29 junho 2011

Debate Cinema na RTP2 1/4

Eis a primeira das quatro partes relativas ao debate Cinema na RTP2, que vamos publicando até 5 de Julho, dia em que fechamos a nossa petição. Esta primeira parte é marcada, essencialmente, por intervenções do moderador Luís Mendonça e do meu colega peticionário, Ricardo Lisboa, o autor do blogue Breath Away, e pelas primeiras palavras proferidas pelo cineasta João Mário Grilo. A não perder.



DEBATE CINEMA NA RTP2 1/4 from Luis Mendonca on Vimeo.

Limpar a casa (1)

Numa altura em que, em mais do que um aspecto, aparece como fundamental limpar a casa e começar de novo, aqui fica a primeira parte de uma uma lista de filmes que tenho visto. A segunda parte, a publicar nos próximos dias, integrará também filmes vistos em casa.

The Adjustement Bureau de George Nolfi – Um dos piores do ano. Um blockbuster sem alma, que desbarata as enormes ideias de Philip K Dick (um escritor que, cada vez mais me convenço, é de ideias muito superiores à sua concretização) num thriller banal e mal amanhado, uma pretensa reflexão sobre o destino que não vai a lado nenhum. Resta apenas a invulgar química no ecrã entre Matt Damon e Emily Blunt, a serem futuramente emparelhados por um cineasta digno desse nome.

Winter’s Bone de Debra Granik – É um filme que pode ser visto como o salto do neo-neo-realismo (na terminologia do crítico norte-americano AOL Scott) na direcção do grande público. De narrativa menos esparsa do que Wendy and Lucy ou Shotgun Stories, é no entanto uma tocante história de superação e de sobrevivência, filmada de forma económica e ríspida, como filmaria Kaurismaki não fosse a sua ironia escarninha sempre presente. Cinzento e violento, road movie, melodrama e filme de terror num só, não poupa o espectador à dura realidade da vida dos esquecidos pela globalização e serve como mais uma demonstração da vitalidade deste cinema de guerrilha, apostado em mostrar-se como a fase menos vísivel mas mais vital do cinema americano contemporâneo.

Tournée de Mathieu Almaric – Estranhamente baseado em Paulo Branco, numa visão diametralmente oposta à que aqui temos dele, Almaric continua o seu percurso superlativo tratando a fuga em frente de um produtor de um espectáculo itinerante de burlesco, a última oportunidade de alguém que desbaratou todas as anteriores e que continua em frente por ser a única coisa que sabe fazer. Misturando a seu bel-prazer a ficção e o documentário, através dos interlúdios que focam os números das artistas que interpretam as personagens, é um filme enérgico, ciente da sua dimensão e de um realismo estilizado que contrasta com muito do que se vê por aí. Não tinha visto O Estádio de Wimbledon, mas para além de actor fiquei convencido de que temos cineasta.

Kaboom de Greg Araki – Mais um belíssimo filme de Gregg Araki. Depois do mais comercial, mais “aberto” Mysterious Skin, este Kaboom é um filme mais de acordo com as coordenadas habituais do cinema de Araki, queer, pequeno, furiosamente independente e enérgico nas suas ideias. Misterioso, encena com orçamento reduzido e criatividade em roda livre um percurso de iniciação sexual num contexto universitário que funciona como período intermédio entre a adolescência e a idade adulta, ainda por cima sem medo de focar literalmente, em registo de fábula alucinada, o carácter apocalíptico das inquietações sentimentais da pós-adolescência, adicionando ainda um saudável lado lúdico na sua intriga. Uma boa surpresa e um bom caminho para o cinema Nimas, que pode bem continuar a mostrar, por períodos de tempo limitados, este objectos mais idiossincráticos.

Les Amours Imaginaires de Xavier Dolan – É demasiada a moda, é demasiado o lado chique, é demasiado o kitsch, é de menos o talento. Esgotadíssima a fórmula La maman et la putain, restam as cores, a música em formato pastiche e os péssimos interlúdios confessionais, a tentar dar uma ideia geracional que, valha a verdade, até pode haver – é um filme “da cena”, fácil de imaginar a ter lugar entre o Bairro Alto e o Cais do Sodré – mas que não substitui a falta de cinema que aqui se vê.

The Hangover II de Todd Philips – O primeiro já de si não era genial, longe disso, mas tinha uma premissa interessante, nomeadamente a reconstituição de uma “noite branca”, o último momento de perdição antes do mais prezado ritual de entrada na idade adulta. O segundo mais não é do que uma perfeita cópia do primeiro, mudando o contexto de modo a atrair mais espectadores, aproveitando o potencial turístico da Tailândia e tentando aproveitar o lado escuro da cidade de Banguecoque para extremar a acção. Falha redondamente. São muito menores os momentos de comédia (os gags envolvendo o brilhante comediante que é Zach Galiafinakis são quase todos desaproveitados) e, de caminho, chama de novo a atenção para o pudor que está por detrás da sua premissa: se é a noite que é de perdição, porque não mostrá-la, em vez de se focar na sua reconstituição elíptica? Resposta possível: porque assim, passa-se por transgressor e faz-se dinheiro ao mesmo tempo, não chocando muita gente. Fraquíssimo.

