Mostrar mensagens com a etiqueta IndieLisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta IndieLisboa. Mostrar todas as mensagens

02 junho 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (3)






No Oregon de 1845, terra indómita, três grupos de peregrinos separam-se da caravana, contratam um guia fanfarrão chamado Meek e tentam cortar caminho por entre as ervas, os caminhos e os relevos do terreno. Com a progressiva falta de água, as desconfianças crescem, pensa-se em enforcar Meek e continuar sozinhos. Até que a presença de um índio, potencial informador de um batalhão de guerreiros mas também o único que sabe onde se encontra água potável, vem pôr em causa ainda mais o equilibrio precário do grupo.

O resumo faz-se em poucas linhas, mas explicar o que é a experiência de Meek's Cutoff, quinto filme de Kelly Reichardt mas apenas o terceiro ao qual foi dada alguma atenção, torna-se muito mais dificil. Porque é completamente contestada a narrativa tradicional, com um princípio in media res, onde somos lentamente informados do que se está a passar, e com um final em aberto, propositadamente ambíguo, que pode parecer uma fuga à incapacidade de fechar o filme mas que, bem visto, corresponde perfeitamente às relações entre culturas diferentes, sempre a ser trabalhadas e moldadas. É também estranho o ritmo lento de um filme sempre em movimento, o olhar distanciado de Reichardt, quase sempre em planos afastados ou médios, e o seu realismo extremo e sem maquilhagem, retirando qualquer poesia ou espectáculo ao western e tornando-o muito mais próximo do que a realidade da expansão americana deve ter sido: um caminho de homens e mulheres isolados, assustados, navegando à vista num mar de terra inóspita e onde as maiores dificuldades foram suportadas em nome de um futuro, sem heroismos mas apenas com um sentido de inevitabilidade, de que não há outro caminho.

Filmado em 4:3, entalando os actores nas margens do enquadramento e criando outros sinais visuais de limitação e isolamento (a barba e o cabelo longos de Bruce Greenwood, num dos papéis da sua vida, que o tornam enigmático e pouco digno de confiança ou a touca de Michele Williams, cobrindo-lhe o rosto inteiro num simbolo perfeito da limitação das mulheres na época), tudo aponta, circularmente, para a pequenez daquela gente na imensidão do espaço cruel que os rodeia. Narradora de prosas esparsas, incompletas e que limitam tudo às suas formas mais puras, Reichardt, de novo tratando a viagem em direcção ao Oeste (também a Wendy do filme anterior ia para o Oregon para começar de novo) faz um dos filmes, mau-grado a sua dimensão propositadamente pequena, mais ambiciosos que veremos em 2011 (felizmente, mostrando estar acordada, a Alambique vai exibi-lo em sala) e um que é muito difícil pôr em palavras.










*************************************************************************************

Não foi exactamente o Indie que eu queria e a organização terá de pensar numa estratégia que não inclua exibir no último domingo filmes tão importantes num ambiente já de descompressão e de fim de certame, um festival no seu modo pós-apocalíptico (o ano passado, a última sessão foi dedicada a Visage de Tsai Ming Liang, filme decerto relevante e interessante; alguém o viu?). Além do mais, se o Grande Auditório da Culturgest dá prestigio aos filmes que exibe, pela simples formalidade do espaço, também é verdade que o festival é muito mais vibrante no São Jorge. De resto, no eremitismo que caracteriza a minha vivência actual, este ano foi um mero desvio na rotina, onde vi dois belos filmes mas que dificilmente associarei a um momento marcante ou a um ambiente eléctrico. Veremos como será a edição 2012.

22 maio 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (2)





(Antes de mais, um pequeno reparo: dada a falta de tempo e a estreia para breve de Essential Killing de Jerzy Skolimowski, o filme do polaco, a ser tratado, sê-lo-à aquando da sua estreia. A série sobre o IndieLisboa terminará em breve com o texto sobre Meek's Cutoff de Kelly Reichardt).




Enquanto os vejo, não gosto dos filmes de Pablo Larraín. Como poderia? Tudo é sórdido e viscoso, a um nível em que mesmo a mundaneidade dos acontecimentos se torna surreal e detestável. Tudo é, a um tempo, terrível e ridículo, sonâmbulo e hiper-real. É quando os filmes acabam que a experiência pode ser contextualizada, doseada e tornada suportável pela memória. E é nessa altura que, como afirmei aqui há alguns tempos, que o chileno, com Kelly Reichardt e Brillante Mendoza, se torna um dos nomes mais idiossincráticos e estimulantes a trabalhar no cinema contemporâneo, dos poucos nos últimos anos a terem o verdadeiro sabor a novidade.


