01 fevereiro 2010

Cinema de época


Era simpático, Juno (2007). Filme pequenino, orgulhoso de si mesmo, que sofria apenas com um certo “fazer independente”, um conjunto de tiques que, no limite, por vezes formatam o cinema independente norte-americano de uma forma tão opressiva quanto o mais banal cinema comercial. O orgulho mantém-se em Nas Nuvens, mas este é um filme crescido, para adultos e que será decerto recompensado, pelo menos em nomeações, pela Academia. Filme sobre estratégias de sobrevivência e a forma de as ultrapassar em direcção a algo mais, conta com um extraordinário desempenho de George Clooney, versão crápula irresistível, no papel de Ryan Bingham, profissional do despedimento que estruturou toda a sua vida em redor da eficiência nas constantes viagens de avião e que anseia por angariar dez milhões de milhas de passageiro frequente. Até que o contacto com um equivalente feminino (regular Vera Farmiga) e com uma recém-licenciada da Ivy League (a revelação Anna Kendrick) o lembrarão do que anda a perder.


Vamos por partes: metade de Nas Nuvens é absolutamente fascinante e eminentemente recompensadora. Nela, explora-se Bingham, os mecanismos que povoam o seu mundo, o seu isolamento e a sua perturbante amoralidade, pessoal e profissional, que o tornam um delicioso exemplo máximo do capitalismo que, a um tempo, conduziu à presente crise e dela colhe os lucros – Billy Wilder teria gostado da personagem. Sobretudo, é nesta parte que há exemplos, do mais humano e comovente que vimos, dos efeitos reais da crise, na pessoa daqueles que são despedidos. Com The Girlfriend Experience de Steven Soderbergh é, até agora, o mais pertinente olhar sobre as alegrias que Wall Street nos trouxe nos últimos anos. No entanto, o realizador Jason Reitman (filho do tarefeiro Ivan), que filma com competência e alguma personalidade, não resiste a puxar Bingham para o reino da moral familiar e comezinha, que tem todo o seu encanto mas, esteticamente, é uma opção desinteressante, que acaba por amputar o efeito do filme.


Se o final o redime parcialmente, devolvendo Bingham à solidão que o caracteriza, deve-se prezar menos a coragem de um final infeliz moralista (a oportunidade de Bingham ser como os demais perdeu-se, devia ter pensado nisso antes) do que a tal componente “política” do filme: Bingham, enquanto emissário da crise, estará condenado ao purgatório das viagens constantes enquanto esta continuar. Afinal de contas, Nas Nuvens é um filme de época. A nossa.

2 comentários:

Paulo disse...

Basicamente não me podia rever mais neste texto. Apenas um ou dois pormenores me incomodaram: aquele "twist" com uma das personagens femininas perto do final pareceu-me demasiado a brupto e algo deslocado (percebo a intenção, mas não gostei da forma como nos foi revelado; e depois, acho que ainda permanecem alguns tiques indie algo irritantes (neste caso o dos zooms aleatórios especialmente na cena da festa) dos quais Reitman se deveria desfazer definitivamente.

De resto, o teu último parágrafo é perfeito :-)

H. disse...

Subscrevo o comentário do Paulo e junto-me aos elogios ao teu texto. Quero só acrescentar que este Reitman já fez igualmente bom em Thank you for smoking, sendo Juno o seu filme menos conseguido.