08 maio 2011

IndieLisboa 2011 - Edição FMI (1)


São dias complicados. Aqueles senhores a aterrar na Portela e tudo o que com eles aí vem gera cortes na cultura, nos dois sentidos: no dos produtores e no dos consumidores. Assim, in loco, verei apenas dois filmes, que não podia mesmo perder, para os quais os bilhetes já estão adquiridos: Post Mortem de Pablo Larrain e Meek’s Cutoff de Kelly Reichardt. Acontece que, actualmente, já há formas de tornear a falta de verbas para o cinema e, assim que vi a programação, fui à procura de formas “alternativas” de poder seguir o certame. Não fui particularmente bem-sucedido em quantidade, mas consegui obter dois filmes que poderei ver como se lá estivesse.

Mas será mesmo assim? Claro que não. Estamos apenas dois em casa, a Sandra passa uma pilha de roupa a ferro e lá vai olhando para a tv, desconfiada mas com crescente curiosidade; eu adormeço a dada altura, tendo de retroceder na visão do filme para apanhar o fio à meada. É, no fundo, bem diferente, mas é o que é possível neste momento. E o primeiro filme a sofrer as consequências foi Lemmy, realizado pela dupla Greg Olliver e Wes Orshoski, panegírico dedicado ao histórico líder dos Motorhead. Documentário de estrutura convencional, intercalando momentos na vida do objecto de estudo com (demasiadas) entrevistas a fãs (entre os quais os inesperadíssimos Peter Hook e Jarvis Cocker, entre outros mais previsíveis), aposta (e consegue) mostrar como e porquê aquilo que parece repetitivo para os não-fãs, aquela música de coices intermináveis e que parece sempre uma locomotiva em máxima potência, é fundamental para muito boa gente. Quanto ao próprio Lemmy, é como Dylan ou Young ou Cohen ou qualquer um dos outros mitos musicais retratados no cinema: alguém idiossincrático (vive num pequeno apartamento atafulhado onde estão centenas de discos e memorabilia nazi, tem um conhecimento enciclopédico do rock n’ rol e dos grandes conflitos bélicos do século XX e é um fã inveterado de jogos de vídeo), com um look absolutamente fascinante (o verdadeiro cowboy do Inferno, com a eterna barba rockabilly e botas feitas à medida) mas com uma postura enternecedora face ao filho (que conheceu quando tinha já seis anos e que hoje acompanha frequentemente a banda na estrada) e que, por entre cigarros em barda, Jack Daniels com coca-cola e o seu baixo distorcido, existe o melhor que pode e sabe – fantástica a sequência em que explica porque, apesar das groupies (deve ser o tipo de gajo que arranja queca só por aparecer num sítio), permanece sozinho aos sessenta e muitos – sem pedir desculpa a ninguém e com o comedimento que amiúde acompanha os sábios. Lemmy perde apenas pelo convencionalismo do formato, pela duração algo excessiva (podia perder meia-hora) e por não seguir aquilo que parece prometer no primeiro quarto de hora: ser um filme que parte de Lemmy para um retrato da sleazy e metaleira cena rock de Los Angeles, cidade onde o músico se radicou há cerca de 20 anos, em vez de, no último terço, se focar numa das mais recentes digressões mundiais dos Motorhead e ceder definitivamente à previsibilidade. Apesar de tudo, pelas suas virtudes e por ser sobre quem é, não desgostei mesmo nada.

PS - Ah, o subtítulo do filme é "49% Motherfucker, 51% Son of a Bitch". Genial!

3 comentários:

Álvaro Martins disse...

Arranjaste legendas em português para o Essential Killing?

Miguel Domingues disse...

Não pensei nisso ainda. Até porque, segundo ouvi, grande parte do filme é mudo...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Muito bom.
Parabéns pelo blog.
Abração e apareça

O Falcão Maltês