08 março 2010

Linkous RIP

Mark Linkous, dos Sparklehorse, suicidou-se ontem.

04 março 2010

E porque no Domingo há palhaçada...

... se eu quisesse saber, eram estes os vencedores que desejaria.

Melhor Filme: Inglorious Basterds
Melhor Realizador: Quentin Tarantino
Melhor Actor: Colin Firth (Ainda não vi Crazy Heart, onde dizem que Jeff Bridges está magnífico)
Melhor Actriz: Gabourey Sidibe
Melhor Actor Secundário: Christopher Waltz
Melhor Actriz Secundária: Anna Kendrick
Melhor Animação: Up
Melhor Filme Estrangeiro: Un Prophete
Melhor Argumento Adaptado: District 9
Melhor Argumento Original: Inglorious Basterds

No que concerne às escolhas possíveis, prefiro que ganhe a senhora Bigelow ao senhor Cameron.

24 fevereiro 2010

Fucking & Punching (Californication em versão Gonzo)





Na altura, deixei aqui grandes reticências relativamente ao modo como o argumentista Tom Kapinos iria conseguir dar uma segunda temporada a Californication. No final da primeira, apesar do "cliffhanger" do romance roubado, tudo parecia resolvido, pelo menos o mais importante. Hank tinha recuperado a família, tudo parecia encaminhado. Por isso, o meu obrigado à equipa que produziu e realizou a segunda temporada de Californication, continuando a dar-nos uma das mais estimulantes e hilariantes séries de televisão contemporâneas. Daquelas que nos fazem ter vontade de ter uma garrafa na mão e guiar um Porsche todo fodido por Mulholland.

Se dúvidas havia acerca de como perpetuar esta história, Kapinos resolveu-as criando diversas narrativas paralelas: as aventuras “baixo coturno” de Charlie Runkle, vicio e pornografia à mistura; a possível nova paternidade de Hank, o vicio da cocky smurf, como lhe chama Moody; ou, sobretudo, the life and times of Lew Ashby, produtor musical que não desdenharíamos, pela vida que leva e pelo mundo interior que, apesar de tudo, ainda vai tendo, ver almoçar com Frank Zappa ou gravar Vol. 4 com os Black Sabbath. Ao redor de tudo, Hank e Karen como uma das mais belas histórias de amor do nosso tempo, dois seres que se amam até à morte mas que, por isto, aquilo ou aqueloutro, acabam sempre separados.

Mas a segunda série marca também o aprofundamento da personagem Hank Moody . A lover, not a hater, diz Mia (que é precisamente o contrário…). Alguém que perdoa sempre tudo e a quem nada é perdoado. Com uma conduta moral perfeitamente delimitada, a quem tudo acontece e que sonha com uma redenção que, a vir, estará sempre longe demais. E que nunca deixou de se apaixonar por cada mulher que conheceu, por dez minutos ou dez anos. Fox Mulder, enfia os homenzinhos verdes pelo cú acima que é o que fazes melhor. David Duchovny, no trabalho da sua vida, volta a mostrar como a decadência assenta melhor aos belos.

E, por último, há aquela cidade. Devorando quem por ela passa, semeando seres sós. Como um Coronel Kurtz que escreve livros em vez de os habitar, é dela que Moddy tira os seus estímulos. E é dela que Moody recebe as suas ordens. E é por causa dela que está perdido.

23 fevereiro 2010

Sumaríssimos (11)


Depois de O Maldito United, o novo filme de Ken Loach, Looking for Eric, é a segunda fita britânica em pouco tempo com o futebol como pano de fundo. Filme sobre as fantasias que criamos para nos proteger, sobre segundas oportunidades e sobre a solidariedade da classe operária britãncia, é uma obra de ritmo fácil, que junta um ou outro grande momento (o raid da polícia à casa de Eric; a vingança dos carteiros Cantona) ao cânone de Loach. Não é tão bom quanto o cortante Chuva de Pedras (1994), mas ninguém pode dizer que não resulta. Sobretudo, tem uma excelente sequência: a da conversa sobre a transformação do Man United de clube popular em símbolo do sucesso globalizante e desigual. É quem ficou de fora desta mutação que Loach continua a acompanhar, num percurso que, quando muito, só pode pecar por excessiva coerência. E ainda bem.

21 fevereiro 2010

Um dia na vida


I read the news today oh boy

About a lucky man who made the grade

And though the news was rather sad

Well I just had to laugh

I saw the photograph


He blew his mind out in a car

He didn't notice that the lights had changed

A crowd of people stood and stared

They'd seen his face before

Nobody was really sure

If he was from the House of Par.


