma sucessão de deambulações, encontros, desencontros e cruzamentos na selva urbana deserta da madrugada, que o cineasta filma com desenvoltura, com o tradicional cuidado na gestão das diferentes tensões, com belos exemplos de mise en scène em profundidade de campo e com a capacidade, muito típica de Hong Kong, de desenvolver uma narrativa inteira com personagens de pouca densidade, todas definidas em traço grosso nos primeiros 20 minutos de filme. To é um extraordinário utilizador dos meios e da indústria de Hong Kong, conseguindo a um tempo inserir os seus filmes num género perfeitamente definido (o cinema de acção baseado no binómio polícia/tríades) e transcendê-lo completamente. Neste filme, para o fazer, conta com dois aliados particulares: o seu precioso sentido de enquadramento, que coloca em cada frame um sentido de perturbação que ajuda flagrantemente ao ambiente de pesadelo que o realizador procura; e um belíssimo aproveitamento das iluminações cromáticas, desde os tons de vermelho em momentos de violência, os amarelos e dourados perante figuras ou situações de poder e o retrato da urbe numa alternância de tons de preto ou de branco berrante em piscinas de luz, um pouco à maneira do que Robert Siodmak fez em The Killers (1946). Sobretudo, mais do que uma história simples, Johnnie To filma um mundo em que, polícias ou ladrões, toda a gente luta é para safar o próprio coiro, não olhando a meios para o fazer – genial a sequência do “interrogatório” no salão de jogos -, abdicando sagazmente de tomar partido por qualquer das partes interessadas. Infelizmente, esta overdose de estilo sem heróis a que o público se possa agarrar não fez muito pela carreira do cineasta, que desde 2001 tem tido progressivamente mais dificuldade em montar os seus projectos. É o preço do brilhantismo.


Por último, destaque para a belíssima companhia de actores que vemos em quase todos os filmes de To em papéis que correspondem, sem tirar nem pôr, aos tipos que interpretam noutros filmes: o belíssimo Lam Suet, sempre alguém com o seu quê de ridículo, a autoridade natural de Simon Yam ou a obesidade de Tian-lin Yang, que faz dele um óptimo chefe de uma tríade, ajudam o espectador já iniciado a entrar nas obras subsequentes de um universo que, nas suas relações estilísticas e temáticas, se alimenta de si mesmo.

Cintra Ferreira RIP


Nunca o conheci. Cruzei-me com ele várias vezes em visionamentos, ele um dos consagrados que toda a gente conhecia, eu um puto que toda a gente olhava de lado, como que interrogando o que raio faria ali. Homem que falava alto, tinha também um visual muito próprio, onde as vestimentas discretas coincidiam com um boné dificil de ignorar e com um daqueles patuscos cordéis a prender os óculos às orelhas. Por trás de tudo isto estava um dos mais sábios críticos da nossa praça, alguém com um conhecimento absolutamente impressionante do cinema (sobretudo dos anos clássicos americanos) e que, em boa verdade, já não tinha na imprensa portuguesa um espaço que o valorizasse. É, depois de Bénard da Costa, o segundo crítico de valor que perdemos em 2 anos de uma geração que ainda fará muita falta e que dificilmente terá substitutos à altura. Felizmente, ainda guardo dele muitas folhas da Cinemateca que muito me ensinaram ao longo dos anos. Cá ficarão, a amarelecer, sabendo que, como de costume, sobreviveram ao homem que as escreveu.

31 outubro 2010

Tempestades Interiores


Ang Lee tem uma carreira estranha: não é normal que o melhor dos tarefeiros do actual cinema americano, o que melhor segue a tradição “pau para toda a obra” da época dourada de Hollywood, seja asiático. Nem tão pouco é normal que mesmo o mais bem sucedido dos seus filmes asiáticos, Crouching Tiger Hidden Dragon (2000), seja também ele um ersatz do cinema da Shaw Brothers ocidentalizado para espectadores não conhecedores dos filmes do estúdio. No western (Brokeback Mountain, claro, mas também Ride with the devil), no filme de super-heróis (Hulk, sobre uma pobre vítima que espanca stewards) ou no melodrama de raiz norte-americana (este extraordinário The Ice Storm), Ang Lee filma de forma personalizada, incorporando todas as figuras de estilo do cinema americano – que travellings fantásticos! – e fazendo-nos esquecer a sua proveniência cultural. Algo tanto mais estranho quanto a longa tradição de estrangeiros em Hollywood, com os germânicos à cabeça, nunca deixando de fazer cinema americano, influiu de forma decisiva na definição dessa mesma cinematografia – como teria sido Hollywood sem Ernst Lubitsch? Lee, pelo contrário, “dilui-se” no material, não deixando nunca de fazer óptimos filmes por isso.

The Ice Storm (1997) é muito provavelmente o seu melhor filme. Passado durante o feriado de Acção de Graças em 1973, em pleno desencanto do escândalo Watergate (The president really was a crook), a narrativa acompanha duas famílias de vizinhos em pleno processo de desagregação. Numa, a dos magníficos Kevin Kline e Joan Allen, o divórcio aproxima-se a passos largos com um pai adúltero e uma mãe que rouba em lojas; na outra, com Sigourney Weaver em modo hippie envelhecida, essa hipótese já nem é colocada, por mero comodismo. O escape reside no sexo (as personagens de Kline e Weaver estão envolvidos; um dos clímaxes do filme passa-se numa festa de troca de casais), álcool e outras emoções furtivas. Em cenários no futurismo típico dos anos 70, os filhos começam a seguir as pisadas dos pais, dedicando-se ao consumo de drogas e começando a experimentar com a sexualidade. Em ambos, nota-se um sintoma preocupante: aquilo que era suposto servir de escape, permitir o divertimento, expandir a consciência, já nem paliativo consegue ser. A rotina sucede-se, o vazio prolonga-se e antecipa uma tragédia que, no menos subtil dos aspectos do filme, ganha forma na tempestade que lhe dá nome.

Filme sobre a decadência moral da small town americana e sobre o desencanto gerado pela era Nixon (brilhante a cena pseudo-coital em que Christina Ricci enverga uma máscara do presidente), The Ice Storm não é apenas um filme belissimamente filmado, ultrapassando de forma metafórica o kitsch da sua época num cromatismo cinzento e monocórdio e filmado num classicismo destro e loquaz. É, sobretudo, uma enorme re-apropriação e transformação de uma tradição cinematográfica de exaltação dos valores dos pequenos núcleos proto-urbanos, que de guardiões da pureza moral se transformam nos locais onde a corrupção moral e a depressão generalizada se manifestam com mais força. O que, por sua vez, demonstra a grande virtude de Ang Lee no contexto cinematográfico actual: longe de mero artesão capaz de cumprir orçamentos e horários de rodagem, quanto mais de um qualquer case study de aculturação, Lee é um extraordinário caso de adaptação ao material que lhe é dado e tremendamente eficaz no modo como quase sempre encontra o tom certo para passar uma ideia cuja transmissão alguém nele delega. Nos tempos que correm, isso é algo de inestimável.

24 outubro 2010

Boston, Massachussetts


No cinema americano actual, a cidade de Boston tem representado um interessante novo filão a explorar. Começando por Good Will Hunting (1997), passando por Mystic River (2003) e The Departed (2006) até aos filmes de Ben Affleck (Gone Baby Gone, 2007, e este novo The Town), Boston aparece como uma cidade horizontal (habitações baixas, separadas por milhare de árvores frondosas), que esconde bairros pobres e habitações sociais onde os códigos de honra estão intimamente ligados à sobrevivência. Matt Daman e Ben Affleck têm sido instrumentais neste impulso, recuperando-se o segundo de uma carreira na interpretação toldada, em igual medida, por um misto de falta de talento e más escolhas.

The Town, segunda longa-metragem de Ben Affleck, centra-se na tradição das quadrilhas de assalto a bancos originárias do bairro de Charlestown e surpreende pela qualidade demonstrada pelo actor na realização, com câmara segura, capacidade de levar com segurança a narrativa de um ponto ao outro e, sobretudo, talento na definição do ambiente citadino, na criteriosa utilização da geografia da cidade e na explicitação de um código de conduta assente em valores familiares (filiais ou afectivos) baseado na lealdade. Ben Affleck filma bem, na tradição pragmática de um certo cinema de acção que podemos remeter tanto para Eastwood como, por exemplo, para um Don Siegel.

No entanto, The Town não me deixou tão satisfeito quanto gostaria. Falta ainda a Affleck a capacidade de transcender este sólido material (afinal de contas uma típica história de heist movie sobre um assaltante que conhece uma mulher e por ela quer mudar de vida) em algo de superior, em mais do que um filme que se vê bem mas que muito dificilmente perdura na mente do espectador. Que se inspire, por exemplo, no trajecto de Eastwood (que de actor de recursos limitados palmilhou até se tornar num dos grandes cineastas do seu tempo), que aproveite as portas que a fama lhe abre (o elenco de luxo contas com as participações do magnífico Jon Hamm e da belíssima Rebeca Hall) e pode ser que venhamos a ter cineasta.