Post mortem, exibido numa tarde sufocante do IndieLisboa, perante uma razoável assistência no (demasiado) Grande Auditório da Culturgest, faz com que encontremos o cineasta no exacto ponto em que o encontrámos no anterior Tony Manero. De novo uma história passada em Santiago do Chile, intimamente ligada com a ditadura do facínora Augusto Pinochet mas que a mescla com a história pessoal, de um homem (em ambos os filmes interpretado pelo excelente actor Alfredo de Castro), sempre um ser ridículo em busca da sua própria felicidade. Desta vez, Castro interpreta o funcionário do gabinete do médico-legista pusilânime Mário, que se apaixona pela corista decadente Nancy Puelma num cabaret pulgoso. Tem algum sucesso com ela, embora não tanto quanto pense, pois esta continua amigada de um jovem comunista a lutar plenamente pelos sonhos que a eleição de Allende trouxe. Quando explode o 11 de Setembro de 1973, Mário continua pusilanime, embora seja mergulhado de cabeça na barbárie dos que queriam salvar a civilização. Só quando a sua derrota se torna evidente se dá a revolta, na melhor cena final que vi em muito tempo, genial e longuíssimo plano-sequência fixo, com apenas uma pessoa a entrar e a sair do enquadramento.




Pablo Larrain é, indiscutivelmente, um excelente cineasta, de inegáveis recursos estilisticos utilizados para inserirem a perturbação no espectador. Os seus tons escuros, os planos de câmara fixa de duração esticada até ao limite, os travellings em túneis e a atmosfera malsã geral servem para transmitir a sua mundividência da época, um pequeno apocalipse num país periférico da América do Sul preso em jogos de poder bem maiores e para acossar quem vê os filmes, num método arriscado que, longe de procurar o belo, encontra a confrontação com o espectador. O perigo, dada a proximidade estética, temática e moral do anterior Tony Manero é mesmo a repetição, a mesma de que padece o escritor Luís Sepúlveda, narrador dotadíssimo de discurso repetitivo. Nesse aspecto, discretamente, há algo neste novo filme que pode passar despercebido mas que pode ser sintomático: o facto de a cena, insuportável, do choro entre Mário e Nancy decorrer antes da tomada do poder por Pinochet. Nesse sentido, o golpe de estado poderia ser visto não como o gerador do desconforto mas como a sua derradeira consequência. Espero que seja este o caminho por que Pablo Larrain seguirá, mostrando, mais do que os seus resultados, o que no Chile permitiu a chegada de uma ditadura brutal e que muitos ainda hoje defendem.


Gostei imenso. Mas só depois de acabar.

08 maio 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (1)


São dias complicados. Aqueles senhores a aterrar na Portela e tudo o que com eles aí vem gera cortes na cultura, nos dois sentidos: no dos produtores e no dos consumidores. Assim, in loco, verei apenas dois filmes, que não podia mesmo perder, para os quais os bilhetes já estão adquiridos: Post Mortem de Pablo Larrain e Meek’s Cutoff de Kelly Reichardt. Acontece que, actualmente, já há formas de tornear a falta de verbas para o cinema e, assim que vi a programação, fui à procura de formas “alternativas” de poder seguir o certame. Não fui particularmente bem-sucedido em quantidade, mas consegui obter dois filmes que poderei ver como se lá estivesse.

