Já não é de agora: de quando em vez, os Coen perdem-se por entre uma vontade arty que só prejudica os objectos em causa. O melhor exemplo é Barton Fink: visualmente apelativo, com meia dúzia de ideias, neste caso sobre a época áurea de Hollywood, mas estéril quando reduzido à sua essência. Outro exemplo é o absolutamente bacoco O Brother, Where Art Thou, desenxabida transposição da Odisseia para um contexto norte-americano sulista. É pena, pois quando se preocupam apenas em filmar de frente, sem peneiras ou tiques, tendem a fazer belos filmes – o ponto onde atingem o equilíbrio é o ultra-maneirista mas consequente Blood Simple.
A Serious Man é o mais recente falhanço de uma carreira que nelas tem sido pródiga, e entre esses falhanços ocupa um dos locais cimeiros. Filme sobre as coisas más que acontecem a pessoas boas, passado nos anos 60 num subúrbio do Minnesotta e que segue um homem a quem tudo parece correr mal, pessoal e profissionalmente, descamba muito cedo. Explicitamente, no prólogo que tenta situar a narrativa num âmbito ancestral, com uma maldição judaica decorrente de um hipotético encontro de um casal com um fantasma. O problema é que esse prólogo, de tons tarkovskianos, é de utilidade e interesse muito duvidosos. O que se segue é do mesmo nível, desde os momentos mais derivativos dos filmes de Woody Allen até ao plano final absolutamente vazio, num filme que se compraz com a destruição sucessiva da sua personagem principal e que, por entre um pretenso simbolismo irritante, não tem um único momento memorável. O que parece evidente é o seguinte: perante a ausência de conteúdo, os Coen tudo fizeram para insuflar a forma. Não conseguiram e esteticamente este filme, quando não apenas enfadonho, é simplesmente grotesco. A Serious Man é para esquecer.