18 outubro 2010

O único dia fácil foi ontem



Num ano em que tudo parece confirmação ou desilusão, apenas três cineastas me pareceram verdadeiras surpresas: o chileno Pablo Larrain, a americana Kelly Reichardt e o filipino Brillante Mendoza (ainda não pude ver o La Teta Asustada de Claudia Llosa). Num tempo em que as guerras acontecem lá longe e as crises são espectáculos televisionados, nos seus diferentes tipos de realismos, mostram espaços em ruínas, vidas difíceis, escondem os néons e os ipods e mostram-nos existências difíceis, cenários perto do apocalíptico (já tidos como normais) e uma existência em que as crises, tanto pessoais como ontológicas, são o modo de vida, numa inversão difícil de conciliar com o mundo low cost em que o barato quer imitar o luxo. Diga o senhor A.O. Scott o que quiser, esta nova forma de realismo está a produzir rebentos em todo o mundo e não só nos EUA e parece-me ser uma clara resposta a um mundo que muitos querem ver como misto de reality shows, telemóveis topo de gama e fornicação entre famosos. A busca por algo de real e vital é inerente a qualquer forma de arte e o porto seguro em alturas de crise. Em cada um dos filmes destes cineastas, há um dedo do meio em riste ao Avatar de James Cameron.

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Para já focamo-nos no filipino, com uma pergunta que respondemos, em Portugal, com ano e meio de atraso: é Kinatay, lançado directamente em dvd pela Alambique, o murro no estômago apregoado em Cannes 2009? É-o, de uma maneira completamente diferente do que estávamos à espera. Porque nele Mendoza ensaia um sub-género de que, creio, será o único cultor (Gaspar Noé? Que é isso?): o snuff movie arty. História de um aspirante a polícia que tem um doloroso baptismo de fogo numa noite infernal nos arredores de Manilla, é um filme excessivamente gráfico, excessivamente pretensioso, excessivamente tudo. O filipino não poupa nos efeitos, nos sons esparsos, na tentativa de criar ambiência, e nem sempre se sai a contento. Simultaneamente, há demasiados pormenores literais, que tornam o filme numa experiência amiúde repugnante. Tudo isto seria problemático, não fosse essencial à própria experiência do filme, um exercício em perturbação, em pesadelo, uma espécie de escatologia noctívaga que encontra nos bas fonds uma motivação quase ontológica, como que mostrando ao espectador como sobreviver quando se tem esterco até aos cotovelos. O inocente Peping, que acompanha um grupo de polícias corruptos que, como biscate, matam e desmembram uma prostituta a mando de um qualquer gangster, vive num mundo a todas as outras horas luminoso e até se casa num início do filme que, à maneira do Saló de Pasolini, em nada prenuncia o Inferno que se segue e para o qual é lançado de supetão, sem que ninguém o espere. O que nos leva directamente ao cerne desta obra com poucos ou nenhuns simbolismos (ok, aquele plano do frango a ser cortado, no início do filme, acaba por ser referencial à posteriori): Kinatay, no modo como mostra o antes e o depois onde nada parece ir acontecer ou ter acontecido e na forma como aqueles homens, antes e depois da carnificina, falam de tudo com toda a normalidade, é um brilhante filme sobre a banalização do mal, o modo como este se entranha nas vidas daquela gente, de como já é tão natural quanto qualquer outra actividade. Podia perder 20 minutos, podia ter soluções menos pretensiosas e podia não haver tanto gore? Não. Mendoza, na sua arte, revela-se um pragmático; sem todas estas causas não haveria nenhum efeito.

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Kinatay é um diamante em bruto. Lola é um diamante laminado, um futuro dvd pronto a caucionar as estantes de muita gente que nem com luvas de pelica seria vista a tocar em Kinatay. Apaixonei-me por ele num momento simples mas suficientemente sublinhado para ser de imediato visto como essencial: a velhinha Sepa, num cenário cinzento e ventoso, tenta acender um, dois, três, seis, oito fósforos, todos de imediato apagados pela intempérie, até conseguir acender uma vela em nome do neto assassinado naquele local na noite anterior. Uma vela que o mesmo vento, provavelmente se encarregará de apagar poucos minutos depois. Numa Manilla em que a vida é um gigantesco PEC, chegando ao ponto de algumas ruas terem de ser percorridas de barco devido às monções, duas avós digladiam-se surdamente em prol dos netos, um assassino outro assassinado, num duelo de perseveranças que se saldará num honroso empate. Contido, seco, não perdendo jamais o controlo do seu frágil equilíbrio sentimental, reinventa o melodrama, sublimando-o em dois pólos inesperados. De um lado, mostrando-nos as avós perdidas num estranho labirinto jurídico, onde ninguém quer saber delas ou daquele caso e onde uma palavra da cunha certa leva mais longe do que qualquer requerimento. Do outro, é um filme muito mais “etnográfico” do que Kinatay (que se passava num não-lugar, uma mansão da morte onde as prostitutas vão para ser retalhadas), onde se consegue encontrar, a um tempo, cenários de repressão (a omnipresença da violência policial) e momentos de generosidade única (genial a sequência em que a lola enlutada percorre de barco o seu bairro e recebe os donativos dos vizinhos para a organização do funeral). Se, como um dia me disse alguém que agora não vem ao caso, o cinema é a única arte que consegue mostrar os locais do mundo (a literatura, em toda a sua infinita possibilidade, só os consegue evocar), Lola vive da respiração de uma cidade, do exacto local em que uma cultura e a necessidade de sobrevivência se encontram. Até agora, não vi melhor filme em 2010.

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No final de cada um dos filmes, há um retorno à normalidade que não pode deixar de parecer estranho. Pepping, ainda abananado, passa a ter como maior problema o furo no pneu do táxi que o leva a casa, onde o esperam a esposa e o filho recém-nascido. As duas avós vão à vida delas, cada uma para seu lado, onde as esperam outros problemas e outras tarefas. Se há algo de tão fútil como uma mensagem, tanto em Kinatay quanto em Lola, ela é de que suja-se as mãos o quanto for preciso na esperança de que o dia de amanhã seja mais fácil. O problema é que o único dia fácil foi ontem.

10 outubro 2010

A vida de Bob


Quem já experimentou o desemprego sabe que há nele uma condição insidiosa. No primeiro mês, pensamos todos que vamos descansar um pouco, fazer render o peixe, antes de atacarmos o mercado de trabalho. Quando finalmente o fazemos, percebemos que é o mercado de trabalho que nos ataca a nós. Os dias sucedem, enfadonhos mas estranhamente velozes. Do mesmo modo que, quando trabalhamos, o que fazemos define-nos em grande medida, lentamente começamos a pensar em substituir o “estou desempregado” pelo “sou desempregado”. Na altura em que a almofada do Centro de Emprego começa a ameaçar desaparecer, já aceitamos aquilo que nos oferecem. Quando damos por nós, a ideia que fazíamos das nossas capacidades e das nossas ambições alterou-se irremediavelmente.

Comparado com a experiência retratada em Raining Stones (1993) de Ken Loach, o retrato em cima é de um tempo paradisíaco. Até porque nesta periferia de Manchester, a ambição há muito que desapareceu, inclusivamente da própria textura daquela sociedade. É talvez demasiado ilustrativo o momento em que o veterano inglês põe na boca de uma personagem que olha para dois jovens a frase “só lhes resta drogas, álcool e desespero”. Mas, retratando o desemprego biscateiro que surge dos escombros do Tatcherismo, nos anos perdidos de John Major, antes da revolução globalizante de Tony Blair, é difícil não ver neste filme, o maior sucesso de Loach em muitos anos, um poderoso efeito de verdade. Não é uma questão estética; antes uma profunda ligação de Loach a uma camada social e a uma paisagem específicas, como se fosse um acto de amor mostrar as vítimas de um dos mais poderosos apartheids sociais. Por outras palavras, é como se houvesse uma ligação tão forte que o cineasta pode perfeitamente dar-se ao luxo de ser pouco imaginativo sem que o filme sofra com isso.





E Raining Stones, ainda que superlativamente filmado, num estilo quase documental e com um excelente trabalho de câmara, é do menos imaginativo que pode haver, numa tradição de cinema social quase anacrónica. Numa altura em que Mike Leigh extravasava todos os limites do realismo com Naked (1993), Loach embrenhava-se neles, filmando com segurança e conhecimento de causa. Um daqueles filmes em que a falta de imaginação é uma virtude pois, por um improvável golpe de asa, a acumulação episódica de que o filme faz método até à meia hora final em algum momento o enfraquece. Na sucessão de episódios em que Bob (maravilhoso Bruce Jones) é humilhado (desde ser despedido de uma bar, na sua primeira noite, por fazer o seu trabalho a levar com um jacto de esgoto que limpava pro bono) surgem desde momentos de humor delicioso (o roubo da relva do clube conservador local) e momentos francamente comoventes (o enorme Ricky Tomlinson, da hoje esquecida série The Royle Family, a chorar depois de aceitar dinheiro da filha), subjaz essencialmente uma ideia: a da necessidade de manutenção da dignidade humana, assente em valores como a perseverança e a solidariedade. O que colmata as limitações estéticas derivadas talvez de um entendimento demasiado curto das possibilidades e funções do realismo britânico.

Apesar de tudo, existe um fio narrativo em Raining Stones e que, na sua ambiguidade, acaba por ser a sua maior vitória. Afinal de contas, no período da vida de Bob que acompanhamos, tudo gira à volta da sua vontade de propiciar à filha uma primeira comunhão digna, com caros vestido e sapatos novos. Não abandonando nunca um ponto de vista socialista (no placard da associação de condóminos lê-se “Is there a socialist alternative in England today?”), há uma ideia do fenómeno religioso que avança do respeitoso (a personagem que fala do ópio do povo é uma mera nota de rodapé, o catolicismo de Bob permanece inalterado e nunca é julgado) ao francamente solidário. No limite, avanço dizer que o retrato do padre e da forma como, contra pelo menos as leis de César, redime Bob e lhe dá um novo começo, podendo ser entendida como calculismo da parte de um autor que muitos apelidam de simplista, é prova de uma maior complexidade do que à partida seria de esperar, quase se sentindo a simpatia do cineasta por aquele padre pragmático e lúcido. E é, ao mesmo tempo, uma singular demonstração de uma condição muito peculiar ao desemprego: a maneira como, simultaneamente, estamos completamente sozinhos e, de certo modo, algo dependentes da comunidade. Bob salva-se precisamente por essa forte ligação à comunidade. O que acontece aos que não a têm?

