19 junho 2010

Sumaríssimos (14)

Quando, no inicio do ano, soube que O Segredo dos Seus Olhos derrotara o magnífico Un Prophète de Jacques Audiard na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, atribui a decisão ao carácter farisaico da Academia. Tendo visto o filme de Juan José Campanella, realizador do esquecivel O Filho da Noiva, continuo a preferir o filme francês. Mas fiquei fã desta história de um jubilado funcionário do Ministério Público argentino que resolve, anos depois, escrever acerca de um caso particularmente violento enquanto negoceia os seus sentimentos relativamente à sua superiora hierárquica. Filme confiante e inteligente na maneira como mescla thriller e retrato político de uma época sobre um alicerce melodramático, possui um argumento clássico filmado com ocasionais de modernidade e com assinalável destreza, um belíssimo conjunto de actores (Ricardo Darìn cabeça) e uma intriga amorosa francamente enternecedora. Sobretudo, lembre-se a maravilhosa perseguição em plano sequência no estádio do Huracan, um dos momentos cimeiros do ano cinéfilo de 2010. Em tempo de Mundial, apetece dizer desta pequena maravilha que não é nenhum Messi mas é um Mascherano de excepção.

18 junho 2010

Saramago RIP


No meio de uma crise que lhe dava razão em muitas coisas, partiu um dos maiores. Com Pasolini, Gramsci ou Garcia Marquez, um homem dos que não vergam as costas.

07 junho 2010

Carlos Lima (1962-2010)

Não me lembro se era 1996 ou 1997. Ao seu sobrinho Miguel, melómano antes de ser cinéfilo, o meu tio Carlos ouviu um dia dizer que queria uma guitarra acústica pelo Natal. Queria aprender a fazer música, quem sabe um dia ter uma banda. Os pais do Miguel não acreditaram, se calhar com razão. Mas num Natal, lá estava a caixa triangular suspeita. Chegada a meia-noite, foi aberta perante o espanto do Miguel. Não a aprendi a tocar e não sei se ele alguma vez reparou nisso.

Mais ou menos na mesma altura. Um Benfica miserável joga contra um Porto que iria eventualmente sacar 5 campeonatos seguidos. Saio de casa, ainda no Catujal e dirijo-me à sua, literalmente no outro lado da rua, para ver o jogo, que já tinha começado. Toco à porta e esta abre-se. Do cimo das escadas, oiço “Corre que ainda vês o golo!” Quando chego, afogueado, ao apartamento, vejo Valdo marcar o penálti e fazer o 1-0 (o jogo acabaria 2-1, para o Benfica marcou também João Pinto, o Porto reduziu por Emerson). Quando soube da sua morte, foi o som da sua voz a chamar-me o que primeiro me veio à cabeça.

2002. Anos depois de um divórcio turbulento da minha tia, vejo-o na sala de espera da clínica de Sto António, em Sacavém. A minha avó, que me acompanhava numa visita à médica de família, chama-o e tem um discurso que agora não interessa. Quando, ao fim de algum tempo, lhe aponta o Miguel e lhe pergunta se não o reconhece (e eu no meu canto, sempre muito envergonhado nestas situações), a frase do meu tio Carlos é lapidar: “Imaginava-o mais alto.”

06 junho 2010

Take 24 - Junho


Da minha parte, críticas a Humpday de Lynn Shelton, Líbano de Samuel Maoz e Fantasia Lusitana de João Canijo; a cobertura da edição de 2010 do IndieLisboa; e a crítica à edição em dvd de The Fantastic Mr Fox de Wes Anderson.