The Tree of Life de Terrence Mallick – Não há, em 2011 nem na última década, filme mais complexo, mais discutível nos seus propósitos e significados nem filme que dure mais além da sua visão, que gere dúvidas e inquietações em quem vê. No meu caso, tenho dois problemas, interligados, com ele: por um lado, a sua tentativa de evocação demiúrgica, darwiniana, que causa alguns dos mais penosos momentos de tédio que vivi numa sala este ano; e, por outro, como já me havia acontecido em The New World, a poesia visual de Mallick é-me, pelo menos de momento, bastante indegesta. Não tenho a mais pequena dúvida de que há nele um grande filme – o da família em luta consigo mesma – mas não contem comigo para entrar nos momentos iniciais e finais, onde essa mesma poesia visual atinge o seu expoente. Quem sabe como o verei daqui a alguns anos.

Valhalla Rising de Nicolas Winding Refn– Na projecção, a primeira coisa que vemos, em garrafais letras brancas sob fundo negro, é o nome do seu cineasta. No caso, mais do que declaração autoral, é um flagrante caso de narcisismo, confirmado pela estética vazia e insuflada desta história de um guerreiro zarolho que se escapa dos pagãos e vai como mercenário dos cristão nórdicos numa peregrinação à Terra Santa que se perde e acaba no Novo Mundo. De personagens e ideias uni-dimensionais, resta uma panóplia de recursos estéticos francamente irritantes, de tintagens a composições de planos a armar ao bergmaniano, de tons cinzentões e lutas alegadamente estilizadas a uma música que dá vontade de arrancar os tímpanos pelas orelhas. Falou-se de Mallick e Herzog, mas o pior lado da estética pessoalíssima destes cineastas é que se aplica a tudo o que tente armar ao pingarelho – eu apontaria mais o narcisismo e a vacuidade do von Trier de Antichrist como influência (deve ser coisa nórdica). Por mais que se o tente polir, no fim do dia um excremento é um excremento.

04 junho 2011

Sexy mother****er!




Parece impossível, mas houve um tempo em que as pessoas, quando algo não lhes agradava e a situação chegava ao limite do impossível, pegavam em armas e saíam à rua. Bombeavam, matavam e toda uma outra série de comportamentos inaceitáveis, mas ao menos não baixavam as calças e esperavam que doesse pouco. E, muitas vezes, faziam-no por todos os motivos errados: jovens burgueses, com a barriga cheia, viam na luta armada o paliativo para as suas existências ennuiées, como o caminho mais acessível para a glória ou como catalisador sexual. Carlos, o Chacal, desde 1997 numa prisão francesa a cumprir uma sentença perpétua pelo assassinato de quatro pessoas num apartamento parisiense, foi, mais até do que Guevera, homem de convicções profundas, o paradigma deste tipo de guerrilheiro. Sex symbol, fashion icon e ladies man de excelência, só era ultrapassado nestes campos pela sua falta de renitência em matar em nome de uma luta que, a certo ponto, já nem o próprio sabia qual era. Uma daquelas pessoas que mascara sob a abnegação um narcisismo absolutamente doentio, ajudou a cristalizar a imagem do terrorista na moda (a boina, a barba e o casaco de cabedal não enganam), teve alguns atentados irreais de tão desastrosos e deixou-se amigar por alguns dos regimes mais podres da história recente, tendo sido a principal vedeta do terrorismo islâmico-chique a soldo, por exemplo, da Síria e do Iraque de Saddam Hussein. Carlos, biopic realizado, primeiro enquanto série de televisão de cinco horas e agora enquanto filme de quase três, mostra-o assim, o definitivo sexy motherfucker, naquele que é um dos melhores filmes da carreira de Olivier Assayas.

Carlos corresponde claramente a um esforço de internacionalização de Olivier Assayas. Depois de dois filmes realizados em inglês (Clean e Boarding Gate) e depois daquele que considero o seu melhor filme (L'heure d'été, magnífico), surge agora o filme, filmado on location por todos os locais que na realidade viram os acontecimentos. E apetece-me dizer que era o filme de acção por que esperava: frenético, inteligente e que faz o tempo passar a correr, sempre num permanente sobressalto. Sempre achei que o cinema de Assayas, os seus enquadramentos sempre muito juntos dos actores e os seus movimentos de câmara constantes, longe da religião cinematográfica francesa do plano fixo, poderiam dar azo a algo de mais enérgico, de mais virulento, e foi aqui que o conseguiu. De fazer corar os filmes da saga Borne com o seu virtuosismo, aplicando diferentes tons cromáticos às diferentes épocas, lembrando os tons queimados do cinema americano da década de 70 e com sequências antológicas (todo o ataque à sede da OPEP em 1975, o maior de todos os seus muitos falhanços), nem sequer se esquiva a dar uma curiosa leitura freudiana à carreira do seu objecto de estudo - repare-se em como, aquando dos primeiros sucessos, vemos Carlos nú, saído do banho, contemplando a sua pujante masculinidade e como, no fim, gordo e desterrado no Sudão como relíquia do pós-Guerra Fria, sofre de... uma infecção nos testículos! Mesmo electrizante, Carlos não deixa de sofrer dos seus defeitos, nomeadamente a falta de aprofundamento das personagens, quase todas demasiado planas, bem como a falta de aprofundamento histórico das situações, o mais das vezes mais enunciadas do que contextualizadas, provavelmente o contexto cortado da série para dar origem ao filme. Ainda assim, é tão mais sério e mais atraente que os filmes de acção que por aí andam, é tão bem interpretado (Edgar Ramirez é pura e simplesmente genial, até ver o actor-revelação de 2011) e o seu ritmo é tão estonteante que merece todas as loas que lhe dêem.