Raining Stones é o melhor filme que vi de Ken Loach (também, valha a verdade, não vi muitos), um objecto marcante nos anos 90 e uma demonstração superlativa de realismo social(ista), equilibrando sabiamente o pessoal e o político. E um filme que importa ver no Portugal de hoje.

05 outubro 2010

Muito cá de casa (II): a Notorious necessidade de Cinema na RTP2

O post 300 deste blog vai ser marcado pela primeira vez que alguém ouve a minha galinácea voz neste blog. Na senda de uma série de videos que estamos a colocar no blog da petição, ponho aqui o meu. Uma pequena reflexão sobre as questões que me motivam a participar nesta iniciativa. Espero que gostem e que nos continuem a apoiar nesta nossa luta.

A Notorious necessidade de Cinema na RTP2 from Miguel Domingues on Vimeo.

29 setembro 2010

Sobre Lisboa nos filmes

Estream em breve dois filmes em que a cidade de Lisboa será retratada. O Filme do Desassossego de João Botelho e Os Mistérios de Lisboa de Raoul Ruiz. Não sei ainda da qualidade de ambos e, dada a sua duração (272 minutos!) dificilmente verei, para já, o do chileno, mas creio que está a faltar um certo filme sobre a cidade de Lisboa. Não aquele que mostra a luz da cidade, as suas travessas e vielas, o seu fado e a ideia canonizada das suas gentes, que isso já temos muito. Um que mostre a Lisboa dos engarrafamentos e da forma como os carros tornam a nossa vida imposível; a Lisboa dos centros comerciais em cada esquina; a Lisboa dos magotes de gente que enchem esses centros comerciais ao Domingo porque não há muito mais que fazer; a Lisboa dos SUV's que passam a alta velocidade pela mendicidade constante; a Lisboa das tias, dos freeks, dos geeks e dos yupies; a Lisboa das pessoas que esbanjam todo o seu dinheiro a crédito; a Lisboa do Rossio deserto às nove da noite e a Lisboa dos milhares que enchem os transportes públicos ao fim da tarde quando gostavam era de poder viver na cidade; a Lisboa ultra-urbana e provinciana, cosmopolita e retrógrada, futurista e saudosista.

Para quando um filme desses?

Começou a revolução... (PENN RIP)


... mas não a soube acabar.

26 setembro 2010

How Hard You Can Get Hit

Não há pessoa neste mundo de quem eu tenha tão pouca pena quanto de Sylvester Stallone. De um lado, um domínio da câmara e da caneta até bastante apreciáveis, do outro, a conjugação de tudo quanto foi errado e mesmo asqueroso na década de 80, no reaganismo belicista, no filme de acção excrementício, no derrubar de toda a digna obra até então construída. Depois de uma péssima década de 90, misto de péssimos filmes de acção (Cliffhanger, Assassins) e de horrendas comédias (Oscar, Stop! Or my mom will shoot!), Stallone aparece agora a cantar o fado do desgraçadinho, como se não fosse ele o principal culpado dos seus tempos de irrelevância. Com Rocky Balboa (2008), Stallone faz o pior: depois de ter lançado os foguetes, pede que tenhamos pena dele enquanto apanha as canas.

Nesse processo, conquista-nos? Absolutamente. Rocky Balboa é um imenso soco emocional, uma obra que faz arte de lamber as feridas e que nos reconcilia com uma personagem que em tempos adorámos mas que com o tempo passámos a ver apenas como um bronco com o tronco em V e uns calções demasiados patrióticos.



30 anos depois, encontramos Rocky como dono de um restaurante e que passa os seus dias como contador de histórias de boxe aos seus comensais, relembrando o que fez a Ivan Drago, àquele senhor das correntes de ouro e ao outro que agora faz filmes série-b. Numa parte de Filadélfia que provavelmente nunca saiu da crise, tenta ajudar uma mãe solteira e o seu filho proto-problemático e vai passando o tempo por entre memórias de Adrian, entretanto falecida (há uma belíssima sequência de um périplo quase sacro de Rocky aos lugares que lhe lembram a esposa) e tenta lidar com um filho que não aguenta a sua filiação, sentindo-se esmagado pela lembrança da glória do pai. Até que um combate virtual num programa desportivo entre Balboa e o campeão da época (imaginativamente nomeado Mason “The Line” Dixon) lhe dá a ideia de regressar, para um último combate, precisamente com o novo campeão.



O que se segue é uma glosa do primeiro filme, voltando a premir todos os botões que o primeiro premiu: a crença em si mesmo, a necessidade de sofrimento necessária ao sucesso, a possibilidade de ver vitórias mesmo nas derrotas – pormenor nada despiciendo, a vitória de Rocky neste filme também é conseguir aguentar o combate até ao fim, aquilo que ganhava o primeiro filme – e dois discursos verdadeiramente notáveis (ver os clips), que mostram que Stallone tem um notável talento para a escrita. Nada de novo, até tudo bastante cínico na utilização de uma receita já experimentada. Mas é impossível para quem cresceu com a personagem (lembro-me de pedir autorização aos meus pais para ficar acordado até mais tarde para o ver derrotar Mr. T) não se sentir verdadeiramente emocionado com este filme. Pode ser que a história de redenção, quando minimamente bem feita (são notórias as limitações de Stallone enquanto realizador, por exemplo, na forma como abusa de filtros de imagem e na montagem algo tosca do filme) seja imbatível. Ou pode ser que Stallone seja um daqueles sacanas encantadores, em cuja mudança acreditamos sempre (podia ter escrito este texto a propósito de Copland, feito já há 13 anos) mas que, no fundo, sabemos que nos enganava de novo se pudesse – o que só nos faz gostar mais dele.

Para o bem e para o mal, Rocky Balboa foi o filme do meu Verão de 2010.

Balanço

A ideia, do Luis Mendonça e minha, de se fazer uma petição Pelo Regresso da Exibição Regular de Cinema à RTP2 tem quase um mês. Desde então, angariámos já 1222 assinaturas, entre as quais as de figuras como a deputada e actriz Inês de Medeiros, os cineastas João Mário Grilo, Manuel Mozos, Catarina Alves Costa, Raquel Freire e Lauro António; o produtor Paulo Trancoso; o engenheiro de som Vasco Pimentel; o actor Gonçalo Waddington e a actriz Anabela Ferreira; o crítico da Premiere e webmaster do site Cinema2000 Nuno Antunes e os críticos Eduardo Cintra Torres, Jorge Mourinha, Jorge Leitão Barros, Vasco Baptista Marques e Mário Jorge Torres; a coordenadora da rádio Oxigénio Isilda Sanches; académicos como Manuel Villaverde Cabral, Rui Cádima, João Milagre, Teresa Cadete, Pedro Eiras, Arsélio de Almeida Martins, Adriano Duarte Rodrigues, Nilza Sena e Fernando Cabral Martins; o autor e jornalista Pedro Teixeira Neves; o historiador José Mattoso; e ainda a escritora Alice Vieira.
Contudo, a maior barreira quebrou-se precisamente hoje. Depois de textos de opinião nas colunas A Minha TV de Jorge Mourinha e Olho Vivo de Eduardo Cintra Torres, aparece hoje, finalmente, uma notícia acerca desta iniciativa, precisamente no Público, onde as outras referências haviam também constado. A terminar a notícia, um pormenor delicioso: Jorge Wemans, director da RTP2, contactado pelo diário, escusou-se a comentar.
No entanto, tudo permanece por fazer. Peço mais uma vez a todos quantos lêem este espaço que passem a palavra, assinem e instem os vossos amigos, conhecidos e familiares a assinarem. Apenas com um número suficientemente grande e compacto de pessoas poderemos aspirar a ter alguma influência.
Obrigado.

21 setembro 2010

Shaw Bros: Uma introdução à Hollywood Chinesa



(Artigo originalmente escrito para publicação na Take. Um obrigado especial à revisora H.)

No início do ano, a redacção virtual da Take escolheu Kill Bill como o filme da década. Altura perfeita para uma pequena introdução à história e ao trabalho dos estúdios Shaw Bros, glorioso império cinematográfico que marcou indelevelmente a história do cinema nos anos 60 e 70.




Em 2003, Quentin Tarantino anunciou que o seu próximo filme seria uma homenagem às produções de artes marciais do estúdio Shaw Bros. Assim nasceu Kill Bill, cujo primeiro tomo é um ersatz da Shaw e em cujo segundo tomo é recuperada uma das principais personagens do estúdio, o mestre Pai Mei. Pese embora a beleza e a utilidade da homenagem, Kill Bill nada fez pelo conhecimento ou pelo nome da companhia chinesa no Ocidente. Como sempre acontece no universo de Quentin Tarantino, a referência, mais do que gerar curiosidade e potenciar a descoberta, acaba por ser absorvida pelo universo do seu criador, tornando-se parte dele, num movimento que, paradoxalmente, até contribui para tornar irrelevante a mesma homenagem que pretende prestar. Assim, tanto quanto por curiosidade cinéfila quanto pela importância do estúdio e pela qualidade de algumas das obras por si produzidas, importa conhecer um pouco mais da história de uma instituição marcante no panorama asiático do seu tempo.



