30 dezembro 2008

Bom 2009

Melhores de 2008

1. Hunger de Steve McQueen
2. La Frontière de l`aube de Philippe Garrel
3. La Graine et le Mulet de Abdel Kechiche
4. Darjeeling Limited de Wes Anderson
5. There Will Be Blood de P.T. Anderson
6. Before the Devil Knows You`re Dead de Sidney Lumet
7. Coeurs de Alain Resnais
8. We Own the Night de James Gray
9. Les Amours d`Astrée et de Céladon de Eric Rohmer
10. Aquele Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes

28 dezembro 2008

Discos (ordem alfabética)

Cut Copy - In Ghost Colours
Death Cab for Cutie - Narrow Stairs
Last Shadow Puppets - Age of the Understatement
MGMT - Oracular Spectacular
Portishead - Third
Robert Forster - The Evangelist
Santogold - Santogold
The Hold Steady - Stay Positive
The Kills - Midnight Boom
Tindersticks - The Hungry Saw
TV on the Radio - Dear Science

É capaz de ter havido mais (fora o que está por ouvir, Fleet Foxes e Bon Iver, por exemplo). Assim de repente, lembro-me destes. Post sujeito a actualização.

11 dezembro 2008

Largas bestas têm cem anos

11.12.2008 - 11h16 - Anónimo, Algés
Não faço ideia, mas creio não existirem cinco cineastas vivos que tenham dado tanta despesa aos contribuintes quanto Manoel de Oliveira. O próprio nome Manoel, em vez de Manuel, é uma piroseira, que se aceita no caso de ser nome de família. Ainda por cima fizeram-lhe uma casa-museu que este artista deixou ao abandono.

11.12.2008 - 13h06 - SVC, Maia
O sr. Oliveira só seria bom se tivesse nascido aí no estuário do Tejo? Como não foi o caso, e ainda teve o atrevimento de vir nascer á província (entenda-se o Porto segundo a perspectiva do estuário do Tejo) nem a Ingmar Bergman pode ser comparado. Quanto a subsídios a outros cineastas - seria bom saber quantos foram contemplados e que fossem do Porto. Aiai o centralismo deste país...

11.12.2008 - 13h14 - Anónimo
Se ele é tão bom, por que é que nunca ganhou nenhum prémio, com excepção daqueles especiais de carreira, do juri... do raio que o parta! A verdade é que a maioria dos filmes são aborrecidos, e por isso são louvados pelos supostos intelectuais...


Estes três comentários estão disponíveis na notícia do Público dedicada ao centenário de Manoel de Oliveira. E explicam perfeitamente por que não lhe vou fazer homenagem nenhuma hoje. Exceptuando o comentário do meio, mera baboseira bairrista mais interessante pela estupidez, os outros dois resumem muito daquilo que a opinião pública pensa de Oliveira. Pessoalmente, acho que quem quer homenagear um cineasta destes deve faze-lo sempre que possível. Quanto aos outros, deviam perceber que não é o pais que não merece Oliveira e os seus “encargos”: Oliveira é que, depois de cem anos, merece mais do que aturar bardamerdas.

08 dezembro 2008

A Fronteira do Amanhecer


Se Paulo Branco se esqueceu (ocupado com a perspectiva de mudar o cinema para o casino?) de programar nas suas salas Ne Touchez Pas la Hache, um dos grandes filmes da década, preferindo lançá-lo directamente em dvd, ao menos ainda nos vai fazendo uns favores de vez em quando. Presentemente, nos cinemas Medeia, estão em exibição a introdução de muito boa gente – eu incluído - ao cinema de Jerzy Skolimowski e o magnífico Hunger de Steve McQueen. Contudo, o mais importante de tudo é que se encontra também em exibição La Frontiere de L’Aube, o novo filme de Philippe Garrel. E temos de agradecer por isso.

Também teremos de agradecer a Louis Garrel. Podemos nem todos o achar um grande actor (e eu até o acho, juntamente com Benoit Magimel e Romain Duris, do melhor que aconteceu nos últimos anos ao cinema francês), mas o facto de se ter tornado um actor de renome, com Os Sonhadores e com os filmes de Christophe Honoré possibilitou ao pai, pela sua constante participação, o financiamento para dois belíssimos filmes (este e o anterior Les Amants Reguliers). Enquanto os produtores pensam nas meninas que vão ao cinema pelo Garrel Jr, não estragam o filme que vemos no ecrã. Duvido que Garrel Sr estivesse a filmar com esta liberdade e com esta regularidade se não tivesse um filho famoso.
Como também duvido que Garrel tivesse assunto para filmar em tão pouco tempo não tivesse havido uma projecção de si mesmo, um corpo e um rosto onde se sentisse suficientemente confortável para expor não apenas o recontar da sua juventude (Les Amants Reguliers), mas também uma poesia amorosa única nos tempos que correm, ridícula se não feita com a maior seriedade e com a maior crença em si mesma. Garrel filho libertou Garrel pai de todas as maneiras e merece ser recompensado com um agradecimento.

E temos igualmente que agradecer a Philippe Garrel por filmar tão bem. O seu filme, história de um casal que a loucura vem separar primeiro e reunir depois, é um portento de luz e sombra, de brancos muito brilhantes e de negros escuríssimos, de texturas imensas que apenas múltiplas visões conseguirão deslindar. O francês controla na perfeição todos os seus recursos e os seus filmes parecem sempre simples, quase académicos, tal a simplicidade de métodos por ele utilizados – é de saudar não apenas os múltiplos fechos de íris que aproximam o filme da época do mudo, como também a sequência do pesadelo de François, em que a floresta inicial parece a de Hansel e Gretel filmada por Murnau. O que vemos, no fundo, é a velha coexistência entre uma razão e uma acção, um pensamento e um método, uma ética e uma estética. Perante uma confiança tamanha no seu projecto, a prática só pode dar essa ideia de facilidade.
Mais difícil é faze-lo quando se trabalha num filme tão imaterial quanto La Frontiere de l’Aube. Toda esta genial obra se foca na cabeça e no coração destas personagens, na perigosa linha onde sentimentos e ideias se encontram. O que acontece a cada imagem de Garrel (com especial destaque para os momentos de Laura Smet no chão, a mais bela depressão cinematográfica desde a de Liv Ullman no Face a Face de Bergman), capaz de mostrar o visível e o invisível. Chamaram-lhe poético. Se isso é o nome dado a quem transcende o limite do que é mostrado, a quem capta para lá do enquadramento, Garrel é-o definitivamente. Um sincero obrigado por isso é do mais elementar rigor.

E, no fundo, para que serve o parágrafo anterior? Para nada, se tivermos em conta em conta que o grande mérito de La Frontière de L’Aube é o de dar sempre a sensação de ter mais e mais mundos a descobrir e, simultaneamente, sabermos que nunca se abrirá em toda a sua profundidade para nós. A exegese é inútil. Filmes como este não se explicam; agradecem-se.

07 dezembro 2008

Notas da 'teca (5)


The Tarnished Angels (1958) partilha alguns pontos com o grosso da obra norte-americana de Douglas Sirk. Num aspecto, no trio central, que repete o de Written in the Wind– os inefaveis Robert Stack, Dorothy Malone e Rock Hudson, este ultimo, como de costume, o elemento estranho a uma situação que tenta trazer com ele um novo padrão moral, falhando quase sempre na tarefa. Noutro, é um filme que se joga, mais uma vez, no âmbito do “melodrama social” (a designação é muito discutível, daí as aspas), procurando uma marcada tendência económica e um óbvio contexto temporal onde situar os sentimentos.

Inversamente, as mudanças são suficientes para tornar este um dos mais esdrúxulos filmes de Sirk nos EUA. O presente da acção não é os anos de Eisenhower, mas a época da Grande Depressão. Semelhante mudança provoca desde já uma alteração e termos dos caracteres tratados, que longe de serem os ricos são o proletariado quase “lumpen” que arrisca a vida em espectáculos aéreos pelo rendimento essencial à sobrevivência. Este é, então, um filme tão emocional quanto Imitation of Life (1959) ou All that Heaven Allows (1956), mas que aposta num erotismo e numa violência (ver, respectivamente, a queda de pára-quedas onde o vento levanta as saias de Dorothy Malone a níveis muito inesperados e a brutal cena em que, através de dados desenhados em cubos de açúcar, Stack disputa com o ajudante o casamento com Malone) dando um aspecto mais cru e cortante que o habitual. Finalmente, duas mudanças técnicas acompanham as mudanças tematico-sociais: o preto-e-branco, que em muito contribui para que se creia no horizonte temporal do filme (onde a reconstituição de época é feita com muita simplicidade e com poucos meios), e um prodigioso uso do scope, de uma racionalidade perfeita e de uma profundidade de campo notável, sobretudo nas prodigiosas cenas de corrida aérea.

Filme de morte como poucos na carreira do alemão e que Sirk terá feito como complemento ao vício e decadência retratados em Written in the Wind, é mostra de algo extraordinário: um cineasta que consegue interromper o seu tecido contínuo, não perdendo por um momento o domínio da sua arte. Se por mais nada (e há aqui muito mais), The Tarnished Angels é uma obra-prima que demonstra cabalmente a versatilidade do seu autor.