01 junho 2010

Do eternamente adiado pólo da Cinemateca no Porto


Em lead, para não haver dúvidas: sou a favor de um pólo da Cinemateca no Porto ou, mais importante ainda, de algo que desempenhe função idêntica. A segunda cidade do país, mesmo de um país minúsculo, pode e deve ter instituições culturais que criem riqueza, material e humana. No caso do Porto como muito bem frisou Maria João Seixas, é também uma justiça histórica, por a cidade ter sido o berço do cinema em Portugal. Apesar disto, acho importante ressalvar as seguintes questões:

i) É asquerosa a retórica bairrista que tomou conta da zona de comentários da entrevista. Já não há paciência para a ideia, mentirosa e bafienta, de que Lisboa vive à conta dos impostos pagos pelos portuenses, aproveitando as verbas para pavimentar as ruas de ouro e e comprar veículos topo de gama. Cá em baixo também trabalhamos e também pagamos impostos, que o belo governo nacional não olha à proveniência dos fundos. E, tal como vós, não temos qualquer poder de decisão na utilização do dinheiro. Aí, mouros e tripeiros são exactamente iguais.

ii) Quando se fala do centralismo, papão lisboeta cujo único objectivo é denegrir a qualidade de vida do Porto, não seria positivo lembrar as responsabilidades da edilidade no presente estado de coisas cultural? Afinal de contas, estamos a falar do município que inaugurou duas obras estruturais fundamentais para a Capital Europeia da Cultura 2001 (Metro e Casa da Música) anos depois do fim da iniciativa ; da cidade que ofereceu o seu maior teatro a Filipe La Féria; que votou ao abandono o (segundo as imagens que vi) lindíssimo Cinema Batalha e que se prepara fazer o mesmo com o histórico Teatro Sá da Bandeira; e que tem um autarca que fingiu que ia resolver o défice financeiro da cidade através do corte da meia dúzia de tostões que supostamente esbanjava nos apoios culturais – incluindo à maior bandeira cinematográfica do município, o Fantasporto. Tudo isto numa região em que a vizinha Vila Nova de Gaia, que poderia albergar as estruturas que Rui Rio não quisesse, erigiu e ofereceu um centro de estágio ao um clube de futebol riquíssimo, cobrando de renda o equivalente à de um apartamento, num valor que nem sequer paga o consumo mensal de àgua no Olival. Antes de culpar Lisboa, não seria melhor fazer uma auto-análise que permitisse mudar as condições futuras da cidade?

iii) A história contada por Maria João Seixas, acerca da sessão em Serralves com a presença de Pedro Costa, lança-me uma dúvida: até que ponto esta questão não é mais uma cause célèbre interessada em ter algo com o nome igual a um nome de Lisboa ou se é mesmo um desejo saudável de mais e melhor cinema – lembremos também o insucesso do ciclo da Cinemateca realizado na Invicta durante a Capital Europeia da Cultura 2001, que justificou a posição de JBC até à sua morte. Espero que seja a segunda. O meu conselho é que os portuenses prezem as oportunidades que, mal por mal, ainda lhes são dadas. Se não o fizerem, a margem de manobra para exigências decresce substancialmente.

iv) Há algo de muito contraditório em dizer-se que se quer uma rede de cinemas com projecção digital “até ao Pico” e depois dizer-se que começar pela segunda cidade do país “não é prioritário”. Afinal de contas, os meios para fazer algo na área do cinema serão decerto maiores no Porto do que na Guarda, em Coimbra, em Évora ou em Portimão.

Por último, uma nota. É legítima a preocupação de Maria João Seixas de que uma Cinemateca do Porto retire fundos à de Lisboa. Do mesmo modo que não quero retirar a tripeiros para meter na boca de alfacinhas, não espero que aconteça o contrário. Se a ideia do Ministério for não a de aumentar recursos mas sim a de dividi-los entre duas cidades a 300 km de distância, estive aqui este tempo todo a escrever para o boneco. Afinal de contas, metade de pouco é quase nada.

29 maio 2010

Born to be Wild (Hopper RIP)

Entrevista de Maria João Seixas ao Público

(...)não tenho os conhecimentos do João Bénard. Terei um pequeno grão da mesma paixão.

Então porque aceitou o cargo, cara Maria João Seixas?

De resto, deleguei a programação no dr. Pedro Mexia. Perguntei-lhe quais as áreas que ele gostaria que lhe fossem delegadas e ele escolheu as duas que eu mais gostaria para mim [risos]: programação e ANIM. Embora me tivesse ficado uma outra de que nunca abro mão, que é a do pessoal.