Mas será mesmo assim? Claro que não. Estamos apenas dois em casa, a Sandra passa uma pilha de roupa a ferro e lá vai olhando para a tv, desconfiada mas com crescente curiosidade; eu adormeço a dada altura, tendo de retroceder na visão do filme para apanhar o fio à meada. É, no fundo, bem diferente, mas é o que é possível neste momento. E o primeiro filme a sofrer as consequências foi Lemmy, realizado pela dupla Greg Olliver e Wes Orshoski, panegírico dedicado ao histórico líder dos Motorhead. Documentário de estrutura convencional, intercalando momentos na vida do objecto de estudo com (demasiadas) entrevistas a fãs (entre os quais os inesperadíssimos Peter Hook e Jarvis Cocker, entre outros mais previsíveis), aposta (e consegue) mostrar como e porquê aquilo que parece repetitivo para os não-fãs, aquela música de coices intermináveis e que parece sempre uma locomotiva em máxima potência, é fundamental para muito boa gente. Quanto ao próprio Lemmy, é como Dylan ou Young ou Cohen ou qualquer um dos outros mitos musicais retratados no cinema: alguém idiossincrático (vive num pequeno apartamento atafulhado onde estão centenas de discos e memorabilia nazi, tem um conhecimento enciclopédico do rock n’ rol e dos grandes conflitos bélicos do século XX e é um fã inveterado de jogos de vídeo), com um look absolutamente fascinante (o verdadeiro cowboy do Inferno, com a eterna barba rockabilly e botas feitas à medida) mas com uma postura enternecedora face ao filho (que conheceu quando tinha já seis anos e que hoje acompanha frequentemente a banda na estrada) e que, por entre cigarros em barda, Jack Daniels com coca-cola e o seu baixo distorcido, existe o melhor que pode e sabe – fantástica a sequência em que explica porque, apesar das groupies (deve ser o tipo de gajo que arranja queca só por aparecer num sítio), permanece sozinho aos sessenta e muitos – sem pedir desculpa a ninguém e com o comedimento que amiúde acompanha os sábios. Lemmy perde apenas pelo convencionalismo do formato, pela duração algo excessiva (podia perder meia-hora) e por não seguir aquilo que parece prometer no primeiro quarto de hora: ser um filme que parte de Lemmy para um retrato da sleazy e metaleira cena rock de Los Angeles, cidade onde o músico se radicou há cerca de 20 anos, em vez de, no último terço, se focar numa das mais recentes digressões mundiais dos Motorhead e ceder definitivamente à previsibilidade. Apesar de tudo, pelas suas virtudes e por ser sobre quem é, não desgostei mesmo nada.

PS - Ah, o subtítulo do filme é "49% Motherfucker, 51% Son of a Bitch". Genial!

03 maio 2010

11º dia de IndieLisboa

Como uma estância balnear na primeira semana de Setembro, no domingo o IndieLisboa dava a entender o seu próprio fim. Pouca gente nas sessões, pelos menos as primeiras, a Culturgest francamente às moscas e uma certa exaustão no ar, a ideia de que o mais importante havia passado (apesar da exibição vespertina de Visage de Tsai Ming-Liang e de Life during wartime de Todd Solondz, a que não pude comparecer). Neste contexto, o fecho com Symbol de Matsumoro Hitoshi, indegesto pós-modernismo dividido entre a luta livre mexicana e uma qualquer câmara dos horrores saída da Twilight Zone até fez sentido. Não foi o pior filme que vi no festival, mas foi de certeza o mais irrelevante.

Foi uma semana e meia com muito trabalho, com alguns grandes momentos e com outros que decerto não recordarei. No geral, cobrir um festival é estranho: a certa altura começa a custar ver tantos filmes de seguida, mas temos a certeza que dentro de uma semana vamos ter saudades. É como ir a um festival de música no Verão, em que nos chateamos pelas filas para a cerveja e pelo tempo que demora até vermos a banda que queremos, mas depois nos invade a nostalgia de termos de esperar um ano para ver outro. Por mim, só me resta dizer: até para o ano e obrigado pelos filmes que vi neste.

10º dia de IndieLisboa

Às vezes, Werner Herzog espalha-se. É o caso de My son my son what have ye done, desenxabida variação edipiana a partir da Oresteia, sem consistência, sem interesse e sem sequer conseguir aproveitar um Michael Shannon em grande forma. Percebe-se porque David Lynch o produziu mas não o realizou. Destaque apenas para a estranha fotografia, por um lado aproveitando o sol omnipresente de San Diego, por outro escurecendo frequentemente o primeiro plano e os rostos dos protagonistas.