E obviamente, é um filme ideologicamente complexo. Há uns anos, Slavoj Zizek referia que um dos aspectos complicados do cinema americano era que as únicas figuras carismáticas eram os vilões e Carlos mantém e amplia esse factor. E tem sucesso, porque todos gostamos destas figuras que pegam no seu destino e forjam a espada pela qual acabarão por morrer. Pelo Chacal da realidade, dificilmente mexeria uma palha. Pelo Chacal do filme, que como Aureliano Buendía nos Cem Anos de Solidão de Gabriel García Marquez, parece ter promovido dezassete levantamentos militares e tê-los perdido todos, de bom grado levava um balázio.

02 junho 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (3)






No Oregon de 1845, terra indómita, três grupos de peregrinos separam-se da caravana, contratam um guia fanfarrão chamado Meek e tentam cortar caminho por entre as ervas, os caminhos e os relevos do terreno. Com a progressiva falta de água, as desconfianças crescem, pensa-se em enforcar Meek e continuar sozinhos. Até que a presença de um índio, potencial informador de um batalhão de guerreiros mas também o único que sabe onde se encontra água potável, vem pôr em causa ainda mais o equilibrio precário do grupo.

O resumo faz-se em poucas linhas, mas explicar o que é a experiência de Meek's Cutoff, quinto filme de Kelly Reichardt mas apenas o terceiro ao qual foi dada alguma atenção, torna-se muito mais dificil. Porque é completamente contestada a narrativa tradicional, com um princípio in media res, onde somos lentamente informados do que se está a passar, e com um final em aberto, propositadamente ambíguo, que pode parecer uma fuga à incapacidade de fechar o filme mas que, bem visto, corresponde perfeitamente às relações entre culturas diferentes, sempre a ser trabalhadas e moldadas. É também estranho o ritmo lento de um filme sempre em movimento, o olhar distanciado de Reichardt, quase sempre em planos afastados ou médios, e o seu realismo extremo e sem maquilhagem, retirando qualquer poesia ou espectáculo ao western e tornando-o muito mais próximo do que a realidade da expansão americana deve ter sido: um caminho de homens e mulheres isolados, assustados, navegando à vista num mar de terra inóspita e onde as maiores dificuldades foram suportadas em nome de um futuro, sem heroismos mas apenas com um sentido de inevitabilidade, de que não há outro caminho.

Filmado em 4:3, entalando os actores nas margens do enquadramento e criando outros sinais visuais de limitação e isolamento (a barba e o cabelo longos de Bruce Greenwood, num dos papéis da sua vida, que o tornam enigmático e pouco digno de confiança ou a touca de Michele Williams, cobrindo-lhe o rosto inteiro num simbolo perfeito da limitação das mulheres na época), tudo aponta, circularmente, para a pequenez daquela gente na imensidão do espaço cruel que os rodeia. Narradora de prosas esparsas, incompletas e que limitam tudo às suas formas mais puras, Reichardt, de novo tratando a viagem em direcção ao Oeste (também a Wendy do filme anterior ia para o Oregon para começar de novo) faz um dos filmes, mau-grado a sua dimensão propositadamente pequena, mais ambiciosos que veremos em 2011 (felizmente, mostrando estar acordada, a Alambique vai exibi-lo em sala) e um que é muito difícil pôr em palavras.










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Não foi exactamente o Indie que eu queria e a organização terá de pensar numa estratégia que não inclua exibir no último domingo filmes tão importantes num ambiente já de descompressão e de fim de certame, um festival no seu modo pós-apocalíptico (o ano passado, a última sessão foi dedicada a Visage de Tsai Ming Liang, filme decerto relevante e interessante; alguém o viu?). Além do mais, se o Grande Auditório da Culturgest dá prestigio aos filmes que exibe, pela simples formalidade do espaço, também é verdade que o festival é muito mais vibrante no São Jorge. De resto, no eremitismo que caracteriza a minha vivência actual, este ano foi um mero desvio na rotina, onde vi dois belos filmes mas que dificilmente associarei a um momento marcante ou a um ambiente eléctrico. Veremos como será a edição 2012.

22 maio 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (2)





(Antes de mais, um pequeno reparo: dada a falta de tempo e a estreia para breve de Essential Killing de Jerzy Skolimowski, o filme do polaco, a ser tratado, sê-lo-à aquando da sua estreia. A série sobre o IndieLisboa terminará em breve com o texto sobre Meek's Cutoff de Kelly Reichardt).




Enquanto os vejo, não gosto dos filmes de Pablo Larraín. Como poderia? Tudo é sórdido e viscoso, a um nível em que mesmo a mundaneidade dos acontecimentos se torna surreal e detestável. Tudo é, a um tempo, terrível e ridículo, sonâmbulo e hiper-real. É quando os filmes acabam que a experiência pode ser contextualizada, doseada e tornada suportável pela memória. E é nessa altura que, como afirmei aqui há alguns tempos, que o chileno, com Kelly Reichardt e Brillante Mendoza, se torna um dos nomes mais idiossincráticos e estimulantes a trabalhar no cinema contemporâneo, dos poucos nos últimos anos a terem o verdadeiro sabor a novidade.


Post mortem, exibido numa tarde sufocante do IndieLisboa, perante uma razoável assistência no (demasiado) Grande Auditório da Culturgest, faz com que encontremos o cineasta no exacto ponto em que o encontrámos no anterior Tony Manero. De novo uma história passada em Santiago do Chile, intimamente ligada com a ditadura do facínora Augusto Pinochet mas que a mescla com a história pessoal, de um homem (em ambos os filmes interpretado pelo excelente actor Alfredo de Castro), sempre um ser ridículo em busca da sua própria felicidade. Desta vez, Castro interpreta o funcionário do gabinete do médico-legista pusilânime Mário, que se apaixona pela corista decadente Nancy Puelma num cabaret pulgoso. Tem algum sucesso com ela, embora não tanto quanto pense, pois esta continua amigada de um jovem comunista a lutar plenamente pelos sonhos que a eleição de Allende trouxe. Quando explode o 11 de Setembro de 1973, Mário continua pusilanime, embora seja mergulhado de cabeça na barbárie dos que queriam salvar a civilização. Só quando a sua derrota se torna evidente se dá a revolta, na melhor cena final que vi em muito tempo, genial e longuíssimo plano-sequência fixo, com apenas uma pessoa a entrar e a sair do enquadramento.