Traduzindo: não sou bem directora, sou mais uma técnica de recursos humanos…

Tenho pena que se sintam guerreados pela casa, acho que essa não era intenção do dr. Bénard da Costa. (…) Mas não é por uma questão diplomática que o faço. Acho mesmo que por alguma razão se afastaram alguns cineastas desta casa e eu gostaria de conseguir reaproximá-los para eles perceberem que de facto esta casa é deles. Só que o ser deles implica uma parceira, não é propriamente à maneira que eles querem, tem de ser da maneira que melhor encontrarmos para servir as duas partes.

Cara Maria João Seixas, pago-lhe um café no Starbucks se conseguir ser ainda mais vaga do que isto.

Gostaria de reforçar o orçamento para os trabalhos de restauro do ANIM.

Até que enfim, um projecto para o futuro. E esta deve ser uma área prioritária para a Cinemateca. Afinal de contas, da RTP Memória estamos todos fartos.

(…) montar uma rede fiável de equipamento de projecção digital e contribuir com o acervo da Cinemateca para a circulação de filmes e para dar a ver com regularidade cinema de qualidade a quem se está a formar neste momento na Net. (…) Gostaria que esse trabalho pudesse ser feito até à ilha do Pico.

Primeiro ponto, não há nada de mal em um cinéfilo usar a net como meio de formação. Segundo ponto, eu também gosto muito de ficção científica, sobretudo numa altura em que, tarde ou cedo, seremos governados pelo ultra-neo-liberal dr. Passos Coelho e pelas sempre culturalmente atentas pessoas do PSD – lembram-se do grande secretário de Estado da Cultura que foi Santana Lopes?

Do meu ponto de vista, isso reforça a obrigação estatutária de qualquer cinemateca de insistir na história do cinema, nos clássicos, aqueles que já ninguém vai ver, ou que podem ver em DVD os mais interessados, aqueles aonde ainda existe uma cinefilia que a minha geração reconhece como tal.

Aqui, fico contente.

Em Portugal, ao contrário de muitos países europeus, não temos uma lei que era essencial para enriquecermos o nosso acervo, que é uma lei de depósito legal que obrigasse os distribuidores comerciais a depositarem. Os outros países têm acervos fantásticos, podem variar. Nós temos de comprar, e comprar é muito caro. Há distribuidoras que, quando lhes apetece e se lhes apetece, depositam uma cópia, mas isso não é feito sistematicamente.

Uma falha gritante. Se a sra. Ministra é assim tão apaixonada pela causa do cinema e se temos uma deputada-actriz na Assembleia da República, era uma boa altura para acabar com este problema.

O Partido Socialista é a família política com que me identifico. Não sou militante, mas se me perguntarem o que é que eu sou ideologicamente, direi que faço parte do Partido Socialista. Sinto-me bem com essa pertença mas nunca fui próxima do Partido Socialista. E a nomeação que eu tive, que também me surpreendeu na altura, foi quando o eng.º António Guterres me convidou para a assessoria cultural do seu gabinete. Os únicos lugares que eu tinha tido decorriam das minhas relações com um dos capitães de Abril - o meu capitão de Abril -, o major Vítor Alves. Com a eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo, trabalhei na Comissão da Condição Feminina e depois, quando ela foi primeira-ministra, não trabalhei com ela. Depois, tive intervenções nas campanhas presidenciais do dr. Jorge Sampaio, do dr. Mário Soares e do prof. Manuel Maria Carrilho quando se candidatou à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Tudo isso fiz sem ter nenhuma relação directa com o partido. A minha participação nas campanhas não trazia nenhum isco na ponta, isto é, eu não estava à espera de ser compensada com nada.

Este segmento da conversa deixa-me sentimentos mistos. Por um lado, o que há mais é gente diz não estar envolvida com ninguém mas que aparece em todo o lado e o facto de não ter cartão de militante não muda em nada uma ligação política que a própria Maria João Seixas assume. Por outro, as pessoas têm direito à sua filiação e a ser julgadas pelo seu trabalho e não pelas suas ideias políticas. Porém, permanece a pergunta: o cargo de director da Cinemateca passou a ser um cargo político? Se assim for, estamos mal.