30 abril 2010

9º dia de IndieLisboa

Num festival incomparavelmente maior, como Cannes, alguém que seja enviado pela imprensa vê até cinco filmes por dia e, depois das sessões, ainda tem de enviar os textos para os jornais. O Indie funciona de forma diferente; três sessões diárias é o normal e pode haver até perto de duas horas entre o final de uma sessão e o começo da outra. Como tal há muito tempo para pensar. Para pensar em como é difícil ver tantos filmes e manter deles uma ideia coerente e profunda, na fome mundial, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, na Standard & Poor's, na quantidade de tempo que passou desde que dissemos uma palavra a quem quer que fosse, no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato, nos amigos que não ligam ou criticam as nossas escolhas, no subsídio de desemprego que expira dentro de 3 meses sem fazermos puto de ideia do que vamos fazer para pagar as contas, em como nunca moraremos no centro de Lisboa quanto mais em Nova Iorque ou Paris ou até no que acontecerá se o Benfica perder o campeonato.
Tudo isto para dizer que algum cansaço anímico remeteu-me para casa, tendo ido ao festival apenas para comprar um bilhete para a minha mulher para a sessão de amanhã e para tentar encontrar a boina preta que perdi ontem no CinemaCity e que por lá deve ter ficado. Já perdi dez ou 15 boinas e esta é a última que perco.
O raio de sol foi ter recebido a noticia de que já tenho bilhete para o Benfica-Rio Ave.

8º dia de IndieLisboa

The Robber de Benjamin Heisenberg é um filme competente acerca de um maratonista austríaco acabado de sair da prisão que usa o seu talento para assaltar bancos, belíssimo enquanto explora a sua situação base mas menos quando se foca na perseguição ao ladrão do título. 10 to 11 da turca Pelin Esmer é uma bela surpresa, uma metáfora da renovação de gerações através da relação entre um engenheiro electrónico idoso que colecciona tudo e mais alguma coisa e o porteiro que o ajuda a livrar-se dos milhares de jornais, livros e outros itens que colecionou ao longo de décadas, tudo numa Istanbul estranhamente parecida com Lisboa. Delicado e contemplativo, poderia perfeitamente estrear.

29 abril 2010

7º dia de IndieLisboa

Grande dia para o cinema português. Fantasia Lusitana brilhante filme sobre como o Estado Novo usou a neutralidade na Segunda Guerra para se fortalecer, com excelente trabalho de pesquisa e montagem de imagens de arquivo. Guerra Civil de Pedro Caldas a revelação do festival, fantástico filme sobre mãe e filho a negociarem a sua distância dos outros num fim de Verão em 1982. Ainda não está comprado para exibição, mas se não estrear, é uma vergonha.

27 abril 2010

6º dia de IndieLisboa

Não há. A greve dos transportes sitiou-me em Rio de Mouro. É dia de escrever e de arrumar a casa e a cabeça. Amanhã há um dia importante, com a Fantasia Lusitana de João Canijo e o muito antecipado Guerra Civil de Pedro Caldas.

5º dia de IndieLisboa

Mind Shadows de Heddy Honningman fraco, tratamento da doença demasiado derivativo de Ingmar Bergman - espero que os documentários sejam melhores; os MusicBox Club Docs inaugurados com belo filme sobre o "ficcionista"JP Simões, num Cais do Sodré multicultural ao pôr-do-sol; e Napoli Napoli Napoli de Abel Ferrara retrato assustador de uma cidade num documentário de qualidade mas que faz desejar o regresso do realizador a Nova Iorque. Curioso é como também Ferrara se parece sentir fora de casa; só isso explica os constantes planos a mostrá-lo em filmagem, como que a dizer "estou aqui!". É um facto que, apesar da sua omnipresente atracção pelos bas fonds, se não soubéssemos que era dele não o advinhariamos...

25 abril 2010

4º dia do IndieLisboa

Um fim de semana difícil, o olho esquerdo inflamado pelo sol de um passeio dominical e parte da atenção no Naval - Braga fez a visão de Mother do coreano Joon-ho Bong passar-me ao lado. Não tendo a concentração necessária para o seguir a 100%, pareceu-me, no entanto, confirmar o virtuosismo que The Host anunciava, mas mais não posso dizer. A rever em sala e a criticar na próxima Take.

P.S. - Limpem os lavabos do Londres, s.f.f.

24 abril 2010

3º dia de IndieLisboa

Vi apenas um filme, por problemas de horário. Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans pergunta: ao transformar a tragédia (filme de Ferrara) numa farsa (filme de Herzog), perde-se alguma coisa? Sim, e logo se confirma o adágio aristotélico de que a tragédia é superior à comédia. Ainda assim, bom filme. Fora isso, excelente sessão, sala 1 do S. Jorge cheia (cerca de 600 pessoas), apenas prejudicada por um projeccionista que não soube enquadrar o filme, deixando por várias vezes os microfones à vista.
Agora, bom bom foi chegar ao S.Jorge no preciso momento em que acabava uma sessão do IndieJúnior e ver toda a criançada saindo a correr pelo corredor do cinema. De pequenino se torce o pepino!