17 novembro 2008

Bater no ceguinho


Ensaio sobre a Cegueira (1995) é, para o bem e para o mal, um dos mais, senão o mais importante livro de José Saramago. Para o bem, pela força de uma distopia, apocalíptica pela ausência de civilização que se gera, abruptamente, da perda de uma das mais elementares funções biológicas. E, não esquecer, pela capacidade do seu autor em fomentar de forma ampla e loquaz o medo no leitor, seja da animalidade humana, seja da máquina de repressão estatal, que nunca perde oportunidade de impressionar os seus cidadãos quando surge algo que a ponha em causa. Para o mal porque, com ele, Saramago parece ter atingido algo como uma fórmula (o acontecimento inverosímil que põe em causa as estruturas civilizacionais), longe da liberdade patente, por exemplo, no sublime Levantado do Chão (1980). Por exemplo, o Ensaio sobre a Lucidez (2004) segue o mesmo método – até no título – mas de forma muito menos interessante. Vamos ver se o recém-editado livro do paquiderme é diferente….

Ancorado no merecido sucesso internacional que até aqui teve, Fernando Meirelles adapta então, 13 anos, um Nobel e uma pneumonia quase mortal depois, a obra charneira de Saramago. E fá-lo mal.

Em primeiro lugar, porque confunde, do ponto de vista da adaptação literária, a truculência virtuosa da prosa do Nobel (desculpem a repetição, é para chatear críticos literários de direita…) com uma deriva maneirista em que o cinema de Meirelles, correndo sempre esse risco, ainda não havia entrado em Cidade de Deus (2002) ou The Constant Gardner (2005). Desde a “metalização” cromática da imagem, tornando-a asséptica, o que “desrealiza” o que estamos a ver e torna menos eficaz a alegoria, até ao imensamente irritante “fade to white” (sem qualquer comparação com o efeito conseguido com os vermelhos de Bergman em Cries and Whispers, 1972), tudo parece ser uma obrigação cinematográfica de Meirelles face ao livro, uma tentativa de mostrar que, se o material de origem é bom, também o cineasta o é. E, pelo menos aqui, não é esse o caso.

E, segundo factor, não parece haver nada neste filme que não deva algo a Saramago, que tenha sido ideia do realizador (por exemplo, o fabuloso momento de Danny Glover a pensar se o regresso da visão lhe vai acabar com o amor é claramente romanesco), que o cineasta tenha juntado à obra do Nobel (embrulhem!). A estrutura do filme é demasiado fiel, contentando-se em resumir a contento o livro, numa espécie de “Caderno Europa-América” visual do que é o romance. E este é muito mais do que isto.

Ainda não foi desta que se viu um bom Saramago no ecrã – e nem me perguntem pela adaptação de A Jangada de Pedra (1986) por um qualquer holandês voador, que nem quero saber. Que no futuro haja um cineasta português, mais conhecedor do contexto em que surgem estas ideias, que adapte dignamente um romance do Nobel português (dói, não dói?). Candidatos a adaptação? O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984).

30 outubro 2008

Demasiada areia


A comédia foi, para mim, o ponto onde a obra dos Coen perdeu o interesse. Arizona Junior (1987) é uma boa comédia, é certo, mercê muito da fabulosa sequência da perseguição a Nicholas Cage; Hudsucker Proxy (1994) já é mais fraco enquanto comédia (e melhor enquanto emulação do sonho cinematográfico capriano); O Brother, Were Art Thou (2000) só não envergonha Homero pelas dúvidas que alguns têm de que o mais famoso invisual grego tenha existido; e quer Intolerable Cruelty (2003) quer The Ladykillers (2004) não me mereceram uma ida ao cinema. Porém, o que este muito razoável Burn After Reading , depois do excelente No Country for Old Men (2007) vem provar é que os Coen podem ter entrado numa fase em que, mesmo não fazendo grandes filmes, não desmerecem o tempo com eles gasto.

Burn After Reading pega, de forma hábil, numa das qualidades maiores dos Coen: a capacidade de sobrepor o riso às situações aparentemente mais negras. Tratando, como habitualmente, a perseguição de sonhos de riqueza e de felicidade por parte de personagens inábeis, os irmãos urdem uma teia de crises de meia-idade às vezes caricatural, às vezes hilariante, ainda outras vezes triste, que sustenta o filme e prende o interesse. A evolução de Burn After Reading, numa progressiva explosão de violência, adensa a narrativa com uma progressiva seriedade em tudo diferente da parvoíce do filme helénico-sulista. Por outras palavras, o que todas estas personagens fazem é, de uma maneira dura e sangrenta, perceber qual a quantidade de areia que excede a capacidade da sua camioneta. A comédia é aqui tratada como uma coisa séria, com o seu muito respeitável quê de Billy Wilder.

O ano de 2008 não está a ser bom para os Coen apenas por Óscares e quejandos. As regalias são sintoma de algo maior: o regresso da credibilidade a este cinema. Que Burn After Reading não seja o fim desse processo.

29 outubro 2008

Revisão da Matéria Dada - IV

1. A Solidão Um injustiçado filme, pelas vezes que tem sido referido somente enquanto contraponto a Almodóvar. Triste, sonâmbulo e propositadamente hermético, pega na história de várias personagens e das suas vidas desesperadas, cruzando-as num tecido sólido e coerente. Nos seus ecrãs divididos e no seu abrangente scope, é um gigantesco filme acerca das merdas que nos vão acontecendo. Pouco há a dizer sobre ele, mas há e haverá, em futuras visões, muito que ver.

2. Gomorra O realismo devia ser sempre isto, vibrante, fervente, emocionante, sempre em constante movimento. Mais retrato que narrativa, este mosaico à volta da máfia napolitana mostra com pujança, com estilo e com uma “neutralidade” bem conseguida acontecimentos que, no limite, dão a sensação de estarem a acontecer à nossa frente. Destaque especial para tudo aquilo que nele há de mediterrânico: a capacidade de desenrascanço (os miúdos trazidos para conduzir os camiões do lixo), os putos vivazes (os dois que, inspirados pela iconografia cinematográfica da máfia, sonham em dominar a Camorra) e a maneira como a música, mais do que evocar os sentimentos, fabrica por si só a alegria e o escapismo. Belíssimo.

3. Tropic Thunder Quando vi o trailer, pensei ingenuamente: “Será que ao fim de três-quinze anos, Hollywood voltou a fazer uma boa comédia?” A realidade, contudo, derrotou a boa vontade nestas duas horas onde, por falta de moderação na gestão temporal (gags muito longos) e narrativa (é um filme que, sendo sempre bastante canhestro, se desconjunta à medida que avança), se transforma em algo francamente mau. O problema de Stiller não é ter más ideias – já Cable Guy estava cheio de momentos francamente interessantes. O problema de Stiller é achar que basta por uma câmara á frente de meia dúzia de palermices para se fazer um filme.

16 outubro 2008

O vento levá-los-à


Logo no início em "flash forward" onde o ébrio Robert Stack se suicida debaixo dos ouvidos de uma mulher doente (óptima Lauren Bacall) e de um amigo alheado (Rock Hudson, sempre um poço de dignidade) se pressente a diferença face a filmes anteriores (o idílio suburbano de All That Heaven Allows, 1955) ou posteriores (a pobreza beatífica de Imitation of Life, 1959). Se, naqueles filmes, a ilusão só posteriormente era dinamitada, aqui é destruída logo no genérico, impossibilitando que tempos vistos em "flashback" – o único presente da narrativa é a meia hora final – seja cem por cento credível. Dois outros aspectos o confirmam: o cenário industrial quase pós-apocalíptico por onde as personagens passam variadas vezes e a propensão para o vício e a doença, num tom quase naturalista. As próprias cores dispensam o rosa-choque e ficam-se por um sóbrio tom sépia.

Este conto de destruição de uma família podre de rica à conta do ouro negro, gente que tem tudo para ser feliz mas nunca o consegue, faz-se até de forma relativamente mais simples do que muito do que a rodeia. Longe da maior profundidade de outros filmes, a progressão narrativa é aqui linear e veloz e a estrutura simples, como o trajecto do carro que Stack conduz no início. Tudo gira à volta dos dois elementos exteriores que, em duas alturas diferentes, entram na família. Hudson, irmão de Stack e objecto de desejo da irmã deste, Dorothy Malone, e Lauren Bacall, esposa de Stack e enfatuação de Hudson, não são, como começa por parecer, a trave-mestra que segura este mundo. Tudo já começou a ruir há muito (fala-se no estroina tio de Stack) e ambos acabam por ser mais catalisador do que impedimento. Não por acaso, como num assumir do falhanço, há uma ambiguidade final quando Hudson e Bacall entram no carro para partir sabe-se lá para onde, como se salvarem-se um ou outro seja o substituto possível da salvação da família ou, pior ainda! até uma vitória.

Ousando uma visão mais ampla sobre a célebre e onanista cena final, com Dorothy Malone a acariciar a miniatura da torre petrolífera (de uma maneira que ou deixa muitas dúvidas ou não deixa dúvidas nenhumas…), e se esta fosse o explanar da posição de Sirk ao longo da sua carreira americana? Como Dorothy Malone, que tudo fez para destruir a sua família, também Sirk tudo fez para destruir esta ideia de felicidade social, pura má consciência. Como Malone, também Douglas Sirk parece chorar quando o consegue. A tristeza dos vencedores é algo de tramado.

06 outubro 2008

LEGEND ... wait for it... DARY!


A minha semana tem, ultimamente, um ponto alto: o domingo à noite. Paradoxal? Talvez, tendo em conta a profunda depressão que se instala em mim como nos outros pelo facto de ter de ir trabalhar no dia a seguir. Acontece que, pelas 22h15m, tudo me é indiferente: as quedas da bolsa e será que o Benfica vai manter a boa forma dos dois últimos jogos e porque é que o tabaco não custa 25 cêntimos o maço e mais uma semana que passou e não escrevi nada de jeito aqui no blogue e quando ligo a televisão só vejo o Sócrates e o Cavaco e gajas de mamas postiças no horário nobre da TVI que agora até tem o Vasco Pulido Valente que vai dar ao mesmo enquanto me lembro do gajo que disse em pleno autocarro que “o novo filme do Sidney Lumête [sic] se chama Enquanto o Diabo esfrega o olho”.

