05 julho 2007

Modernidade e puritanismo sexuais


A publicidade sexualizada da Comissão Europeia ao cinema europeu tem criado alguma celeuma. Só por isso, é eminentemente positiva: a 7ª arte no Velho Continente costuma apenas gerar motivos de discussão mesquinhos (o financiamento e os subsídios) ou programados (o habitual filme-escândalo do Festival de Cannes), vivendo amiúde fechada sobre si mesma. Só por isso, aquele minuto pago pelo programa Media abre uma nova perspectiva para se conceber o que o cinema europeu tem de próprio e único.

Antes de mais, quero explicitar que a opinião que demonstrei atrás, produto do incómodo que o anúncio me causou, não deriva por si só da sua temática sexual. É, antes, a total gratuitidade do spot que me perturba. Porque, contrariamente ao que ouvi ontem dizer na SIC Notícias um responsável da Comissão, muito “blairiano” no ar supostamente modernaço, o que diferencia o cinema europeu do cinema americano em matéria erótica não é a possibilidade de mostrar actos sexuais. Nos Estados Unidos, deixando de lado a indústria de San Fernando Valley, há toda uma produção de filmes softcore que exploram o sexo, normalmente disfarçado por uma intriga policial de sexta categoria. Aliás, a própria dinâmica dos filmes de acção estado-unidenses passa cada vez mais pelo suor que escorre de corpos bem tonificados. Pelo contrário, o cinema europeu caracteriza-se, através de Almodôvar, Godard, Ozon e Chéreau, entre outros, pelo tratamento estético dado ao conteúdo sexual. Ora, o spot do programa Media não tem o mínimo valor estético e, pior, não há qualquer referência a um conteúdo artístico do cinema europeu. Portanto, é um anúncio que visa vender da pior maneira possível: confundindo aquilo que realmente há de específico e atraente no produto promovido.

Não se trata, então, de uma questão de puritanismo sexual. Porque puritanismo é entender que a representação erótica se esgota na mera transgressão e na simples pornografia. Compreende-se, então, que tenham sido preferidos gemidos caricaturais a momentos de intensa beleza como a pudica cena de sexo oral no Intimidade de Patrice Chéreau (2000).

2 comentários:

Sandra disse...

Como já tínhamos comentado anteriormente, é de lamentar a forma como se promove a cultura cinematográfica na Europa. Referiste as discusões habituais em torno dos festivais de cinema europeus e com a devida pertinência. Pois parece que tratar de cinema nesta pretensa união é falar de banalidades. Há tantos momentos bonitos e absolutamente bem realizados como a cena nesse filme* de Patrice Chéreau. Onde está o olhar europeu neste vídeo?

jose quintela soares disse...

Lamentável.
"Cinema europeu"????? Promoção???

Promover o cinema europeu seria, por exemplo, mostrar os seus "grandes", e muitos são, antigos e actuais.

O que ali está é mediático, polémico, mas inconsequente.