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02 fevereiro 2012

Retrato dos artistas enquanto miúdos


Just Kids é um acto de generosidade e o último presente dado por Patti Smith a Robert Mapplethorpe: o retrato do(s) artista(s) enquanto miúdos, as pessoas em busca dos artistas que já vivem dentro deles. O que a poeta/cantora faz é apresentar o fotógrafo a uma nova geração e mostrá-lo, numa luz mais intima, a todos os conhecedores, perpetuando a sua memória como prova de amor. Ao mesmo tempo, cria também um fresco de uma época, um livro poético sobre a

comunidade artistica nova-iorquina dos anos 60 e 70.


Patti Smith e Robert Mapplethorpe conhecem-se em Nova iorque no final dos anos 60, quando Smith acaba de chegar. Cedo se tornam inseparáveis, ele um rapaz pacato de de uma família católica, os olhos verdes e a indumentária extravagante, ela a fugir de uma vida sem futuro enquanto trabalhadora fabril e sonhando com uma carreira na poesia. Ele fã de Wharhol e autor de colagens, ela a escrever esboços de poemas e a desenhar profusamente. Até que um estabilizasse na musica e outro na fotografia, passar-se-ia quase uma década, povoada pelas mais importantes figuras do seu tempo. A viver no Chelsea hotel, ambos convivem com figuras como William Burroghs (a quem Patti chamava um táxi todas as noites), Allen Ginsberg (que confunde Patti com um prospectivo engate masculino) e Janis Joplin, que transmite a Smith a sua imensa solidão. São também frequentadores do famoso Max’s, onde a troupe Wharholiana, incluindo as musas Candy Darling (“Candy says...”) e Edie Sedgewick, se reúne. São tempos sem dinheiro, em que um fica a porta dos museus por não poderem pagar dois bilhetes e o outro entra, vê a exposição e relata-a ao parceiro, batendo à porta do mundo das artes que se faz dificl.


Mas estes são, sobretudo, tempos de definição pessoal. Para Patti, na sua escrita e no caminho que percorre até à música. Para Robert, no percurso em direcção à fotografia mas, mormente, na sua definição sexual, nomeadamente no assumir da homossexualidade, dificultada por uma educação católica restrita. No momento em que Robert finalmente encontra um parceiro no milionário Sam Wagstaff, já Patti teve relacionamentos com o dramaturgo Sam Shepherd e com Allen Lanier, teclista dos Blue Oyster Cult, antes de casar com Fred Sonic Smith, guitarrista dos MC5. É nessa altura que podem ambos seguir em frente, estando cumprido o voto reciproco de se acompanharem até estarem ambos em posições confortáveis e estáveis. É este o fulcro de Just Kids: duas pessoas fundamentais na formação um do outro, que partilharam uma época histórica imprescindível do século XX e que, até à morte de Robert Mapplethorpe, de SIDA, em 1989, mantiveram o tipo de ligação que acontece uma vez na vida.


Se a escrita de Smith não deixa de lado o aspecto poético, Just Kids é também um livro solido, de progressão ritmada e que, mais do que a nostalgia por uma época vivida, se foca num poder evocativo que mergulha o leitor num contexto de criatividade mirambolante misturada com uma crónica falta de dinheiro. Uma recordação tranquila, evocando toda a beleza da relação entre os protagonistas, que possui a veracidade de uma biografia e o cuidado estético de um romance. Tanto quanto um grande livro rock n roll, este livro está, na carreira de Patti Smith, ao nível dos álbuns Horses (1975) e Easter (1978) como pedra-de-toque de um percurso singularíssimo.

26 dezembro 2011

2011 - Livros


Em termos de livros, 2011 foi marcado essencialmente por dois escritores.


Um, o norte-americano Jonathan Franzen, e Freedom (2010) e The Corrections (1999), lidos por esta ordem, dois preciosos frescos de duas épocas diferentes filtrados pelo olhar de duas famílias do Midwest, pais e filhos em busca da melhor forma de lidarem com as suas vontades e desejos. Extensos e pormenorizados, ou não fosse Franzen um seguidor da escola russa do seculo XIX, são dois livros fantásticos para se compreender as respectivas épocas em que foram escritos.


Outro, o português João Tordo e O Bom Inverno (2010) e Hotel Memória (2008), também lidos por esta ordem. O primeiro é um extraordinário romance contemporâneo, cinematográfico e acessível, onde a premissa "à Antonioni" é desenvolvida com destreza e de forma empolgante. O segundo é um livro menor, mais fragmentado e com uma evolução narrativa desigual, que ainda assim não esconde o talento do seu autor.