Pablo Larrain é, indiscutivelmente, um excelente cineasta, de inegáveis recursos estilisticos utilizados para inserirem a perturbação no espectador. Os seus tons escuros, os planos de câmara fixa de duração esticada até ao limite, os travellings em túneis e a atmosfera malsã geral servem para transmitir a sua mundividência da época, um pequeno apocalipse num país periférico da América do Sul preso em jogos de poder bem maiores e para acossar quem vê os filmes, num método arriscado que, longe de procurar o belo, encontra a confrontação com o espectador. O perigo, dada a proximidade estética, temática e moral do anterior Tony Manero é mesmo a repetição, a mesma de que padece o escritor Luís Sepúlveda, narrador dotadíssimo de discurso repetitivo. Nesse aspecto, discretamente, há algo neste novo filme que pode passar despercebido mas que pode ser sintomático: o facto de a cena, insuportável, do choro entre Mário e Nancy decorrer antes da tomada do poder por Pinochet. Nesse sentido, o golpe de estado poderia ser visto não como o gerador do desconforto mas como a sua derradeira consequência. Espero que seja este o caminho por que Pablo Larrain seguirá, mostrando, mais do que os seus resultados, o que no Chile permitiu a chegada de uma ditadura brutal e que muitos ainda hoje defendem.


Gostei imenso. Mas só depois de acabar.

08 maio 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (1)


São dias complicados. Aqueles senhores a aterrar na Portela e tudo o que com eles aí vem gera cortes na cultura, nos dois sentidos: no dos produtores e no dos consumidores. Assim, in loco, verei apenas dois filmes, que não podia mesmo perder, para os quais os bilhetes já estão adquiridos: Post Mortem de Pablo Larrain e Meek’s Cutoff de Kelly Reichardt. Acontece que, actualmente, já há formas de tornear a falta de verbas para o cinema e, assim que vi a programação, fui à procura de formas “alternativas” de poder seguir o certame. Não fui particularmente bem-sucedido em quantidade, mas consegui obter dois filmes que poderei ver como se lá estivesse.

Mas será mesmo assim? Claro que não. Estamos apenas dois em casa, a Sandra passa uma pilha de roupa a ferro e lá vai olhando para a tv, desconfiada mas com crescente curiosidade; eu adormeço a dada altura, tendo de retroceder na visão do filme para apanhar o fio à meada. É, no fundo, bem diferente, mas é o que é possível neste momento. E o primeiro filme a sofrer as consequências foi Lemmy, realizado pela dupla Greg Olliver e Wes Orshoski, panegírico dedicado ao histórico líder dos Motorhead. Documentário de estrutura convencional, intercalando momentos na vida do objecto de estudo com (demasiadas) entrevistas a fãs (entre os quais os inesperadíssimos Peter Hook e Jarvis Cocker, entre outros mais previsíveis), aposta (e consegue) mostrar como e porquê aquilo que parece repetitivo para os não-fãs, aquela música de coices intermináveis e que parece sempre uma locomotiva em máxima potência, é fundamental para muito boa gente. Quanto ao próprio Lemmy, é como Dylan ou Young ou Cohen ou qualquer um dos outros mitos musicais retratados no cinema: alguém idiossincrático (vive num pequeno apartamento atafulhado onde estão centenas de discos e memorabilia nazi, tem um conhecimento enciclopédico do rock n’ rol e dos grandes conflitos bélicos do século XX e é um fã inveterado de jogos de vídeo), com um look absolutamente fascinante (o verdadeiro cowboy do Inferno, com a eterna barba rockabilly e botas feitas à medida) mas com uma postura enternecedora face ao filho (que conheceu quando tinha já seis anos e que hoje acompanha frequentemente a banda na estrada) e que, por entre cigarros em barda, Jack Daniels com coca-cola e o seu baixo distorcido, existe o melhor que pode e sabe – fantástica a sequência em que explica porque, apesar das groupies (deve ser o tipo de gajo que arranja queca só por aparecer num sítio), permanece sozinho aos sessenta e muitos – sem pedir desculpa a ninguém e com o comedimento que amiúde acompanha os sábios. Lemmy perde apenas pelo convencionalismo do formato, pela duração algo excessiva (podia perder meia-hora) e por não seguir aquilo que parece prometer no primeiro quarto de hora: ser um filme que parte de Lemmy para um retrato da sleazy e metaleira cena rock de Los Angeles, cidade onde o músico se radicou há cerca de 20 anos, em vez de, no último terço, se focar numa das mais recentes digressões mundiais dos Motorhead e ceder definitivamente à previsibilidade. Apesar de tudo, pelas suas virtudes e por ser sobre quem é, não desgostei mesmo nada.

PS - Ah, o subtítulo do filme é "49% Motherfucker, 51% Son of a Bitch". Genial!

