10 Novembro 2009

O melhor depois de Preud'homme


Flint, Michigan


Antes do som e da fúria que Capitalism: A Love Story causará, importa caracterizar desde logo o método Michael Moore. A estrutura documental de filmes como Bowling for Columbine (2002) é directamente herdada da televisão, combinando entrevistas, visitas a locais e pessoas, entrevistas e acompanhamento situacional. A estas componentes juntam-se os dois que mais diferem da maior parte dos documentários: a componente humorística, que impede que Moore alguma vez seja considerado artista por quem quer que seja; e a utilização de uma "personagem" Michael Moore, espécie de americano típico que utiliza a câmara como arma mas que, em vez de vinculado aos ideais do GOP, é assumidamente liberal, na conotação americana do termo. Assim, o cinema de Moore utiliza uma camada de humor para impor os factos investigados, ultrapassando a habitual monotonia apontada aos democratas e auto-promovendo-se no sentido de tornar os seus filmes cada vez mais vistos. É isto que ninguém lhe perdoa.

E é por isto que Roger & Me (1989), primeiro documentário de Moore aparece hoje como tão desconcertante e, no limite, como a sua melhor obra. Todo o seu cinema estava ainda numa fase embrionária, em que os motivos gerais já lá estavam mas que ainda não tinham nem o carácter óbvio nem o lado determinante que hoje lhes é atribuído. Moore na primeira pessoa, sim, mas ainda não era a estrela do filme; pose de americano típico, sim, mas uma barriga menos luxuosa e um lado menos caricatural, mais credível e natural; entrevistas, sim, mas muito menos manipuladas, ainda centradas única e exclusivamente no assunto em causa; lado eminentemente político e esquerdista, mas apontando ainda ao senso comum e aos valores básicos e não a qualquer radicalismo que eventualmente se lhe possa apontar.



Filme sobre a terra queimada em que se tornou a cidade natal de Moore, Flint, no estado do Michigan, quando a General Motors decidiu eliminar 30 mil postos de trabalho, entretanto exportados para o México, intercala cenas do quotidiano da população, acompanha um delegado do Xerife local cuja função é despejar inquilinos incumpridores e mostra o percurso de Moore enquanto tenta chegar à palavra com Roger Smith, o obscenamente remunerado presidente da General Motors. Longe de espalhafatoso, mantendo os momentos bombásticos ao mínimo (a piada anti-semita do apresentador de televisão), é um filme que opera uma curiosa inversão face aos filmes posteriores que conhecemos: em vez de partir do nacional para o local (do governo para as pessoas) começa antes por ser um filme sobre aquela cidade, beneficiando com o conhecimento de causa do cineasta. São abundantes os planos a mostrar a degradação, a comparar o espaço com o passado (e, atente-se, a um passado que pode ser mera construção nostálgica), cartografando a perda de horizontes e o fim do sonho americano à medida que a economia se ia globalizando. O que o torna algo de mais emotivo, de mais sério e menos generalizador, como se houvesse uma espécie de deriva "neo-realista", saindo para a rua e vendo, e não uma deriva tão circence – não há nenhum momento tão grotesco e explorador como o da mãe do soldado morto no Iraque como em Farenheit 911 (2004). Para o bem e para o mal, é um filme claramente beneficiado pelo escopo mais pequeno, mesmo que o inimigo (a cultura empresarial os EUA), seja o mesmo.

Depois disto, o caminho foi diferente, com momentos muito bons e outros menos positivos. Mas é pena que a este Roger & Me, sóbrio, inteligente, comovente e completamente sério, não tenha sido dada a atenção merecida. A rever quando, daqui a umas semanas nos quiserem de novo convencer que Moore é apenas o palhaço rico da esquerda americana. Roger & Me é muito engraçado, utilizando toda a panóplia de métodos de comédia, dos mais contidos aos mais satíricos e insultuosos. Mas quem pensa que este filme é para rir está bem enganado. É do mais sério que vi nos últimos tempos.