Menos importante durante o ano que correu foi a leitura de dois tomos de Roberto Bolaño. Depois da leitura marcante de 2666 (2004), Estrela Distante (1996), novela sobre um escritor chileno desaparecido de tons autobiográficos e Nocturno Chileno (2000), febril noite de recordações de um padre poeta e crítico literário passando em revista uma vida cheia de eventos, aparecem como que ensaios para o livro supra-citado, compêndio das obsessões do autor. O primeiro ainda é um livro embrionário, segunda tentativa de um escritor marcado para voos mais altos, o segundo já se aproxima mais, no seu onirismo e no seu stream of consciousness, do virtuosismo que depois lhe seria reconhecido. Ainda assim, continuo a achar que a leitura das mil páginas de 2666 poderá facilmente substituir a destes dois pequenos livros.


De resto, houve Livro (2010) de José Luis Peixoto, um Peixoto menor, competente mas a faltar-lhe o fôlego e a originalidade de Nenhum Olhar (1999); O Tigre Branco (2008) de Aravind Adiga, entusiasmante olhar sobre os novos ricos da Índia enquanto potência emergente; Aproveita o Dia (1956), a minha saborosa introdução aos homens em queda de Saul Bellow; comecei a ler o apocalipse dos trabalhadores (2008) de valter hugo mãe, mas não apreciei nem o tom sentimental omnipresente nem a grafia apenas em caracteres minúsculos; seis anos depois de o adquirir, terminei finalmente a leitura de The Plot Against America (2005) de Philip Roth, extraordinario “what if” histórico onde o autor se confronta não só com a posição histórica dos judeus na América como com as tendencias isolacionistas de alguma direita republicana; e, com Extensao do Dominio da Luta (1994), estreei-me na obra de Michel Houelbecq com uma novela tremenda de mal-estar civilizacional e desespero urbano, com um estilo afiado e conciso num ambiente geral de cortar a faca.



Como o Natal trouxe Just Kids (2011) de Patti Smith e Anatomia dos mártires (2011) de João Tordo, serão esses os primeiros livros a ser lidos em 2012.

26 dezembro 2010

Livros 2010

As minhas leituras, por norma, pouco se regem pelo que sai no mercado, pois isso implicaria gandes gastos em livros novos. Assim, aproveito o que já há em casa e saldos e feiras do livro, bancas no metro e tudo o que vier à rede para poder ir mantendo sempre um stock de livros por ler. Normalmente, apenas tenho livros realmente novos a seguir ao Natal ou ao meu aniversário. Como tal, este é mais um balanço do que li em 2010 do que uma lista de melhores do ano. Comecei com a leitura voraz de mais um excelente livro de Philip Roth, Indignation, mais um daqueles sprints em que o norte-americano se tem especializado nos últimos anos. Segui para a justificadíssima "moda" 2666 de Roberto Bolaño, de longe o mais extenso livro que já li até hoje e um que terei de ler mais duas ou três vezes na vida para o (tentar) apreender em toda a sua extensão. Pelo meio, e porque estas mil paginas demoraram três meses a ler, parei para o mais leve O Nosso Homem em Havana de Graham Greene, uma divertida história de espionagem passada no último estertor da ditadura do General Batista. Após terminar o livro do argentino virei-me para os ardores nipónicos de Naomi de Januchiro Tanizaki, riquissimo relatório de como um pequeno burgês do Japão dos anos 20 é pisado como um tapete pela jovem concubina que dá nome ao livro. Em termos de releituras, virei-me para o Fiesta de Ernest Hemingway (muito bom, mas uns furos abaixo de For Whom the Bell Tolls), para a obra-prima oitocentista The Portrait of Dorian Gray e terminei Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez, começado originalmente quando tinha 16 anos e que se provou tão fascinante quanto parecera então. Como muitos, tive um flirt com o bestseller com a leitura dos dois primeiros volumes da trilogia Millenium, emprestados por uma prima, que me agradaram pela facilidade da escita do falecido Stig Larsson e pelo retrato de uma social democracia que, longe do paraíso que imaginava, o jornalista e escritor retratou como podre até ao âmago. No entanto, comparado com a literatura de que gosto, proporciona pouco alimento ao espírito e creio que apenas lerei o terceiro, se o fizer, para não deixar o trabalho pelo meio. A maior descoberta do ano, porém, foi de longe The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, tremenda saga sobre as desventuras de uma familia dominicana desde a ditadura de Trujillo até à New Jersey do início da década de 90 - um obrigado à FNAC por ter posto este livro fantástico a 5 euros durante o mês de Outubro. Num movimento circular bastante literário, termino o ano com mais outro sprint de Philip Roth, The Humbling, que comecei hoje mas que amanhã ou depois já estará lido. Ainda não sei o que lerei a seguir.