O INÍCIO

Como o próprio nome indica, os estúdios da Shaw Bros começaram enquanto empresa familiar. A família Shaw começou a sua carreira no mundo do espectáculo nos anos 20, através da fundação da Tianyi, produtora associada a algum conservadorismo, a dramas históricos e filmes de fantasia e artes marciais. Em competição com outra companhia da época, dois dos irmãos foram mandados para o Sudeste Asiático para explorar os mercados, nomeadamente junto de mercadores e trabalhadores de plantações, facilmente atraídos pelos enredos simplistas dos filmes da Tianyi. Este mercado viria a decair no final dos anos 20 mas já em 1924 a empresa passa a operar a partir de Singapura, quando os fundadores passam a distribuir os filmes da United Artists de Chaplin, Fairbainks e Pickford e criam uma rede de parques de diversão e cinemas. Quando se dá a crise dos anos 30, os gestores da empresa compram vários cinemas falidos e equipam-nos para o cinema sonoro. Esse equipamento é confiscado pelo exército japonês aquando das invasões nos anos 40 e os fundadores da companhia refugiam-se em Hong Kong, onde não apenas encontram protecção do Império Japonês como, futuramente, também dos nacionalistas chineses do Kuomintang e do comunismo que se lhe segue. No imediato pós-guerra beneficiam de um contexto rico de criatividade, diferente do ambiente na China Continental, onde o cinema passou a estar totalmente controlado pelo Partido Comunista Chinês e onde filmes de artes marciais e outras “superstições” foram banidos até começar o período de reforma no final dos anos 70. Com financiamento vindo do jogo e da prostituição, asseguram os direitos de exibição de diversos filmes americanos e pelo início dos anos 50, conseguem recuperar as salas que haviam perdido durante a Guerra nas comunidades de chineses ultramarinos e de Hong Kong, mas não na “Mainland”, onde todos os estúdios foram nacionalizados. Contudo, foi apenas em 1957 que os irmãos Run Run e Rumne Shaw, instruídos no Ocidente e dois dos homens mais ricos do mundo, percebendo a desvantagem em que estavam face a diversas outras companhias, nomeadamente de Hong Kong, começaram a dedicar-se também à produção. A companhia que daí nasceu foi a Shaw Brothers.


A IDADE DE OURO (1957 – 1970)

Depois de uma série de filmes históricos, baseados em óperas chinesas, que geram os primeiros sucessos de bilheteira, entre os quais se destaca The Kingdom and the Beauty (Han Hsiang Li, 1959), em 1961 termina a construção do estúdio Movietown, localizado no enclave de Kowloon, na China Continental, com uma equipa de 1500 pessoas e capacidade para rodar até sete filmes em simultâneo. Em breve seguir-se-ão os estúdios de Kuala Lumpur e de Singapura. A produção passa a basear-se no modelo hollywoodiano, procurando trazer, quase sempre de Hong Kong, toda a qualidade técnica que o dinheiro possa comprar e, ao mesmo tempo, impor a centralização e a sistematização da produção de filmes, tornando o produto final mais barato e formalmente mais competente. Chegados a meados da década de 60, a Shaw Brothers possuía 127 cinemas um pouco por todo o Sudeste Asiático, três estúdios com aura de Hollywood antiga (por alguma razão o logótipo da Shaw se assemelha ao símbolo inicial da Warner Bros), diversos parques de diversão e uma produção que se situava entre os 30 e os 40 filmes por ano, num total de cerca de 300 filmes nos primeiros 12 anos de actividade. No que concerne aos realizadores, actores e equipa técnica, havia uma política de contratos ferozmente negociados, que incluíam 4 a seis filmes por ano, um salário mensal fixo e um bónus consoante os resultados de cada filme. Muitos dos actores viviam nos dormitórios nos estúdios e tinham percursos delimitados consoante o género. Assim, um homem, normalmente com experiência enquanto duplo ou na ópera chinesa, entrava na escola de representação da Shaw aos 18 anos e conseguia obter papéis principais até perto dos 35 anos, altura em que poderia sair ou ficar como actor secundário. Já grande parte das mulheres era contratada através de audições gigantes ou através de anúncios nos jornais e saia por volta dos 25 anos para casar, sendo poucas as personagens femininas com mais idade nas obras da companhia. A remuneração, para actuantes como para criativos, era pequena: um argumentista ganhava cerca de 1250 dólares HK por filme e um realizador cerca de 3000. Por último, a carga de trabalho imposta aos participantes era imensa: os horários ascendiam a 16 horas diárias e era comum que todos os intervenientes fizessem dois filmes em simultâneo. Tamanha conjugação de estrutura com rigor e disciplina na organização das equipas e com o talento angariado permitiu à companhia a um tempo dotar os filmes de meios de produção e, apesar de tudo, torná-los lucrativos. Falados em Mandarim e não em cantonês, como a maioria dos filmes produzidos em Hong Kong no mesmo período, os filmes conseguiram penetrar os mercados de Singapura e Taiwan, onde a língua também é falada. Como tal, os lucros de bilheteira permitiam que os filmes seguintes fossem ainda mais confortáveis em termos de orçamento, normalmente situado entre os 300 mil e os 800 mil dólares HK, muito acima da média de 20 mil dólares HK que custava a produzir um filme cantonês.





Depois de um início baseado em filmes históricos como o já referido The Kingdom and the Beauty e musicais como The Love Eterne (Han Hsiang Li, 1961), que rapidamente atingiram, segundo diversos historiadores, a monotonia, a Shaw Bros revitalizou o panorama do cinema asiático através da transposição cinematográfica de um género literário que ainda hoje perdura – o wuxia, que redutoramente pode ser chamado de “romance de artes marciais”. Ainda que os filmes não fossem estritamente adaptações literárias, mantinham a mesma estrutura, misto de artes marciais, melodrama, tratamento de códigos de honra e aproveitamento da mitologia chinesa. Seguindo o método de capitalizar em tudo aquilo que se mostrasse comercialmente bem-sucedido, The One-Armed Swordsman (Chang Cheh, 1967 – o título é auto-explicativo) inaugura uma fase em que são filmadas histórias uni-dimensionais, com enredos típicos e muito semelhantes entre si, normalmente acerca de um estranho vindo do campo que chega à grande cidade para ou vingar um ente querido ou para mudar o statu quo através das suas capacidades técnicas e da sua sede de riqueza, trazendo sempre justiça a uma situação desequilibrada. Distinguem-se igualmente pelo lado social evidente ainda que simplista mas onde impera uma claridade moral: o pobre justo ascende à riqueza derrotando o rico ímpio e patriarcal, muitas vezes morrendo no processo. Rodados em sumptuosos cenários de estúdio ou nos backlots dos estúdios da companhia, são filmes que podem ir de uma enorme qualidade técnica e formal a exemplos de “skid row cinema”, deliciosamente xungas e com pontas no argumento atadas através de voice-over, misturando violência estilizada e ballet marcial com momentos de sentimentalismo, num todo por vezes precário e por vezes recompensador.

OS REALIZADORES



De entre os realizadores pertencentes aos quadros da Shaw Bros, um ganha especial destaque: Chang Cheh. Mais popular e mais bem-sucedido realizador de sempre no género wuxia, foi o realizador do seminal The One-Armed Swordsman (1967), primeiro filme a ultrapassar o milhão de dólares HK nas bilheteiras. Com cenas de luta influenciadas por técnicas de combate japonesas, tinha como principal objectivo tornar a acção dos seus filmes o mais realista possível. Para tal, era frequente o uso de sangue nos seus combates e a existência de armas feitas de metal e, contrariamente ao que algumas produções de filmes de kung fu faziam nos anos 50, coreografava abundantemente as suas lutas. A sua estética era então, verosímil, ao que juntava, nos seus filmes, relações filiais e conflitos geracionais com que a audiência dos anos 60 e 70 se podia identificar. Com mais de 100 filmes no currículo, cristalizou também o motivo do forasteiro campestre que chegava à cidade ou para vingar ou para perseguir sonhos de riqueza, conseguindo os seus objectivos mas morrendo de caminho. Tecnicamente virtuoso, teve como assistente de realização um jovem John Woo e é possível ver a sua influência não apenas na montagem virulenta como também, por exemplo, no tiroteio inicial de Hard Boiled (1992), num café preenchido por gaiolas de pássaros. É o grande esteta do Wuxia cinematográfico.



Anterior a Chang Cheh, King Hu realizou o fundamental Come Drink With Me (1965), dos primeiros grandes sucessos de wuxia da Shaw Bros. Fundindo estilos ocidentais e orientais de realização, criou uma abordagem inovadora ao cinema de artes marciais que ainda hoje perdura. Estudante de ópera chinesa, desenvolveu uma estética única baseada na pintura, literatura e teatro do Império do Meio. Sem ser especialista em filmar cenas de luta, conseguia no entanto adaptar movimentos fluidos a uma montagem construtiva. Um dos seus truques era tornar a luta o mais rápida e o mais afastada possível do primeiro plano, disfarçando assim quaisquer defeitos existentes. Outro era, quando pretendia insuflar de sentimento épico as paisagens que filmava, dar apenas um muito rápido plano de conjunto, que assim perdurava e era engrandecido pela imaginação do espectador. Teve na sua equipa, como assistente de realização, um jovem Ang Lee, que o homenageou em O Tigre e o Dragão (1999), inspirado no importantíssimo A Touch of Zen (1969). Por contraponto à ideia de realismo professada por Chang Cheh, era um fantasista, situando quase sempre os seus filmes nos mitos da antiguidade chinesa.