BALANÇO: Há boas ideias de futuro para a Cinemateca, mas são poucas. Outras são francamente negativas (quem criticou as escolhas de ciclos de João Bénard da Costa não poderá ficar contente com o ciclo Os Filmes dos Presidentes) e outras ainda francamente indiferentes (perante a necessidade de mostrar obras completas de cineastas como António Reis, António Macedo ou António Campos, o ciclo de grandes sucessos do cinema português acompanhado por debates é igual ao litro). Sobretudo, parece-me que será um momento de navegação à vista, não apenas devido à crise mas também porque falta uma ideia clara, discernível, do que a directora quer para o espaço. Assim, este primeiro mandato de Maria João Seixas no cargo parece ser um espaço intermédio, onde se lançam pedras para o futuro mas onde ainda se vive uma certa indecisão pós-Bénard. Uma coisa parece certa: com Maria João Seixas a Cinemateca não será um espaço de militância total e quererá agradar a gregos e a troianos. E aqui voltamos ao problema central da entrevista: como isto será feito não se percebe muito bem. Teremos de esperar para ver.

(Sobre a questão da Cinemateca do Porto escreverei um post isolado, se tudo correr bem)

27 maio 2010

30 de Agosto de 1992



Ao fim de uma porrada de tempo lá consegui ver a emissão do programa Palcos, da RTP-2, dedicada ao mítico concerto dos Nirvana no festival de Reading. E aquilo que a gravação mostra coincide, em parte, à visão entretanto construída: um momento charneira, uma banda no topo da sua forma, o zeitgeist do último grande sub-género que o rock produziu (assim entendido, que não há nome para o que na última década fizeram Strokes, Interpol, Queens of the Stone Age ou White Stripes). Por outro, é inegável que a realização, competente mas algo indiferente, e o esbater do papel do público, com o ruído diminuído e os planos de conjunto escassos, tornam o documento menos marcante do que poderia ser. Por outras palavras, se jamais os Nirvana foram melhores do que naquele momento, pelo concerto é por vezes difícil apreende-lo como cúmulo do grunge.

Porém, enquanto via, não pude deixar de pensar nas seguintes coisas:

i) Há algo de estranho em ver os Nirvana num festival inglês, como há em pensar neles numa cidade/subúrbio norte-americano. Aquela música tresanda a pinhais, rios, frio ou, na pior das hipóteses, a um bairro white trash com condições meteorológicas dignas da cidade de Twin Peaks. Quem o terá percebido melhor foi mesmo Gus van Sant – outro distinto habitante do noroeste dos EUA - no seu brilhante Last Days (2005).

ii) Há muito quem pense que Kurt Cobain se suicidou por ter sido vítima da ideia que criou de si mesmo, a estrela de rock torturada e intransigente para com os seus valores. Melhor dizendo, também Cobain se poderá ter convencido de que era o que os outros viam nele. Puro erro. Aquela música já soava a morte muito antes de 4 de Abril de 1994. Se calhar, a morte é isso mesmo: uma guitarra em perpétuo fuzz.

iii) Comecei a ver, adorei “Aneurysm”, “Drain You” comoveu-me com memórias de outros tempos, “Come As You Are” lembrou-me porque foi esta a primeira banda rock de que verdadeiramente gostei e “Smell’s Like Teen Spirit”, constatei, não perdeu pingo de actualidade. Mas, a meio de um alinhamento arriscadíssimo, que deixa para o fim não os hits mas diversas canções de Bleach (1989) e Incesticide (1992) e antecipa In Utero (1993), algo na minha atenção se perdeu, regressando apenas para a destruição final dos instrumentos, surpreendentemente mais lúdica do que revoltada. Parece que já não consigo levar uma banda tão a sério quanto os Nirvana queriam ser levados, nem os épicos Arcade Fire, nem os sacrossantos The National, nem os actualíssimos LCD Soundsystem. Hoje, até Kurt Cobain é vitima do meu cinismo.