A razão é uma prodigiosa série chamada How I met your mother, que começa à referida hora e ao dia marcado na Fox Life. Juntando o melhor de Cheers (o conceito de Happy Hour, as terapêuticas cervejas emborcadas para esquecer num sítio sempre igual, portador de conforto e estrutura – duas coisas que não podiam estar mais longe da rotina) e Seinfeld (a exploração e teorização maníaca, quase psicótica, tanto sobre os aspectos mais insignificantes do quotidiano quanto das relações humana, no seu lado mais ritualizado e “cultural” – postura que poderá ser atribuída a também esta série se passar em Nova Iorque) é, excelente ideia!, a história de um pai que resolve contar aos seus filhos, em 2030, como conheceu a sua mãe. Felizmente, o foco não é, pelo menos por enquanto, a relação entre mãe e pai, mas tudo o que se passa antes, no presente do espectador: casais ocasionais, paranóias colectivas, apostas resolvidas à chapada, e o Barney, porra, o Barney.





E que achados são estas personagens! Ted, tão normal e sempre metido em sarilhos; Robin, fechada, frígida e com um medo brutal do compromisso; Lily e Marshal (respectivamente Allyson Hannigan, de Buffy the Vampire Slayer e Jason Segel de outra série cá do panteão, a memorável mas esquecida Freaks and Geeks), os mais inocentes, mais puros do grupo, casal desde que se conhecem, pêndulo para os demais. E depois há Barney. "White trash", convencido de que é "bon-vivant", a um tempo completamente lúcido e absurdo, dava uma série sozinho.

Nada disto, por si só, faz uma boa série e, inclusivamente, já o vimos em muitas outras sitcoms. O que faz desta série notável a todos os títulos é que o seu dispositivo em constante flashback (e as piadas que daí advêm, como o facto de os charros consumidos na faculdade serem substituídos, na moral da história contada aos filhos, por sanduíches) possibilita uma doce e diáfana nostalgia por um tempo em que tudo era possivel, em que cada dia era passível de aventuras que acabavam connosco estatelados no chão mas com a capacidade de nos levantarmos e de seguirmos em frente, a começar por um passeio até ao bar da esquina para irmos ter com os nossos amigos e saborear uma fresquinha. Nunca acreditei que a vida fosse este mar de possibilidades – nem quando tinha dezasseis anos, muito menos hoje, oito horas por dia fechado numa companhia de seguros. A única altura em que acredito é aos domingos, na Fox Life, às 22h15m.




07 setembro 2008

Suicide is painless


M.A.S.H. (1970) parece, a uma vista desarmada, não ser feito com outro intuito que não o de provocar. Numa época em que Scorsese queria mostrar de onde vinha, Friedkin e Bogdanovich estavam convencidos de que eram os melhores (nunca foram), Coppola era o maior e Lucas e Spielberg sonhavam com o primeiro de muitos milhões, Altman passava para o ecrã a sua persona de forma tão (mais?) eficaz que os outros. Mulherengo e alcoólico, filmava fascinantes mulherengos e alcoólicos; sem respeito por grande coisa, mostrava gente que não respeitava muito; com vontade de implementar o caos formalmente libertário, filmava com sobreposição de diálogos, desfocagens, mostrando um hospital militar como um terreno líquido, onde o sangue, o sexo, o martini e a lama são as mais constantes realidades. M.A.S.H. é uma enorme confusão, estilhaçado em hilariantes episódios (destaque para a última ceia do dentista impotente ou para o dopping invertido no jogo de futebol americano), onde parece que tudo se sucede velozmente sempre em vista do mesmo fim: a liberdade.

No meio disto tudo, Altman nunca nos deixa esquecer onde Hawkeye, Trapper, Duke, Hot Lips, Frank Burns e Radar (Gary Burghoff, o único actor que viria a transitar com a mesma personagem para a não menos excelente série de televisão) estão. Se há perdão (quer no sentido divino quer no de César, na pessoa do Coronel Burke) para as tropelias que estes cirurgiões fazem a tudo e todas que lhes aparecem à frente, tal deve-se não apenas ao facto de bons cirurgiões serem difíceis de encontrar, mas também à noção de que pouco depois de as fazerem terão as mãos nas tripas de um qualquer jovem do Utah ou do Illinois. Tanto quanto de escapismo, há um desejo de paz a perpassar este enorme filme. É isso que o torna grande.

Revisão da Matéria Dada - III

1. Les Amours d’Astrée et de Celadon. O que impressiona mais neste novo e magnífico filme de Eric Rohmer é o quanto a sua forma materializa a clareza de pensamento do seu autor. Onde esse pensamento é lógico, cartesiano, racional e perfeito, também o filme é perfeito, evidente, equilibrado, sem grande imaginação visual mas tremendamente coerente nos seus moldes. Com grandes filmes de Rohmer, Resnais, Rivette e do jovem Kechiche (para não falar de filmes já terminados de Garrel e Carax), podemos agradecer aos franceses muito do bom cinema de 2008.

2. Wall-E. Não há estúdio como a Pixar; quem já lhes tiver visto um filme mau que atire a primeira pedra. Wall-E é soberbo na sua primeira parte, razoavelmente “muda”, em que o patusco robot limpador de lixo desempenha, num tom mimoso, as suas tarefas e se enamora de uma semelhante. Na nave espacial, o tom é menos interessante, e a mensagem (de necessário pendor ecologista), sobrepõe-se um pouco à estética. Não nos enganemos, porém: o que aqui está é cinema de grande calibre, de técnica perfeita e de óptima respiração temporal. Não chega ao nível de Cars, mas isso pouco importa; enquanto dura é envolvente, belo e exemplar.

3. The Hottest State. Saco de porrada para muito boa gente, o filme de Ethan Hawke tem poucas qualidades que suplantam os seus largos defeitos. Hawke não tem grande olhar de cineasta, o seu filme é de ritmo flutuante e até a própria montagem é questionável. No entanto, este filme tem gente lá dentro, tem actores soberbos e disponíveis (Mark Webber e Catalina Sandino Moreno, para além da soberba Laura Linney) e tem um conjunto de frases notáveis que fazem pensar seriamente em ler o livro. Se há algo de notoriamente artificial em tudo isto, há também algo de sério, de humano, de nervo á flor da pele. Visto por esse prisma, merece tudo.

24 agosto 2008

Fora isso, nada com que te preocupares (2)

Your whole life, people are gonna ask you to be weak. They're gonna practically beg you. But all anyone really wants is for you to be strong.

idem

Fora isso, nada com que te preocupares

A lot of bad shit is gonna happen to you. People are not gonna love you back, and if you're serious about becoming an artist, that's the first thing you should learn. And, listen, you're gonna die, okay? Relatively soon, okay? So, that being said, you have nothing to worry about.
uma tocante Laura Linney em The Hottest State (2006)

TVI, Sexta-Feira, 22:00


Nos meus tempos de escola preparatória, quando o Benfica jogava pessimamente (é incrível ver o quanto isto mudou – ou não…), a minha vida era simples. Como não podia esperar pelo fim-de-semana para ver Clóvis, Paulão, Nelo ou Akwa, sob risco de enlouquecer com as más exibições, o ponto alto da minha semana eram as aventuras de Mulder e Scully. Não me interessavam notas escolares (a minha principal motivação para as manter boas era não ouvir da minha mãe), aquecimento global (anos 90 bem medidos, ninguém queria saber) ou a recessão. Queria apenas saber se a irmã de Mulder ia ser encontrada, perceber até que ponto se podia confiar em Walter Skinner ou tremer de medo com o Cigarette-Smoking Man. Até ao momento, foi a mais importante relação televisiva que mantive, e das poucas coisas que, já na altura, me faziam suportar o asco da TVI.

Ao ver The X-Files: I want to believe, o que me surpreende mais é o quanto o mundo mudou. The X-Files foi, juntamente com Seinfeld, a série dos anos 90 que melhor capturou o zeitgeist. Seinfeld era a série que melhor exemplificava o fim da História de que falava Francis Fukuyama: num mundo sem grandes quezílias político-ideológicas, de prosperidade económica e onde, facto assustador, a moral desapareceu porque Deus morreu, tudo são hilariantes trivialidades. The X-Files era o seu duplo: sem a paranóia anti-vermelha, e com a aparência de que, geo-estratégicamente, tudo estava resolvido, olhava-se, a um tempo, totalmente para fora e totalmente para dentro. Fox Mulder, no fundo, é isso: alguém que se enterra no estratosférico e, de caminho, olha para si mesmo e nunca gosta do que vê. Simultaneamente, a América que já não tinha ameaças exteriores tratava de as encontrar no seu próprio território.

Entrando no cliché, esta visão serviu também para perceber o que mudei: aquilo que me fascinava há 15 anos, hoje não me convence. O problema reside em saber se isso é apenas do filme, banal e esquemático, ou se conseguirei rever a série com o mesmo fascínio da minha meninice. Palpita-me que não.

27 julho 2008

Why so serious?


Resumo de The Dark Knight: um filme de merda, o desempenho de uma vida.

Expliquem-me...

...por favor, o que é um filme ser bom dentro do género.

Oiço isto desde criança e, infelizmente, com cada vez mais frequência. Percebo a ideia de ser um filme ser um bom swashbuckler, um bom noir, um bom gidai geki ou um bom western. Já a ideia de que um filme é na generalidade fraco mas, dentro do género, até é bom, escapa-me.

Numa altura em que se critica tanto (e com alguma razão) o relativismo moral, gostava que se criticasse este relativismo cinematográfico, a um tempo fruto e gerador de falta de exigência crítica.

13 julho 2008

Digo eu...