07 Novembro 2009

Bellum sine bello

Dos filmes de John McTiernan, prefiro Predator (1987), Die Hard (1988, que filme do catano!) e, sobretudo, The Last Action Hero (1993), dos melhores exercícios de mise-en-abime da década de 1990. Mas nunca tinha prestado a devida atenção a este magnífico Hunt for Red October (1990), talvez porque tantas vezes passou na televisão que pensei haver sempre outra oportunidade de o ver. Houve e em boa hora, pois dos filmes feitos aquando do final da Guerra Fria, o de McTiernan não apenas é o que tem o substracto mais subtil como o que lhe adiciona um maior cuidado e interesse estéticos.

Comecemos pelo lado político. Ao contrário de outros filmes que têm na propaganda o seu fulcro (veja-se o horroroso The House of Russia de Fred Schepsi, 1991), o de McTiernan consegue desenhar a ideia da superioridade ocidental em apenas duas sequências, cada uma com mais tacto do que a outra: a conversa entre Sean Connery e Sam Neill nos aposentos do comandante, onde o sonho da liberdade é enumerado com tacto e descrição; e a conversa final entre Connery e Alec Baldwin, onde são frisadas as semelhanças mais do que as diferenças. E, parecendo que não, este ponto é importante. Porque é o que o localiza em pleno estertor final da referida guerra, quando já não era necessário o fulgor propagandístico mas antes a aproximação. De certo modo, apesar dos seus inequívocos bons e maus, ao longo deste filme quase conseguimos ver Reagan passear com Gorbatchev na Praça Vermelha. Num filme onde o espectro da guerra nuclear paira sempre, é obra.


John McTiernan, ao contrário de um James Cameron, que sabe escolher quando ser clássico (Titanic, etc) e quando ser moderno ou pós-moderno (o novo Avatar, espera-se), é uma perfeita mescla de ambas as hipóteses. Por um lado, no rigor dos planos, na linearidade no bullshit do filme, no seu classicismo apenas entrecortado pelos cibernéticos indicadores de hora e local, quase que é um filme que se poderia imaginar noutras eras. Tudo isto em claro ambiente pipoqueiro, de blockbuster típico dos pós-76, com um orçamento confortabilíssimo e com elenco cheio de nomes reconhecíveis (Connery, Baldwin, Neill, James Earl Jones, Scott Glenn ou Stellan Skarsgaard), onde é óbvio que o espectáculo é a principal motivação. Mas o espectáculo... pouco tem de explosivo. Com a excepção da fabulosa acoplagem do helicóptero ao submarino e apesar do tom grandioso que empresta à sua progressão e filmagem, ... Red October mais não é do que um jogo do gato e do rato estendido para duas horas e um quarto, onde o interesse reside mais na gestão dos encontros e desencontros, dificuldades técnicas e relação entre a ordem política e o desempenho militar que um filme de confrontação, na constante expectativa de um encontro que parece inevitável. Como resume brilhantemente a personagem de Sean Connery, é “uma guerra sem guerra” e o filme sabe mostrá-lo.

E quando o encontro chega, é magnífico. As melhores cenas do filme, aliás, dão-se na última meia-hora. Primeiro, quando os militares americanos e o analista da CIA entram no submarino russo. Apesar de absolutamente equivalente, esse encontro é dado como se fosse um encontro entre humanos e alienígenas, em posições inter-mutáveis. Há uma brilhante tensão, em constante crescimento nos seus passos titubeantes apesar do respeito pelo protocolo militar, gerida magníficamente por McTiernan, que contamina o momento. E, finalmente, o belíssimo combate entre o submarino russo extraviado e o “oficial”, que coloca uma hipótese estimulante: e se Hunt for Red October fosse, afinal, um swashbuckler entre submarinos? Fazia todo o sentido e só contibuía para o fascínio que exerce.


Como os outros filmes que McTiernan fez entre 1985 e 1995 e aos quais se pode juntar o muito razoável Basic (2003), Hunt for Red October só faz lamentar que a carreira de McTiernan tenha sofrido os empecilhos que sofreu por parte dos estúdios, com especial enfase para os problemas que resultaram nos cortes e no descrédito de The 13th Warrior (1999) e Rollerball (2002) – falamos de um cineasta com apenas 11 filmes em 22 anos e que não filma desde 2003. Afinal de contas, era disto que se devia falar quando se fala de thriller político, filme de acção ou blockbuster. A ser visto pelos produtores da saga Bourne.