O FIM




Tempos houve em que o cinema de kung fu era muito visto e apreciado no Ocidente. Em salas de bairro, de puro ambiente “grindhouse”, perante o niilismo do policial de inícios de 70 (filmes como Dirty Harry ou Madigan, ambos de Don Siegel) ou antes do assumido pendor artístico dos movie brats, estes filmes proporcionavam ao espectador momentos de espectacularidade nas suas lutas, de violência catártica e uma claridade moral, ancorada no maniqueísmo das personagens que davam uma ideia de um todo simples e exótico. Contudo, paradoxalmente, se os filmes da Shaw Bros foram muito vistos no Ocidente à época, não foi este o estúdio que mais lucrou com a febre do cinema de artes marciais. Tal posto pertence à Golden Harvest, formada pelo dissidente da produtora Raymond Chow e que revelou ao mundo Bruce Lee, com os seus filmes de torneio e que haveria de, com a sua morte precoce, tornar-se o único mártir deste género cinematográfico, bem como, a partir da década de 80, a Nova Vaga da acção de Hong Kong, com uma grande componente de comédia, protagonizada acima de todos por Jackie Chan e Sammo Hung. Por todos estes factores, bem como por um certo cansaço do género (até a vedeta David Chiang disse, em meados de 70, querer afastar-se da pancadaria para se dedicar a outros temas) e pela transformação dos mercados orientais, mais permeáveis aos filmes ocidentais, a Shaw Bros perdeu o seu estatuto de Hollywood chinesa e hoje sobrevive apenas como produtora e distribuidora de vídeo, conteúdos informáticos e televisão. O seu espólio, no entanto, permanece riquíssimo e está a ser lançado em dvd (disponível, frequentemente a baixo preço, na cadeia de lojas FNAC) e, mesmo que apenas através da interposta pessoa de Quentin Tarantino, faz já parte do imaginário colectivo de uma geração. No Oriente como no Ocidente, o tempo de grandes estúdios funcionando como linhas de montagem já terminou.

E os filmes? Não se fala especificamente de Vengence (a obra-prima de Chang Cheh, 1970), de A Touch of Zen ou de The 36th Chamber of Shaolin (Chia Liang-Liu, 1978)? Não; a porta está aberta. Resta ao leitor, através do dvd ou das maravilhas da Internet, entrar por ela.



07 setembro 2010

Sopram ventos adversos (mas por pouco tempo)

Ao fim de dois dias, o primeiro precalço. Estamos com algumas dificuldades técnicas relativamente à página da petição, na precisa altura em que atingimos as cem assinaturas. Esperamos ver resolvidas estas questões o mais depressa possível.

Nada que nos vá tirar o sono. Pedimos a todos os que acreditaram neste projecto que o continuem a fazer. A reinvindicação segue dentro de momentos. Até lá continuem a passar a palavra, a fazer tudo o que podem para promover este projecto. Em breve teremos sucesso.

05 setembro 2010

Em andamento!

Depois de um mês de pausa, o projecto de petição para o regresso da exibição regular de cinema na RTP2, desenvolvida pelo Luis Mendonça e por mim, teve esta semana grande desenvolvimentos. Assim, aqui ficam os endereços para se juntarem a esta iniciativa.

Blog- http://peticao-rtp2-cinema.blogspot.com/

Facebook - http://www.facebook.com/?ref=home#!/pages/Pelo-regresso-da-exibicao-regular-de-cinema-a-RTP2/112201078836298?ref=ts


Petição - http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N2948

02 setembro 2010

Adenda ao post anterior

No meu Facebook, o meu amigo Filipe Niny Duarte alerta-me que a geração de Joseph Gordon-Levitt é a mesma de Ryan Gosling, Jake Gylenhaal, James Franco ou do falecido Heath Ledger. As minhas desculpas, sobretudo a Gosling e a Ledger, perante a hipérbole face ao (ainda assim) brilhante actor de Mysteryous Skin e 500 Days with Summer.

31 agosto 2010

A Terceira Via



O sociólogo Anthony Giddens cunhou, com extremo sucesso, o termo “terceira via” para designar a organização económica e laboral, no seu entender desejável, das sociedades pós-industriais no século XXI. A ideia base, aqui necessariamente reduzida, é que num contexto em que o capitalismo puro e duro se revela indesejável e em que a social-democracia se revela ineficaz, a solução é criar condições para uma economia de mercado eficiente ao mesmo tempo que se salvaguardam os direitos e a solidariedade sociais.

Como tal é feito, pouco importa para aqui. Parece-me que esta é uma boa imagem para designar aquilo que, desde Memento (2000), Christopher Nolan tem tentado ser no cinema contemporâneo. Num contexto mediático tantas vezes dividido na dicotomia entre comercial e autoral, Nolan quer ser a “terceira via”, o cultor do blockbuster com conteúdo, do espectáculo com alma, do comércio de qualidade. Saber se o consegue, essa é a dúvida que, para os que vêem, foi respondida na qualidade de única “cause célèbre” do tépido Verão de 2010.

Inception é o seu filme mais ambicioso e o que, exceptuando Memento e, talvez, Insomnia (2002), menos me desagradou. Escrita ao longo de dez anos, a história de um grupo de ladrões que se imiscui nos sonhos de diversas pessoas para lhes roubar ideias, contratado para inverter o processo e plantar uma ideia na mente de um sujeito é, naquela que constitui a sua maior qualidade, uma benévola tentativa de renovação do "heist movie", tradição que só David Mamet tem mantido com regularidade e qualidade. No caso, enquanto que o interesse do dramaturgo americano é criar situações que promovam a sua virtuosa utilização do pentâmetro jâmbico, o cineasta britânico tem uma saudável vontade de mostrar o que nunca foi visto, bebendo em Spielberg, Lucas e Zemeckis.



Lendo apenas a sinopse, como imaginaria eu Inception? De uma de duas maneiras: a) como um filme trash, empenhado em dar entretenimento de linha de montagem "grindhouse" (a parte que me agrada mais é precisamente o início do filme, a escolha das personagens com nomes como O Arquitecto ou O Alquimista, possível de imaginar num filme desses); ou b) algo de mais tarkovskyano, uma meditação abstracta sobre a natureza dos sonhos onde a relação causal entre os acontecimentos e a acção propriamente dita fossem mantidos ao mínimo e fosse privilegiada a componente metafísica. Christopher Nolan acha que no meio está a virtude, ignorando que o mais das vezes a virtude é uma chatice. De um lado, conversa a dar com um pau, explicação a par e passo de todos os pressupostos que enformam o argumento e um passado torturado do protagonista, competentemente interpretado por Leonardo DiCaprio. De outro, e o que desbarata o filme, uma fatigante preferência pelo espalhafato (a sequência da perseguição na neve é dos momentos mais enfadonhos que vi este ano) e alguma inépcia visual, consubstanciada num barroco irritante e numa fotografia queimada que Michael Bay não desdenharia. Parece que, no limite, o que interessa a Nolan é o grande espectáculo, o vazio prazer sensorial, temperado aqui e ali com toques de narrativa, desde o enfoque inicial na “ciência dos sonhos” à cansativa viagem ao passado conjugal de DiCaprio, onde Marion Cottillard é completamente desbaratada. O melhor exemplo disso é a ideia do sonho dentro dosonho dentro do sonho, o melhor exemplo do gigantismo da empreitada.

É certo que há Joseph Gordon-Levitt, cada vez mais o melhor actor americano da sua geração (o que será feito de Michael Pitt?) e uma fantástica cena de porrada numa sala rotativa e que isto é muito melhor que os insuportáveis filmes da série Batman… mas isso também não é padrão para nada. E aqui voltamos à introdução: mais do que uma qualquer dialética, a “terceira via” é uma tentativa de súmula que elimina aquilo que podia haver de modernizador e de original numa síntese (síntese essa que só Spielberg e Zemeckis, a espaços, têm conseguido fazer), criando um meio-termo incaracterístico - o que neste caso até nem chateia muito, porque nenhuma das partes, isoladamente, conseguiria redimir o todo.

Perante esse desequilíbrio fulcral, a”terceira via” tende a não agradar a ninguém. Bem, neste caso, até agrada a muita gente.

De volta!

31 julho 2010

Aquele querido mês de Agosto

O blogue tem estado parado, muito por falta de tempo e, diga-se, de alguma vontade, para escrever. Num mês de Agosto que, como sempre, se adivinha parado, vou de férias. Volto, se tudo correr bem, no inicio de Setembro, com aquilo que espero serem algumas novidades. Até lá, não se esqueçam da iniciativa para fazer regressar o cinema à RTP2. Todos os interessados em assinar a petição e em receber eventual informação, por favor mandem um email com nome, localização geográfica, profissão e idade para peticaortp2@hotmail.com . Até Setembro e boas férias.


11 julho 2010

Do cinema na RTP2 (II)

Quem for a ler o meu texto anterior pensará que a minha vontade em ter cinema na RTP2 regularmente se prende com saudosismo. Afinal de contas, foi a minha juventude, uma época que, à distância, parece menos complexa do que a actual e uma em que o cinema parecia menos subalterno no panorama cultural do que parece hoje.

Não nego que haja alguma saudade desse tempo, mas tê-la como o motivo principal é confundir a parte pelo todo. Primeiro, porque a possibilidade de cativar novos cinéfilos via uma programação fílmica regular e cuidada mantém-se intacta: não só não há qualquer custo em ver um filme na televisão como um filme que seja anunciado com relativa antecedência poderá inserir no espectador o germe da curiosidade. Depois, para aqueles que dizem que hoje a relação do espectador com o cinema passa muito pela Internet, é um facto, mas começar a conhecer um cineasta na televisão poderá fazer alguém dar corda ao P2P (ou até, pasme-se! comprar dvds, ir mais ao cinema e até à Cinemateca), contribuindo para um maior conhecimento da arte. Por último, e partindo do principio de que o cinema, regressando à RTP2, teria provavelmente de ocupar o mesmo horário que anterior (final da noite/principio da madrugada), existem actualmente métodos tecnológicos, nomeadamente as boxes de gravação das diversas operadoras de cabo, que possibilitam a visão posterior e a eventual revisão dos filmes (e de todo e qualquer programa, na realidade). Assim, se não se deve tentar repetir estritamente o passado, a eventual desculpa de que os tempos mudaram também não cola.