«Tropa de Elite» rebentou com a mitificação romântica dos bandidos (...)

Não está em causa o que penso de Tropa de Elite. Mas como seria a história do Cinema sem o Scarface de Hawks, o Snake Plissken de Carpenter, o ambiguíssimo Hank Quinlan de Welles ou o bando de De Niro no Heat de Michael Mann?

Cá para mim, muito menos interessante.

12 julho 2008

Optimus Alive 2008 - texto impressionista

As fotos neste post são cortesia do meu telemóvel.

Primeiras impressões

Entrada. Estacionar é muito dificil, e, quando finalmente se deu um euro a um arrumador e se arranjou um buraco para a viatura, dirigimo-nos para o festival. Um calor abrasador e uma colocação de barricadas em 3 ou 4 espaços antes da entrada derradeira. Processo de quase uma hora no total. Quando dentro do recinto, a primeira coisa que se faz é ir buscar uma jola e arranjar lugar decente para ver os Vampire Weekend.

Não gosto assim tanto do disco de estreia destes nova-iorquinos. Sobre-produzido e algo frouxo, deixa, ainda assim, antever um talento maior que o demonstrado, em temas como Cape Cod ou Oxford Coma. Ao vivo, no entanto, é outra coisa… Enérgicos, competentes e com imensos fãs à frente (vi uma pessoa ser assistida devido à pressão do muito público para a capacidade das filas da frente da tenda Metro), as suas belas canções têm enorme força, sendo um estimulo simultaneo para o salto e para o pensamento. Em crescendo, foi um momento de fruição muito boa, aperitivo perfeito para o que viria. Com o tempo, estes americanos com ar de bifes têm tudo para melhorar.

My mind’s not right ou Como me tornei um adolescente de 14 anos a tentar tocar no Matt Berninger

Momentos finais do concerto dos National, algo por que tinha esperado desde que descobri Aligator. Mr November explode nos amplificadores. Metade da canção e Matt Berninger desce do palco, pendurando-se na grade. O pessoal começa-se a esmagar e eu digo à minha namorada “Sai da frente!”. Vou a correr para a frente do palco e… ele regressa ao palco antes de lhe conseguir tocar. Falhei o objectivo, mas a corrida valeu a pena. E, depois disto, não preciso dizer quanto gostei, pois não?

E, nisto, até me esqueci de dizer que o espectaculo dos National, infelizmente, coincidiu com os MGMT no palco Metro, banda que queria imenso ver. Fica para a próxima.

Drum machines have no soul ou Esta banda mata fascistas

Conheço 319 bandas melhores que os Gogol Bordello. Não conheço nenhuma que dê um espectaculo destes, rock, raiva, entrega, transpiração e uma confusão do catano. Ao meu lado, mosh e ganza a rodos. E eu e a Sandra, encharcados em suor e cervejas alheias, que nos caíram em cima com os saltos dos outros. No palco, a apoteose. E isto, não sendo um grande momento musical, é aquilo que o palco devia instigar em todos os que fazem música. Meio bilhete foi para aqui.




Depois disto, os meus pés estavam em papa, as minhas costas doíam e entrava no emprego ás nove do dia seguinte. Ao ir-me embora, pensei que tinham sido os 45 euros mais justificados dos últimos tempos.

03 julho 2008

!Que post tan raro!

Inspirado pela visão sucessiva de vários filmes de Pedro Almodóvar (talvez o meu cineasta de cabeceira), deixo aqui, por ordem cronológica, a minha classificação dos filmes dele que vi. Sintam-se livres de participar, de 0 a 10 ou de 0 a 5.

Que fiz eu para merecer isto (7)
Matador (8)
A Lei do desejo (10)
Mulheres à beira de um ataque de nervos (10)
Ata-me! (8.5)
Kika (8.5)
A Flor do meu segredo (6.5)
Em carne viva (5.75)
Tudo sobre a minha mãe (10)
Fala com ela (8.5)
La Mala Education (7.5)
Volver (8)


[Gostava especialmente - mas não exclusivamente - de ver as notas do Daniel, do Hugo, do , do Paulo e do Tiago]

29 junho 2008

Fazedores de Auschwitz


Na caixa de comentários do post do Arrastão sobre o aumento da possibilidade de carga horária na UE para 65 horas, um energúmeno expõe-se assim:




O contexto em que está inserido não dá azo a que se pense em ironia. Sobretudo quando, logo a seguir, afirma:




É este o estado em que estamos. Habituem-se!

19 junho 2008

14 junho 2008

Desailly R.I.P.


Morreu o actor que deu corpo ao homem mais ridículo do cinema francês.

Revisão da Matéria Dada - II

1.The Happening. Shyamalan está cansado. The Happening começa bem, com algumas boas ideias visuais (a pistola que percorre um caminho de suicídio entre várias pessoas; o contra-picado dos trabalhadores da construção civil a caírem), mas cedo se transforma num objecto rotineiro, despachado o mais depressa possível. Pior, não possui qualquer densidade dramática, nem humana nem pós-11 de Setembro. Depois da religiosidade foleira de Lady in the Water (o realizador parece nunca ter visto Dreyer ou Breson), outro espalhanço.

2.Sex & the City. Duas horas e quinze minutos depois, chega-se à conclusão de que este filme não existe. É um buraco negro cinematográfico, que cospe o interesse da série num lixo inane e óbvio para consumo rápido.

3.La Graine et le Mullet. Um fantástico épico proletário sobre a vontade de ser alguém e de deixar legado, mesmo que à beira da morte. Kechciche possui um estilo maleável e fortemente realista, procurando, com os seus planos muito fechados, quase imiscuir-se na realidade daquilo que filma. Habib Boufares e Hafsia Herzi são fantásticos, a gestão do tempo é admirável (duas horas e meia que passam num ápice) e, no final, ficamos com a sensação de termos estado in loco com aquelas pessoas, produtos da descolonização e vítimas da globalização. Fantástico.

11 junho 2008

O melhor filme americano dos últimos 40 anos (III)

I've seen horrors... horrors that you've seen. But you have no right to call me a murderer. You have a right to kill me. You have a right to do that... but you have no right to judge me. It's impossible for words to describe what is necessary to those who do not know what horror means. Horror. Horror has a face... and you must make a friend of horror. Horror and moral terror are your friends. If they are not then they are enemies to be feared. They are truly enemies. I remember when I was with Special Forces. Seems a thousand centuries ago. We went into a camp to inoculate the children. We left the camp after we had inoculated the children for Polio, and this old man came running after us and he was crying. He couldn't see. We went back there and they had come and hacked off every inoculated arm. There they were in a pile. A pile of little arms. And I remember... I... I... I cried. I wept like some grandmother. I wanted to tear my teeth out. I didn't know what I wanted to do. And I want to remember it. I never want to forget it. I never want to forget. And then I realized... like I was shot... like I was shot with a diamond... a diamond bullet right through my forehead. And I thought: My God... the genius of that. The genius. The will to do that. Perfect, genuine, complete, crystalline, pure. And then I realized they were stronger than we. Because they could stand that these were not monsters. These were men... trained cadres. These men who fought with their hearts, who had families, who had children, who were filled with love... but they had the strength... the strength... to do that. If I had ten divisions of those men our troubles here would be over very quickly. You have to have men who are moral... and at the same time who are able to utilize their primordial instincts to kill without feeling... without passion... without judgment... without judgment. Because it's judgment that defeats us.

O melhor filme americano dos últimos 40 anos (II)

We train young men to drop fire on people. But their commanders won't allow them to write "fuck" on their airplanes because it's obscene!

O melhor filme americano dos últimos 40 anos (I)

I love the smell of napalm in the morning. You know, one time we had a hill bombed, for 12 hours. When it was all over, I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory. Someday this war's gonna end...

06 junho 2008

Revisão da Matéria Dada - I

1.Shine a Light. É o filme que queria ver? Não; esse seria o filme acerca da planificação da filmagem do concerto, intercalado com algumas dos melhores temas interpretadas no Beacon Theater em Nova Iorque. Mas um Scosese é sempre um Scorsese. Há aqui grandes canções (Tumbling Dice, Connection, As Tears Go By) e há Keith Richards, a quem devia ser rezada uma pequena oração, de manhã, nas escolas deste mundo. Filmado com a voracidade do costume, acaba por cumprir, mesmo que à risca, os mínimos indispensáveis.

2.My Blueberry Nights. É o fim de uma era: Wong Kar-Wai é falível. Não se percebe muito bem qual o propósito deste filme, o que ele traz de novo ou de diferente para melhor. Para pior é claro: aqueles actores (muito bons, sobretudo David Straitharn, é um facto) não se calam e não nos deixam ver o filme. Espero que o ar saturado de Hong Kong lhe volte a fazer bem no futuro (e que estreie a versão redux do Ashes of Time nas salas portuguesas).


3.La Fille Coupée en Deux. Enquanto filme sobre a moral sexual dos mais ricos, é interessante. Mas uma realização académica, como quem vai para o emprego, tira-lhe muita da sua eficácia e do seu potencial satírico. E aquele final circense… por favor…


4.Indiana Jone$ and the Kingdom of the Cri$tal $kull. Tivessem parado nos anos 80, tinham feito melhor.

Filmes do Mês - Maio de 2008

Cinema

My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai
Indiana Jones and The Kingdom of the Crystal Skull de Steven Spielberg (4)
Shine a Light de Martin Scorsese (6,5)

Casa

La Mariée Était en Noir de François Truffaut (8)
L'Enfant Sauvage de François Truffaut (7)
Anatomy of a Murder de Otto Preminger (8)

29 maio 2008

Indiegências 2008

IndieLisboa e Johnnie To confundem-se. To tem sido um cineasta representado em (creio) todas as edições do festival, fruto da sua proficuidade – média de 2/3 filmes por ano. No meu caso específico, estreei-me no IndieLisboa na primeira edição, em 2004, com um filme do chinês, o belíssimo Breaking News. Depois da exibição de outros filmes como Yesterday Once More, Exiled e Election, o certame homenageou, nesta sua quinta edição, Johnnie To com a exibição de dois dos seus filmes na secção Herói Independente.