01 Novembro 2009

Sérgio RIP


A morte é por definição imprevisível, é certo, mas soubesse eu que o dia de hoje traria a noticia da morte de António Sérgio e não teria poluído este blogue com mais um texto sobre bola.


Comecei a ouvir o Lobo há sensivelmente dez anos, companhia noctívaga de insónias ou trabalhos atrasados. A ele agradeço ter descoberto, por exemplo, os Pavement e os Red House Painters, que hoje muito admiro. E nunca deixei de me sentir intrigado, fascinado até, por aquela rouquíssima voz, e pelas dificuldades que me dava em fazer perceber os nomes das bandas que passava.

Um obrigado, António Sérgio. Se houver mesmo um Great Gig in the Sky, que o esteja já a ver.

E como esta homenagem não pode ser silenciosa, aqui vai um nome da sua preferência



31 Outubro 2009

Um pequeno aviso

De azulinho, tão bem que ele fica!

Tinha posto aqui um texto que entretanto eliminei. Fica apenas aqui uma pequena reflexão sobre o Corruptos-B - SL Benfica:
Alguém acha que que, à 9ª jornada, alguém nos deixaria ficar com cinco pontos de vantagem sobre os corruptos? Sinceramente, somos ingénuos, caros benfiquistas...
De qualquer modo, o aviso continua: com a nossa preparação empresarial, com os jogadores que temos para vender e com o que jogamos, mesmo perdendo...
AINDA TERÃO DE NOS ROUBAR MUITO MAIS!
Aguentem!

29 Outubro 2009

Sumaríssimos (6)


The Informant! é o terceiro filme de Steven Soderbergh este ano. E sofre com isso: o formalismo sem desculpas que o cineasta utiliza para contar a história do maior denunciante intra-empresarial da história dos EUA é já parte de uma gramática regular e até algo previsível, incluindo filtros de imagem, ângulos pouco comuns e referências ao passado cinéfilo (aqui os eternos anos 70 americanos). O caso é interessante, há bons gags, Matt Damon está óptimo, Scott Bakula está muito bem e continua a ser a um tempo fácil e estimulante de ver, mas já vi este filme três vezes este ano.

25 Outubro 2009

O "special one" original


Brian Clough era o homem que faria José Mourinho urinar-se pelas pernas abaixo. Grande jogador no seu tempo (254 golos em 271 presenças ao serviço de Middlesbrough e Sunderland) alcançou o seu espaço entre os grandes quando, ao serviço do Nottingham Forrest (ou melhor, o Forrest é que estava ao serviço dele) pegou na equipa em 1975 ainda na segunda divisão e, chegado a 1980, já havia conquistado duas Taças dos Campeões Europeus – algo que um conjunto de calimeros reptilíneos habituados a batatais nunca hão-de conseguir. Auxiliado pelo adjunto Peter Taylor (que o salvava de si próprio) foi também um dos primeiros treinadores europeus verdadeiramente mediáticos, procurando jogos psicológicos constantes, criando métodos de trabalho pouco ortodoxos e sendo verdadeiramente desbocado, irritante, volátil e arrogante como só os génios são.

The Damned United, filme de Tom Hooper, passa pelo feito de Clough ao tornar, em 1972, o Derby County campeão inglês, para se fixar nas tumultuosas seis semanas que o “mister” passou no Leeds United. Á época o mais forte conjunto britânico, ancorado num jogo violento e sem escrúpulos (tipo FCP circa 1992) e antes treinado pelo também famoso Don Revie, contava uma série de jogadores influentes que de imediato o rejeitaram, quer na sua vontade de tornar mais ético o estilo de jogo, quer na sobranceria que demonstra face às conquistas anteriores do plantel. O resultado é um filme cem por cento ancorado na sua personagem, valiosíssimo retrato de uma grande figura desportiva da sua época mas com bastos problemas estéticos.

