24 janeiro 2012

Gangsta frouxo


Quando realizou The Untouchables (1987), Brian DePalma exibia, nos seus filmes, claros sinais exteriores de riqueza: no elenco luxuoso (aos joven Kevin Costner e Andy Garcia juntavam-se os já reconhecidos Robert DeNiro e Sean Connery) ou nos colaboradores que trouxe para o filme, como Giorgio Armani para o guarda-roupa e Ennio Morricone para a música. Prestes a entrar na primeira divisão do mainstream americano, DePalma perdeu a oportunidade: por uma lado, com o falhanço genial de The Bonfire of Vanities (1989), por outro, com este mole panegírico do heroísmo americano.

Nos antípodas da amoralidade e do sentido de tragédia dos filmes de gangsters dos anos 30 (que tinha transformado no muito bem conseguido remake de Scarface, 1982), The Untouchables joga-se todo no maniqueísmo mais básico, na bondade insossa dos bons e na maldade desinteressante dos maus. Semelhante posicionamento moral demasiado evidente prejudica o desenvolvimento das personagens, que aqui parecem meras folhas planas onde nada foi escrito. E naturalmente que isso prejudica o trabalho dos actores, mormente o Al Capone de Robert DeNiro, salvando-se apenas o polícia duro interpretado por Sean Connery.

Não conhecendo eu os bastidores da feitura de The Untouchables, parece-me que das duas uma: ou DePalma desaproveitou um bom argumento de David Mamet ou o dramaturgo e cineasta norte-americano escreveu aqui uma das suas obras mais fracas. Pouco imaginativo, previsivel e sem a dimensão verbal rápida e obscena que caracteriza os seus melhores textos, em boa hora Mamet se lançou no seu próprio cinema e deixou de operar tarefas destas.

Salva-se a sequência na escadaria da estação de comboios, clara piscadela de olho a O Couraçado Potemkine (1927), mas não chega para fazer um bom filme.

2 comentários:

Ricardo Martins disse...

Não podia estar mais em desacordo contigo. Se há filmes de De Palma que considero atentados ao bom gosto cinéfilo (Blow Out é um exemplo), acho que Os Intocáveis é absolutamente brilhante na sua homenagem simultãnea ao cinema de gangsters e ao de suspense.

O que consideras bondade insossa dos bons, se fores a ver bem, não anda muito distante da bondade dos heróis do cinema clássico, por exemplo num filme do Ford.

Miguel Domingues disse...

Grande Ricardo, se nada posso dizer quanto às naturais diferenças de opinião, discordo das comparações com o Ford. Porque no caso dele, as suas personagens demonstram sempre um modo de vida - uma ideologia, se assim quiseres. Aqui, pelo contrário acho que há apenas feitios demasiado planos e desinteressantes. Lá está, são opiniões.

Abraço