2º dia de IndieLisboa

A subir. O documentário italiano La boca del lupo fraco, o cantonês Accident bom mas desbaratado por um final inverosímil, o israelita Lebannon dos filmes mais poderosos e aterradores deste ano. De resto, foi um dia morno, ou não fosse passado no Cinemacity de Alvalade, excelente espaço, é certo, mas pela distância dos outros espaços ou pela manutenção de três salas em exibição comercial, com pouco cheiro a festival.

1º dia de IndieLisboa

Uma confusão de horário de um visionamento, que perdi e cuja ausência me obrigaria a passar várias horas em Lisboa sem nada para fazer fazem-me perder a revisão planeada do magnífico Greenberg, inauguração do Indie 2010. Até porque a direcção do festival garante a presença nos salamaleques institucionais mas reserva-se o direito de "expulsar" os jornalistas da cerimónia de abertura se a sala estiver esgotada assim que o filme começar. Fantasia Lusitana de João Canijo fica para a segunda passagem e o primeiro dia do festival, para mim, não o foi.

04 maio 2009

IndieLisboa 2009 (IV)


J'embrasse pas de André Téchiné, Herói Independente, Cinema City Classic Alvalade, 02 de Maio, 18h15m

J’embrasse pas (1991) entende-se bem enquanto duplo de Rendez-Vous (1985). Também este é um filme sobre uma personagem ambiciosa mais do que talentosa, que vai da província para a metrópole não apenas para procurar o sucesso enquanto actor mas para fugir ao sufoco da sua existência primeira e das muitas dificuldades que encontra no percurso. O Pierrot que seguimos, magistralmente interpretado por Manuel Blanc, não tem qualquer noção das suas limitações e, falhado o sonho de actor (numa sequência arrepiante, em que sentimos o desfasamento do seu talento face às suas ambições) inicia uma espiral de decadência através da prostituição homossexual, que culminará não apenas na sua degradação física como na sua derrota anímica, composta de paranóia e solidão. O argumento de Jacques Nolot, espiral pormenorizada e bem burilada, oferece a André Téchiné mais uma das suas crónicas de uma Paris decadente e escura, onde a persecução dos objectivos acarreta sempre um custo alto a pagar. Aqui, o francês opta por um tom granulado e com filtros amarelos, que não apenas casa bem com a ambiência nocturna do filme como sublinha a sordidez do que estamos a ver. Longe da ironia ácida que Chabrol deposita nas suas críticas burguesas, Téchiné, nunca particularmente depurado mas sempre virtuoso, assina aqui mais um belíssimo filme, como o foram quase todos os que realizou nas décadas de 80 e 90.

E acabou assim, para mim, mais uma edição do IndieLisboa. A grande falha a lamentar foi Ballast de Lance Hammer, que acabou por vencer a Competição Internacional e cuja terceira sessão esgotada me obrigou a ver o excremento de que falei anteriormente. Mesmo tendo visto quase tudo no periférico Cinema City de Alvalade, a ideia com que fiquei foi a de um festival vibrante, com uma energia e uma selecção de filmes que se torna cada vez mais essencial para o estagnado panorama cinematográfico lisboeta. Devia haver um por mês.

02 maio 2009

IndieLisboa 2009 (III)


Une nouvelle ère glaciaire de Darielle Tillon, Observatório, Sexta-feira 01 de Maio, Cinema City Classic Alvalade, 18h15m

Numa das primeiras edições do Indie, à saída de Wild Blue Yonder de Werner Herzog, um famoso estrangeirado blogoesférico virou-se para mim e afirmou: "Ontem caguei e o que saiu foi mais bonito". O único comentário que tenho a fazer acerca deste filme é mesmo esse.