Neste contexto actual, fragmentado, pós-moderno, ambivalente, em que os filmes, de qualidades, épocas, autores e proveniências muito diferentes ocupam o mesmo espaço mediático sem grande critério, a exibição regular de filmes na RTP2, conquanto obedecesse a critérios rígidos, não de qualidade (sempre discutível) mas de “tipologia” (cinema de autor, cinema europeu, tudo o que os espaços mainstream não consigam ou não queiram divulgar), não resolveria todos os problemas mas teria uma clara vantagem: daria alguma ordem ao caos, criando rituais de visionamento, de discernimento estético e de conhecimento e comparação de obras. E houve muito cinéfilo que começou a sê-lo precisamente devido ao fascínio com esses rituais…

Finalmente, haveria a questão da quantidade de público para um tipo de cinema que ultrapassasse aquilo que passa nos outros canais, normalmente na tarde de fim-de-semana. Mas quanto à sua existência já não há grandes dúvidas, pois não?
Relembro a ideia do Luis Mendonça, a que se juntaram o Carlos Natálio, o João Paulo Costa, o João Palhares e o Ricardo, pelo menos para já, de fazer uma petição que apele ao regresso do cinema regularmente à RTP2. Estamos no momento de contar espingardas, de ver quantos apoios temos e de organizar as coisas, para avançarmos em força na reentrée. Quem se quiser juntar a nós pode sempre comentar aqui ou no Cinedrio ou informar-nos através do endereço de email petiçãortp2@hotmail.com. Muito em breve os meus amigos e conhecidos receberão também informações relativas a esta iniciativa. Sugiro que façam o mesmo.

09 julho 2010

Do cinema na RTP2


A programação da RTP 2 sofre, em minha opinião, de um defeito fundamental: a ideia de que o trabalho que faz é positivo. Quem pensa aquela estação está convencido de ser alternativa, de defender elevados padrões de qualidade, de aquilo ser o melhor que se pode fazer, no contexto actual, em termos de programação alternativa. Parte do problema advém também do canal principal: quando a televisão pública quer jogar o mesmo jogo patético que as televisões privadas, instala-se o laxismo no segundo canal, que tem de trabalhar muito menos para conseguir fingir que é alternativa.

O pior acontece precisamente no cinema. Dos tempos da minha juventude em que a rubrica “5 noites 5 filmes” educou muito boa gente para o cinema (muitos dos Hitchcock, Kubrick, Truffaut ou Bergman que tenho em cassete saíram dessa época) e em que na noite de sábado ainda éramos brindados com mais dois filmes, persistem hoje apenas os dois filmes do fim-de-semana, muitas vezes em escolhas de qualidade mas que não disfarçam a escassez de alternativas, cada vez mais empurradas para o cabo ou a Internet.

Serve isto para dizer que o Luís Mendonça do Cinedrio propôs no seu espaço a ideia de uma petição que quebre o torpor generalizado no que concerne à exibição cinematográfica e force a uma mudança de paradigma na televisão estatal portuguesa. Desde logo me juntei à causa, talvez a mais válida que alguma vez surgiu na blogoesfera portuguesa. Deixo aqui o repto para que toda a blogoesfera, cinéfila e não só, se junte a nós, bem como todo e qualquer amante da arte cinematográfica. Se não estiver aqui uma oportunidade histórica, que a façamos andar lá perto. Mesmo que não consigamos, pelo menos que mostremos que ainda há quem não ande a dormir. Pública, sim; em nosso nome não!

19 junho 2010

Sumaríssimos (14)

Quando, no inicio do ano, soube que O Segredo dos Seus Olhos derrotara o magnífico Un Prophète de Jacques Audiard na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, atribui a decisão ao carácter farisaico da Academia. Tendo visto o filme de Juan José Campanella, realizador do esquecivel O Filho da Noiva, continuo a preferir o filme francês. Mas fiquei fã desta história de um jubilado funcionário do Ministério Público argentino que resolve, anos depois, escrever acerca de um caso particularmente violento enquanto negoceia os seus sentimentos relativamente à sua superiora hierárquica. Filme confiante e inteligente na maneira como mescla thriller e retrato político de uma época sobre um alicerce melodramático, possui um argumento clássico filmado com ocasionais de modernidade e com assinalável destreza, um belíssimo conjunto de actores (Ricardo Darìn cabeça) e uma intriga amorosa francamente enternecedora. Sobretudo, lembre-se a maravilhosa perseguição em plano sequência no estádio do Huracan, um dos momentos cimeiros do ano cinéfilo de 2010. Em tempo de Mundial, apetece dizer desta pequena maravilha que não é nenhum Messi mas é um Mascherano de excepção.

18 junho 2010

Saramago RIP


No meio de uma crise que lhe dava razão em muitas coisas, partiu um dos maiores. Com Pasolini, Gramsci ou Garcia Marquez, um homem dos que não vergam as costas.

07 junho 2010

Carlos Lima (1962-2010)

Não me lembro se era 1996 ou 1997. Ao seu sobrinho Miguel, melómano antes de ser cinéfilo, o meu tio Carlos ouviu um dia dizer que queria uma guitarra acústica pelo Natal. Queria aprender a fazer música, quem sabe um dia ter uma banda. Os pais do Miguel não acreditaram, se calhar com razão. Mas num Natal, lá estava a caixa triangular suspeita. Chegada a meia-noite, foi aberta perante o espanto do Miguel. Não a aprendi a tocar e não sei se ele alguma vez reparou nisso.

Mais ou menos na mesma altura. Um Benfica miserável joga contra um Porto que iria eventualmente sacar 5 campeonatos seguidos. Saio de casa, ainda no Catujal e dirijo-me à sua, literalmente no outro lado da rua, para ver o jogo, que já tinha começado. Toco à porta e esta abre-se. Do cimo das escadas, oiço “Corre que ainda vês o golo!” Quando chego, afogueado, ao apartamento, vejo Valdo marcar o penálti e fazer o 1-0 (o jogo acabaria 2-1, para o Benfica marcou também João Pinto, o Porto reduziu por Emerson). Quando soube da sua morte, foi o som da sua voz a chamar-me o que primeiro me veio à cabeça.

2002. Anos depois de um divórcio turbulento da minha tia, vejo-o na sala de espera da clínica de Sto António, em Sacavém. A minha avó, que me acompanhava numa visita à médica de família, chama-o e tem um discurso que agora não interessa. Quando, ao fim de algum tempo, lhe aponta o Miguel e lhe pergunta se não o reconhece (e eu no meu canto, sempre muito envergonhado nestas situações), a frase do meu tio Carlos é lapidar: “Imaginava-o mais alto.”

06 junho 2010

Take 24 - Junho


Da minha parte, críticas a Humpday de Lynn Shelton, Líbano de Samuel Maoz e Fantasia Lusitana de João Canijo; a cobertura da edição de 2010 do IndieLisboa; e a crítica à edição em dvd de The Fantastic Mr Fox de Wes Anderson.

01 junho 2010

Do eternamente adiado pólo da Cinemateca no Porto


Em lead, para não haver dúvidas: sou a favor de um pólo da Cinemateca no Porto ou, mais importante ainda, de algo que desempenhe função idêntica. A segunda cidade do país, mesmo de um país minúsculo, pode e deve ter instituições culturais que criem riqueza, material e humana. No caso do Porto como muito bem frisou Maria João Seixas, é também uma justiça histórica, por a cidade ter sido o berço do cinema em Portugal. Apesar disto, acho importante ressalvar as seguintes questões:

i) É asquerosa a retórica bairrista que tomou conta da zona de comentários da entrevista. Já não há paciência para a ideia, mentirosa e bafienta, de que Lisboa vive à conta dos impostos pagos pelos portuenses, aproveitando as verbas para pavimentar as ruas de ouro e e comprar veículos topo de gama. Cá em baixo também trabalhamos e também pagamos impostos, que o belo governo nacional não olha à proveniência dos fundos. E, tal como vós, não temos qualquer poder de decisão na utilização do dinheiro. Aí, mouros e tripeiros são exactamente iguais.

ii) Quando se fala do centralismo, papão lisboeta cujo único objectivo é denegrir a qualidade de vida do Porto, não seria positivo lembrar as responsabilidades da edilidade no presente estado de coisas cultural? Afinal de contas, estamos a falar do município que inaugurou duas obras estruturais fundamentais para a Capital Europeia da Cultura 2001 (Metro e Casa da Música) anos depois do fim da iniciativa ; da cidade que ofereceu o seu maior teatro a Filipe La Féria; que votou ao abandono o (segundo as imagens que vi) lindíssimo Cinema Batalha e que se prepara fazer o mesmo com o histórico Teatro Sá da Bandeira; e que tem um autarca que fingiu que ia resolver o défice financeiro da cidade através do corte da meia dúzia de tostões que supostamente esbanjava nos apoios culturais – incluindo à maior bandeira cinematográfica do município, o Fantasporto. Tudo isto numa região em que a vizinha Vila Nova de Gaia, que poderia albergar as estruturas que Rui Rio não quisesse, erigiu e ofereceu um centro de estágio ao um clube de futebol riquíssimo, cobrando de renda o equivalente à de um apartamento, num valor que nem sequer paga o consumo mensal de àgua no Olival. Antes de culpar Lisboa, não seria melhor fazer uma auto-análise que permitisse mudar as condições futuras da cidade?

iii) A história contada por Maria João Seixas, acerca da sessão em Serralves com a presença de Pedro Costa, lança-me uma dúvida: até que ponto esta questão não é mais uma cause célèbre interessada em ter algo com o nome igual a um nome de Lisboa ou se é mesmo um desejo saudável de mais e melhor cinema – lembremos também o insucesso do ciclo da Cinemateca realizado na Invicta durante a Capital Europeia da Cultura 2001, que justificou a posição de JBC até à sua morte. Espero que seja a segunda. O meu conselho é que os portuenses prezem as oportunidades que, mal por mal, ainda lhes são dadas. Se não o fizerem, a margem de manobra para exigências decresce substancialmente.

iv) Há algo de muito contraditório em dizer-se que se quer uma rede de cinemas com projecção digital “até ao Pico” e depois dizer-se que começar pela segunda cidade do país “não é prioritário”. Afinal de contas, os meios para fazer algo na área do cinema serão decerto maiores no Porto do que na Guarda, em Coimbra, em Évora ou em Portimão.