03 maio 2011

O fim do Medeia Residence


Declaração de interesses: sou subscritor do Medeia Card e frequentador assíduo dos cinemas Medeia Monumental e Residence. Actualmente, prefiro-os aos do King, por lá se poder almoçar ou tomar um café num espaço arejado e povoado antes da sessão e ao Fonte Nova pela maior qualidade das salas. Porém, há defeitos inegáveis no espaço, quer no do Saldanha quer no da Fontes Pereira de Melo: lavabos que deixam a desejar, cadeiras desconfortáveis e, no Residence, a irritante vibração causada pelo regular passar do metro na linha amarela. Mas, apesar de tudo, foi lá que vi 80% dos filmes que visionei em sala nos últimos 5 anos. É, por isso, com algum pesar que recebi a notícia de que as quatro salas do Saldanha Residence serão encerradas na próxima 2ª Feira, 09 de Maio.

Por outro lado, não sei até que ponto posso dizer que estou surpreendido. Porque qualquer pessoa que vá a estes cinemas sabe que o ambiente neles vivido nos últimos tempos é absolutamente deprimente. Ainda no passado sábado, esperando pela sessão das 16h de The Source Code, estive dez minutos sozinho com a minha companheira no átrio antes de aparecer qualquer outro espectador. A exibição cinematográfica em Lisboa encontra-se no maior marasmo (os únicos eventos vibrantes e enérgicos são os festivais) e, quer pela difícil situação financeira do país quer, no caso dos cinemas Medeia, por escolhas de exibição discutíveis. É inacreditável que Paulo Branco se queixe (embora com razão) do domínio exagerado dos cinemas do “amigo Joaquim” na mesma semana em que a sala 4 do Monumental se encontra ocupada pelo filme Thor. Branco deixou-se, inclusivamente, ultrapassar por outras distribuidoras entretanto formadas e a lista de filmes importantes que não exibiu nos seus cinemas inclui obras como Ne Change Rien, Les Plages de Agnès, Entre les Murs, Tony Manero, Wendy and Lucy, Uncle Boonmee… e 36 Vues du Pic Saint Loup, para citar apenas os mais importantes. Nem filmes portugueses como a estreia de João Nicolau nas longas ou o último de Alberto Seixas Santos, noutros tempos coutadas de Paulo Branco, por lá passaram. Adicionalmente, com os buracos que criou nos multiplexes do Estádio de Alvalade e do Freeport de de Alcochete a juntar à exibição de blockbusters, mostram que de cada vez que o produtor e distribuidor sucumbiu ao gigantismo, a coisa não correu muito bem. Pelo contrário, se alguma coisa os “sucessos” recentes de Lola, Les Herbes Folles e Des Hommes et des Dieux mostram é que um peixe de aquário, se quiser competir com um tubarão, tem de o fazer num desporto diferente, o da qualidade, da imaginação na programação e da exclusividade. Também não ajuda o lado desconfortável das salas de Paulo Branco, sobretudo quando comparado com o novo e arejado CinemaCity Classic de Alvalade, esse sim a tentar cativar audiência com filmes exclusivos e um design moderno e confortável. Paulo Branco atirou-se de cabeça numa guerra desigual e aparenta estar a perder a toda a linha. Afinal de contas, da primeira vez que fui ao King, estava em exibição um filme de Sharunas Bartas…

Pode ser, então, que saia algo de bom deste encerramento. Que o tempo volte a ser de militância, de critério nas escolhas e de tentativas, para lá do muito útil Medeia Card, de dinamização dos espaços que permanecem. Que os erros sirvam de aprendizagem e que a cinéfilia em Lisboa toque a rebate e se reforce, com uma sala de reposição e, insisto, outra de exclusivo para o cinema oriental. E também pode ser que o Roberto se torne num bom guarda-redes…

02 maio 2011

O polícia e o cisne


O sargento Nicholas Angel sempre quis ser policia. Estudou, preparou-se, ficou ferido na linha do dever (esfaqueado na mão por um Pai Natal…) e bateu todos os recordes de detenções e condecorações. A paga que recebeu foi ser transferido de Londres para Sanford, a aldeia-modelo britânica, onde não poderá envergonhar os colegas metropolitanos com a sua competência devido à mais baixa taxa de criminalidade do país. Acontece que Angel irá descobrir que se calhar se esconde um submundo tenebroso por baixo daquela pacatez bucólica e o quão estranho é uma cidade ter tamanha taxa de acidentes...

Hot Fuzz, realizado em 2007 por Edgar Wright e escrito a meias entre o realizador e o actor principal Simon Pegg é a melhor comédia que vi em muito tempo, um belíssimo misto de sátira à ruralidade (e com momentos a lembrar a excelente série League of Gentlemen) e de homenagem à tradição norte-americana de buddy movies de acção (são citados Bad Boys II e o genial Point Break de Kathryn Bigelow). Inspirado no mito cinematográfico do super-polícia obcecado pelo trabalho, incapaz de desligar e que é posto ao lado de um parceiro inapto e usando um humor a um tempo situacional (o genial gag do cisne, com a participação de Stephen Merchant) é um cadinho de referências pop (da escolha da música ao explosivo final em modo western misto de Peckinpah e Leone) ao mesmo tempo que um thriller policial excepcionalmente destro, capaz de belíssimas sequências de acção e de incorporar, de forma séria e inteligente, todos os códigos de um género marcadamente americano num todo distintamente britânico – atente-se na escolha do "Village Green Preservation Society" dos The Kinks e a forma como o filme trata o difícil equilíbrio entre a necessidade de preservar a ruralidade e os perigos do fundamentalismo campestre…