26 abril 2009

IndieLisboa 2009 (II)


Cobra Verde de Werner Herzog, Herói Independente, Sábado 25 de Abril , Fórum Lisboa, 19h00m

Não deixa de ser curioso que os filmes feitos por Werner Herzog com Klaus Kinski, sendo todos sobre falhanços (o de Aguirre, o de Fitzcarraldo ou o até o do Conde Drácula), sejam em si tão bem conseguidos. O último filme da autêntica sinergia criativa entre os dois germânicos, datado de 1987, não chega aos píncaros de Aguirre der Zorn Gottes (1972) ou de Fitzcarraldo (1982) mas está muito perto. Contando a história de Francisco Manoel Da Silva, o bandido brasileiro conhecido por Cobra Verde que acaba por ser contratado como capataz por um fazendeiro e mandado para a sua morte em África (onde ainda tem tempo para depor um rei), depois de engravidar as três filhas do patrão, é Herzog naquilo que este faz melhor: um cinema em constante estado de alucinação febril, onde explosões de violência se misturam com uma ideia bastante grotesca de exotismo. Exalando calor tropical e sem espaço para subtilezas, utilizando um traço grosso na definição de situações e personagens, é um cinema de uma fisicalidade imensa que, no limite e despudoradamente, se encontra nos antípodas de um politicamente correcto pós-colonial: é certo que termina com um libelo anti-escravatura, mas o então denominado Terceiro Mundo é aqui um lugar de medo, de um desconhecido fascinante pelo que tem de horrível. Como os outros, é um filme sobre um sonho que corre mal – o da personagem título em ir para a neve, para longe do calor infernal que o limita. E é uma belíssima obra que, na sua cena final, espelha o fim da relação entre Kinski e Herzog.




IndieLisboa 2009 (I)


Snow de Aida Begic, Cinema Emergente, Sexta-feira 24 de Abril, Cinema City Classic Alvalade, 21h30m

O primeiro aspecto a ter em conta no IndieLisboa 2009 é a inclusão das salas Cinema City Classic de Alvalade no grupo de locais onde os filmes são exibidos. Ainda que na periferia do festival – afastadas do eixo Fórum Lisboa/Londres, sem a pompa do S. Jorge e com duas das quatro salas a continuarem a exibir a sua programação comercial –o espaço é pequeno mas agradável, com boas condições de imagem e som, excelentes cadeiras e um muito apelativo foyer, com os bolos do café a sorrirem para o espectador. Tivesse o complexo uma selecção de filmes análoga à do King e seria o fim da cada vez mais cavernosa e desconfortável sala da Avenida de Roma. Uma bela surpresa.

Não me posso queixar, de maneira nenhuma, do primeiro filme que vi no Indie em 2009. A longa de estreia de Aida Begic é um sóbrio retrato de uma semana na vida na Bósnia Herzegovina em 1997, depois da limpeza étnica conduzida pelos sérvios ao longo da década de 1990. A povoação, maioritariamente composta por mulheres (apenas o mullah e um rapaz sobreviveram à chacina selectiva dos anos anteriores), vive na esperança de conseguir sobreviver vendendo compotas, mas não há quaisquer compradores nas imediações. Até ao dia em que chegam um bósnio que sobreviveu e que faz transporte de móveis da Alemanha para a Bósnia e um sérvio que, acompanhado por um estrangeiro, tenta comprar a terra para aí estabelecer um empreendimento turístico.

Snow é um filme sem golpes de asa (e que não os tenta ter, com a excepção da catarse final do grupo) mas que cativa por ser tão sólido. Linear e iminentemente realista, filmado com câmara de mão e com uma montagem fluida, é um duro retrato da persecução da vida por um grupo de mulheres que, comoventemente, continua a sua vida sem nunca perguntarem o porquê do seu destino, com a naturalidade de quem sempre aquilo fez e de quem continuará, aconteça o que acontecer, no único lugar que conhece, à espera de dias melhores. Nessa medida, a neve do título funciona, então, como metáfora da mudança de estação, dos tempos que tragam a melhoria de condições merecida pela manutenção do dever.

Merecia a estreia nacional – até porque já vimos bem pior. Que o senhor Paulo Branco acorde e dê a mais gente a hipótese de ver um filme que, não sendo uma obra-prima, merece todos os pares de olhos que encontrar. Destaque final para a enorme fotogenia da protagonista Zana Marjanovic.

29 maio 2008

Indiegências 2008

IndieLisboa e Johnnie To confundem-se. To tem sido um cineasta representado em (creio) todas as edições do festival, fruto da sua proficuidade – média de 2/3 filmes por ano. No meu caso específico, estreei-me no IndieLisboa na primeira edição, em 2004, com um filme do chinês, o belíssimo Breaking News. Depois da exibição de outros filmes como Yesterday Once More, Exiled e Election, o certame homenageou, nesta sua quinta edição, Johnnie To com a exibição de dois dos seus filmes na secção Herói Independente.