O primeiro desses filmes, logo na noite de abertura e perante casa cheia, foi o brilhante The Mission (1986), 'western' urbano a um tempo cinético e flutuante, sobre um grupo de homens contratados para proteger um chefe do crime ameaçado por um rival. Filmado com lentes potenciadoras da profundidade de campo e com momentos de 'empate técnico' nas sequências de acção geradoras de enorme tensão dramática (e muito diferentes das de John Woo, onde dois “pistoleiros,” a poucos centímetros de distância um do outro, apontam reciprocamente armas à cabeça), é um belo exemplo de como fazer grandes e pessoalíssimos filmes de acção sem inventar o que quer que seja, reorganizando apenas os elementos de acordo com a sua voz pessoal. Aqui, To vira-se para a amizade lacónica que surge entre o grupo de homens e que os leva, em última instância, a arriscar reputação e vida em prol do mais irresponsável dos membros do grupo. O IndieLisboa começou em grande…


… mas decaiu um pouco logo de seguida. Mad Detective (2007) está uns quantos furos abaixo do filme anterior. Esta história de um ex-detective que julga poder ver a verdadeira personalidade das pessoas começa devagar, com diversos por menores que nunca são bem explicados ou assimilados pela narrativa, ancorada numa encenação pouco mais do que eficaz. Apenas no seu explosivo final, roubo/homenagem a The Lady From Shanghai (1947) de Orson Welles, assume o seu potencial. A forma de definir as personagens através da personificação da sua personalidade é especialmente bem conseguida nos casos da ex-mulher do detective e do polícia investigado, mas parece que, até ao término, o filme pouco mais tem que esse truque. Felizmente, no fim tudo se transforma numa tragédia, o que acaba por salvar Mad Detective da irrelevância a que, durante uma hora, parece estar condenado.


O grande brinde desta retrospectiva foi, no entanto, Sparrow (2008), última obra de Johnnie To e que, pelo menos à data do festival, não estava comprado para exibição em Portugal. Homenagem assumida a Les Parapluies de Cherbourg (1964), encena, numa cadência vincadamente musical, a ajuda que quatro carteiristas dão a uma 'femme fatale' que se quer livrar do senhor do crime (velho e experiente carteirista) que sempre a sustentou. Bailado fílmico mais do que filme de acção, será lembrado pela sequência na passadeira, momento de confronto entre duas gerações e dois estilos de crime, longos minutos de seguríssima coreografia de qualquer coisa como “a arte de roubar”. Leve como um divertimento mas sério como a maior obra de arte, é talvez, de entre os já vistos, o melhor filme de Johnnie To, aquele onde um estilo pessoal e as componentes lúdica e, sem quaisquer receios, comercial da sua obra melhor coexistem. A estrear, o mais depressa possível.

*****


Fora do ciclo central do certame, destaque também para um Ferrara de muito bom nível. Go Go Tales (2007) pega no tema central e no contexto (decadente clube nocturno nova-iorquino) de The Killing of a Chinese Bookie (John Cassavetes, 1976) e volta a encenar a história da persecução de um sonho visto apenas por uma pessoa e por meia-dúzia de comparsas indefectíveis. Juntando um grupo de actores de grande nível (Willem Dafoe, Asia Argento, Matthew Modine, Bob Hoskins), acentua o lado capriano da revolta e da vontade de sucesso num homem comum e resulta num divertimento sensual, ritmado e perfeitamente integrado na estética nocturna e virtuosa do ítalo-americano.


No meio da qualidade cinematográfica que, a julgar por estes quatro filmes, terá pontuado esta edição do IndieLisboa 2008, pena que o último filme que tive a oportunidade de visionar nesta edição tenha sido o insuportável Charly (Isild LeBesco, 2007) lentíssima e desnecessária história de um jovem fugitivo que encontra numa prostituta azeitola…o quê? Não se percebe muito bem, mesmo depois de uma hora e meia onde uma das personagens onde uma das personagens não diz mais do que “je sais pas” e a personagem-título anda a cirandar pela roulotte onde vive a berrar por tudo e por nada. É um monte de merda, um daqueles filmes que mais não tem que a pose alternativa e “intelectual” ajudada pela câmara digital com que é feito. Se é bom ver filmes feitos com meia dúzia de tostões, outros há que não conseguiriam ser salvos por milhões de dólares. Este é um deles. Paciência.

19 maio 2008

Estatuto...

...é um crítico poder contar um filme inteiro no primeiro parágrafo de um texto.

18 maio 2008

Genealogias


ROCK N´ROLL

Um momento chave: em cima do palco, cospe um dos muitos cigarros que lhe alimentam as prestações. A rodeá-lo, fica uma nuvem de saliva e cinza que só exacerba a sua aura mítica e o seu lado de ser indestrutível.

15 maio 2008

06 maio 2008

"Meu caro Domingues, mais simples não consigo. Espero tê-lo ajudado!"

Fruto da sua vida decerto muito ocupada, João Eira decidiu responder com toda a concisão e com o tradicional desprezo mascarado de tolerância e de vontade de discutir ideias do Claquete a este meu texto. No essencial, não vou responder - nem a isto nem nunca mais a nada que vier no dito blogue, porque pouco tempo tenho para dar conversa a meninos reguilas, sobretudo com "conceitos tão inacessíveis a Domingues".

No acessório, espero que se este senhor me vir na rua, me tente explicar pessoalmente algo sobre as tabernas. Decerto que conhece bem mais acerca do tema do que eu. Por mim, está o caso encerrado.

PS - Afinal não está: leiam este pedaço de poesia bem "claquético".

01 maio 2008

40 anos


Filmes do Mês - Abril

Cinema

Coeurs de Alain Resnais (9)
I'm not there de Todd Haynes (4,5)
Youth Without Youth de Francis Coppola (Monte de Merda)

Casa

Tropa de Elite de José Padilha (3)
Caro Diario de Nanni Moretti (revisão - 7,5)

IndieLisboa

The Mission de Johnnie To (8)
Mad Detective de Johnnie To (7)
Sparrow de Johnnie To (8)
Go Go Tales de Abel Ferrara (7,5)
Charly de Isild Le Besco (Tão Bom Quanto o Coppola)

22 abril 2008

31 da Armada

Na vida de alguém que vê filmes, chega sempre a altura do dilema: se um filme deve ser compreendido e apreciado ou rejeitado mediante a reacção à conjugação entre forma e conteúdo, o que acontece quando um filme se dedica a destruir qualquer hipótese de conciliação entre ambos? Quando, no fundo, um filme é tão panfletário que cedo nos esquecemos do encadeamento e da construção das suas formas fílmicas?

Tropa de Elite, vencedor da última edição do Festival de Cinema de Berlim, ainda consegue fazer o espectador focar-se no cinema durante a sua primeira obra. Para que não haja dúvidas: José Padilha é bom cineasta. O seu filme é voraz, e são largos os momentos em que, perante a torrente de imagens poderosas que o assola, o espectador mal tem tempo para respirar. Sobretudo, é uma obra muito inventiva do ponto de vista estrutural, dividindo-se em dois segmentos que se intersectam por diversas vezes e que, por sua vez, se dividem em capítulos mais pequenos. O primeiro segmento mostra os preparativos para uma operação de segurança dos BOPE (a polícia paramilitar que “trata” da segurança das favelas cariocas) aquando de uma visita de João Paulo II em que o Papa resolve ficar hospedado em casa do arcebispo do Rio de Janeiro, junto às favelas. O segundo, o processo de formação de um líder de uma das brigadas da mesma força, quando o narrador do filme começa a ter problemas emocionais com o seu trabalho, até por estar à beira de ser pai e que desemboca numa vingança por um assassinato de um dos membros da Brigada.

Ninguém dúvida da podridão, da violência e da criminalidade (aliás, do banditismo) que grassa nas favelas do Rio de Janeiro. Mas Tropa de Elite não vai no sentido da denúncia (inútil pelo motivo supracitado) nem tão pouco tenta mostrar como é a vida numa favela ou as dificuldades daqueles que de lá tentam sair. Pelo contrário, avança pela glorificação dos supostos super-homens que compõem os BOPE, para quem a violência extrema, a tortura e o sadismo são males menores se comparados com a criminalidade e com o tráfico de droga. O problema é que entre um traficante que prende uma pessoa com pneus, a irriga com gasolina e a ateia e um polícia que ameaça enfiar vassouras em orifícios, que sufoca pessoas com sacos de plástico e assassina traficantes pelas costas depois de dar a um subalterno a ordem de o “botar na conta do Papa”, não parece haver grande diferença. A não ser que se esteja tão podre por dentro quanto parece estar a cabeça de José Padilha.

Eu, por mim, não vou estar atento aos blogues de esquerda. Vou, pelo contrário, ignorar os blogues de direita e os seus orgasmos com a cena em que, numa aula de faculdade, se vê uma discussão onde alguns dos melhores pensadores do século XX (Foucault e Deleuze, por exemplo) são mostrados como tontos. E não vou pensar no Pacheco Pereira a tentar arranjar paralelismos entre isto e um certo “prisioneiro político” que supostamente cá temos. Vou apenas lamentar que um cineasta com talento se perca numa tentativa impossível de distinção entre um criminoso com farda e outro sem vestimenta adequada.