Se Hot Fuzz é assim tão inteligente no argumento, é-o também porque a ele se equivale toda uma ideia estética, muito bem posta em prática por Edgar Wright. Os tons queimados, cheios de tons laranja, característicos dos filmes de Michael Bay ou de séries como CSI Miami são profusamente utilizados, a montagem é propositadamente rápida e cheia de inserts e há até espaços para o gore, com a genial morte do jornalista sob o peso da torre de uma igreja, tudo ancorado num modo de fazer humor visual ancorado nos raccords – lembremos quando Pegg pede “deccafeinated” e logo a seguir vemos duas personagens “decapitated”. Sobretudo, se é sempre uma comédia muito bem esgalhada, é na última meia hora que o filme se distingue de toda a concorrência, fechando todas as pontas num círculo perfeito e tornando-se menos a história do super-polícia do que a do tosco rural que tem de se separar da influência negativa do pai – genial o plano de Nick Frost a disparar para o ar em rima perfeita com o plano de Keanu Reeves em Point Break – e provar o seu próprio valor. Em suma, Hot Fuzz faz aquilo que todas as comédias americanas actuais tentam fazer e não conseguem: a dada altura, afasta-se da galhofice e faz-nos preocupar com aquelas pessoas, com aquele local e com o desenlace da história. Ainda não vi Shaun of the Dead (2004), mas na década que passou não vi comédia assim. Consultem a programação do Canal Hollywood e, se ele voltar a passar, não o percam.

21 abril 2011

Portaria n.º 4-A/2011

Tento, e por mais que tente não consigo fazer sentido da infame Portaria 4-A-2011, que mutila gravemente os fundos da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, tendo-a já obrigado a reduzir as sessões diárias de 5 para 3 e forçado à não emissão do belíssimo depliant a que os cinéfilos lisboetas se habituaram. Por um lado, reconheço, num tempo de abismo tão grande como o que vivemos, a necessidade de um esforço partilhado, que terá forçosamente de passar também pela cultura. E depois entra a torrente de pensamento em sentido contrário: lembro-me do despesismo constante da administração central; dos gestores das empresas públicas com salários que dificilmente teriam no sector privado; de que a sub-orçamentação da cultura em Portugal é permanente e já de si limitadora quando a economia não está tão mal. Sobretudo, pela evidente função formadora da Cinemateca, pelo modo como um espectador bem preparado se torna mais lúcido e exigente de um ponto de vista de cidadania e penso que este corte de verbas exemplifica cabalmente a forma como esta crise (e todas as anteriores) está a ser tratada, procurando resolver de imediato sem olhar para a criação de um futuro. No fundo, é como Rui Tavares escreveu no Público: quando se quer perder peso, ou se faz o caminho mais longo da dieta e do exercício ou se opta pela solução rápida e se corta uma perna. O problema é que depois é difícil andar.

Fora isto, apenas mais dois pontos:

1) Para quem colocou, aquando da sua nomeação, a possibilidade de Maria João Seixas ser uma “girl” do PS, das duas uma: ou não o é e o corte das verbas prova-o, ou é e isso não adiantou nada. Pelo contrário, importa perguntar: será que influência política mais ampla e mais forte de João Bénard da Costa não teria sido útil nesta situação?

2) A referida portaria põe em causa o desenvolvimento do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, que inclui o espólio da RTP, o mais completo do século XX português. E aqui, a utilidade política da decisão é óbvia. As imagens dos últimos 55 anos, controladas, amaciadas e normalizadas pelo ridículo que é a RTP Memória mostram-se assim menos propícias a demonstrar os caminhos, as causas e os responsáveis por Portugal se ter tornado nesta estrumeira à beira-mar plantada.

17 abril 2011

Novidades Petição

1) Depois de um primeiro podcast entre mim e o Luís Mendonça, surge agora um segundo, muito superior ao primeiro, entre o Luís, o Carlos Natálio e o Ricardo Lisboa. Oiçam!

Podcast Petição Cinema na RTP2 #2 from Luis Mendonca on Vimeo.




2) O Debate sobre a programação de cinema na RTP2, adiado devido a circunstâncias trágicas, foi remarcado para a 12 de Maio, pelas 18h00, no Auditório 2 da Universidade Nova de Lisboa. Marcarão presença os académicos João Mário Grilo e Francisco Rui Cádima, o provedor da RTP Paquete de Oliveira, o Luís e o Ricardo e... drumroll please... Jorge Wemans, director da RTP2. Apareçam!




All that country


Não sei, já esqueci, o que estava a fazer quando estreou A Prairie Home Companion (2006), mas tê-lo perdido em sala parece-me hoje, depois de uma visão cortesia do disco rígido da minha Meo Box, como uma das minhas maiores falhas na década transacta. O derradeiro filme de Robert Altman, estreado poucos meses antes da morte do cineasta, é o seu grande testamento cinematográfico, um olhar sobre o fim de um mundo e de um tempo e um exemplo cabal do seu modo idiossincrático e coral de filmar.