I saw a film today oh boy

The English Army had just won the war

A crowd of people turned awaybut I just had to look

Having read the book


I'd love to turn you on


Woke up, fell out of bed,

Dragged a comb across my head

Found my way downstairs and drank a cup,

And looking up I noticed I was late.

Found my coat and grabbed my hat

Made the bus in seconds flat

Found my way upstairs and had a smoke,and

Somebody spoke and I went into a dream


I read the news today oh boy

Four thousand holes in Blackburn, Lancashire

And though the holes were rather small

They had to count them all

Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.


I'd love to turn you on..................................................................


A Day in the Life, The Beatles

17 fevereiro 2010

Como se já não bastasse tê-lo visto, também perdi tempo a escrever sobre ele...

Já não é de agora: de quando em vez, os Coen perdem-se por entre uma vontade arty que só prejudica os objectos em causa. O melhor exemplo é Barton Fink: visualmente apelativo, com meia dúzia de ideias, neste caso sobre a época áurea de Hollywood, mas estéril quando reduzido à sua essência. Outro exemplo é o absolutamente bacoco O Brother, Where Art Thou, desenxabida transposição da Odisseia para um contexto norte-americano sulista. É pena, pois quando se preocupam apenas em filmar de frente, sem peneiras ou tiques, tendem a fazer belos filmes – o ponto onde atingem o equilíbrio é o ultra-maneirista mas consequente Blood Simple.

A Serious Man é o mais recente falhanço de uma carreira que nelas tem sido pródiga, e entre esses falhanços ocupa um dos locais cimeiros. Filme sobre as coisas más que acontecem a pessoas boas, passado nos anos 60 num subúrbio do Minnesotta e que segue um homem a quem tudo parece correr mal, pessoal e profissionalmente, descamba muito cedo. Explicitamente, no prólogo que tenta situar a narrativa num âmbito ancestral, com uma maldição judaica decorrente de um hipotético encontro de um casal com um fantasma. O problema é que esse prólogo, de tons tarkovskianos, é de utilidade e interesse muito duvidosos. O que se segue é do mesmo nível, desde os momentos mais derivativos dos filmes de Woody Allen até ao plano final absolutamente vazio, num filme que se compraz com a destruição sucessiva da sua personagem principal e que, por entre um pretenso simbolismo irritante, não tem um único momento memorável. O que parece evidente é o seguinte: perante a ausência de conteúdo, os Coen tudo fizeram para insuflar a forma. Não conseguiram e esteticamente este filme, quando não apenas enfadonho, é simplesmente grotesco. A Serious Man é para esquecer.

10 fevereiro 2010

Cagandamerda!


Se quiserem ver como se desbarata o crédito amealhado com dois filmes que vieram subir o nível da carreira dos irmãos Coen nos últimos dez anos, vejam A serious man. Isto é, se quiserem perder duas horas da vossa vida.


(A explicitar em breve)

01 fevereiro 2010

Cinema de época


Era simpático, Juno (2007). Filme pequenino, orgulhoso de si mesmo, que sofria apenas com um certo “fazer independente”, um conjunto de tiques que, no limite, por vezes formatam o cinema independente norte-americano de uma forma tão opressiva quanto o mais banal cinema comercial. O orgulho mantém-se em Nas Nuvens, mas este é um filme crescido, para adultos e que será decerto recompensado, pelo menos em nomeações, pela Academia. Filme sobre estratégias de sobrevivência e a forma de as ultrapassar em direcção a algo mais, conta com um extraordinário desempenho de George Clooney, versão crápula irresistível, no papel de Ryan Bingham, profissional do despedimento que estruturou toda a sua vida em redor da eficiência nas constantes viagens de avião e que anseia por angariar dez milhões de milhas de passageiro frequente. Até que o contacto com um equivalente feminino (regular Vera Farmiga) e com uma recém-licenciada da Ivy League (a revelação Anna Kendrick) o lembrarão do que anda a perder.