10 maio 2010

32


Foi um dia inesquecível. Fui um dos 64 mil na Luz, fui um dos 100 mil no Marquês, um dos orgulhosos por o Benfica ter sobrevivido ao ambiente digno de regimes da África sub-sariana vivido no Porto há uma semana, um dos felizes por ter visto um campeonato ganho a um Porto que fez praticamente os mesmos pontos que quando é campeão (não havendo espaço para o alegado abaixamento de forma com que justificaram o título encarnado em 2005) e um dos divertidos com o discurso aprendido com o Padrinho de Domingos Paciência (o clube que ganha jogos com bolas fora contra o Marítimo, arbitragens inacreditáveis contra o Guimarães e um guarda-redes amigo contra o Paços de Ferreira queixa-se dos arbitros que lhe deram o 2º lugar). Digam o que disserem, foi sem espinhas. Embora ainda estejamos uns furos abaixo, desde os títulos que José Mourinho ganhou pelo Porto que não havia um campeão tão justo.


Ah! Tentei tirar uma foto dentro do túnel do Marquês, para dedicar àquele senhor, mas a PSP selou o túnel. Tive de me contentar com uma foto um pouco à frente.E que aliás está o prodígio técnico que aqui se vê.




Vamos lá ver como é para o ano.

03 maio 2010

11º dia de IndieLisboa

Como uma estância balnear na primeira semana de Setembro, no domingo o IndieLisboa dava a entender o seu próprio fim. Pouca gente nas sessões, pelos menos as primeiras, a Culturgest francamente às moscas e uma certa exaustão no ar, a ideia de que o mais importante havia passado (apesar da exibição vespertina de Visage de Tsai Ming-Liang e de Life during wartime de Todd Solondz, a que não pude comparecer). Neste contexto, o fecho com Symbol de Matsumoro Hitoshi, indegesto pós-modernismo dividido entre a luta livre mexicana e uma qualquer câmara dos horrores saída da Twilight Zone até fez sentido. Não foi o pior filme que vi no festival, mas foi de certeza o mais irrelevante.

Foi uma semana e meia com muito trabalho, com alguns grandes momentos e com outros que decerto não recordarei. No geral, cobrir um festival é estranho: a certa altura começa a custar ver tantos filmes de seguida, mas temos a certeza que dentro de uma semana vamos ter saudades. É como ir a um festival de música no Verão, em que nos chateamos pelas filas para a cerveja e pelo tempo que demora até vermos a banda que queremos, mas depois nos invade a nostalgia de termos de esperar um ano para ver outro. Por mim, só me resta dizer: até para o ano e obrigado pelos filmes que vi neste.

10º dia de IndieLisboa

Às vezes, Werner Herzog espalha-se. É o caso de My son my son what have ye done, desenxabida variação edipiana a partir da Oresteia, sem consistência, sem interesse e sem sequer conseguir aproveitar um Michael Shannon em grande forma. Percebe-se porque David Lynch o produziu mas não o realizou. Destaque apenas para a estranha fotografia, por um lado aproveitando o sol omnipresente de San Diego, por outro escurecendo frequentemente o primeiro plano e os rostos dos protagonistas.

30 abril 2010

9º dia de IndieLisboa

Num festival incomparavelmente maior, como Cannes, alguém que seja enviado pela imprensa vê até cinco filmes por dia e, depois das sessões, ainda tem de enviar os textos para os jornais. O Indie funciona de forma diferente; três sessões diárias é o normal e pode haver até perto de duas horas entre o final de uma sessão e o começo da outra. Como tal há muito tempo para pensar. Para pensar em como é difícil ver tantos filmes e manter deles uma ideia coerente e profunda, na fome mundial, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, na Standard & Poor's, na quantidade de tempo que passou desde que dissemos uma palavra a quem quer que fosse, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, nos amigos que não ligam ou criticam as nossas escolhas, no subsídio de desemprego que expira dentro de 3 meses sem fazermos puto de ideia do que vamos fazer para pagar as contas, em como nunca moraremos no centro de Lisboa quanto mais em Nova Iorque ou Paris ou até no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato.
Tudo isto para dizer que algum cansaço anímico remeteu-me para casa, tendo ido ao festival apenas para comprar um bilhete para a minha mulher para a sessão de amanhã e para tentar encontrar a boina preta que perdi ontem no CinemaCity e que por lá deve ter ficado. Já perdi dez ou 15 boinas e esta é a última que perco.
O raio de sol foi ter recebido a noticia de que já tenho bilhete para o Benfica-Rio Ave.