A Prairie Home Companion é o título de um programa radiofónico que, aos sábados à noite, ainda mete poucas centenas de pessoas num teatro de uma pequena cidade do Minnesota para meia-dúzia de canções country hardcore (nem os comercialismos à Garth Brooks nem o alt de Bright Eyes ou Ryan Adams). Acontece que o teatro foi adquirido por uma multinacional que o planeia demolir para construir um parque de estacionamento. O que seguimos, durante a perfeição que é este filme, é o último espectáculo e que corresponde ao início de uma era de incerteza na melhor das hipóteses, talvez até de apagamento para aqueles artistas, na melhor das hipóteses condenados a seguir o circuito das pequenas feiras em direcção ao esquecimento final. O filme, escrito pelo radialista Garrison Kellor, que se interpreta a si mesmo, intercala os bastidores de que fala o título português com números musicais, interpretados brilhantemente pelo inspiradíssimo casting (as irmãs Meryl Streep e Lily Tomlin são pouco menos que geniais e o duo Woody Harrelson e John C. Reilly pouco fica atrás) e o elenco coral, como habitualmente em Altman (aos actores já referidos juntam-se Kevin Kline, Tommy Lee Jones, Lindsay Lohan e uma esplendorosa Virginia Madsen, anjo da morte a lembrar a Jessica Lange do All That Jazz de Bob Fosse), não lhes fica atrás. Numa carreira em que, entre o genial Shortcuts (1993) e Gosford Park (2002), pouco de interessante houve, A Prairie Home Companion faz, de pleno direito, figura de obra cimeira.

Se assim é, é porque Altman, puxando dos galões do seu virtuosismo (vejamos o início, travelling sobre Kevin Kline a sair de um “diner”num ambiente misto de “film noir” com a América profunda de Tom Waits), e através do método comum nos últimos anos da sua carreira, o mosaico de personagens num mesmo contexto, aproveita o argumento de Kellor para a derradeira encenação: a do seu próprio fim, enquanto pessoa e enquanto cineasta. Voltando a motivos comuns na sua obra (lembremos Nashville, também ambientado no meio do country), Altman junta ao filme uma camada de nostalgia pelo fim próximo de um tempo (vejamos o chiaroscuro constante e a profusão de dourados na fotografia) e malsão pelo medo do futuro. Não sendo um filme assustado com o que aí vem, é um filme com plena consciência do fim que representa – para as personagens, para o cineasta (que o filmou aos 81 anos) e até para o tempo de um certo cinema (não poderá ser feita uma analogia entre este tipo de country e o cinema norte-americano dos anos 70 de que Altman foi nome cimeiro)?

É sempre arriscado perguntar se Altman estaria ciente da proximidade da sua própria morte (embora, quando se atingem certas idades respeitáveis, esta seja sempre uma sombra) e se a encenação que faz dela é consciente. Porém, uma certeza é possível avançar: A Prairie Home Companion bate-se de igual (podendo até perder, mas lutando até ao fim) com filmes de igual função como o já citado All That Jazz (1979) de Bob Fosse ou o Morte em Veneza (1971) de Luchino Visconti. Se isto não é elogio, então não sei o que será…

09 abril 2011

Sidney Lumet RIP

Correcção

O debate sobre a situação do cinema na RTP2, agendado para a passada terça-feira e que não se realizou devido à morte de um aluno, foi adiado não para a próxima terça-feira, mas para data a marcar em breve. Obrigado.

20 março 2011

Ford pós-Rosa Parks



Era claro, desde o primeiro momento, que John Ford tinha um grande filme de tribunal em si. Pensemos em Young Mr Lincoln (1939) e naquelas belíssimas sequências em que o advogado Abraham mostra o seu talento e onde o cineasta ensaia tanto a comédia quanto o trabalho em "huis clos", tratando tão bem os espaços fechados quanto trata os “wide open spaces” do Oeste. Foi apenas, no entanto, com o crepuscular Sargeant Rutledge (1960) que Ford levou até ao fim essa propensão, iniciando, de caminho, os ajustes de contas que caracterizaram o final da sua carreira.

Sargeant Rutledge faz pelos afro-americanos, no seu cinema figuras menores, tratadas com uma tolerância ainda com o seu quê de racismo ou como figuras dignas de respeito mas de menor importância narrativa, aquilo que Cheyenne Autumn (1964) viria a fazer pelos nativos. Neste filme, Ford situa a acção, cronologicamente, numa época pós-escravatura (muito depois da conquista do Oeste), onde as cartas de alforria são abundantes e os negros têm a sua própria brigada na cavalaria norte-americana. Má consciência, talvez, a que leva a que esta homenagem seja feita apenas no ocaso do género e de uma era, mas que essa homenagem exista é é um excelente sinal de uma carreira (a de Ford) bem menos ideologicamente formatada do que se suporia. Por último, nesta questão, refira-se que a homenagem ao papel dos negros no Oeste se concatena com a impressionante figura Woody Strode, aqui retratado, no papel da personagem-título, como a epítome do brio, da galanteria e da competência militares, no melhor dos papéis que o cineasta deu a este grande actor. De resto, de notar também a “coda“ do filme, com os soldados a marchar perfeitamente enquadrados no Monument Valley e o quanto essa atenção particular é uma muito eficaz forma de inscrição.

Se é como homenagem ao papel dos negros na cavalaria que Sargeant Rutledge ganha a sua relevância, é enquanto filme de tribunal que atinge a excelência. Porque, parafraseando o célebre adágio classicista, longe de achar que há apenas uma forma de filmar uma sala de tribunal, o cineasta usa e abusa da estilização formal, da coreografia e, superlativamente, da profundidade de campo. Há um constante jogo entre as diversas câmaras, numa montagem ritmada, mostrando de diversos ângulos os procedimentos e que, através da posição de cada actor no plano, revelam a posição da personagem na relação de forças do mesmo. Simultaneamente, quando estão para ser mostrados os flashbacks onde o espectador toma contacto com os factos, há um enorme trabalho de iluminação, cuja modelação progressiva como que cria um espaço intermédio entre o presente e o passado da narrativa. Semelhante estilização visual, juntamente com a estilização dos cenários, mais artificiais do que nunca e procurando menos o realismo do que a “ideia” do Velho Oeste, colocam Sargeant Rutledge para lá do classicismo da obra do autor, ou seja, como um dos momentos iniciais da fase pós-clássica da obra de John Ford, que culminaria nos seguintes Two Rode Together (1961) e The Man Who Shoot Liberty Valance (1962).