Vamos por partes: metade de Nas Nuvens é absolutamente fascinante e eminentemente recompensadora. Nela, explora-se Bingham, os mecanismos que povoam o seu mundo, o seu isolamento e a sua perturbante amoralidade, pessoal e profissional, que o tornam um delicioso exemplo máximo do capitalismo que, a um tempo, conduziu à presente crise e dela colhe os lucros – Billy Wilder teria gostado da personagem. Sobretudo, é nesta parte que há exemplos, do mais humano e comovente que vimos, dos efeitos reais da crise, na pessoa daqueles que são despedidos. Com The Girlfriend Experience de Steven Soderbergh é, até agora, o mais pertinente olhar sobre as alegrias que Wall Street nos trouxe nos últimos anos. No entanto, o realizador Jason Reitman (filho do tarefeiro Ivan), que filma com competência e alguma personalidade, não resiste a puxar Bingham para o reino da moral familiar e comezinha, que tem todo o seu encanto mas, esteticamente, é uma opção desinteressante, que acaba por amputar o efeito do filme.


Se o final o redime parcialmente, devolvendo Bingham à solidão que o caracteriza, deve-se prezar menos a coragem de um final infeliz moralista (a oportunidade de Bingham ser como os demais perdeu-se, devia ter pensado nisso antes) do que a tal componente “política” do filme: Bingham, enquanto emissário da crise, estará condenado ao purgatório das viagens constantes enquanto esta continuar. Afinal de contas, Nas Nuvens é um filme de época. A nossa.

31 janeiro 2010

Sumaríssimos (10)


Quando vi Invictus pela primeira vez, num visionamento de imprensa, gostei bastante. Contudo, na manhã desse mesmo dia, havia visto Antichrist, o equivalente cinematográfico de uma arbitragem do Carlos Xistra num jogo do Porto. Há a hipótese de, perante o asco que o filme de Von Trier me provocou, o de Eastwood ter saído beneficiado. Já revisto, percebo pouco o clamor de mediocridade: não sendo nem de longe o melhor Eastwood, mantém a classe a que nos habituámos, expandindo-a na direcção da História e da enorme figura de Nelson Mandela, bem como o requinte classicista, linear e popular do costume. Tirasse o cineasta aquelas duas horríveis canções e seria tão seco quanto qualquer outro. É normal: de quando em vez, Eastwood faz filmes de grande qualidade que são “engolidos” pelas suas obras-primas (basta ver os casos de Absolute Power e True Crime, entre outros). Invictus é só mais um. Mas, já agora, permitam-me realçar dois momentos superlativos do filme: a sequência do avião, a lembrar o 11 de Setembro; e, acima de tudo, Mandela ao espelho com espuma de barbear a cobrir-lhe meia face, reflexo perfeito de um país metade negro e metade branco.
Ainda assim, e dado que estamos a falar da crítica de cinema nacional, importa perguntar se não estamos perante um caso de diminuição por motivos políticos. Exemplos: na crítica da Time Out, lida na diagonal numa banca de jornais, João Miguel Tavares compara o filme a um discurso de Hugo Chávez. Ousadia de Eastwood, a de não nos revelar o bandido que é Mandela!

29 janeiro 2010

Salinger RIP


Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behaviour. You're by no means alone on that score, you'll be excited and stimulated to know. Many, many men have been just as troubled morally and spiritually as you are right now. Hapilly, some kept records of their troubles. You'll learn from them - if you want to. Just as someday, if you have something to offer, someone will learn something from you. It's a beautiful reciprocal arrangement. And it isn't education. It's history. It's poetry.


A Catcher in the Rye, Penguin Books, ed. 1994, pag.170

26 janeiro 2010

Sumaríssimos (9)


Zombieland levará na cabeça da maioria da crítica até ao dia em que Quentin Tarantino disser bem dele numa qualquer entrevista. História de uma família afectiva criada em pleno apocalipse de mortos-vivos nos EUA, a estreia de Ruben Fleischer na realização esconde por trás da sua alegoria de união entre seres solitários o desejo de ser o mais divertido arraial de porrada que alguma vez vimos num filme. E consegue: vísceras espalhadas, sangue vomitado, bastonadas nas trombas, um uso em elipse de um tesoura de podar sequóias, balázios nos cornos, atropelamentos, marteladas na cachimónia de um palhaço ou quedas de máquinas em parques de diversões, não há virtualmente nada que aqui esteja ausente. Retirando ao filme de zombies a carga política que George Romero lhe deu no seminal A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e que foi seguida por Joe Dante no magnífico Homecoming (2005) da série Masters of Horror ou na metade Planet Terror de Grindhouse (2007), diferente da genial comédia Shaun of the Dead (2005) de Edgar Wright, Zombieland é o filme grunho por excelência, onde a chalaça convive com a violência e o cuidado artístico “cibernético”com o uso não muito requintado do bastão de baseball. Para o fim, no entanto, guarda-se o melhor: o extraordinário cameo de certo e determinado mito de Hollywood, também ele apostado em entrar na parvoíce e fazendo-o a custas de certa imagem “indie” cultivada nesta década. Não convém criar habituação, mas de vez em quando sabe bem ver um filme sem pensar na Política dos Autores ou no formalismo russo e ser grunho. Só um bocadinho, para não criar habituação.