Por último, uma nota. É legítima a preocupação de Maria João Seixas de que uma Cinemateca do Porto retire fundos à de Lisboa. Do mesmo modo que não quero retirar a tripeiros para meter na boca de alfacinhas, não espero que aconteça o contrário. Se a ideia do Ministério for não a de aumentar recursos mas sim a de dividi-los entre duas cidades a 300 km de distância, estive aqui este tempo todo a escrever para o boneco. Afinal de contas, metade de pouco é quase nada.

29 maio 2010

Born to be Wild (Hopper RIP)

Entrevista de Maria João Seixas ao Público

(...)não tenho os conhecimentos do João Bénard. Terei um pequeno grão da mesma paixão.

Então porque aceitou o cargo, cara Maria João Seixas?

De resto, deleguei a programação no dr. Pedro Mexia. Perguntei-lhe quais as áreas que ele gostaria que lhe fossem delegadas e ele escolheu as duas que eu mais gostaria para mim [risos]: programação e ANIM. Embora me tivesse ficado uma outra de que nunca abro mão, que é a do pessoal.

Traduzindo: não sou bem directora, sou mais uma técnica de recursos humanos…

Tenho pena que se sintam guerreados pela casa, acho que essa não era intenção do dr. Bénard da Costa. (…) Mas não é por uma questão diplomática que o faço. Acho mesmo que por alguma razão se afastaram alguns cineastas desta casa e eu gostaria de conseguir reaproximá-los para eles perceberem que de facto esta casa é deles. Só que o ser deles implica uma parceira, não é propriamente à maneira que eles querem, tem de ser da maneira que melhor encontrarmos para servir as duas partes.

Cara Maria João Seixas, pago-lhe um café no Starbucks se conseguir ser ainda mais vaga do que isto.

Gostaria de reforçar o orçamento para os trabalhos de restauro do ANIM.

Até que enfim, um projecto para o futuro. E esta deve ser uma área prioritária para a Cinemateca. Afinal de contas, da RTP Memória estamos todos fartos.

(…) montar uma rede fiável de equipamento de projecção digital e contribuir com o acervo da Cinemateca para a circulação de filmes e para dar a ver com regularidade cinema de qualidade a quem se está a formar neste momento na Net. (…) Gostaria que esse trabalho pudesse ser feito até à ilha do Pico.

Primeiro ponto, não há nada de mal em um cinéfilo usar a net como meio de formação. Segundo ponto, eu também gosto muito de ficção científica, sobretudo numa altura em que, tarde ou cedo, seremos governados pelo ultra-neo-liberal dr. Passos Coelho e pelas sempre culturalmente atentas pessoas do PSD – lembram-se do grande secretário de Estado da Cultura que foi Santana Lopes?

Do meu ponto de vista, isso reforça a obrigação estatutária de qualquer cinemateca de insistir na história do cinema, nos clássicos, aqueles que já ninguém vai ver, ou que podem ver em DVD os mais interessados, aqueles aonde ainda existe uma cinefilia que a minha geração reconhece como tal.

Aqui, fico contente.

Em Portugal, ao contrário de muitos países europeus, não temos uma lei que era essencial para enriquecermos o nosso acervo, que é uma lei de depósito legal que obrigasse os distribuidores comerciais a depositarem. Os outros países têm acervos fantásticos, podem variar. Nós temos de comprar, e comprar é muito caro. Há distribuidoras que, quando lhes apetece e se lhes apetece, depositam uma cópia, mas isso não é feito sistematicamente.

Uma falha gritante. Se a sra. Ministra é assim tão apaixonada pela causa do cinema e se temos uma deputada-actriz na Assembleia da República, era uma boa altura para acabar com este problema.

O Partido Socialista é a família política com que me identifico. Não sou militante, mas se me perguntarem o que é que eu sou ideologicamente, direi que faço parte do Partido Socialista. Sinto-me bem com essa pertença mas nunca fui próxima do Partido Socialista. E a nomeação que eu tive, que também me surpreendeu na altura, foi quando o eng.º António Guterres me convidou para a assessoria cultural do seu gabinete. Os únicos lugares que eu tinha tido decorriam das minhas relações com um dos capitães de Abril - o meu capitão de Abril -, o major Vítor Alves. Com a eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo, trabalhei na Comissão da Condição Feminina e depois, quando ela foi primeira-ministra, não trabalhei com ela. Depois, tive intervenções nas campanhas presidenciais do dr. Jorge Sampaio, do dr. Mário Soares e do prof. Manuel Maria Carrilho quando se candidatou à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Tudo isso fiz sem ter nenhuma relação directa com o partido. A minha participação nas campanhas não trazia nenhum isco na ponta, isto é, eu não estava à espera de ser compensada com nada.

Este segmento da conversa deixa-me sentimentos mistos. Por um lado, o que há mais é gente diz não estar envolvida com ninguém mas que aparece em todo o lado e o facto de não ter cartão de militante não muda em nada uma ligação política que a própria Maria João Seixas assume. Por outro, as pessoas têm direito à sua filiação e a ser julgadas pelo seu trabalho e não pelas suas ideias políticas. Porém, permanece a pergunta: o cargo de director da Cinemateca passou a ser um cargo político? Se assim for, estamos mal.

BALANÇO: Há boas ideias de futuro para a Cinemateca, mas são poucas. Outras são francamente negativas (quem criticou as escolhas de ciclos de João Bénard da Costa não poderá ficar contente com o ciclo Os Filmes dos Presidentes) e outras ainda francamente indiferentes (perante a necessidade de mostrar obras completas de cineastas como António Reis, António Macedo ou António Campos, o ciclo de grandes sucessos do cinema português acompanhado por debates é igual ao litro). Sobretudo, parece-me que será um momento de navegação à vista, não apenas devido à crise mas também porque falta uma ideia clara, discernível, do que a directora quer para o espaço. Assim, este primeiro mandato de Maria João Seixas no cargo parece ser um espaço intermédio, onde se lançam pedras para o futuro mas onde ainda se vive uma certa indecisão pós-Bénard. Uma coisa parece certa: com Maria João Seixas a Cinemateca não será um espaço de militância total e quererá agradar a gregos e a troianos. E aqui voltamos ao problema central da entrevista: como isto será feito não se percebe muito bem. Teremos de esperar para ver.

(Sobre a questão da Cinemateca do Porto escreverei um post isolado, se tudo correr bem)

27 maio 2010

30 de Agosto de 1992



Ao fim de uma porrada de tempo lá consegui ver a emissão do programa Palcos, da RTP-2, dedicada ao mítico concerto dos Nirvana no festival de Reading. E aquilo que a gravação mostra coincide, em parte, à visão entretanto construída: um momento charneira, uma banda no topo da sua forma, o zeitgeist do último grande sub-género que o rock produziu (assim entendido, que não há nome para o que na última década fizeram Strokes, Interpol, Queens of the Stone Age ou White Stripes). Por outro, é inegável que a realização, competente mas algo indiferente, e o esbater do papel do público, com o ruído diminuído e os planos de conjunto escassos, tornam o documento menos marcante do que poderia ser. Por outras palavras, se jamais os Nirvana foram melhores do que naquele momento, pelo concerto é por vezes difícil apreende-lo como cúmulo do grunge.

Porém, enquanto via, não pude deixar de pensar nas seguintes coisas:

i) Há algo de estranho em ver os Nirvana num festival inglês, como há em pensar neles numa cidade/subúrbio norte-americano. Aquela música tresanda a pinhais, rios, frio ou, na pior das hipóteses, a um bairro white trash com condições meteorológicas dignas da cidade de Twin Peaks. Quem o terá percebido melhor foi mesmo Gus van Sant – outro distinto habitante do noroeste dos EUA - no seu brilhante Last Days (2005).

ii) Há muito quem pense que Kurt Cobain se suicidou por ter sido vítima da ideia que criou de si mesmo, a estrela de rock torturada e intransigente para com os seus valores. Melhor dizendo, também Cobain se poderá ter convencido de que era o que os outros viam nele. Puro erro. Aquela música já soava a morte muito antes de 4 de Abril de 1994. Se calhar, a morte é isso mesmo: uma guitarra em perpétuo fuzz.

iii) Comecei a ver, adorei “Aneurysm”, “Drain You” comoveu-me com memórias de outros tempos, “Come As You Are” lembrou-me porque foi esta a primeira banda rock de que verdadeiramente gostei e “Smell’s Like Teen Spirit”, constatei, não perdeu pingo de actualidade. Mas, a meio de um alinhamento arriscadíssimo, que deixa para o fim não os hits mas diversas canções de Bleach (1989) e Incesticide (1992) e antecipa In Utero (1993), algo na minha atenção se perdeu, regressando apenas para a destruição final dos instrumentos, surpreendentemente mais lúdica do que revoltada. Parece que já não consigo levar uma banda tão a sério quanto os Nirvana queriam ser levados, nem os épicos Arcade Fire, nem os sacrossantos The National, nem os actualíssimos LCD Soundsystem. Hoje, até Kurt Cobain é vitima do meu cinismo.