Vai ser o fim da picada: num ano, o quadragésimo aniversário do Maio de 68 – uma espinha na garganta da direita – e a estreia deste Tropa de Elite, futuro filme preferido de muito má gente e por todos os motivos errados. A direita vai cantar vitória e nem a crise em que os mais queques dos partidos dos meninos do Restelo e do eixo Lisboa/Cascais se encontram os vai impedir de cantar vitória. E, no fim de contas, vai tudo estar na mesma. O objectivo, aliás, nunca foi outro.

14 abril 2008

Duas pequenas notas sobre duas grandes desilusões - três se contarmos com o Luisão



I’m not there – o filme cujo título se adaptava melhor à exibição do Luisão contra a Académica é mais uma tentativa, votada ao fracasso como todas as outras, de conceber uma ideia de Dylan aproximada a uma qualquer realidade do artista. Ouvimos os discos, vimos o documentário de Scorsese, lemos as crónicas, e aquela personagem, o bardo do século XX, continua tão inacessível como sempre. Já sabíamos que não iria ser Todd Haynes a fazê-la descer à terra, mas há um comprazimento em experimentar fórmulas, em experimentar referências cinematográficas de uma maneira quase lúdica (jogar com a swinging London de Antonioni ou com o western de Peckinpah) que resulta numa obra desconexa e completamente irrelevante, quer enquanto filme quer face à obra de Dylan – até porque nunca se afasta da visão canónica dos acontecimentos em torno dp autor do magnífico Blood on the tracks (1975). Resta o 'tour de force' de Cate Blanchett, a quem foi roubado um Óscar.


Youth Without Youth – Este filme está para a obra de Coppola como o atraso do Luisão para o Miguel Pedro está para os grandes centrais que passaram pelo Benfica: não coloca nada do passado em causa, mas custa a acreditar que seja possível. Filme de um cineasta desesperado por lutar contra a sua irrelevância presente, é exibicionista, mal amanhado e completamente escusado. Longe da viagem aos Infernos de Apocalypse Now – o melhor filme americano dos últimos 40 anos? – a confusão narrativa, os momentos penosos como as línguas faladas pelo interesse amoroso de Roth e aqueles horrosos planos invertidos, é um inferno para quem o vê. Aplauda-se o risco – Coppola bem podia viver da carreira passada – mas lamente-se que a entrega de Tim Rothe a classe de Bruno Ganz sejam assim desbaratadas.

10 abril 2008

Decerto mais um pedaço de "double-thinking"

A blogoesfera tem estas coisas, e o Claquete ainda mais. Depois de uma polémica postiça e frívola a favor de Ridley Scott, esse portento da liberdade cinematográfica contra tiranos como Straubs e Pedros Costas, decidem agora investir a favor de Charlton Heston.

Como sabe quem lê o meu blogue, homenageei Heston. Não era particularmente competente enquanto actor, mas teve a sorte de estar no momento certo na hora certa - os filmes com Welles e DeMille e também, em menor medida, Soylent Green e Planet of the Apes - Ben Hur, para mim, é mais um feito comercial que cinematográfico. Está na história do Cinema por esses filmes mas não era um dos melhores do seu tempo, nem de longe.

A questão é que, para o Claquete, não achar Weston um actor excepcional é um acto de ignorância e desfaçatez política e de "double-thinkink". Para João Eira, autor do texto, Heston "foi, acima de tudo, um lutador pela mais moderna e radical das liberdades – a necessidade de permitir a cada ser humano viver e pensar de forma independente, para além de esquematismos ou conveniências políticas e sociais do momento". E estou completamente de acordo: há maior liberdade do que poder mandar um balázio no bucho de alguém a seu bel-prazer? Penso que não.

Contudo, fazer política de forma rasteira é uma tentação de alguma blogoesfera nacional, e João Eira não lhe escapa. Ficamos a saber que, se alguém percebe que Heston não era um actor excepcional é porque tem a tendência de ver a denúncia orwelliana como um manual de crítica cinematográfica. Comentando, escandalizado, este obituário, Eira pergunta: "Será que o double-thinking de Orwell já anda por aí? De que outra forma justificar que a inteligência e o argumento passem por imbecilidade e o insulto por heroísmo, como parece acontecer na caixa de comentários do referido post? Ou que o imberbe berrante insulte o activista esforçado? Como explicar que mentiras factuais primárias (a NRA e Heston não deram a vitória a ninguém em 2000 e Heston não mudou de partido “da noite para o dia”) sejam postuladas como verdades intocáveis? Que, cravando um último prego no caixão da decência, um homem – com “h”´s e sabe-se lá mais o quê pequeno – chame fingido ao honesto?"

Como se a comédia involuntária não bastasse, Eira cita Pacheco Pereira, a quem apelida de "lúcido" (!!!!!). O texto do venerando comentador não será citado aqui, por motivos de higiene, mas é curioso de ver como Eira e Pereira não deixam de manter os seus espaços mesmo rodeados de lodo (como diz o colega de Eira). Porque, como aponta o texto de Pacheco Pereira, também eles acham que os problemas começam no blogue do lado.
Se Orwell soubesse em que viriam a ser utilizadas as suas brilhantes ideias, ter-se-ia mudado para a URSS.

08 abril 2008

Notas da 'teca (4)


Último filme realizado por Nicholas Ray em Hollywood (posteriormente viriam vários filmes “independentes” como The Savage Innocents ou 55 Days in Pecking), Party Girl foi, à sua época e sobretudo pela Cahiers du Cinéma, louvado como o melhor filme do cineasta. Há, efectivamente, aspectos muito salutares nesta história de um casal, ela esperta dançarina de clube nocturno que não se quer perder na espiral de desespero que vitimou a sua colega e ele, advogado de crápulas que usa todos os truques sujos para os safar, que utilizam os conhecimentos adquiridos para mudarem de vida. Entre eles contam-se os grandes desempenhos de Robert Taylor (viperino), de Cyd Charisse (grandiosa e magnética) e de Lee J. Cobb (um dos mais esquecidos grandes actores da década de 1950, aqui como em On The Waterfront ou em Twelve Angry Men sempre à beira da explosão). Adicionalmente, pode-se também lembrar o excelente trabalho ao nível cromático, onde os tons de vermelho e de verde abundam, respectivamente, em momentos de paixão e em momentos de violência, dando ao filme o tom de sonho em ‘technicolour’ característico de algum do melhor cinema da época e prolongando o experimentalismo gráfico já patente em Rebel Without a Cause ou em Bigger than Life.

Contudo, no final de uma visão de Party Girl, a pergunta que apetece fazer é: estará este filme ao nível de obras como They Live By Night, In a Lonely Place, The Lusty Men, Bitter Victory, Johnny Guitar, etc? No fundo, estará Party Girl no mesmo campeonato dos filmes que compõem o cânone de Nicholas Ray? E aí, sinceramente, a resposta parece ser negativa. Partindo de uma história que mistura vários géneros – o filme de gangsters, o melodrama, o filme de tribunal e o musical, género que, de acordo com a folha da Cinemateca, Ray terá sempre querido experimentar – é irregular nalguma da sua concretização e do seu encadeamento. Se o filme de gangsters – aproveitando a óptima estilização do ambiente da época – e o melodrama são muito bem feitos, não se percebe muito bem a finalidade dos números musicais envolvendo Charisse – se bem que ter Cyd Charisse num filme e não a fazer dançar é como ter Mitchum num filme senão o fazer calmo e estóico -, do mesmo modo que é algo confrangedora a sua representação da Europa aquando da viagem dos dois protagonistas. Mas a sua maior pecha será, no limite, a de não ser uma história de condenação de uma ou duas personagens, sós contra o mundo e a quem este já derrotou ou acabará por derrotar, como é apanágio de grande parte do melhor cinema de Ray.

Muito bem filmado, com uma excelente utilização do Cinemascope, nomeadamente na cena da conversa na ponte entre Charisse e Taylor, Party Girl tem alguns momentos dignos de nota, como o rápido ‘travelling’ para baixo aquando da descoberta do suicídio da colega de quarto de Charisse ou o espancamento de John Ireland com uma escova de cabelo, mas falta algo de tão apelativo, de tão forte, de tão humano e de tão convulsivo quanto nos filmes supracitados. Não é mau; mas é menor.

Filmes do Mês - Março de 2008

Cinema

No Country for Old Men de Joel e Ethan Coen (8)
Three Times de Hou Hsiao Hsien (8.5)
Le Voyage du Balon Rouge de Hou Hsiao Hsien (6)
There Will Be Blood de P.T. Anderson (9)

Cinemateca

Today we live de Howard Hawks (8)
Party Girl de Nicholas Ray (7)

Casa

Homecoming de Joe Dante (8)
Crimes and Misdemeanours de Woody Allen (10) - revisão
Husbands and Wives de Woody Allen (6) - revisão
An Affair to Remember de Leo McCarey (10) - revisão
Manhunt de Fritz Lang (10)
Vivre sa Vie de Jean-Luc Godard (10) - revisão

23 março 2008

Dois corpos que se encontram - serem dois homens é pormenor

Se Les Chansons d'Amour cresce para o final, é em muito devido a esta prodigiosa cena, a coreografar uma das melhores canções que ouvi no ano passado. A emoção que falta ao filme de Christophe Honoré, muito mecânico e algo previsível, em todo o resto da sua duração explode aqui com todo o esplendor. Melhor que o "boy meets girl", só quando duas solidões se encontram. Podem fazer piadas como "Limitação da Vida - o blogue que abafa a palhinha", que estou-me a cagar. Para ver, muitas e muitas vezes.