Adaptado do livro homónimo de David Peace, contestado por intervenientes e pelos descendentes de Clough, The Damned United é, no seu melhor, um retrato da ambição que conduz as grandes figuras desportivas, aquelas que sem grandes provas dadas sentem que podem chegar longe, apenas e só com a força do seu trabalho e com uma ideia de predestinação que acabam por tornar auto-realizável. Quando resulta, é um filme que resulta o seu pathos ao focar-se não no sucesso, mas nas dificuldades que o antecederam, na travessia do deserto de alguém que percebe o seu talento mas é eternamente ultrapassado por gente muito mais medíocre e que usa isso como fonte de motivação. Não lhe falta também um lado de transcendência das limitações sociais – aspecto relevante no futebol britânico – mas trata, em suma, da frustração como factor essencial ao sucesso.

Posto isto, é pena que Tom Hooper falhe na sua tentativa de estilizar o realismo britânico, optando por um estilo barroco, com filtros de imagem e grandes angulares e outras opções que tornam The Damned United espalhafatoso, falsamente moderno e, no limite, esteticamente pouco recompensador. Ao que se junta o facto de as poucas vezes que as partidas são reconstituídas o serem de forma pouco convincente (a melhor reconstituição é a do jogo “visto” no balneário) e a falta de atenção dada a Peter Taylor, no que poderia ser outro filme: como se sente o homem que vive na sombra do génio?

Apesar de tudo, The Damned United tem duas grandes interpretações, (Michael Sheen e Timothy Spall) e é o melhor filme que vi passado no mundo do futebol, dado que o desporto-rei tem sofrido, cinematograficamente, com a sua falta de implantação nos EUA. E até pode dar uma ideia interessante a um produtor português: um filme sobre o mês e meio passado por Mourinho no Glorioso antes de ganhar uma Taça Uefa e uma Champions ao serviço de um clube cujo nome agora me escapa.

22 Outubro 2009

Mais uma voltinha, mais uma viagem


Quando Saramago abre a boca, pode ser que diga uma asneira. Que, curiosamente, se desmultiplica imediatamente num chorrilho de outras asneiras, num todo confortante e recorrente. Como um casal que, apesar das discussões constantes, não consegue viver separado.


Se fui educado de acordo com os preceitos católicos, hoje estou calmamente afastado deles. Fartei-me de ver na igreja gente que era do pior durante a semana e achava que quarenta e cinco minutos ao domingo serviam de expiação. Concomitantemente, não suporto ver padres presentes em cerimónias públicas num estado laico e ainda me lembro de calinadas difíceis de engolir mesmo passados anos - lembram-se do padre que, em pleno funeral da menina imersa pela família em água a ferver, afirmou que apesar de tudo teria sido pior se a criança tivesse sido abortada? Nada disto faz com que subscreva as infelizes palavras do Nobel português da literatura. Quanto mais não seja porque a validade cultural daquele livro é indesmentível: para o bem e para o mal, aquele livro, como a Ilíada, a Odisseia, o Dom Quixote e a poesia de Dante está dentro de todos nós, como artefacto civilizacional, mesmo naqueles que não o leram. Simultaneamente, acho estranho que Saramago tenha ignorado quanto há de evolução ontológica na transformação da ideia de Deus do Antigo para o Novo Testamento.


Quanto aos senhores que, muito escandalizados, vêm agora pedir a cabeça de Saramago como Salomé a de João Baptista, muito menos dou para o peditório deles. O problema deles com Saramago começou em 1998, quando um escritor vermelho de ideologia venceu um prémio Nobel, numa rebelião cujo expoente actual é o Cardeal Cerej... perdão, Pedro Mexia. Não por acaso, nenhum desses senhores, tão lestos a denunciar o políticamente correcto e a forma como são supostamente cerceados na sua opinião esquecem-se agora de dar o direito de opinião a outra pessoa, deixando esse papel a Manuel Alegre. Já dominam os jornais, as televisões, as mentalidades de grande parte do país, mas ainda lhes dói que haja um espírito livre. Aguentem.


E, de caminho, aguentem também a ideia, o tão simples mas tão complexo conceito de liberdade de expressão. Também não gosto de ouvir atrasados mentais dizer que o Benfica era o clube do regime (factualmente mentira), o Presidente da Confederação de Industriais Portugueses falar da necessidade de salários baixos ou que o Slumdog Millionaire é um grande filme, mas tenho de lidar com isso. Caso tenham de marrar contra alguma coisa, marrem contra a protecção dada à extrema-direita ou a este pobre prisioneiro político.