10 maio 2010

32


Foi um dia inesquecível. Fui um dos 64 mil na Luz, fui um dos 100 mil no Marquês, um dos orgulhosos por o Benfica ter sobrevivido ao ambiente digno de regimes da África sub-sariana vivido no Porto há uma semana, um dos felizes por ter visto um campeonato ganho a um Porto que fez praticamente os mesmos pontos que quando é campeão (não havendo espaço para o alegado abaixamento de forma com que justificaram o título encarnado em 2005) e um dos divertidos com o discurso aprendido com o Padrinho de Domingos Paciência (o clube que ganha jogos com bolas fora contra o Marítimo, arbitragens inacreditáveis contra o Guimarães e um guarda-redes amigo contra o Paços de Ferreira queixa-se dos arbitros que lhe deram o 2º lugar). Digam o que disserem, foi sem espinhas. Embora ainda estejamos uns furos abaixo, desde os títulos que José Mourinho ganhou pelo Porto que não havia um campeão tão justo.


Ah! Tentei tirar uma foto dentro do túnel do Marquês, para dedicar àquele senhor, mas a PSP selou o túnel. Tive de me contentar com uma foto um pouco à frente.E que aliás está o prodígio técnico que aqui se vê.




Vamos lá ver como é para o ano.

03 maio 2010

11º dia de IndieLisboa

Como uma estância balnear na primeira semana de Setembro, no domingo o IndieLisboa dava a entender o seu próprio fim. Pouca gente nas sessões, pelos menos as primeiras, a Culturgest francamente às moscas e uma certa exaustão no ar, a ideia de que o mais importante havia passado (apesar da exibição vespertina de Visage de Tsai Ming-Liang e de Life during wartime de Todd Solondz, a que não pude comparecer). Neste contexto, o fecho com Symbol de Matsumoro Hitoshi, indegesto pós-modernismo dividido entre a luta livre mexicana e uma qualquer câmara dos horrores saída da Twilight Zone até fez sentido. Não foi o pior filme que vi no festival, mas foi de certeza o mais irrelevante.

Foi uma semana e meia com muito trabalho, com alguns grandes momentos e com outros que decerto não recordarei. No geral, cobrir um festival é estranho: a certa altura começa a custar ver tantos filmes de seguida, mas temos a certeza que dentro de uma semana vamos ter saudades. É como ir a um festival de música no Verão, em que nos chateamos pelas filas para a cerveja e pelo tempo que demora até vermos a banda que queremos, mas depois nos invade a nostalgia de termos de esperar um ano para ver outro. Por mim, só me resta dizer: até para o ano e obrigado pelos filmes que vi neste.

10º dia de IndieLisboa

Às vezes, Werner Herzog espalha-se. É o caso de My son my son what have ye done, desenxabida variação edipiana a partir da Oresteia, sem consistência, sem interesse e sem sequer conseguir aproveitar um Michael Shannon em grande forma. Percebe-se porque David Lynch o produziu mas não o realizou. Destaque apenas para a estranha fotografia, por um lado aproveitando o sol omnipresente de San Diego, por outro escurecendo frequentemente o primeiro plano e os rostos dos protagonistas.

30 abril 2010

9º dia de IndieLisboa

Num festival incomparavelmente maior, como Cannes, alguém que seja enviado pela imprensa vê até cinco filmes por dia e, depois das sessões, ainda tem de enviar os textos para os jornais. O Indie funciona de forma diferente; três sessões diárias é o normal e pode haver até perto de duas horas entre o final de uma sessão e o começo da outra. Como tal há muito tempo para pensar. Para pensar em como é difícil ver tantos filmes e manter deles uma ideia coerente e profunda, na fome mundial, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, na Standard & Poor's, na quantidade de tempo que passou desde que dissemos uma palavra a quem quer que fosse, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, nos amigos que não ligam ou criticam as nossas escolhas, no subsídio de desemprego que expira dentro de 3 meses sem fazermos puto de ideia do que vamos fazer para pagar as contas, em como nunca moraremos no centro de Lisboa quanto mais em Nova Iorque ou Paris ou até no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato.
Tudo isto para dizer que algum cansaço anímico remeteu-me para casa, tendo ido ao festival apenas para comprar um bilhete para a minha mulher para a sessão de amanhã e para tentar encontrar a boina preta que perdi ontem no CinemaCity e que por lá deve ter ficado. Já perdi dez ou 15 boinas e esta é a última que perco.
O raio de sol foi ter recebido a noticia de que já tenho bilhete para o Benfica-Rio Ave.

8º dia de IndieLisboa

The Robber de Benjamin Heisenberg é um filme competente acerca de um maratonista austríaco acabado de sair da prisão que usa o seu talento para assaltar bancos, belíssimo enquanto explora a sua situação base mas menos quando se foca na perseguição ao ladrão do título. 10 to 11 da turca Pelin Esmer é uma bela surpresa, uma metáfora da renovação de gerações através da relação entre um engenheiro electrónico idoso que colecciona tudo e mais alguma coisa e o porteiro que o ajuda a livrar-se dos milhares de jornais, livros e outros itens que colecionou ao longo de décadas, tudo numa Istanbul estranhamente parecida com Lisboa. Delicado e contemplativo, poderia perfeitamente estrear.

29 abril 2010

7º dia de IndieLisboa

Grande dia para o cinema português. Fantasia Lusitana brilhante filme sobre como o Estado Novo usou a neutralidade na Segunda Guerra para se fortalecer, com excelente trabalho de pesquisa e montagem de imagens de arquivo. Guerra Civil de Pedro Caldas a revelação do festival, fantástico filme sobre mãe e filho a negociarem a sua distância dos outros num fim de Verão em 1982. Ainda não está comprado para exibição, mas se não estrear, é uma vergonha.

27 abril 2010

6º dia de IndieLisboa

Não há. A greve dos transportes sitiou-me em Rio de Mouro. É dia de escrever e de arrumar a casa e a cabeça. Amanhã há um dia importante, com a Fantasia Lusitana de João Canijo e o muito antecipado Guerra Civil de Pedro Caldas.

5º dia de IndieLisboa

Mind Shadows de Heddy Honningman fraco, tratamento da doença demasiado derivativo de Ingmar Bergman - espero que os documentários sejam melhores; os MusicBox Club Docs inaugurados com belo filme sobre o "ficcionista"JP Simões, num Cais do Sodré multicultural ao pôr-do-sol; e Napoli Napoli Napoli de Abel Ferrara retrato assustador de uma cidade num documentário de qualidade mas que faz desejar o regresso do realizador a Nova Iorque. Curioso é como também Ferrara se parece sentir fora de casa; só isso explica os constantes planos a mostrá-lo em filmagem, como que a dizer "estou aqui!". É um facto que, apesar da sua omnipresente atracção pelos bas fonds, se não soubéssemos que era dele não o advinhariamos...

25 abril 2010

Sacrifícios feitos em prol do cinema (1)

Estar numa sala ao mesmo tempo que o meu clube se sagra Campeão Europeu de Futsal.

4º dia do IndieLisboa

Um fim de semana difícil, o olho esquerdo inflamado pelo sol de um passeio dominical e parte da atenção no Naval - Braga fez a visão de Mother do coreano Joon-ho Bong passar-me ao lado. Não tendo a concentração necessária para o seguir a 100%, pareceu-me, no entanto, confirmar o virtuosismo que The Host anunciava, mas mais não posso dizer. A rever em sala e a criticar na próxima Take.

P.S. - Limpem os lavabos do Londres, s.f.f.

24 abril 2010

3º dia de IndieLisboa

Vi apenas um filme, por problemas de horário. Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans pergunta: ao transformar a tragédia (filme de Ferrara) numa farsa (filme de Herzog), perde-se alguma coisa? Sim, e logo se confirma o adágio aristotélico de que a tragédia é superior à comédia. Ainda assim, bom filme. Fora isso, excelente sessão, sala 1 do S. Jorge cheia (cerca de 600 pessoas), apenas prejudicada por um projeccionista que não soube enquadrar o filme, deixando por várias vezes os microfones à vista.
Agora, bom bom foi chegar ao S.Jorge no preciso momento em que acabava uma sessão do IndieJúnior e ver toda a criançada saindo a correr pelo corredor do cinema. De pequenino se torce o pepino!

2º dia de IndieLisboa

A subir. O documentário italiano La boca del lupo fraco, o cantonês Accident bom mas desbaratado por um final inverosímil, o israelita Lebannon dos filmes mais poderosos e aterradores deste ano. De resto, foi um dia morno, ou não fosse passado no Cinemacity de Alvalade, excelente espaço, é certo, mas pela distância dos outros espaços ou pela manutenção de três salas em exibição comercial, com pouco cheiro a festival.

1º dia de IndieLisboa

Uma confusão de horário de um visionamento, que perdi e cuja ausência me obrigaria a passar várias horas em Lisboa sem nada para fazer fazem-me perder a revisão planeada do magnífico Greenberg, inauguração do Indie 2010. Até porque a direcção do festival garante a presença nos salamaleques institucionais mas reserva-se o direito de "expulsar" os jornalistas da cerimónia de abertura se a sala estiver esgotada assim que o filme começar. Fantasia Lusitana de João Canijo fica para a segunda passagem e o primeiro dia do festival, para mim, não o foi.