O primeiro desses filmes, logo na noite de abertura e perante casa cheia, foi o brilhante The Mission (1986), 'western' urbano a um tempo cinético e flutuante, sobre um grupo de homens contratados para proteger um chefe do crime ameaçado por um rival. Filmado com lentes potenciadoras da profundidade de campo e com momentos de 'empate técnico' nas sequências de acção geradoras de enorme tensão dramática (e muito diferentes das de John Woo, onde dois “pistoleiros,” a poucos centímetros de distância um do outro, apontam reciprocamente armas à cabeça), é um belo exemplo de como fazer grandes e pessoalíssimos filmes de acção sem inventar o que quer que seja, reorganizando apenas os elementos de acordo com a sua voz pessoal. Aqui, To vira-se para a amizade lacónica que surge entre o grupo de homens e que os leva, em última instância, a arriscar reputação e vida em prol do mais irresponsável dos membros do grupo. O IndieLisboa começou em grande…


… mas decaiu um pouco logo de seguida. Mad Detective (2007) está uns quantos furos abaixo do filme anterior. Esta história de um ex-detective que julga poder ver a verdadeira personalidade das pessoas começa devagar, com diversos por menores que nunca são bem explicados ou assimilados pela narrativa, ancorada numa encenação pouco mais do que eficaz. Apenas no seu explosivo final, roubo/homenagem a The Lady From Shanghai (1947) de Orson Welles, assume o seu potencial. A forma de definir as personagens através da personificação da sua personalidade é especialmente bem conseguida nos casos da ex-mulher do detective e do polícia investigado, mas parece que, até ao término, o filme pouco mais tem que esse truque. Felizmente, no fim tudo se transforma numa tragédia, o que acaba por salvar Mad Detective da irrelevância a que, durante uma hora, parece estar condenado.


O grande brinde desta retrospectiva foi, no entanto, Sparrow (2008), última obra de Johnnie To e que, pelo menos à data do festival, não estava comprado para exibição em Portugal. Homenagem assumida a Les Parapluies de Cherbourg (1964), encena, numa cadência vincadamente musical, a ajuda que quatro carteiristas dão a uma 'femme fatale' que se quer livrar do senhor do crime (velho e experiente carteirista) que sempre a sustentou. Bailado fílmico mais do que filme de acção, será lembrado pela sequência na passadeira, momento de confronto entre duas gerações e dois estilos de crime, longos minutos de seguríssima coreografia de qualquer coisa como “a arte de roubar”. Leve como um divertimento mas sério como a maior obra de arte, é talvez, de entre os já vistos, o melhor filme de Johnnie To, aquele onde um estilo pessoal e as componentes lúdica e, sem quaisquer receios, comercial da sua obra melhor coexistem. A estrear, o mais depressa possível.

*****


Fora do ciclo central do certame, destaque também para um Ferrara de muito bom nível. Go Go Tales (2007) pega no tema central e no contexto (decadente clube nocturno nova-iorquino) de The Killing of a Chinese Bookie (John Cassavetes, 1976) e volta a encenar a história da persecução de um sonho visto apenas por uma pessoa e por meia-dúzia de comparsas indefectíveis. Juntando um grupo de actores de grande nível (Willem Dafoe, Asia Argento, Matthew Modine, Bob Hoskins), acentua o lado capriano da revolta e da vontade de sucesso num homem comum e resulta num divertimento sensual, ritmado e perfeitamente integrado na estética nocturna e virtuosa do ítalo-americano.


No meio da qualidade cinematográfica que, a julgar por estes quatro filmes, terá pontuado esta edição do IndieLisboa 2008, pena que o último filme que tive a oportunidade de visionar nesta edição tenha sido o insuportável Charly (Isild LeBesco, 2007) lentíssima e desnecessária história de um jovem fugitivo que encontra numa prostituta azeitola…o quê? Não se percebe muito bem, mesmo depois de uma hora e meia onde uma das personagens onde uma das personagens não diz mais do que “je sais pas” e a personagem-título anda a cirandar pela roulotte onde vive a berrar por tudo e por nada. É um monte de merda, um daqueles filmes que mais não tem que a pose alternativa e “intelectual” ajudada pela câmara digital com que é feito. Se é bom ver filmes feitos com meia dúzia de tostões, outros há que não conseguiriam ser salvos por milhões de dólares. Este é um deles. Paciência.