8º dia de IndieLisboa

The Robber de Benjamin Heisenberg é um filme competente acerca de um maratonista austríaco acabado de sair da prisão que usa o seu talento para assaltar bancos, belíssimo enquanto explora a sua situação base mas menos quando se foca na perseguição ao ladrão do título. 10 to 11 da turca Pelin Esmer é uma bela surpresa, uma metáfora da renovação de gerações através da relação entre um engenheiro electrónico idoso que colecciona tudo e mais alguma coisa e o porteiro que o ajuda a livrar-se dos milhares de jornais, livros e outros itens que colecionou ao longo de décadas, tudo numa Istanbul estranhamente parecida com Lisboa. Delicado e contemplativo, poderia perfeitamente estrear.

29 abril 2010

7º dia de IndieLisboa

Grande dia para o cinema português. Fantasia Lusitana brilhante filme sobre como o Estado Novo usou a neutralidade na Segunda Guerra para se fortalecer, com excelente trabalho de pesquisa e montagem de imagens de arquivo. Guerra Civil de Pedro Caldas a revelação do festival, fantástico filme sobre mãe e filho a negociarem a sua distância dos outros num fim de Verão em 1982. Ainda não está comprado para exibição, mas se não estrear, é uma vergonha.

27 abril 2010

6º dia de IndieLisboa

Não há. A greve dos transportes sitiou-me em Rio de Mouro. É dia de escrever e de arrumar a casa e a cabeça. Amanhã há um dia importante, com a Fantasia Lusitana de João Canijo e o muito antecipado Guerra Civil de Pedro Caldas.

5º dia de IndieLisboa

Mind Shadows de Heddy Honningman fraco, tratamento da doença demasiado derivativo de Ingmar Bergman - espero que os documentários sejam melhores; os MusicBox Club Docs inaugurados com belo filme sobre o "ficcionista"JP Simões, num Cais do Sodré multicultural ao pôr-do-sol; e Napoli Napoli Napoli de Abel Ferrara retrato assustador de uma cidade num documentário de qualidade mas que faz desejar o regresso do realizador a Nova Iorque. Curioso é como também Ferrara se parece sentir fora de casa; só isso explica os constantes planos a mostrá-lo em filmagem, como que a dizer "estou aqui!". É um facto que, apesar da sua omnipresente atracção pelos bas fonds, se não soubéssemos que era dele não o advinhariamos...

25 abril 2010

Sacrifícios feitos em prol do cinema (1)

Estar numa sala ao mesmo tempo que o meu clube se sagra Campeão Europeu de Futsal.

4º dia do IndieLisboa

Um fim de semana difícil, o olho esquerdo inflamado pelo sol de um passeio dominical e parte da atenção no Naval - Braga fez a visão de Mother do coreano Joon-ho Bong passar-me ao lado. Não tendo a concentração necessária para o seguir a 100%, pareceu-me, no entanto, confirmar o virtuosismo que The Host anunciava, mas mais não posso dizer. A rever em sala e a criticar na próxima Take.

P.S. - Limpem os lavabos do Londres, s.f.f.

24 abril 2010

3º dia de IndieLisboa

Vi apenas um filme, por problemas de horário. Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans pergunta: ao transformar a tragédia (filme de Ferrara) numa farsa (filme de Herzog), perde-se alguma coisa? Sim, e logo se confirma o adágio aristotélico de que a tragédia é superior à comédia. Ainda assim, bom filme. Fora isso, excelente sessão, sala 1 do S. Jorge cheia (cerca de 600 pessoas), apenas prejudicada por um projeccionista que não soube enquadrar o filme, deixando por várias vezes os microfones à vista.
Agora, bom bom foi chegar ao S.Jorge no preciso momento em que acabava uma sessão do IndieJúnior e ver toda a criançada saindo a correr pelo corredor do cinema. De pequenino se torce o pepino!