25 janeiro 2010

TAKE 21 - Dezembro / Janeiro


Aqui está mais um numero da Take. De entre as diversas coisas que fiz, aqui aproveito para destacar os artigos sobre os anos de 2005 e 2009 no especial da década. Disfrutem do número na íntegra, que vale bem a pena.

21 janeiro 2010

Oportunidade única!

Numa das maiores iniciativas culturais dos últimos dias, o Youtube resolveu disponibilizar alguma da melhor poesia da década passada. Vejam e vejam depressa, antes que sejam retiradas por infracção dos direitos de autor (ou algo parecido). Vão ver que vale a pena. Aqui.

20 janeiro 2010

Já vi muita coisa depravada no meu tempo...


...mas como isto ainda não tinha visto nada.


(A elaborar num futuro número da Take)

Rendido!


14 janeiro 2010

O melhor do mundo são as crianças?


Thomas Mann escreveu um dia que a génese do nazismo podia ser encontrada no romantismo e no consequente insuflar do sentimento nacional. Conhecendo um pouco a época, parece óbvio que tinha razão. Mas agora Michael Haneke vem dar outra hipótese, concomitante com a primeira: e se na sua génese estivesse também o puritanismo, com os seus mecanismos sociais e ideológicos? O resultado é O Laço Branco, mais um excelente filme de um dos maiores cineastas europeus da actualidade.

E como em tudo nos filmes de Haneke, nada é simples: uma vila alemã no início do século começa a ser palco de ocorrências estranhas, desde um atentado à vida do médico local ao incêndio do celeiro dos latifundiários da vila. Narrado pelo professor, em processo de corte de uma jovem dificultado pelos acontecimentos, coloca-se uma hipótese: e se as crianças da vila, aparentemente inocentes e constantemente lembradas dos ideais de pureza a que supostamente respondem (o uso de um simbólico laço branco na roupa ou no cabelo é um castigo por travessuras pouco condizentes com a prática social da época), estivessem por trás dos acontecimentos? Como habitual, não é dada uma resposta taxativa – ser taxativo com acontecimentos históricos a um século de distância é complicado - mas o papel dos petizes nos filmes do austríaco foi sempre de disrupção, agindo para perturbar o mundo padronizado e confortável dos adultos. O que parece pouco inocente é o término temporal do filme no início da Primeira Guerra Mundial: se a um contexto de repressão e de medo (vejamos a fantástica cena em que o pai castiga a masturbação do filho com o amarrar das suas mãos à cama) juntamos uma juventude à vontade com a prática do mal e as agruras trazidas pelo Tratado de Versailles, podemos ter, década e meia depois, com os mesmos jovens a caminho dos 30, a semente do nazismo. As declarações de Haneke na promoção ao filme vão nesse mesmo sentido.

Ascético, duro e sem momentos explosivos, num olhar clínico e distante, ajudado pelo imenso contraste do seu preto e branco, O Laço Branco é um filme cerebral e quase “de tese”. A reconstituição é óptima mas o melhor é como o rigor da mise-en-scène se conjuga com o tom uniforme, formando um objecto sem qualquer cedência relativamente ao modo de pensar e de enquadrar a História como hipótese de arte e a estética como demonstração de ética. O espectáculo histórico, na figura de super-produções que simplificam processos históricos e substituem a qualidade estética pela imponência das super-produções, não passa por aqui. Ainda bem.


Apenas uma nota final para os distribuidores: se o filme for num preto e branco constrastado, por favor coloquem as legendas a amarelo, azul, vermelho ou lilás, mas nunca a branco. Vão ver que os espectadores que não falam a lingua das personagens agradecem.

11 janeiro 2010

E ainda dizem que não há insubstituíveis (III)









Rohmer RIP


É certo que Truffaut morreu há mais de 25 anos, mas foi um caso isolado. Sinto que com a triste notícia de hoje, se marca o início do desaparecimento da geração que dos Cahiers se transformou em Nouvelle Vague.