17 fevereiro 2010

Como se já não bastasse tê-lo visto, também perdi tempo a escrever sobre ele...

Já não é de agora: de quando em vez, os Coen perdem-se por entre uma vontade arty que só prejudica os objectos em causa. O melhor exemplo é Barton Fink: visualmente apelativo, com meia dúzia de ideias, neste caso sobre a época áurea de Hollywood, mas estéril quando reduzido à sua essência. Outro exemplo é o absolutamente bacoco O Brother, Where Art Thou, desenxabida transposição da Odisseia para um contexto norte-americano sulista. É pena, pois quando se preocupam apenas em filmar de frente, sem peneiras ou tiques, tendem a fazer belos filmes – o ponto onde atingem o equilíbrio é o ultra-maneirista mas consequente Blood Simple.

A Serious Man é o mais recente falhanço de uma carreira que nelas tem sido pródiga, e entre esses falhanços ocupa um dos locais cimeiros. Filme sobre as coisas más que acontecem a pessoas boas, passado nos anos 60 num subúrbio do Minnesotta e que segue um homem a quem tudo parece correr mal, pessoal e profissionalmente, descamba muito cedo. Explicitamente, no prólogo que tenta situar a narrativa num âmbito ancestral, com uma maldição judaica decorrente de um hipotético encontro de um casal com um fantasma. O problema é que esse prólogo, de tons tarkovskianos, é de utilidade e interesse muito duvidosos. O que se segue é do mesmo nível, desde os momentos mais derivativos dos filmes de Woody Allen até ao plano final absolutamente vazio, num filme que se compraz com a destruição sucessiva da sua personagem principal e que, por entre um pretenso simbolismo irritante, não tem um único momento memorável. O que parece evidente é o seguinte: perante a ausência de conteúdo, os Coen tudo fizeram para insuflar a forma. Não conseguiram e esteticamente este filme, quando não apenas enfadonho, é simplesmente grotesco. A Serious Man é para esquecer.

3 comentários:

Sam disse...

Como já deves ter visto/lido, a minha opinião sobre este UM HOMEM SÉRIO é totalmente oposta à tua.

Para além de possuir os "tiques" que caracterizam a unicidade dos Coen, aparenta ser (e este é um elemento novo à apreciação que fiz) uma obra extremamente pessoal dos cineastas — e isso justifica, se tal fosse necessário, o seu final ambíguo.

Mas o Cinema é isto mesmo: não agradando a gregos nem a troianos, permite interessantes debates (como este) que se poderiam desenrolar eternamente em posts e caixas de comentários... :)

Abraço.

Paulo disse...

Ora, ora, ora. Bem me parecia que iria acabar por discordar de ti, e agora posso confirmar-te isso mesmo. As razões mais aprofundadas tentarei dá-las aquando da minha crítica para a Take, mas A Serious Man parece-me das comédias mais bestiais do ano passado, e um dos melhores filmes dos Coen. Mas pronto, percebo perfeitamente o teu ponto de vista, se logo à partida também consideras Barton Fink um projecto menor, seria difícil apreciar este, porque o tom é mesmo muito semelhante.

Miguel Domingues disse...

Bem, projecto menor não posso considerar o Barton Fink, quanto mais não seja pela Palma de Ouro. Agora, acho que aquilo bem esprimido, dá uma mão cheia de nada. Que é exactamente o que penso deste. Quanto ao resto, ficarei à espera da tua resenha na Take (pode ser que até haja frente a frente...) :)