Numa altura em que o western norte-americano definhava e todo o cinema americano era acusado (frequentemente com razão) de se ter deixado ultrapassar pelos tempos, Sargeant Rutledge mostra (como The Grapes of Wrath o havia feito no seu tempo) um realizador em sintonia com a sua época. Afinal, este é também um filme sobre o “separate but equal”, sobre as promessas por cumprir depois do fim da escravatura e do longo caminho que os negros tiveram a percorrer depois de Abraham Lincoln. Filme pós-Rosa Park, é também uma prova de que, a espaços, soube perfeitamente medir o pulso ao seu tempo e que o seu classicismo não era, pelo menos no final da sua carreira, marca de reaccionarismo ou alheamento.

14 março 2011

Podcast Luis Mendonça/Miguel Domingues

Na sequência das diversas iniciativas que temos levado a cabo no âmbito da Petição Pelo Regresso da Exibição Regular de Cinema à RTP2, chega agora o nosso primeiro podcast. Algo longo, com 40 minutos (afinal de contas, são seis meses de trabalho), serve de resumo do que foi feito até agora e de antecipação do futuro. Enjoy!


Podcast Petição Cinema na RTP2 from Luis Mendonca on Vimeo.

06 março 2011

Na senda de qualquer coisa


The Fighter é, até hoje, o projecto mais pessoal de Mark Wahlberg. Produtor, argumentista e actor principal, Wahlberg empenhou muito da reputação granjeada nos últimos anos na feitura deste filme, no seu realismo (os combates foram filmados pela mesma equipa que os filmou, originalmente, para a HBO) e na escolha de um elenco uniformemente excelente na sua apropriação às personagens. Adicionalmente, contratou o sempre interessante David O. Russell para a realização. Tristemente, consegue apenas que The Fighter seja um filme mediano, sem um golpe de asa que o eleve acima dos largos exemplos de filmes no mundo do pugilismo.

E, apesar de tudo, é um filme que se vê muitíssimo bem, sobretudo, enquanto parte do fluxo de filmes recentes passados na cidade de Boston e que tratam os seus códigos de honra, as suas unidades familiares e até as suas paisagens degradadas (o bairro de Lowell, onde Wahlberg se dedicou outrora à delinquência juvenil), na senda de filmes como Good Will Hunting, Mystic River ou o mais recente The Town. Na senda de certos filmes de boxe (os diversos Rocky à cabeça) é um belo exercício sobre o pugilismo como meio de escape da pobreza material e espiritual desses locais e é, inclusivamente, filmado num estilo cru e ritmado, o que, juntamente com a intriga baseada mais nas personagens do que nas acções, na senda do cinema da década de 70 do cinema americano.

Se tudo correu bem com a escrita do parágrafo anterior, é fácil perceber que o problema de The Fighter é ser sempre na senda de qualquer coisa. Se o interesse humano e cultural está lá, é difícil não pensar em como já vimos todos os elementos que compõem esta obra noutras de qualidade bem maior. O que o redime é o facto de a mão-de-obra ser muito boa: não só o realizador e o actor principal estão em bom plano como os secundários Christian Bale (fenomenal), Amy Adams e Melissa Leo prendem o espectador ao ecrã. Não se perde tempo a vê-lo mas esperava-se mais do projecto mais pessoal de Mark Wahlberg.

02 março 2011

A primeira vez não volta mais




A melhor característica do cinema de Sofia Coppola é a sua omnipresente "coolness". Simultaneamente "high tech" e artesanal, comercial e independente, emocional e distanciado e sempre com uma patine indie a coordenar estas vertentes, o cinema da filha de Francis marcou indelevelmente a última década com a sua frescura e originalidade. Que são precisamente as duas características ausentes do novo Somewhere.

Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, Somewhere é Sofia Coppola em modo remix: passado num hotel (como Lost in Translation), trata de um actor (como Bob Harris) em plena crise de identidade, à espera que o vento mude, vivendo no Chateau Marmont (com o luxo e o glamour da Versailles de Marie Antoinette) entre sexo casual, cerveja e os compromissos da vida de actor. Inclusivamente, há uma cena, perto do final do filme, com o muito competente Stephen Dorff ao telefone que parece decalcada da chamada telefónica que Scarlett Johansson faz no início de Lost in Translation.

Estamos, então, em pleno território do baralhar e voltar a dar, da utilização conspícua de uma receita ganhadora e os resultados, até ver, não têm sido brilhantes. Exceptuando o Leão de Ouro em Veneza, bilheteira e crítica têm sido moderadas, relevando precisamente essa pouca frescura actual de uma carreira que, lembremos, ainda só vai no quarto filme. Apesar de tudo, lembremos também que este é o mais seco e depurado de todos os filmes de Sofia Coppola, chegando a trazer à mente, nalguns momentos, a depuração e o carácter rarefeito dos filmes de Jim Jarmusch.

Como em todos os cineastas de universo (demasiado) definido, a opinião de cada um dependerá do seu apreço por esse universo. Eu, fã da filha de Francis desde The Virgin Suicides, consegui passar por cima da repetição e da pose (afinal, Sofia fala do mundo a que sempre pertenceu, denunciando a sua vacuidade sem demonstrar qualquer vontade de sair dele) e dificilmente me senti insatisfeito. Ainda que, como em todos os filmes de um cineasta cuja obra me marcou, tenha sentido pena de que a primeira vez não volta mais.