21 março 2008

A gripe (com Woody Allen pelo meio)



Quinta-feira de ramos, 20 de Março de 2008. Acordo com a garganta inflamada e com quantidades copiosas de expectoração a quererem sair. Confirma-se o cenário que antevi na noite de quarta-feira, devido a uma secura na garganta maior do que a que habitualmente fustiga qualquer fumador ao fim da noite.

Visto-me e, sem querer quebrar compromissos previamente assumidos devido à doença, dirijo-me ao Campo Grande. Dizem-me que o almoço foi mudado para o Colombo depois de quarenta minutos à espera, tentando apertar as golas do casaco para que o vento forte e frio não piore a gripe. Tento começar a ler A Balada da Praia dos Cães numa daquelas edições do Público, baratuchas e descartáveis, mas um nariz progressivamente mais entupido e algumas dores no corpo impedem-me de me concentrar. Finalmente, apanho o 50 em frente à churrasqueira e vou até ao Colombo. Aí aproveito para tirar uma fotografia, em plano de conjunto minado pela minha falta de prática com a câmara do telemóvel, ao Estádio da Luz, futuramente disponível no meu hi5, antes de ir almoçar um Chao-Min de legumes no restaurante de comida rápida chinesa que há no referido centro comercial.

Ao dirigir-me para a mesa, vejo alguns dos responsáveis do meu anterior trabalho, editores de uma secção jornalística. Por muito que nada tenha contra eles especificamente, com quem pouco trabalhei, acabo por lhes atribuir algum do rancor que sinto por um meio que faz não do talento ou da vontade mas da capacidade anímica e financeira para aguentar a exploração inicial o principal factor de continuidade na profissão. Passo o resto do almoço a matutar nisto e, à medida que as dores no corpo aumentam, decido-me a passar pela farmácia do centro para ir buscar medicamentos.

Quando saio do centro, fumo um cigarro – quando estou doente, reduzo o numero de cigarros consumidos, mas nunca paro completamente - e meto no bucho gotas Nasex (as únicas que me desentopem o nariz), um comprimido Mucosolvan (o pior nome de medicamento que conheço) e uma drageia Mebocaína (não fazem grande coisa mas têm um sabor agradável). A minha namorada, antes de embarcar numas merecidas férias de Páscoa na fronteira entre o Alentejo e o Algarve, deixa-me na paragem do autocarro, onde apanho o 767 para o Campo Grande. Ligo ao meu chefe a perguntar se, por motivos de doença, poderia não ir trabalhar hoje e compensar as horas por fazer noutro dia. O meu chefe aceita e, de volta ao Campo Grande, apanho a camioneta 331 de volta a Loures onde, na principal avenida, apanho a 301 que me deixa mesmo à porta de casa.

Em casa, jogo este jogo, coisa que tenho feito uma vez por dia desde que o descobri, janto e saco, ao calhas como costumo fazer, uma cassete do monte. Sai-me a numero 48 onde, entremeadas por Edward Scissorhands (1992), estão duas películas de Woody Allen: Crimes and Misdemeanours (1989) e Husbands and Wives (1992).

Vejo o primeiro e, como das outras duas ou três vezes que o vi, assombro-me com a obra-prima. Escuro, em constantes tons de sépia ou em chiaroscuro (magnifica direcção de fotografia não me lembro de quem, se alguém souber diga), é um pujante filme sobre a vida na ausência de Deus e sobre uma das questões que mais assombram a humanidade desde os seus primórdios: porque acontecem coisas boas a gente má e vice-versa. De seguida, vejo o segundo que, igualmente como das outras visões que lhe dei, me parece ser um dos mais irritantes filmes de Allen. Tão neurótico em termos formais quanto as suas personagens, segue um esquema de falso documentário, e a câmara à mão, depois de uma segunda dose de medicamentos, parece-me enjoativa e equívoca do ponto de vista estético. Há o suposto lado biográfico, apregoado devido à turbulenta separação de Allen e Mia Farrow que ocorreria pouco tempo depois da sua feitura, mas nem isso me faz pensar que não seja um dos Allens mais fracos que vi.

Paro a meio, e mudo o canal da televisão para a Fox Life, cujas séries, com honrosas excepções (a demência de Desperate Housewives e a intriga medico-policial de Crossing Jordan) oferece dramalhões capazes de fazer as telenovelas da TVI parecerem sóbrias. Vejo o final de um episódio da segunda série referida e preparo-me para me deitar. Quando o faço, começa Everwood, um desses dramalhões, cujas vozes e a música têm, nos últimos tempos, tido o condão de me fazer adormecer tranquilamente. Antes, penso no fim-de-semana e em como, quando sair do trabalho, a única coisa de medianamente interessante para fazer será assistir à final da Taça da Liga, onde me parece que o Lumiarense Futebol Clube ganhará, apesar do Setúbal ter sido a melhor equipa da prova. E penso em como, no dia seguinte, já depois de terminada a visão de Husbands and Wives, tenho de escrever um texto sobre este dia no blogue, quanto mais não seja para lhe tentar dar um sentido.

O texto é este. O sentido ainda não apareceu.

05 março 2008




I won’t go down in History, but I will go down on your sister – Hank Moody, um Bukowski moderno

Uma grande notícia, para todos nós que na nossa infância/juventude sintonizávamos a TVI às sextas-feiras para ver The X-Files: Fox Mulder está definitivamente morto, e o responsável por isso é o escritor Hank Moody, centro nevrálgico desta belíssima Californication.

Série sobre a decadência e a progressiva vontade de redenção, Californication é uma carta de ódio ao estado norte-americano que lhe dá título. Hank Moody, autor que abalou o meio literário norte-americano com os primeiros conto e romances, foi para a Califórnia seduzido, aliás, derrotado pelos milhões que a indústria cinematográfica atira à cara dos romancistas desde que estes estejam disponíveis para destruir as suas criações. Acontece que, habituado ao meio literário e artístico nova-iorquino, nada mais vê na sua nova e solarenga terra que falsidade, corrupção e laxismo. Quando a esposa (Natascha McElhone) o deixa, e leva atrás a filha (Madeleine Martin, a melhor actriz jovem que vi em muito tempo), Moody entra em bloqueio criativo e divide o seu tempo entre cigarros, drogas, álcool, mulheres (a sea of pointless pussy, diz a ex-mulher), álcool, drogas e cigarros, até que decide que é tempo de mudar.

Prodigiosamente bem escrita (ideia e argumento de Tom Kapinos), com noções muito precisas de ritmo e de construção frásicos, Californication é uma chapada no politicamente correcto, uma série que, nos primeiros oito episódios dos doze que compõe a temporada de estreia, vai ao ponto de mostrar actos sexuais entre um quarentão e uma menor de idade, rituais sadomasoquistas entre patrão e secretária e, logo na introdução do primeiro episódio, uma freira como interesse sexual. Enquanto a excelente Sex and the City aproveita o sexo para questionar papéis sociais e sexuais na sociedade americana do presente, Californication foca-se na solidão, na frustração e na incapacidade para, pelo menos momentaneamente, não conseguirmos expor todo o nosso talento. Aproveitando a deixa de Sex and the City, juntamente com Oz (nada coincidentemente, como a primeira também da cadeia por cabo HBO), uma das primeiras séries televisivas onde o palavrão é essencial, é também uma série imensamente realista em termos verbais, onde as pessoas dizem palavrões e se insultam mutuamente, tal como na vida real - o diálogo de Moody com o pai, num dos episódios mais tocantes da série, é exemplificativo de um tratamento das relações que nada tem a ver com o dramalhão contemporâneo e em que, pasme-se!, uma série admite que há relações familiares que nunca resultarão. Por último, há momentos delirantes de comédia escatológica, como Moody a vomitar para cima de um caríssimo exemplar de pop-art.


Para o futuro, uma questão se coloca a Tom Kapinos: valerá a pena fazer uma segunda temporada de Californication, quando, com a excepção do “cliffhanger” do que acontecerá ao novo romance de Moody, tudo o resto parece estar resolvido? Sobretudo, a série perde um pouco em termos de qualidade para o final da temporada, quando a redenção se sobrepõe à decadência, numa tendência que, a continuar, pode prejudicar o produto final. O melhor seria ficarmos por aqui, e lembrarmo-nos de uma das personagens mais explosivas e mais tresloucadas que vimos nos últimos tempos.

Voltamos, então, a David Duchovny, que com apesar do seu ar de “boy next door” se enquadra sempre melhor em bombas ao retardador do que em homens ditos “normais”. Numa carreira que nunca se reencontrou após o sucesso de The X-Files, Hank Moody é a nova bomba relógio, o novo homem em queda e sempre contra o mundo. Não sei se é um renascimento profissional; mas sei que para mim, Fox Mulder morreu. Sem Duchvny, Californication não teria metade da sua humanidade e do seu realismo. Consequentemente, sem Duchovny, Californication não teria metade do seu interesse.

03 março 2008

Filmes do Mês - Fevereiro de 2008

Cinema

Daqui prá frente de Catarina Ruivo (3)
Sweeney Todd de Tim Burton (8)
Cassandra's Dream de Woody Allen (4.5)
Juno de Jason Reitman (6)

Casa

We own the night de James Gray (8.5)
The Royal Tennenbaums de Wes Anderson - revisão (8)
Á Nous Amours de Maurice Pialat - revisão (9)

Séries

Californication de Tom Kapinos (7.75)

90's

A convite do Daniel, cá vai alho:

1. Close-up de Abbas Kiarostami
2. Crash de David Cronenberg
3. Magnolia de P.T. Anderson
4. Tudo sobre a minha mãe de Pedro Almodovar
5. O Sabor da Cereja de Abbas Kiarostami
6. Unforgiven de Clint Eastwood
7. Jackie Brown de Quentin Tarantino
8. Goodfellas de Martin Scorsese
9. Pulp Fiction de Quentin Tarantino
10. Ed Wood de Tim Burton

27 fevereiro 2008

Noites Brancas

Mais um anos, mais uma edição dos Óscares, mais uma noite mal dormida. Eu não queria, mas se começo a ver aquela merda, só páro quando aquilo termina. E, como toda a gente, também tenho mais que fazer do que ver um programa de variedades da RTP com um orçamento exponencialmente maior e com mais pompa, que é o que mais se compara àquela cerimónia.

Mas, finalmente, ao fim de vários anos de noites brancas de mediocridade, em 2008 descobri porque vejo os Óscares. Neste caso, não foi para ver filmes de que gostasse premiados - o dos Coen ainda não estreou e ainda não tive tempo para ver o novo de Paul Thomas Anderson, que foi o grande perdedor da noite. Mas as únicas partes da cerimónia em que emocionei foi nas montagens acerca de grandes do cinema homenageados pela Academia. Aí, viu-se Cary Grant, grisalho mas sempre elegante, chorar em frente aos seus pares. Viu-se Ingrid Bergman e Audrey Hepburn, já pródigas em rugas mas com a classe de sempre, apresentarem prémios. Viu-se John Wayne, já em final de carreira, finalmente segurar o Óscar com aquelas suas mãos descomunais. E viu-se Chaplin, velho, inchado e à beira das lágrimas, agradecer com uma humildade surreal para um génio, a atenção que, tarde e a más horas, a Academia lhe deu.

Percebi, então, que vejo os Óscares em busca da Hollywood clássica que tanto aprecio e que, tenho-o sempre em mente, nunca voltará. Quando a certeza se superiorizar à busca, deixarei de os ver.


(Outro) Mundo Fantasma


Tem um filme de ser brilhante ou genial para que a sua visão seja prazenteira? Naturalmente que não e Juno de Jason Reitman, a versão 2008 do filme independente que a Academia todos os anos resolve destacar nas suas nomeações para tentar fingir que o dinheiro não é a sua prioridade, prova-o facilmente.

História de uma gravidez indesejada que se torna numa lição de maturidade para a personagem-título (se o Óscar tivesse ido para Ellen Page, teria sido muito bem entregue), Juno é um filme quente e acolhedor sobre encontrar um lugar no mundo e sobre o difícil caminho para a felicidade. Situado numa small town, preenche a sua hora e quarenta minutos com interessantes pedaços de idiossincrasia humana, dando o cunho de liberdade a um espaço que, muitas vezes ao longo da história do Cinema, é tido como claustrofóbico – veja-se a madrasta fetichista por canídeos e o interesse amoroso misto de marrão e jock de Michael Cera para se ter uma ideia.

Jason Reitman, filho de um dos mais bem-sucedidos tarefeiros norte-americanos das ultimas duas décadas, Ivan Reitman, demonstra ter um bom sentido de imagem (como na cena inicial, o olhar sobre o cadeirão que se abre para toda a narrativa) e forte capacidade para utilizar a música enquanto meio de reflexão e concretização das suas ideias cinematográficas (lembremo-nos da cena final, deliciosa de contenção no meio da sua descoberta amorosa). Não se pode, contudo, é dizer que, pelo menos de momento, tenha demonstrado capacidade ou vontade de inovar dentro do género que escolheu para este filme. Inversamente, dá a ideia de que segue uma espécie de livro de estilo sobre o que é “fazer independente” , não sendo um objecto particularmente pessoal. Pior, há a sensação de que Juno se esgota em si mesmo, não ficando muito em que pensar ou que tratar depois da sua visão.

É pela sua personagem principal que Juno será recordado. Neurótica, distante e com algo de profundamente agressivo na sua eloquência, Juno é, por si só, um mundo fantasma, um exemplo de uma adolescência que descobre ter tudo a ganhar com a sua abertura ao mundo e uma deliciosa portadora das dores de crescimento. Se o filme se bem e interessa enquanto dura é por ela e pelo garbo com que Ellen Page lhe dá vida. Não é Little Miss Sunshine (o destaque independente dos Óscares no ano passado), mas ao menos não chateia.

13 fevereiro 2008

Ficar é morrer

Will: Oh, come on! What? Why is it always this? I mean, I fuckin' owe it to myself to do this or that. What if I don't want to?

Chuckie: No. No, no no no. Fuck you, you don't owe it to yourself man, you owe it to me, 'cause tomorrow I'm gonna wake up and I'll be 50, and I'll still be doin' this shit. And that's all right. That's fine. I mean, you're sittin' on a winnin' lottery ticket. You're too much of a pussy to cash it in, and that's bullshit. 'Cause I'd do fuckin' anything to have what you got. So would any of these fuckin' guys. It'd be an insult to us if you're still here in 20 years. Hangin' around here is a fuckin' waste of your time.
Will: You don't know that...
Chuckie: Let me tell you what I know. Every day I come by your house and I pick you up. And we go out. We have a few drinks, and a few laughs, and it's great. But you know what the best part of my day is? For about ten seconds, from when I pull up to the curb and when I get to your door, cause I think, maybe I'll get up there and I'll knock on the door and you won't be there. No goodbye. No see you later. No nothing. You just left. I don't know much, but I know that.
idem

Esperar por algo melhor

Will: Why shouldn't I work for the N.S.A.? That's a tough one, but I'll take a shot. Say I'm working at N.S.A. Somebody puts a code on my desk, something nobody else can break. Maybe I take a shot at it and maybe I break it. And I'm real happy with myself, 'cause I did my job well. But maybe that code was the location of some rebel army in North Africa or the Middle East. Once they have that location, they bomb the village where the rebels were hiding and fifteen hundred people I never met, never had no problem with get killed. Now the politicians are sayin', "Oh, Send in the marines to secure the area" 'cause they don't give a shit. It won't be their kid over there, gettin' shot. Just like it wasn't them when their number got called, 'cause they were pullin' a tour in the National Guard. It'll be some kid from Southie takin' shrapnel in the ass. And he comes back to find that the plant he used to work at got exported to the country he just got back from. And the guy who put the shrapnel in his ass got his old job, 'cause he'll work for fifteen cents a day and no bathroom breaks. Meanwhile he realizes the only reason he was over there in the first place was so we could install a government that would sell us oil at a good price. And of course the oil companies used the skirmish over there to scare up domestic oil prices. A cute little ancillary benefit for them, but it ain't helping my buddy at two-fifty a gallon. And they're takin' their sweet time bringin' the oil back of course, and maybe even took the liberty of hiring an alcoholic skipper who likes to drink martinis and fuckin' play slalom with the icebergs, and it ain't too long 'til he hits one, spills the oil and kills all the sea life in the North Atlantic. So now my buddy's out of work and he can't afford to drive, so he's got to walk to the fuckin' job interviews, which sucks 'cause the shrapnel in his ass is givin' him chronic hemorrhoids. And meanwhile he's starvin' 'cause every time he tries to get a bite to eat the only blue plate special they're servin' is North Atlantic scrod with Quaker State. So what did I think? I'm holdin' out for somethin' better. I figure fuck it, while I'm at it why not just shoot my buddy, take his job, give it to his sworn enemy, hike up gas prices, bomb a village, club a baby seal, hit the hash pipe and join the National Guard? I could be elected president.
in Good Will Hunting de Gus van Sant

11 fevereiro 2008

Requiem por um cineasta muito prezado

Woody Allen tem utilizado o crime como método de encenação da sua problemática das relações humanas desde, pelo menos, o sucesso de Crimes and Misdemeanours, em 1989. Neste método, longe das comédias dramáticas (ou dramas cómicos) de relações humanas de que fazem parte os seminais Annie Hall (1977), Manhattan (1979) ou Hannah and Her Sisters (1986), encontrou espaço para explorar um muito Bergmaniano tema da sua predilecção: o sentimento de culpa, tanto maior quanto não é acompanhado de uma punição por parte do mundo exterior. Neste novo Cassandra’s Dream, que de novo pouco mais tem do que a data, volta a fazê-lo, tomando de novo Londres como local do crime. Após o seu visionamento, a pergunta que se apraz fazer é: o que é que Woody Allen ainda quer do cinema? É que, cada vez mais, o cinema parece já ter recebido tudo o que tinha a receber de Woody Allen.

História de dois irmãos proletários ingleses com a mania das grandezas (competentes Ewan McGregor e, estranhe-se, Colin Farrell), sempre em busca de um esquema que os liberte da sua condição social – a sociedade de classes britânica foi bem apreendida por Allen – que, a pedido do tio que sempre lhes amparou os golpes (clássico Tom Wilkinson), assassinam uma testemunha incómoda, não ofende ninguém. Pelo contrário, são 108 minutos razoavelmente bem burilados e filmados com uma sabedoria feita de muitos anos, onde até pode ser encontrada uma síntese de algumas das obsessões do nova-iorquino. O problema é o tom mecânico, habitual, paradigmático de uma história que desaproveita o sangue novo trazido pela Londres de Match Point (2005), numa história indiferente e banal, um pouco à imagem do que já fazia Scoop (2006).

O que levanta uma questão: até que ponto, caso haja alguma nova vitalidade com a mudança para Barcelona, essa não será prontamente eliminada pelo lado esquemático e habitual do cinema de Allen? Há razões para que a carreira de Allen tenha dado esta volta, em que o cinema mais parece um emprego do que uma arte: a idade já não perdoa e as conquistas foram mais do que muitas, podendo estar o cineasta num período de descanso do guerreiro. Nada de novo, num fundo: o mesmo parece ter acontecido, em larga medida, no final da carreira de Billy Wilder. Mas custa ver um cineasta de que se gosta muito enveredar por filmes menores (mesmo que nunca maus). E, custa ainda mais ter a consciência de que isso já dificilmente mudará.